domingo, 22 de junho de 2014

O jornalista, o sósia e os jornais

Por Sylvia Moretzsohn, do Observatório da Imprensa
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Vamos discutir isso a sério: um jornalista experiente como o Mario Sergio Conti, colunista da Folha de S.Paulo e do Globo, realiza uma entrevista com o Luiz Felipe Scolari. Os dois jornais publicam na quarta-feira (18/6) a entrevista em seus sites. Só que o Felipão não é o Felipão, é um sósia dele. 

Aí os jornais publicam um desmentido (ou um “erramos”) e tiram o texto original do ar.

A história cai na rede e provoca uma série de comentários contraditórios e especulações.

Uma jornalista recupera o texto no cache do Google e sugere que pode ter havido um erro de quem fez o título, considerando o final da entrevista, em que Conti convida o suposto Felipão para o seu programa na GloboNews e o sósia lhe entrega um cartão, identificando-se como “Vladimir Palomo – sósia de Felipão – eventos”. 

Em suma, os redatores (da Folha e do Globo) teriam se empolgado e tomado por verdade o que era fake.

Outra jornalista diz que o texto era claramente uma ironia. Faz sentido?

1. O texto inteiro é redigido como se fosse verdade. No final, o sósia se revela. Seria então uma autoironia: o jornalista entrevista um sósia achando que é o Felipão e no final revela que foi enganado. Mesmo? E qual a graça disso?

Muito mais provável seria considerar que o jornalista pensava estar entrevistando de fato o técnico da seleção e, finalmente, recebendo o cartão, teria verificado o engano. Mas isso simplesmente derrubaria a matéria.

Ou então – como sugeriram alguns, antes de saber do desfecho da história – que o jornalista tivesse pensado que o (supostamente verdadeiro) Felipão lhe entregara um cartão com o nome do sósia para fazer uma brincadeira, como a de sugerir que convidasse um sósia a seu programa de entrevistas, já que no momento estava muito ocupado com a Copa.

2. Se era uma ironia, por que Conti pediria desculpas, através da nota que tanto O Globo quanto a Folha publicaram?

E o leitor?

O caso acabou esclarecido no fim da tarde de quinta-feira, quando a Zero Hora, de Porto Alegre, publicou entrevista com o jornalista e o sósia entrevistado por ele (ver “Mario Sergio Conti: ‘Pensei realmente que era o Scolari’”). Logo depois, apareceria matéria no site da Folha e, pouco mais tarde, também no do Globo, nas quais o jornalista reconhecia o erro.

O mais relevante, entretanto, é a maneira como os jornais trataram o episódio: inicialmente, com um sucinto pedido de desculpas e a eliminação do link para o texto original, só ressuscitado depois da repercussão que o caso ganhou nas redes sociais.

Não vivem dizendo que o leitor deve tirar suas próprias conclusões? A que conclusões o leitor pode chegar (mesmo a essa de que teria sido uma ironia mal compreendida), se não tem acesso ao texto?

***

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

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