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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Dream Theater fez a coroação de um novo líder em São Paulo

Texto e fotos: Pedro Zambarda


Com um show de três horas de duração, o Dream Theater marcou sua sétima passagem pelo Brasil agradando gregos e troianos no dia 4 de outubro dentro do Espaço das Américas, São Paulo. Para os fãs da fase clássica da banda, músicas da era Mike Portnoy foram executados com precisão e respeito. Para os novos adeptos do gigante do metal progressivo, já com Mike Mangini na bateria, novas composições foram apresentadas com direito a videoclipes.


O show abriu com uma animação envolvendo as capas dos álbuns do grupo e "False Awakening Suite", a abertura instrumental pesada do novo disco "Dream Theater" (2013), seguida por "The Enemy Inside" tocada junto com o videoclipe original. A banda investiu em músicas recentes no começo da apresentação, abordando os atentados de Boston ocorridos nos EUA no ano passado e os problemas com veteranos das guerras do Afeganistão e do Iraque. Sete composições das nove tocadas inicialmente eram de 2011 para frente.


A banda fez uma coroação neste show, assim como está fazendo em toda a turnê: O novo líder do Dream Theater é o guitarrista John Petrucci. Com sua guitarra customizada JPS Majesty, da Ernie Ball Music Man, o instrumentista norte-americano com cara de Jesus Cristo barbudo abusou de solos encorpados e mais eletrônicos em um equipamento novo. O solo de Petrucci, que ocorreu logo após de "Looking Glass", misturou harmônicos e velocidade com um palco colorido que mudava de cor de acordo com suas improvisações. Suavemente, e dominando seu instrumento, John Petrucci transformou uma participação solo de sua guitarra elétrica na introdução de "Trial of Tears", música clássica do disco "Falling Into Infinity" (1997).


Mas a coroação de John Petrucci não seria completa sem a voz de James LaBrie, que cantou afinado os clássicos e as músicas da nova geração de fãs do DT. LaBrie trocou a palavra New York da letra de "Trial of Tears" por São Paulo. Um destaque especial foi a atuação do cantor em Space-Dye Vest, logo após de anunciar uma série de músicas em homenagem ao disco "Awake" (1994). James LaBrie sentou-se próximo do tecladista Jordan Rudess e usou suas cordas vocais com sentimento, em sincronia com o teclado e as explosões da guitarra.


A dupla LaBrie e Petrucci também mostrou garra e perfeccionismo em "The Mirror" e "Lie", músicas antigas que foram executadas com perfeição. James LaBrie saiu do palco todas as vezes em que as músicas instrumentais eram executadas, como foi o caso da novíssima "Enigma Machine". Nesta faixa, utilizando animações parecidas com as da turnê de 2008 do disco "Systematic Chaos" (2007), o Dream Theater criou animações que mostraram a banda enfrentando um enorme dragão negro das máquinas. A sequência parecia a de um jogo de videogame ao vivo.



Antes de tocar "Awake", álbum que completou 20 anos exatamente no dia do show em São Paulo, o Dream Theater tocou "Breaking All Illusions" de maneira bem high-tech, com animações que mostram a degradação das grandes cidades, do dinheiro e da tecnologia. A mensagem da composição estava em sintonia com a banda de metal progressivo, que mistura virtuosismo instrumental com comunicação contemporânea.


O tecladista Jordan Rudess teve uma participação fundamental em faixas como "Illumination Theory", que durou mais de 22 minutos assim como no disco "Dream Theater". Rudess é responsável pelo mergulho da banda nos efeitos digitais, sobretudo com solos que são executados tanto no seu teclado giratório, quanto em outro de mão ou em seu aplicativo no iPad. O instrumentista é responsável pelos temperos que dão ares futuristas ao som do DT.


O intervalo de 15 minutos que o Dream Theater deu no meio de seu show foi um dos melhores que vi em minha vida. A banda exibiu vídeos engraçados no YouTube, os melhores covers de seus clássicos na internet e até propagandas humorísticas com seus integrantes transformados em bonecos de ação.


O baterista Mike Mangini se manteve mais escondido na bateria, mas o som estava bem regulado e foi possível ouvir nuances em sua percussão, que é diferente do estilo ritmado de Mike Portnoy. Mangini se dá melhor em músicas de alta velocidade, dominando com maestria a cozinha com o baixista John Myung. E conquistou os brasileiros com seu calçado verde exótico após o final do show. E que final, devo dizer.


A banda tocou em sequência as músicas "Overture 1928", "Strange Déjà Vu", "The Dance of Eternity" (sem Liquid Tension Experiment) e "Finally Free", composições inesquecíveis do álbum "Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory (1999)".


Eu tenho uma relação pessoal com o Dream Theater. A banda surgiu em 1985, mas lançou seu primeiro trabalho, "When Dream and Day Unite", no ano em que eu nasci - 1989. Este é o quinto show que vou deles, depois de 2005, 2008, 2010 e 2012. Só não fui em duas apresentações do grupo em 1998.


Consigo afirmar com todas as letras que esta foi a melhor performance da banda mais famosa do heavy metal progressivo no Brasil. E isso certamente se deu graças à coroação de John Petrucci como novo líder do grupo, após a saída traumática do fundador e baterista Mike Portnoy em 2011.

Dream Theater é uma banda que desagradará os tios mais velhos que preferem punk rock, além dos moleques mais novos que preferem músicas mais simples no rock. No entanto, é um grupo que estará no coração dos guitarristas e bateristas de YouTube, que estudam música instrumental pesada para tocá-la até a perfeição.

Confira o setlist da apresentação em São Paulo:

False Awakening Suite
The Enemy Inside
Shattered Fortress
In The Back of Angels
Looking Glass
Solo de John Petrucci, com harmônicos, palco colorido e velocidade
Trial of Tears
Enigma Machine, com animação dos integrantes em cartoon
Solo de Mike Mangini
Volta de Enigma Machine
Along for the Ride
Breaking All Illusions

Pausa de 15 minutos

The Mirror
Lie
Lifting Shadows of a Dream
Scarred
Space-Dye Vest
Illumination Theory

Bis:
Overture 1928
Strange Déjà Vu
The Dance of Eternity
Finally Free

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Você ouve trilhas-sonoras de filmes? Conheça alguns dos principais compositores

Por Pedro Zambarda

Há cerca de um ano, estou ouvindo com mais atenção as músicas feitas para filmes, de Hollywood até o cinema europeu. Para quem não conhece nada, elaboro um pequeno guia para conhecer alguns dos principais compositores.



Hans Zimmer - Frankfurt, Alemanha


O que ele fez: A Origem (Inception, 2010), novos filmes de Batman (de 2005 até 2012), Homem de Aço (Man of Steel, 2013), Código Da Vinci (2006), Hannibal (2001), 12 Anos de Escavidão (2013), Simpsons O Filme (2007), Rei Leão (1994), O Último Samurai (2003), entre outros filmes.
Características: Piano minimalista, efeitos eletrônicos, música ambiente e momentos de calmaria alternados com instrumentos em volume alto.

John Williams - Nova York, Estados Unidos


O que ele fez: Série Star Wars (de 1977 em diante), Lincoln (2012), série Jurassic Park (de 1993 em diante), série Indiana Jones (de 1981 em diante), série Harry Potter (de 2001 até o Prisioneiro de Azkaban, em 2004), O Terminal (2004), Munique (2006), E.T. (1982), Esqueceram de Mim (1990), A Lista de Schindler (1993), O Resgate do Soldado Ryan (1998), Minority Report (2002), Memórias de uma Gueixa (2005), entre outros.
Características: Música orquestrada, harmônica e voltada para filmes épicos, em sua maioria.

