Cleo Velleda/Folha ImagemO centro velho de São Paulo abriga muitos pontos importantes da capital paulista: a Catedral da Sé, o Fórum João Mendes, o Largo São Francisco e o marco zero. A atmosfera é de movimento constante, pessoas atrasadas, correria, shows a céu aberto, pregações religiosas. Atrás da Catedral, mais precisamente na praça João Mendes, existe um grande estabelecimento, que é diferente, movimentado e conta com seus 40 anos: um sebo; o Sebo do Messias.
Em meio a um trânsito confuso e garotas de programa, o sebo é grande, divido em três partes: duas unidades na praça João Mendes e a terceira em uma travessa da Praça da Sé. Na matriz, o acesso ao dono do sebo é simples e rápido, como se ele esperasse a entrevista. Com 68 anos, Messias Antônio Coelho é um workaholic. Em sua sala, ele atende clientes, recebe encomendas, despacha outras, atende ao telefone, coordena seus funcionários e não tira férias há 17 anos. Guarda em seu bolso um generoso bolo de dinheiro, que fica frequentemente à mostra devido ao grande fluxo de caixa.
Mineiro, tímido e de voz calma, nasceu no município de Guanhães, a 240 quilômetros de Belo Horizonte. Foi garçom na década de 60, e chegou a abrir o próprio restaurante, contudo, sem sucesso. Começou, então, como vendedor de livros de porta em porta, pela editora LEX, até que comprou sua primeira biblioteca, com 5 mil livros. Partindo dessa aquisição, iniciou sua carreira no sebo.
Messias se instalou em um pequeno escritório no mesmo lugar onde se encontra hoje e relatou que, aos poucos, foi aumentando seu espaço. Em 1973, comprou a parte térrea e, desde então, aumenta o espaço de acordo com a melhora da situação. O “Sebo do Messias” foi o primeiro sebo a participar da Bienal do Livro de 2008, obtendo muito destaque; era um dos stands mais movimentados e um dos mais procurados pelos preços, mais camaradas do que os outros da feira.
Seu acervo é organizado e numeroso: “[São] 150 mil livros, 20 mil DVD’s, 20 mil CD’s, 10 mil VHS’s, 10 mil LP’s”, enumera seu Messias. O tom de orgulho e tranquilidade o tomam e o seguem nas consecutivas vezes em que se levanta para atender clientes e avaliar as obras que lhe são oferecidas. É irredutível a propostas de desconto e estipula o preço de maneira sólida. Disse ter prática na hora de reconhecer uma obra, avaliar e dar seu preço, resultado de sua rotina “das 7 às 7”, quando o sebo fecha. Após receber alguns clientes, contou que em sua loja “entram mais de 400 pessoas por dia”, enquanto a página na internet (que é loja virtual) contou com 2 milhões de acessos no mês de março. “É o melhor site da América Latina. Demorou 2 anos para ficar pronto”, disparou. Contou também que os Correios passam duas vezes ao dia para levar as mercadorias, compradas virtualmente.
Em sua sala cheia e variada, mostrou algumas obras raras. Um livro extremamente carcomido e de cheiro forte tinha como título “Discursos proferidos” de autoria de Zacarias de Góis e Vasconcelos, datado de 1868. Outro, sobre a montadora Volkswagen, tinha uma longa dedicatória do presidente Juscelino Kubitschek, a qual mostrou sem qualquer apreço ou animação, sentimento que define sua estratégia: “vendo tudo, meu negócio é puramente comercial. Quero que [o livro] chegue na sua mão” confessa. Demonstrando desapego ao valor sentimental da obra, concluiu “se paguei barato, vendo barato”.
Sobre as diferenças entre os públicos antigo e atual, o dono do “Sebo do Messias” lembrou que, antigamente, as pessoas rejeitavam e tinham receio de comprar livros usados. Com sua mão acompanhando a fala delicada, declarou: “quem divulgou a palavra sebo fui eu”.
A triagem dos livros, de acordo com seu Messias, é constante e “todos os dias têm novidades”, lembra. Entre seus 65 funcionários, existe uma equipe específica que limpa, armazena e cataloga os livros. As estantes são harmoniosamente organizadas e, ao mesmo tempo, dão o aspecto de bagunçadas, comum nos sebos. Enquanto os clientes procuram suas obras, um dos funcionários fica no segundo andar do sebo tocando violino, construindo uma atmosfera muito interessante e única.
A triagem dos livros, de acordo com seu Messias, é constante e “todos os dias têm novidades”, lembra. Entre seus 65 funcionários, existe uma equipe específica que limpa, armazena e cataloga os livros. As estantes são harmoniosamente organizadas e, ao mesmo tempo, dão o aspecto de bagunçadas, comum nos sebos. Enquanto os clientes procuram suas obras, um dos funcionários fica no segundo andar do sebo tocando violino, construindo uma atmosfera muito interessante e única.Grandes editoras não assustam seu Messias; pelo contrário, ele as vê como grandes aliadas. “Quanto mais as grandes livrarias venderem, mais livros virão para mim”, comemora. Ao se levantar novamente, um cliente negociava dois livros novos, lançados recentemente, e queria em troca outro livro, um best-seller conhecido, que ainda está nas livrarias. Messias o repassou para outro funcionário, para que ele terminasse a negociação, pois esta já havia lhe tomado muito tempo.
Não só pelas ilustres visitas (como o bibliófilo José Mindlin e o apresentador Jô Soares) é que o sebo faz sucesso; sua tradição e, principalmente, sua localização fazem-no muito conhecido e o tornam como referência. A livraria de seu Messias é promissora, talvez com uma pitada de sorte de suas ferraduras, penduradas ao lado de sua mesa.
Homenageado como melhor vendedor da Editora LEX, Messias brinca: “vou me aposentar aos 99 anos”. Completa revelando sua fórmula do sucesso: “tratar bem as pessoas, receber bem [...] com funcionários selecionados”. Ao final, após um rápido aperto de mão, seu Messias voltou ao trabalho, em meio aos muitos livros empoeirados. Antes da luz elétrica, a leitura à luz de velas deixava os livros engordurados, daí veio a palavra sebo. Tal citação encontra-se no marcador de páginas do “Sebo do Messias”, que termina com a frase: “no sebo está o conhecimento”.












