sexta-feira, 20 de junho de 2014

André Forastieri e seu punk rock moribundo

Por Pedro Zambarda
Originalmente postado na Whiplash.net

Eu conheci os textos do André Forastieri como muitas pessoas conhecem: Odiando um deles.

Li, no dia 17 de maio de 2010, o post “Ronnie James Dio, o deus ridículo do rock” e achei prepotente a crítica dele sobre o cantor que fez sua carreira no Rainbow e no Black Sabbath. Concordo com seu amigo, André Barcinski, em reconhecer que o texto é apenas uma tirada de sarro com os metaleiros e fãs acríticos de Dio, mas mesmo assim não consigo gostar até hoje deste texto.

O que eu descobri, pouco tempo depois (e só quando critiquei aquele texto em um texto meu), é que aquela não tinha sido a primeira vez que eu tinha lido Forastieri. Quando tinha por volta de 8 ou 10 anos, fui leitor da Herói em seu auge. E estava viciado no anime Cavaleiros do Zodiáco na televisão. Quando comprei um videogame N64, comprei assiduamente a revista brasileira Nintendo World. E quando veio o vício no Game Boy e em Pokémon, eu tive a coleção completa da revista Pokémon Club. Ou seja, eu fui educado em publicações criadas e/ou editadas pelo André Forastieri.

Recebi então a tarefa, justa eu acredito, de resenhar seu primeiro livro, “O dia em que o rock morreu” (Arquipélago Editorial, 184 páginas). Depois de odiar seu texto sobre Dio, passei a acompanhar o trabalho do André mais de perto. Eu tenho essa mania bizarra de ler pessoas que não concordo muito, até por exercício de jornalista. Milhares de textos dele despertavam discórdia da minha parte. Em outros textos, passei a concordar muito. Mas uma conclusão eu tirei a respeito dele, depois de uma leitura mais assídua em quatro anos: Ele é um crítico de cultura pop, música e videogame com repertório, experiência e coerência, qualidades que são raras em muitos profissionais.

“O dia em que o rock morreu” é um livro passional com alguns dos textos que André Forastieri já publicou, com a adição da entrevista dele com Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, um ano antes de seu suicídio, em 93. Não é um livro que vai agradar quem espera material inédito, mas certamente vai agradar os fãs de Forastieri quando ele escrevia na Folha de S.Paulo, na revista Bizz e agora no portal R7, da TV Record.

André absorveu a cultura que o cercou desde a adolescência. Sua família de Piracicaba, interior paulista, não era musical e nem roqueira. “Cresci numa casa sem música. Só havia o radinho de pilha na cozinha. Minha mãe é a rainha do rádio, especificamente da rádio Nacional: A qualquer minuto cantarolava (e cantarola) extenso e refinado repertório dos anos 40-50. Que eu saiba, nem ela nem meu pai jamais entraram em uma loja de discos na vida”. A família dele se parece um pouco com a minha, o que provoca um problema em casa quando você abraça a música jovem que seus parentes não reconhecem.

Suas opiniões sobre artistas são polêmicas, mas coerentes com o que ele pensa. Michael Jackson? “Aprendeu a cantar como um anjo e a dançar como um cafetão fazendo shows em puteiros aos oito anos de idade”. John Lennon? “Minha primeira paixão roqueira”, “um babaca que me traiu” e “hippie-yuppie babaca”. Elvis Presley? “Morreu quando careteou”, ficou careta após se alistar no exército. Lou Reed? “Viveu mais que o provável, pelo mal que fez a si mesmo”. Caetano Veloso? “Não importa há três décadas”. Roberto Carlos? “Virou as costas ao rock e à vida”. Chorão? “Um garoto skatista e destrambelhado, procurando um lar e um amor”. Kurt Cobain? “Um pobre-diabo que precisava ser amado e idolatrado, conseguiu e não segurou a onda”. The Clash? “Banda que me fez pensar grande, ser valente, cortar o cabelo, não entrar em igrejinha, detestar bicho-grilo, largar Piracicaba, ir pra vida de peito aberto, com medo e com um tesão louco”.

Forastieri também alega que o fim da MTV Brasil em 2013 foi no tempo certo e que os anos 1980 realmente formaram os roqueiros no nosso país, embora ele renegue esse suposto rock brasileiro. O punk de São Paulo, para ele, foi determinante. Ele também coloca que a pirataria acaba com os músicos, embora seja algo bom na era digital e para o consumo, reduzindo o preço de muitos serviços.

Sua tese mais ousada no livro é que o rock morreu, foi morto, acabou. E, para ele, acabou não por causa da música eletrônica, do disco ou dos sintetizadores. Acabou porque não há mais bandas medianas. Ou sua banda é de quintal, feita por amigos, ou é uma superprodução pop, o que vai contra a contestação mais “imatura” do rock. Não há mais apelo por capas ou vinis de forma comercial. Há apenas uma nostalgia em forma de “cadáveres” musicais.

André também dedica um capítulo às revistas Heavy Metal e Spin, suas favoritas, e comenta sobre os críticos musicais ruins que puxam o saco de artistas.

Não é preciso concordar com André Forastieri para compreender seu valor cultural como jornalista. Sei que é suspeito um jornalista falar sobre outro jornalista, mas um sujeito que absorve repertório e consegue colocar isso de forma cristalina em seus textos, sejam eles de opinião pura ou análise, terá deixado suas marcas em seus possíveis leitores.

O texto ridículo do Dio está no livro. Reli para tentar enxergar de outra forma. Não consegui, mas o material todo é muito bom. “O dia em que o rock morreu” pode ser lido facilmente em três dias. A prosa de André Forastieri é direta e crua, como seu punk rock predileto. Eu li em dois dias, porque conhecia a maioria dos textos, disponíveis na internet através do blog dele.

André se formou com o The Clash. Música boa pra ele tem três acordes, e eu gosto das que tem mais acordes. Ele viveu os anos 80 e trabalhou a cultura pop brasileira nos anos 90. Eu nasci nos anos 90. Fui leitor das publicações dele. Eu me formei com um Black Sabbath deslocado do meu tempo, mas estou vendo o final da banda que revolucionou os anos 70. Vejo todo o dilema do mercado musical que André relata. Não gosto de tudo o que o mainstream e o pop tentam me fazer engolir, mas vivo uma época muito mais fácil para ouvir músicas se comparada com a procura louca atrás de vinis e raridades.

André acredita que o rock morreu. Eu discordo, porque o rock’n’roll é a trilha-sonora ideal para uma São Paulo tomada por protestos desde junho de 2013. As manifestações não tem música própria, então eu crio a minha, com velharias de outras épocas. O heavy metal e o punk combinam com a cidade cinzenta onde vivo. A mesma cidade que André Forastieri viu se formar.

Não sei se o livro será um sucesso de vendas. O que sei é que a experiência de jornalista e de crítico deve ter um envolvimento com os assuntos que você trata. André teve uma relação com games, com a imprensa e, principalmente, com a música. Não basta, então, criticar algo, se você não tiver nenhum envolvimento.

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