 James Horner - Los Angeles, Estados Unidos


O que ele fez: Star Trek II (1982), Willow (1988), Apollo 13 (1995), Jumanji (1995), Titanic (1997), A Máscara do Zorro (1998), Um Mente Brilhante (2001), Troia (2004), Avatar (2009), Karate Kid (2010), entre outros.
Características: Música minimalista, suave, melodiosa e ambiente. Usa voz com os instrumentos.

Ennio Morricone - Roma, Itália


O que ele fez: O Bom, o Mau e o Feio (1966), Era Uma Vez na América (1984), Os Intocáveis (1987), entre outros.
Características: Música com ópera e orquestrada, com muitos pontos de clímax.

Yann Tiersen - Brest, França


O que ele fez: Amélie Poulain (2001), Adeus Lênin (2003) e Tabarly (2008).
Características: Música minimalista, piano, acordeão e melodias leves.

Howard Shore - Toronto, Canadá



O que ele fez: Série O Senhor dos Anéis (entre 2001 e 2003), Seven (1995), Scanners (1981), Naked Lunch (1991), Gangues de Nova York (2002),  O Aviador (2004), série O Hobbit (entre 2012 e 2014), Os Infiltrados (2006), entre outros.
Características: Orquestra e música ambiente.

Danny Elfman - Los Angeles, Estados Unidos


O que ele fez: Batman (1989), Batman Returns (1992), Missão Impossível (1996), série Homens de Preto (entre 1997 e 2012), Alice no País das Maravilhas (2010), entre outros.
Características: Uso de múltiplos instrumentos para criação de tensões musicais. 

Harry Gregson-Williams - Sussex, Reino Unido


O que ele fez: Fuga das Galinhas (2000), série Shrek (entre 2001 e 2010), série Crônicas de Nárnia (entre 2005 e 2008), Prometheus (2012), Total Recall (2012), entre outros.
Menção honrosa: Série Metal Gear Solid, para videogames (entre 2001 e 2014).
Características: Música moderna, com uso de sintetizadores, percussão e instrumentos tradicionais, como violino e piano.

Nino Rota - Milão, Itália


O que ele fez: Mais conhecido principalmente por O Poderoso Chefão (1972) e O Poderoso Chefão Parte II (1974).
Características: Música orquestrada.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

André Forastieri e seu punk rock moribundo

Por Pedro Zambarda
Originalmente postado na Whiplash.net

Eu conheci os textos do André Forastieri como muitas pessoas conhecem: Odiando um deles.

Li, no dia 17 de maio de 2010, o post “Ronnie James Dio, o deus ridículo do rock” e achei prepotente a crítica dele sobre o cantor que fez sua carreira no Rainbow e no Black Sabbath. Concordo com seu amigo, André Barcinski, em reconhecer que o texto é apenas uma tirada de sarro com os metaleiros e fãs acríticos de Dio, mas mesmo assim não consigo gostar até hoje deste texto.

O que eu descobri, pouco tempo depois (e só quando critiquei aquele texto em um texto meu), é que aquela não tinha sido a primeira vez que eu tinha lido Forastieri. Quando tinha por volta de 8 ou 10 anos, fui leitor da Herói em seu auge. E estava viciado no anime Cavaleiros do Zodiáco na televisão. Quando comprei um videogame N64, comprei assiduamente a revista brasileira Nintendo World. E quando veio o vício no Game Boy e em Pokémon, eu tive a coleção completa da revista Pokémon Club. Ou seja, eu fui educado em publicações criadas e/ou editadas pelo André Forastieri.

Recebi então a tarefa, justa eu acredito, de resenhar seu primeiro livro, “O dia em que o rock morreu” (Arquipélago Editorial, 184 páginas). Depois de odiar seu texto sobre Dio, passei a acompanhar o trabalho do André mais de perto. Eu tenho essa mania bizarra de ler pessoas que não concordo muito, até por exercício de jornalista. Milhares de textos dele despertavam discórdia da minha parte. Em outros textos, passei a concordar muito. Mas uma conclusão eu tirei a respeito dele, depois de uma leitura mais assídua em quatro anos: Ele é um crítico de cultura pop, música e videogame com repertório, experiência e coerência, qualidades que são raras em muitos profissionais.

“O dia em que o rock morreu” é um livro passional com alguns dos textos que André Forastieri já publicou, com a adição da entrevista dele com Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, um ano antes de seu suicídio, em 93. Não é um livro que vai agradar quem espera material inédito, mas certamente vai agradar os fãs de Forastieri quando ele escrevia na Folha de S.Paulo, na revista Bizz e agora no portal R7, da TV Record.

André absorveu a cultura que o cercou desde a adolescência. Sua família de Piracicaba, interior paulista, não era musical e nem roqueira. “Cresci numa casa sem música. Só havia o radinho de pilha na cozinha. Minha mãe é a rainha do rádio, especificamente da rádio Nacional: A qualquer minuto cantarolava (e cantarola) extenso e refinado repertório dos anos 40-50. Que eu saiba, nem ela nem meu pai jamais entraram em uma loja de discos na vida”. A família dele se parece um pouco com a minha, o que provoca um problema em casa quando você abraça a música jovem que seus parentes não reconhecem.

Suas opiniões sobre artistas são polêmicas, mas coerentes com o que ele pensa. Michael Jackson? “Aprendeu a cantar como um anjo e a dançar como um cafetão fazendo shows em puteiros aos oito anos de idade”. John Lennon? “Minha primeira paixão roqueira”, “um babaca que me traiu” e “hippie-yuppie babaca”. Elvis Presley? “Morreu quando careteou”, ficou careta após se alistar no exército. Lou Reed? “Viveu mais que o provável, pelo mal que fez a si mesmo”. Caetano Veloso? “Não importa há três décadas”. Roberto Carlos? “Virou as costas ao rock e à vida”. Chorão? “Um garoto skatista e destrambelhado, procurando um lar e um amor”. Kurt Cobain? “Um pobre-diabo que precisava ser amado e idolatrado, conseguiu e não segurou a onda”. The Clash? “Banda que me fez pensar grande, ser valente, cortar o cabelo, não entrar em igrejinha, detestar bicho-grilo, largar Piracicaba, ir pra vida de peito aberto, com medo e com um tesão louco”.

Forastieri também alega que o fim da MTV Brasil em 2013 foi no tempo certo e que os anos 1980 realmente formaram os roqueiros no nosso país, embora ele renegue esse suposto rock brasileiro. O punk de São Paulo, para ele, foi determinante. Ele também coloca que a pirataria acaba com os músicos, embora seja algo bom na era digital e para o consumo, reduzindo o preço de muitos serviços.

Sua tese mais ousada no livro é que o rock morreu, foi morto, acabou. E, para ele, acabou não por causa da música eletrônica, do disco ou dos sintetizadores. Acabou porque não há mais bandas medianas. Ou sua banda é de quintal, feita por amigos, ou é uma superprodução pop, o que vai contra a contestação mais “imatura” do rock. Não há mais apelo por capas ou vinis de forma comercial. Há apenas uma nostalgia em forma de “cadáveres” musicais.

André também dedica um capítulo às revistas Heavy Metal e Spin, suas favoritas, e comenta sobre os críticos musicais ruins que puxam o saco de artistas.

Não é preciso concordar com André Forastieri para compreender seu valor cultural como jornalista. Sei que é suspeito um jornalista falar sobre outro jornalista, mas um sujeito que absorve repertório e consegue colocar isso de forma cristalina em seus textos, sejam eles de opinião pura ou análise, terá deixado suas marcas em seus possíveis leitores.

O texto ridículo do Dio está no livro. Reli para tentar enxergar de outra forma. Não consegui, mas o material todo é muito bom. “O dia em que o rock morreu” pode ser lido facilmente em três dias. A prosa de André Forastieri é direta e crua, como seu punk rock predileto. Eu li em dois dias, porque conhecia a maioria dos textos, disponíveis na internet através do blog dele.

André se formou com o The Clash. Música boa pra ele tem três acordes, e eu gosto das que tem mais acordes. Ele viveu os anos 80 e trabalhou a cultura pop brasileira nos anos 90. Eu nasci nos anos 90. Fui leitor das publicações dele. Eu me formei com um Black Sabbath deslocado do meu tempo, mas estou vendo o final da banda que revolucionou os anos 70. Vejo todo o dilema do mercado musical que André relata. Não gosto de tudo o que o mainstream e o pop tentam me fazer engolir, mas vivo uma época muito mais fácil para ouvir músicas se comparada com a procura louca atrás de vinis e raridades.

André acredita que o rock morreu. Eu discordo, porque o rock’n’roll é a trilha-sonora ideal para uma São Paulo tomada por protestos desde junho de 2013. As manifestações não tem música própria, então eu crio a minha, com velharias de outras épocas. O heavy metal e o punk combinam com a cidade cinzenta onde vivo. A mesma cidade que André Forastieri viu se formar.

Não sei se o livro será um sucesso de vendas. O que sei é que a experiência de jornalista e de crítico deve ter um envolvimento com os assuntos que você trata. André teve uma relação com games, com a imprensa e, principalmente, com a música. Não basta, então, criticar algo, se você não tiver nenhum envolvimento.

domingo, 11 de maio de 2014

Metal robótico, pop e decadente

Entre 1973 e 1976, o Black Sabbath passou por transformações depois de estourar com quatro discos: Black Sabbath (1970), Paranoid (1970), Master of Reality (1971) e Vol. 4 (1972). As primeiras mudanças ocorreram em Sabbath Bloody Sabbath (1973) e Sabotage (1975). Technical Ecstasy, lançado no dia 25 de setembro de 1976, é um álbum que traz um heavy metal robótico, um rock profundamente pop e uma banda em um começo de decadência.



O disco tem um total de oito composições e abre com Back Street Kids, uma música sobre se tornar um astro do rock, ficar alto e ter dinheiro. Apesar dos flertes constantes do Sabbath com o rock progressivo, inclusive colocando Rick Wakemen do Yes em algumas músicas, esta música soa mais punk e mais parecida com a primeira fase da banda, com Ozzy Osbourne cantando com voz desafinada, acompanhada por riffs bem demarcados de Tony Iommi em sua guitarra canhota. Gerald Woodruffe colabora com entradas estratégicas de seu teclado, enquanto Bill Ward (bateria) e Geezer Butler (contrabaixo) fazem a cozinha consistente de fundo.

You Won't Change Me dá uma diminuída no ritmo frenético da abertura do disco e retoma a atmosfera mais densa do Black Sabbath, com efeitos pesados dos instrumentos, mas sem temas muito fantasiosos nos versões. O refrão desta composição, no entanto, mostra o dom de Ozzy para cantar música pop acompanhada por uma guitarra pesada. Esta segunda faixa seria confundida, facilmente, com alguma da carreira solo do Madman, além de conter um dos solos mais rápidos e jazzísticos de Tony.

Eis que surge uma surpresa muito diferente e agradável neste disco, que vale sua compra. It's Alright é uma música completamente diferente do que o Sabbath tinha composto até aquele fatídico ano de 76. Ao invés de ter Ozzy nos vocais, é o baterista Bill Ward que empresta sua voz, tocando bateria ao mesmo tempo. A letra simboliza as brigas pessoais e empresariais que a banda estava tendo na época, endividada com impostos e abusando de bebida e drogas. Bill tentou transmitir, com aquela letra, uma sensação de que tudo vai dar certo, mesmo com todas as dificuldade entre os quatro fundadores da banda. A bateria consistente é novamente acompanhada por outra guitarra elétrica inspirada, dando um brilho ao álbum. O Guns N'Roses faria um cover da música quase duas décadas depois. A música é muito parecida com o som de Beatles, uma das influências fortes do Sabbath, segundo o próprio Ozzy Osbourne (que não canta nesta ocasião).


Gypsy é outra pérola do disco, com uma letra sobre esoterismo, uma cigana e tentações. All Moving Parts (Stand Still) abre a segunda parte do álbum com uma melodia mais ritmadam sobre sentimentos, e como eles estão decadentes. Em seguida, vem Rock 'n' Roll Doctor, sobre como a música nos ajuda a superar problemas. A letra, em parte, reflete as dificuldades de Ozzy com a cocaína e com o excesso de bebedeiras na época.

Ozzy coloca sua história na música She's Gone, sobre os problemas que ele enfrentava em seu casamento com Thelma Riley, mulher que ele agredia e amedrontava com sua personalidade instável. É o momento mais melancólico do disco. Sua vida mudaria, anos depois, com Sharon Arden, a futura empresária de sucesso Sharon Osbourne.

Dirty Women fecha o disco sobre vida noturna, prostituição e vida urbana. Technical Ecstasy só ganhou um disco de ouro no dia 19 de junho de 1997, 20 anos depois do lançamento do material. Foi um álbum complicado na carreira do Sabbath, com a banda mergulhada em dívidas, em brigas e competindo com o emergente punk rock dos Ramones, que prometia acabar com o rock progressivo e com o metal acompanhado por composições mais simples e cruas.


Ozzy tem uma opinião particular sobre o disco, especificamente sobre a capa dele, feita pelo artista inglês Hipgnosis, de Londres. Ele escreveu em sua autobiografia:

"O pior de tudo, no entanto, é que perdemos nossa direção. Não era a experimentação com a música. Parecíamos nem saber mais quem éramos. Um minuto você tinha uma capa como a de Sabbath Bloody Sabbath, com o cara sendo atacado por demônios, e na seguinte tinha dois robôs transando enquanto subiam uma porra de uma escada rolante, que era a arte de Technical Ecstasy. Não estou dizendo que o disco era todo ruim - não era. Por exemplo, Bill escreveu uma música chama 'It's Alright' que eu adorei. Ele cantava também. Tem uma ótima voz e eu fiquei mais do que feliz por deixá-lo cantar. Mas comecei a perder o interesse e fiquei pensando em como seria ter uma carreira solo. Até fiz uma camiseta com 'Blizzard of Ozz' escrito. Enquanto isso, no estúdio, Tony estava sempre dizendo: 'Devíamos soar como o Foreigner', ou 'Devíamos soar como o Queen'. Mas eu achava estranho que as bandas que antigamente influenciávamos agora estavam nos influenciando".

Depois deste disco, Ozzy tentaria sair do Sabbath pela primeira vez. Voltaria para gravar Never Say Die! (1978) e encerrar a fase clássica da banda criadora do heavy metal.  

domingo, 13 de abril de 2014

Ouça, veja e sinta David Bowie

Só até o dia 20 de abril, domingo, você pode conferir uma exposição exclusiva baseada na carreira artística do cantor e músico David Bowie, no Museu da Imagem e do Som - o MIS, na Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo. Fui ver a mostra, que trouxe os figurinos de Bowie, gravações, registros e outros dados do "Elvis inglês" que revolucionou o rock dos anos 70, 80 e 90, permanecendo relevante até hoje.


Ao entrar no MIS, você pode conferir uma exposição gratuita do fotógrafo Mick Rock do lado de fora da mostra principal, que não inclui apenas fotos de David Bowie, mas também imagens de Lou Reed, Ozzy Osbourne, Blondie, Freddie Mercury, Syd Barrett, Joan Jett e até de Mick Romson, guitarrista de Bowie. Ao entrar na exposição exclusiva do camaleão inglês, você é proibido de tirar fotos e de filmar, coloca um fone de ouvido especial e embarca em uma viagem.

David Bowie: The Exhibition não foi organizada em ordem cronológica. Você começa por Space Oddity, de 1969, com o homem chegando na Lua, mas vê as fases Thin White Duke e os anos 80 em seguida. Vê pedaços dos anos 90. Vê a participação de Bowie em filmes. Vê as influências da arte oriental na roupa e na arte do cantor. E o que é inovador nesta mostra? Os fones de ouvido exibem músicas diferentes com os sensores dos ambientes dentro do evento.

Um dos pontos mais altos é o jogo de espelhos com o clipe de Starman, do personagem alien Ziggy Stardust, acompanhado pelo figurino andrógino de David Bowie. Essa exposição interativa mostra como Bowie tem diversas faces. Você se sente acompanhado pelo artista, e, ao mesmo tempo, tem uma experiência solitária e pessoal dentro de sua vida multifacetada.

Outro clipe também mostra David Bowie trancado dentro de um manequim estático cantando The Man Who Sold the World. Bowie também explica como utilizou uma máquina que embaralhava e buscava palavras em jornais e livros para sugerir termos para suas letras, buscando recursos para permanecer criativo e diferenciado. A mostra também mostra a recuperação, entre 2003 e 2013, de David Bowie até o lançamento do último disco, The Next Day.

A exibição toda vale por ouvir as músicas, que emocionam, ver as roupas de cada fase nos mínimos detalhes, além de instrumentos, trechos de documentários e análises sobre a obra estética, conceitual e cheia de conteúdo do roqueiro inglês. Se você é fã, não deixe de ir ao MIS conferir isso nesta última semana. Se você não conhece David Bowie, é uma excelente oportunidade para dar o pontapé inicial.

domingo, 16 de março de 2014

Um duelo entre homem e máquina no RoboCop de José Padilha

[AVISO: Contém alguns spoilers, mas nada sobre o final do filme]

Uma mão humana com uma arma de choque elétrico e uma mão mecânica com uma arma automática letal. O debate entre livre-arbítrio cerebral e a estrutura de um robô de combate. Com esses duelos em mente, o diretor brasileiro José Padilha topou fazer um remake do filme RoboCop, originalmente lançado em 1987, que chegou em fevereiro de 2014 aos cinemas do mundo todo. Foi a reunião de uma produção de Hollywood com a visão crítica de um cineasta do Brasil.

Eu aviso de antemão: Não farei comparações com o filme original do holandês Paul Verhoeven, que criticava o corporativo e o governo neoliberal de Ronald Reagan. A realidade que vivemos não é a mesma de 1980. Os problemas atuais são outros e foi exatamente esta a mensagem que Padilha buscou passar. Muitos críticos e parte do público rejeitou este longa-metragem pela falta de similaridades no roteiro. Eu não acho que a comparação é válida, porque é uma releitura. A análise deve ocorrer dentro deste novo contexto.


O filme começa com o apresentador Pat Novak (Samuel L. Jackson) defendendo a robotização e a mecanização dos exércitos dentro dos Estados Unidos. Em um programa de TV similar ao da emissora conservadora americana Foxnews, Novak apoia abertamente o empresário Raymond Sellars (Michael Keaton) contra o senador Hubert Dreyfus (Zach Grenier), que proibiu o uso de robôs dentro do país. O debate é se a mecanização de fato garante mais segurança para os americanos. O que se vê na televisão, com atentados a bomba no Oriente Médio, é que os robôs são máquinas eficientes para matar, mas não são necessariamente pacificadores.


Sellars tem uma ideia inovadora, com ajuda de cientistas: Por que não criar um policial humano em um corpo robótico. O atentado com o detetive da polícia Alex Murphy (Joel Kinnaman) se transforma na oportunidade perfeita para criar o primeiro RoboCop. Ele servirá à empresa de Raymond Sellars, a OmniCorp.

A transformação de homem em máquina ocorre com sucesso graças ao Dr. Dennett Norton (Gary Oldman), que salva os pulmões, o cérebro, o rosto e a mão de Murphy. A cena em que ele visualiza o que sobrou de seu corpo é uma das mais fortes do longa. Outra parte bacana é quando o RoboCop é testado contra androides da OmniCorp, em um tiroteio com música Hocus Pocus, da banda de rock progressivo Focus.


RoboCop começa com um traje cinza em seu treinamento, mas ganha uma roupa preta "mais tática", o que gerou comentários antes mesmo da estreia do filme, criticando a mudança em relação ao filme original. A realidade é que a roupa escura está ligada ao duelo interno que Murphy enfrenta enquanto tenta ser humano dentro de um corpo de máquina.


O debate de Padilha neste filme tem um contexto: Drones, robôs voadores, são utilizados pela empresa de varejo digital Amazon desde o final de 2013. Como o mercado já está adotando essas máquinas, o exército estuda utilizar robôs em guerras, para diminuir as baixas humanas. Essas máquinas realmente ajudariam os homens ou só aumentariam o número de mortes em combates? Como esses robôs agiriam diante de civis?

O diretor brasileiro tem currículo para fazer esse tipo de filme crítico: Começou nos documentários Os Carvoeiros (2000) e Ônibus 174 (2002); fez dois filmes sobre o BOPE e a Polícia Militar no Rio de Janeiro em Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010). Tropa 1 foi o filme mais pirateado no Brasil. Em Tropa 2, Padilha controlou a distribuição para evitar a pirataria e foi seu longa de maior sucesso comercial. Seus temas analisam o tráfico de drogas, os abusos das polícias e o descaso dos governos em terras brasileiras.

Ao decidir fazer o remake de RoboCop, Padilha tem como alvo claro o conservadorismo do Partido Republicano norte-americano, os excessos das guerras dos Estados Unidos e a discussão sobre o uso de tecnologias em casos que envolvem vidas humanas. Além deste parâmetro crítico, o filme traz um pouco de realismo nas cenas de tiroteio, um traço de sua direção nas filmagens de favelas com treinamento do BOPE, a tropa de elite da PM carioca.

A trilha-sonora do brasileiro Pedro Bromfman resgata o tema original de RoboCop, mas é minimalista e não chama tanto a atenção. Já a atuação de Joel Kinnaman como Murphy se destaca pela similaridade entre o policial robótico e os androides da OmniCorp.

Para encerrar esta resenha, recomendo assistir o Roda Viva, que passou na TV Cultura, com o diretor José Padilha sobre RoboCop. Confira abaixo:


sábado, 18 de janeiro de 2014

Hobbit querendo parecer com Senhor dos Anéis

Em dezembro de 2013 chegou aos cinemas o segundo filme da trilogia Hobbit, A Desolação de Smaug, lançada pelo diretor Peter Jackson, que resolveu fatiar a obra de J. R. R. Tolkien lançada em 21 de setembro de 1937. Fui assistir entusiasmado este segundo filme, esperando uma boa ambientação como no primeiro capítulo.


O filme é bom, mas apresenta problemas. Me parece o filme mais problemático de Jackson desde que decidiu fazer as versões cinematográficas das obras de Tolkien, a partir de 1999.

Longa-metragem abre com Peter Jackson comendo uma cenoura na frente da tela. O primeiro problema é o começo do filme com Beorn, um personagem que se transforma em urso e, nos livros, possui uma personalidade muito mais animada. A versão cinematográfica do personagem é breve, desanimadora e dá sono.

O segundo problema, e um dos principais, é o reino de Thranduil, pai do elfo Legolas, e o romance entre a elfa Tauriel e o anão Kili. No livro de Tolkien, este romance não existe, já que anões e elfos são inimigos históricos e a aliança entre as duas raças só ocorre na Guerra do Anel entre Gimli, filho de Glóin, e Legolas. O roteiro força um triângulo amoroso para tentar justificar a aversão dos elfos às outras raças. A interpretação de Thranduil por Lee Pace também deixa a desejar. Ele parece um estereótipo de sua própria raça no mundo mágico.

Lee Pace faz uma interpretação problemática de Thranduil

Os efeitos especiais são de tirar o fôlego em 3D, mas apresentam alguns problemas na luta entre elfos e orcs na Cidade do Lago. Há momentos interessantes, como duplo tiro na cabeça com flechas de Legolas, mas o filme perde o foco nos anões e em sua busca por retomar Erebor, a montanha usurpada pelo dragão Smaug.

O triângulo amoroso aparente entre Legolas, Tauriel e Kili
O mago Gandalf, na história, puxa dados e informações do universo de Tolkien presentes no Silmarillion, um copilado de textos e anotações, e não do enredo original de Hobbit. Pela construção da narrativa, Peter Jackson dá a entender que quis criar uma versão adulta da história, já que o romance original é voltado para crianças, embora Bilbo seja o portador do Um Anel do inimigo Sauron. Jackson tenta forçar uma ligação entre as duas histórias colocando Sauron como a força comandante dos orcs que enfrentam os anões em sua jornada, tirando o papel do Rei Bruxo dos Nâzgul, como está no livro.

Será que Peter Jackson, um dia, quer filmar as inúmeras histórias de Silmarillion?

O resultado deste enredo confuso e com mais elementos do que a história original é que o filme, infelizmente, soa como se fosse um roteiro muito parecido com Senhor dos Aneis: As Duas Torres. É um bom filme, mas poderia cortar elementos e manter sua originalidade. Ou ter sido unido ao filme anterior, diminuindo a saga.


No entanto, o filme tem um personagem muito bem representado: O dragão Smaug.

Com voz de senhor e interpretado pelo ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série de TV Sherlock, ele parece mau, orgulhoso e inteligente. O encontro entre o pequenino Bilbo Bolseiro e o gigantesco dragão é uma das cenas para ficar na memória.

O ponto fraco desta sequência é somente quando tentam derrubar o monstro com ouro quente. Não dá pra entender, exatamente, o que os protagonistas queriam ao combater o dragão.

Não assistiu o segundo capítulo de Hobbit? Vá ver, mesmo que o filme tenha eventuais defeitos do ponto de vista de algumas críticas que devem ser feitas.

O ápice do filme com Smaug

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Estados Unidos e a guerra contra o terrorismo. Blackwater e a guerra total

"Empresas como a Blackwater operam numa indústria baseada na demanda, e é esta demanda, derivada de guerras de conquistas agressivas e impopulares, que precisa ser reduzida. A verdade é que, enquanto houver tropas no Iraque, haverá prestadores particulares".

Jeremy Scahill, jornalista colaborador do The Nation e autor do livro Blackwater.


Blackwater não é uma teoria da conspiração "criada pela esquerda americana para atacar o Partido Republicano". A empresa possui milhares de funcionários ao redor do mundo e atende, atualmente, pelo nome Academi, adotado desde 2011, quando foi comprada por um novo conselho de administradores e de investidores. É líder no setor paramilitar, de segurança privada e até de atendimento em catástrofes naturais. Concorre com companhias como DynCorp e Triple Canopy. Oferece soldados, armamentos e expertise para o exército americano, através de contratos com o Departamento de Estado dos Estados Unidos da América, o que blindou os mercenários de investigações executadas até pelos próprios militares.


A empresa faturava cerca de US$ 100 milhões antes do 11 de setembro de 2001 e ultrapassou lucros bilionários até 2005 (US$ 1 bi foi alcançado em meados de 2003), em contratos de fornecimento às operações no Afeganistão, contra Osama Bin Laden, e no Iraque, contra Saddan Hussein. Sob o nome de "forças de paz", a Blackwater também ganhou US$ 70 milhões em contratos federais para dar suporte aos sobreviventes do Furacão Katrina, em 2005, faturando US$ 243 mil por dia. Os membros da Blackwater se caracterizam por seus armamentos sofisticados, óculos escuros e, muitas vezes, confundidos com forças especiais SEAL e SWAT, infiltrados dentro do exército.

O jornalista Jeremy Scahill, do veículo de esquerda The Nation, fez uma biografia de mais de 500 páginas bastante crítica sobre a organização, que foi publicada em 2008. Na época, relatórios do Congresso americano apontavam que o país já havia disperdiçado US$ 60 bilhões nas guerras empreendidas pelo presidente republicano e conservador George W. Bush. Scahill mostra que parte dos gastos governamentais está ligado, direta ou indiretamente, às privatizações promovidas no setor militar, sobretudo com o uso de recursos da Blackwater.

Ultradireitistas da Carolina do Norte

Blackwater USA nasceu em 1997 da mente de duas pessoas: Erik Prince e Al Clark. Price era filho de Edgar, um empresário de muitos negócios em Holland, no estado americano de Michigan. Ed Prince foi um dos inventores do pára-sol com espelho iluminado utilizado na indústria automobilística até os dias atuais. Fortemente cristão e protestante, Ed passou valores religiosos fortes ao filho Erik, além da defesa do mercado liberal, da livre concorrência e dos principais ideais da direita conservadora interiorana dos Estados Unidos. Com essa base, Erik ingressou nas forças especiais da Marinha, a SEAL, e conheceu Al Clark. Os dois então tiveram a ideia de começar sua própria empresa privada de segurança e tropas suplementares na Carolina do Norte. Clark perdeu espaço quando a companhia ganhou rentabilidade sob a gestão de Erik.

Erik Prince, o "príncipe" da Blackwater

A companhia nasceu como um estabelecimento de tiro ao alvo, venda de armas e expertise para forças especiais. Evoluiu para uma agência de contratação de mercenários, que chegaram a recrutar veteranos das guerras na Iugoslávia do governo Bill Clinton. Veteranos de outras guerras americanas também encontraram na Blackwater um "paraíso" para voltarem a viajar, darem alguns tiros e desestressar frustrações e traumas pessoais. 

De acordo com informações obtidas por Scahill, a Blackwater cresceu absurdamente quando, em 10 de setembro de 2001, a empresa foi incluída em um programa de desburocratização do Pentágono promovido pelo Secretário de Defesa do presidente Bush, Donald Rumsfeld. Para o político, a estrutura de defesa americana se assemelhava ao aparelho nazista em 1930 (ou outra organização ditatorial) e não permitia a participação da livre-concorrência empresarial para melhorar suas estruturas. No dia seguinte, aviões foram atirados contra as Torres Gêmeas em Nova York e contra o próprio Pentágono, forçando uma reação do exército. Rumsfeld então deu seguimento ao plano de privatização militar do governo Bush.

Erik Prince ganhou enorme empatia do republicano George W. Bush. Ele não era protestante, como seu pai Edgar, mas Erik uniu-se à segunda religião mais forte nos Estados Unidos: O catolicismo. Suas simpatias políticas foram o lobby necessário para que a Blackwater vencesse as licitações militares, muitas vezes sem concorrentes. E, politicamente, o católico Erik Prince passou a integrar uma nova corrente neoconservadora (neocon) nos EUA: Os teocons, religiosos poderosos que batalham pelo retorno de uma década de governo republicano como ocorreu na época de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

Erik se aproximou de políticos como Lewis Paul Bremmer (diplomata e administrador da coalizão contra o Iraque em 2003) e Condoleezza Rice (Secretária de Estado do governo Bush). A Blackwater protegeu os dois no Oriente Médio, em operações de alto risco, e passou a penetrar majoritariamente na linha de frente do exército americano. Para Erik Prince, sua empresa representava, além de lucros bilionários, uma verdadeira cruzada cristã contra os muçulmanos antidemocráticos no Afeganistão e no Iraque.

A Blackwater chegou a ter entre seus executivos o nome de Cofer Black, um agente da CIA que organizou a Guerra ao Terror do governo Bush e deixou os cargos públicos em 2005 para oferecer sua inteligência ao setor privado americano. Atualmente, o papel político de Black é de consultoria de espionagem ao Partido Republicano, que perdeu as eleições para o candidato negro e democrata Barack Obama.

Fallujah

Uma emboscada de 2004 na cidade iraquiana de Fallujah simboliza o poder de ataque da Blackwater. Quatro mercenários mal preparados chamados Scott Helvenston, Jerko Zovko, Wesley Batalona, e Mike Teague foram baleados em seus veículos SUV, sem blindagem adicional. A cidade de Fallujah havia sofrido ataques recentes do exército e da própria Blackwater, o que exaltou os ânimos da população.


Perfurados por balas, os carros da Blackwater foram incendiados pelos manifestantes populares. Carbonizados, os mercenários foram esquartejados pela massa e partes de seus corpos foram penduradas na ponte principal da cidade. Tudo foi documentado e exibido no YouTube.



"Fallujah é o cemitério dos Estados Unidos", gritou o povo iraquiano, erguendo os corpos.

Para revidar a humilhação pública, a Blackwater mandou um efetivo pesado de homens e helicópteros para um ataque direto. Os mercenários assassinaram a sangue frio aproximadamente mil civis, incluindo mulheres e crianças. O clima de revolta iraquiana aumentou e perdura até os dias atuais, mas as táticas da Blackwater endureceram em igual medida, com o governo americano cobrindo todos os seus custos.


Familiares dos mercenários mortos em Fallujah tentaram processar a Blackwater pela falta de preparo, responsável em parte por suas mortes. A empresa não foi sequer acionada judicialmente, por conta de seu contrato especial com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, que impede que a companhia seja julgada numa corte do exército ou mesmo na justiça popular. A empresa de mercenários só pode sofrer sanções diretas do governo.


Blackwater hoje

Com a crise da economia americana e o endividamento das guerras, além da diminuição da presença estatal, a Blackwater aumentou seus recursos financeiros, empregou torturadores chilenos do antigo regime do ditador Augusto Pinochet, além de guerrilheiros colombianos e outros profissionais de diferentes camadas do globo. No entanto, mesmo com muito dinheiro, a Blackwater sofreu processos e foi obrigada a mudar de nome, para Academi.

Erik Prince buscou tirar seu nome dos negócios e se tornou um conselheiro de investidores chineses na África, segundo a imprensa local. Diferente do governo Bush, o presidente Barack Obama reduziu a presença de militares no Oriente Médio, além de ter assassinado Osama Bin Laden.

Mesmo assim, o atual governo democrata não removeu republicanos de postos-chave no Congresso, o que não diminuiu a privatização de setores do Estado, mantendo a crise financeira iniciada por Bush em suas guerras por lucros.

Membros da Academi e ex-integrantes da Blackwater forneceram treinamento para tropas anti-Bashar Al-Assad na Síria. Mercenários também estiveram envolvidos nos conflitos da Líbia. Estima-se que a empresa esteja presente em cada foco de conflito ou crise de segurança no Oriente Médio e na África, oferecendo soldados, transporte e suprimentos.

Há estudos de novas guerras com armas fabricadas com impressoras 3D e com drones voadores que substituiriam soldados humanos. O Partido Republicano e seus simpatizantes estão nesses projetos. Com a presença de conservadores teocons, é certo que a Blackwater terá sua participação caso o governo decida atacar países usando drones, num cenário muito parecido com a ficção de Hideo Kojima nos videogames, na saga Metal Gear.

Com a Blackwater, o negócio de mercenários evoluiu de tropas suplementares para o maior sistema de financiamento militar privado do mundo, com faturamento na casa dos 10 bilhões por empresa. E o primeiro a pagar a conta pela privatização do exército é a população americana, que financia os impostos e as taxas que são revertidos para os ganhos da empresa, através de contratos do Estado que deixou de atuar na área. Logo após, é todo o restante do mundo que paga a conta, sendo atacado por esses mercenários ou fornecendo mão-de-obra barata para aumentar a influência da Blackwater no mundo.

domingo, 24 de novembro de 2013

Gravidade e a solidão do espaço

Filme com Sandra Bullock e George Clooney é um dos poucos que deve ser visto em 3D, numa sala IMAX de cinema, de preferência. Se não for possível, assista numa televisão 3D de boa qualidade. E se prepare para ver um espaço que não imaginamos, que é silencioso e monótono, mas igualmente perigoso.


Gravidade deve ser visto em 3D porque foi feito para que você interaja com os astronautas perdidos no espaço, próximos do planeta Terra. O enredo é simples e curto, pois tem apenas 91 minutos, ou seja, 1h30min. É uma hora e meia de astronautas num enredo fiel à realidade da exploração espacial hoje.

Sandra Bullock é uma astronauta de manutenção chamada Ryan Stone, que perdeu a filha e está em uma missão no espaço. Ela está acompanhada por um superior chamado Matt Kowalski, interpretado por George Clooney. Há outros integrantes na equipe, mas com expressão muito pequena no enredo. A voz que faz a interpretação do controle de missões da NASA americana é a do ator Ed Harris.

Ryan então é atingida por uma tempestade de lixo espacial, consequência de outras expedições humanas. Sua estação é destruída e, por isso, inicia-se uma corrida contra o tempo para que ela consiga oxigênio e recursos para retornar até a Terra. As explosões, no filme, não têm som, como no espaço real. O lixo espacial retratado também existe. A dificuldade para controlar o próprio corpo na imensidão escura também é descrita em detalhes pelo filme. Gravidade não tenta ser Star Wars ou Star Trek, inventando histórias sobre o espaço, como qualquer ficção. Gravidade é um dos poucos filmes que tenta mostrar a realidade, e a tontura, da solidão de estar no espaço.

Em um texto de 17 de outubro, um astronauta chamado Garrett Reisman (NASA) comentou sobre o filme à Forbes: "Gravidade é o filme espacial mais realista até o momento. O único defeito do filme é que não é tão fácil se movimentar de uma estação para outra. Exige muita energia e planejamento cuidadoso para mudar de órbita".

O filme é vazio, curto e repleto de efeitos especiais que mostram como estar sem gravidade pode ser um problema para a sobrevivência do ser humano.

Gravidade busca mostrar o espaço como ele é: Escuro e solitário.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Black Sabbath clássico no Brasil não foi apenas pesado. Foi cativante

Via Whiplash.net


Ao chegar na estação Carandiru de metrô, já podia ver a horda de metaleiros que lotaram a Zona Norte de São Paulo para ver os criadores do rock pesado. A entrada das pessoas no Campo de Marte era calma e pacífica, exceto por algumas pessoas urinando nos muros perto da entrada. O clima entre os metaleiros que tomavam cerveja na frente do local do show e dentro era de alegria.

Dave Mustaine surgiu com sua voz distorcida aproximadamente às 19h45, quando boa parte das 70 mil pessoas que foram ao show já estavam na arena. Muita gente ainda ia chegar ao show, mas a pista premium e a pista normal já estavam lotadas nas áreas perto das caixas de som. Infelizmente quem ficou mais atrás não conseguiu ouvir bem nenhum dos shows naquela noite.

O Megadeth começou com Hangar 18, que já embalou um show com velocidade, mesclando clássicos e novidades. Graças ao bom ajuste de som, era possível ouvir claramente os timbres distintos das guitarras de Mustaine e do músico solista da banda, Chris Broderick. O baixista David Ellefson foi celebrado como um membro clássico da banda e conseguiu causar impacto com seu instrumento potente nos graves. Shawn Drover foi a cozinha pesada na bateria para sustentar a banda em suas melodias densas.

Músicas como She-Wolf, Tornado of Souls, Symphony of Destruction e Holy Wars... The Punishment Due fizeram o povo pular, formar mosh e propagar um empurra-empurra interminável. Megadeth é daqueles shows com som inesquecível, mas com um público movimentado e tenso. É uma apresentação para os fortes. Deu dó das meninas mais baixas que estavam no meio.

O telão de fundo do Megadeth mudava completamente as animações a cada música, funcionando quase como um cenário de videoclipe. Em Holy Wars, por exemplo, apareceram televisões, carros em chamas em protestos, além de cenas das guerras recentes dos Estados Unidos. Esse videoclipe acelerado acabou com a entrada do logotipo prateado da banda. Era uma apresentação sincronizada, entre as letras cantadas pelo grupo e todo o cenário.

A banda de Dave Mustaine tocou 10 músicas, promovendo uma abertura extensa, mas não cansativa. O Megadeth liberou uma adrenalina forte antes da chegada dos mestres, que provocariam o clímax naquela noite fresca em São Paulo.

Setlist do Megadeth

Hangar 18
Wake Up Dead
In My Darkest Hour
She-Wolf
Sweating Bullets
Kingmaker
Tornado of Souls
Symphony of Destruction
Peace Sells
Holy Wars... The Punishment Due

Antes das 22h, a voz de Ozzy Osbourne soou por detrás de uma cortina negra. Com uma risada, o frontman da banda que criou o heavy metal em 1970 começou seu espetáculo. War Pigs abriu com seu tom tipicamente jazzístico, acompanhado por uma letra anti-guerra, cantada com força por todos os presentes.

Apesar de Ozzy ser o rosto mais conhecido do Black Sabbath, a estrela da noite foi Tony Iommi. Mais discreto nas primeiras faixas, Tony foi se soltando e sorrindo a medida que tocava de maneira diferente clássicos. Ele parecia se divertir com o velho amigo Ozzy Osbourne, mesmo passando por tratamento contra câncer, contra um linfoma.

Ao tocar Into the Void e Under the Sun, o Sabbath fez uma viagem ao passado, executando faixas que o público não lembrava mais. As músicas do disco 13, o mais bem-sucedido comercialmente, foram tocadas poucas vezes. Age of Reason, End of Beggining e God is Dead? foram as únicas faixas inéditas da banda no Brasil.

Sendo a primeira vez do Black Sabbath com a formação original em nosso país, faltando apenas o baterista Bill Ward, Ozzy teve um comportamento muito diferente no show. Recluso, pedia apenas que o público gritasse e pulasse com "I can't hear you", emendado às vezes com "ok". O frontman não baixou as calças em nenhum momento, como faz em sua carreira solo. Também não encharcou tanto o próprio cabelo. Apesar de discreto, Ozzy Osborune parecia estar comovido com Geezer e Tony acompanhando sua performance ao vivo.

Geezer Butler emergiu em N.I.B., com a improvisação de contrabaixo distorcido que mostra seu talento oculto pelas demais estrelas da banda. No entanto, o momento inacreditável foi após a música Rat Salad, no solo de bateria de Tommy Clufetos. Se estendendo além de cinco minutos, o músico contratado pela banda fez uma percussão rica em nuances, oscilando entre o rápido e o lento, mas sempre com força. Foi um momento marcante do show, porque foi a hora em que um novo talento se mostrou à altura dos mitos do heavy metal presentes.

A música Black Sabbath foi o clímax do show. Com voz mórbida, Ozzy Osbourne deu o andamento original da composição. Coube a Tony Iommi fazer os chifres do demônio, sorrir para o público e começar um solo em alta velocidade, preciso e simples. Era possível ver todos os elementos do rock pesado naquele momento, tanto no refrão com a frase em intervalo trítono quanto as escalas pentatonicas executadas pela guitarra elétrica.

Ao executar Dirty Women, o público que estava vendo o show do Sabbath foi surpreendido. Ozzy disse, no começo da música, que "adora as dirty women". Ouvindo o madman, uma fã na pista convencional levantou a blusa e mostrou os peitos, duas vezes. A jovem fez aquilo na brincadeira rindo, e os homens gritaram a música com ela.

Sabbath Bloody Sabbath foi esboçada para o show se encerrar com Paranoid, a assinatura final do Black Sabbath e, principalmente, de Ozzy Osbourne. Muitos, naquela noite, choravam de emoção. Eu, ao longo de 16 músicas, me senti vendo uma banda única naquele palco, um clássico no seu auge e fonte de influência do meu estilo favorito de rock'n'roll. O Black Sabbath não foi pesado naquela noite, ele foi cativante, soando natural mesmo em composições que já tinham sido tocadas dezenas de vezes.

Setlist do Black Sabbath

War Pigs
Into the Void
Under the Sun
Snowblind
Age of Reason
Black Sabbath
Behind the Wall of Sleep
N.I.B.
End of the Beginning
Fairies Wear Boots
Rat Salad / Drum Solo
Iron Man
God Is Dead?
Dirty Women
Children of the Grave

Bis:
Paranoid (Com introdução de Sabbath Bloody Sabbath)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Os 70 anos de Roger Waters em sete músicas

Roger Waters completou 70 anos nesta sexta-feira. Nasceu no dia 6 de setembro de 1943, no Reino Unido devastado pela Segunda Guerra Mundial. Baixista no Pink Floyd, compôs obras-primas como Dark Side of the Moon (1973) e The Wall (1979). Teve também uma carreira solo de sucesso, com músicas próprias e de sua banda anterior.


Confira sete sucessos de Roger com o Floyd para celebrar suas sete décadas:

1. Brain Damage

Uma das faixas mais enigmáticas de Dark Side of the Moon, Brain Damage trata sobre a loucura humana e é uma das músicas que melhor encaixa com a voz mais grave de Roger, que contrasta em relação às melodias vocais e na guitarra de David Gilmour, um dos líderes do Pink Floyd na década de 70. A versão acústica mostra toda a habilidade de Roger, cantando e tocando os principais acordes.


2. Confortably Numb

Esta música ficou mais famosa na voz de David Gilmour, mas Roger Waters fez história em 2012 ao tocá-la com o cantor do Pearl Jam, Eddie Vedder, para arrecadar fundos para as vítimas do incidente climático Sandy, nos Estados Unidos. É uma das melhores versões do clássico do Pink Floyd que você pode conferir ao vivo.


3. Another Bick in the Wall, part. 2

O maior clássico de Roger Waters no contrabaixo, com um ritmo contagiante, permanece contagiante nos tempos atuais. E é provavelmente uma das músicas mais lembradas do Pink Floyd na história.


4. Nobody Home 

Música que é, como Another Brick, do disco The Wall. Roger fez história mais uma vez ao cantar essa música em 1990, em um concerto em Berlim, após a queda do Muro de Berlim. É uma das composições que explora as separações e as superficialidade que existem no mundo capitalista.




5. In The Flesh, part. 2

Dentre as composições do The Wall, In The Flesh é a que melhor sintetiza a crítica de Roger Waters aos sistemas totalitários. Ele encarna, dentro da música, uma versão do personagem Pink interpretando o papel de um ditador fascista, que manda pessoas para o muro, condenando-as à morte.

6. Wish You Were Here

Separados por 24 anos, o Pink Floyd se reuniu, integralmente, em 2005, para um show no Live 8. Um dos grandes pontos do show doi a execução da música Wish You Were Here, que foi composta por David Gilmour e Roger Waters, músicos que brigaram nessas duas décadas. O reencontro musical é emocionante.



7. Mother

Angustiante, sentimental e reflexiva, Mother é a música que Roger compôs para falar sobre as limitações que nossos pais nos colocam. E sobre como precisamos ser rebeldes para superá-las.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O que a resenha da biografia de Dirceu, de Mario Sergio Conti, revela sobre jornalismo dentro e fora da Veja?

Mario Sergio Conti foi diretor de redação da revista Veja entre 1991 e 1997, mas também ocupou o cargo de redator-chefe e outras funções na mesma publicação. Ele escreveu e lançou, em 1999, o livro "Notícias do Planalto, a Imprensa e Fernando Collor", com depoimentos de jornalistas e personagens importantes na ascensão e no impeachment do primeiro presidente civil eleito após a ditadura militar brasileira. A publicação trouxe polêmicas por apontar, por exemplo, que o chefe de Conti na Veja, o jornalista José Roberto Guzzo, teria publicado uma matéria comprometedora e envolvendo dólares. Mario Sergio Conti revelou a polêmica mesmo após 15 anos de trabalho ao lado de Guzzo, segundo informações em uma edição do Roda Viva (veja este vídeo, no minuto 48).

Conti massacrou a nova biografia sobre a vida de José Dirceu

Eis que Conti voltou a trazer polêmicas, jornalisticamente justificáveis, na edição 83 da revista Piauí, lançada em agosto deste ano - publicação que ele dirige. O texto "Chutes para todo lado" anuncia, de cara, um massacre de Mario Sergio Conti para cima de Otávio Cabral, atual editor-executivo da Veja, especialista em política e autor do livro "Dirceu, A Biografia", tema do material do jornalista da Piauí.

A edição da revista com a resenha

"O livro realça aspectos pessoais em detrimento dos políticos. Ele repete cinco vezes que nos anos 60 Dirceu tinha cabelos compridos, outras quatro que era cabeludo, e duas dizendo que deixava a 'barba por fazer'. Caso o leitor não tenha percebido, o livro estampa ainda 14 fotos de José Dirceu de cabelos longos e a barba nascendo. A aparência  não é anômala nem define o biografado. Muitíssimos jovens eram assim naquela época", descreve Conti. Segundo o jornalista da Piauí, o editor da Veja aponta que o ex-ministro-chefe da Casa Civil de Lula teria trabalhado na TV Tupi com roteiros, ao lado do autor de novelas Vicente Sesso. Essa informação, como outras muitas no mesmo livro, seria mentirosa.

"O autor não fica só nos erros menores. Escreve que em 1968 'a Guerra Fria encontrava-se no auge e a invasão dos Estados Unidos a Cuba era iminente'. A invasão de Cuba  fora iminente em 1961, quando a CIA organizou o desembarque na Baía dos Porcos, e no ano seguinte, durante a crise dos mísseis, e não seis anos depois. E 1968 não foi o ano do auge da Guerra Fria, e sim o da sua grande crise, que levou o capitalismo e o stalinismo a se darem as mãos", constata o crítico. Mario Sergio ataca não a carreira de Otávio Cabral, mas sim os fatos expressos em seu manuscrito. E mostra erros em uma escala industrial.

Mario Sergio Conti mostra até o desconhecimento de Cabral sobre a história da Editora Abril, seu local de trabalho. "Eis uma afirmação direta de Otávio Cabral sobre profissionais de sua área, o jornalismo: 'Antigos companheiros de Ibiúna e de clandestinidade tinham posições de destaque na imprensa em meados dos anos 80, como Rui Falcão, que comandava a revista Exame, e Eugênio Bucci, diretor da Playboy'. Nem Falcão e nem Bucci participaram do Congresso da UNE em Ibiúna. O primeiro porque não era mais estudante e o outro por ser criança. Eugênio Bucci jamais esteve na clandestinidade. Rui Falcão sim, mas não foi 'companheiro' de Dirceu: clandestino, militava em outra organização e noutra cidade. Bucci nunca foi diretor da Playboy. São cinco erros factuais numa frase. Algum recorde foi batido", comenta, com humor e crítica mordazes.

Mario Sergio ainda comenta ironicamente sobre estilo de escrita do autor: "Otávio Cabral tem mania de comidas e bebidas. Seguem-se exemplos do livro. 'Frango ao molho pardo brasileiro, cozido e com um saboroso molho à base de sangue da própria ave'. 'Molho ultrapicante, com pimentas, amendoim, canela e amêndoa'. 'Os melhores runs'. 'Coxinha, feijoada e doce de jaca com canela'".

Conti critica uma nova geração de jornalistas de direita que criou um estereótipo de figuras públicas como José Dirceu, ou mesmo de Lula, e não se mantém presos aos fatos em uma apuração, mesmo quando comprometidos na escrita de uma biografia. Ao redigir "Notícias do Planalto", Conti foi muito criticado em 99 por mostrar os bastidores da imprensa, mas não por cometer erros grosseiros de pesquisa.

Mario Sergio Conti e Otávio Cabral são jornalistas que surgiram da revista Veja, mas de gerações completamente distintas. Conti se formou com a publicação chefiada por José Roberto Guzzo e Elio Gaspari, entre os anos 70 e 90, que enalteceu a ascensão de Fernando Collor e depois contribuiu em algumas edições com sua queda. Outro dado pouco conhecido é que Conti foi uma das pessoas que revelaram Diogo Mainardi, um dos maiores colunistas críticos de Lula na direita conservadora, em meados dos anos 90, junto com Ivan Lessa. Mesmo com esse passado, Mario Sergio Conti defende um jornalismo de qualidade e fiel aos fatos. Otávio Cabral, atual editor na Veja, com carreira entre 2000 e 2010, prefere vender uma imagem de José Dirceu que não corresponde à realidade. Ele mostra uma distorção.

Na lista de livros mais vendidos da revista Veja, "Dirceu, A Biografia" está em terceiro lugar na categoria não-ficção. Ou seja, o texto de Cabral, mesmo com diversos erros, é extremamente comercial. Informações equivocadas estão sendo compradas por diversas pessoas.

Ficou curioso a respeito da resenha? Leia no site da revista Piauí.

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