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domingo, 22 de junho de 2014

O jornalista, o sósia e os jornais

Por Sylvia Moretzsohn, do Observatório da Imprensa
Creative Commons


Vamos discutir isso a sério: um jornalista experiente como o Mario Sergio Conti, colunista da Folha de S.Paulo e do Globo, realiza uma entrevista com o Luiz Felipe Scolari. Os dois jornais publicam na quarta-feira (18/6) a entrevista em seus sites. Só que o Felipão não é o Felipão, é um sósia dele. 

Aí os jornais publicam um desmentido (ou um “erramos”) e tiram o texto original do ar.

A história cai na rede e provoca uma série de comentários contraditórios e especulações.

Uma jornalista recupera o texto no cache do Google e sugere que pode ter havido um erro de quem fez o título, considerando o final da entrevista, em que Conti convida o suposto Felipão para o seu programa na GloboNews e o sósia lhe entrega um cartão, identificando-se como “Vladimir Palomo – sósia de Felipão – eventos”. 

Em suma, os redatores (da Folha e do Globo) teriam se empolgado e tomado por verdade o que era fake.

Outra jornalista diz que o texto era claramente uma ironia. Faz sentido?

1. O texto inteiro é redigido como se fosse verdade. No final, o sósia se revela. Seria então uma autoironia: o jornalista entrevista um sósia achando que é o Felipão e no final revela que foi enganado. Mesmo? E qual a graça disso?

Muito mais provável seria considerar que o jornalista pensava estar entrevistando de fato o técnico da seleção e, finalmente, recebendo o cartão, teria verificado o engano. Mas isso simplesmente derrubaria a matéria.

Ou então – como sugeriram alguns, antes de saber do desfecho da história – que o jornalista tivesse pensado que o (supostamente verdadeiro) Felipão lhe entregara um cartão com o nome do sósia para fazer uma brincadeira, como a de sugerir que convidasse um sósia a seu programa de entrevistas, já que no momento estava muito ocupado com a Copa.

2. Se era uma ironia, por que Conti pediria desculpas, através da nota que tanto O Globo quanto a Folha publicaram?

E o leitor?

O caso acabou esclarecido no fim da tarde de quinta-feira, quando a Zero Hora, de Porto Alegre, publicou entrevista com o jornalista e o sósia entrevistado por ele (ver “Mario Sergio Conti: ‘Pensei realmente que era o Scolari’”). Logo depois, apareceria matéria no site da Folha e, pouco mais tarde, também no do Globo, nas quais o jornalista reconhecia o erro.

O mais relevante, entretanto, é a maneira como os jornais trataram o episódio: inicialmente, com um sucinto pedido de desculpas e a eliminação do link para o texto original, só ressuscitado depois da repercussão que o caso ganhou nas redes sociais.

Não vivem dizendo que o leitor deve tirar suas próprias conclusões? A que conclusões o leitor pode chegar (mesmo a essa de que teria sido uma ironia mal compreendida), se não tem acesso ao texto?

***

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Comunicação em Grafite e Pichação durante os protestos de junho e ao longo de 2013

Artigo originalmente desenvolvido como um trabalho do curso de Estética III, do professor Dr. Leon Kossovitch, na FFLCH-USP. Aviso: O texto é longo.

Por Pedro Zambarda

A arte como representação de seu tempo

“O fim da história da arte não significa que a arte e a ciência da arte tenham alcançado o seu fim, mas registra o fato de que na arte, assim como no pensamento da história da arte, delineia-se o fim de uma tradição, que desde a modernidade se tornara o cânone na forma que nos foi confiada”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.

Quando Hans Belting lançou seu livro O Fim da História da Arte, decidiu colocar um ponto de interrogação no final da sentença, indicando, em parte, uma dúvida ao questionar os padrões estéticos. O autor estava num impasse ao duvidar de uma noção de trajetória histórica fixada pela educação formal. O meio artístico, ressaltado por Belting, já havia passado por movimentos como o Cubista, o Dadaísta, o Bauhaus e diversas vanguardas contemporâneas que contribuíram para facilidade de difusão dos meios. No campo da filosofia, Belting também ressalta escassez de pensadores totalmente originais no século 20 e ressalta o esvaziamento que atingiu a metafísica. Cita Jean-Paul Sartre, Martin Heidegger e Theodor W. Adorno. Os três, nascidos entre os anos de 1890 e 1900, exibem teorias que tentam refundar a ótica do pensamento histórico-filosófico, ou denunciam o desgaste de uma visão moderna.

“A obra de arte possui uma unidade peculiar que possibilita uma forma totalmente própria de narrativa: A interpretação. Ela não está ligada a priori nem a um método e nem mesmo a um ponto de vista, pois uma obra pode admitir vários métodos e responde a muitas questões ”, explica Hans Belting, em um capítulo de seu livro dedicado a uma dúvida se a história deve ser da arte ou das obras em si. Belting estabelece como visão diferenciada, por exemplo, da visão dos poetas da Antiguidade Clássica, greco-romana. A tradição, nesta civilização antiga, era a das obras simbólicas e até mesmo das obras de arte “inventadas”, de acordo com o autor alemão. Um exemplo claro, dentro da filosofia, são os manuscritos divulgados por Platão sobre os atos e os pensamentos de seu mestre, Sócrates, entre os anos 399 e 347 a.C. A biografia de Homero e de diversos nomes conhecidos do mundo grego também foram submetidas a uma análise que escapam de uma interpretação direta, está transformada em símbolo.

Com esta estética esgotada, progressivamente mais subjetiva ao olhar do espectador e muito distante de padrões estabelecidos pelo Renascimento Cultural na Europa dos séculos 14 e 16, o grafite ressurge como uma manifestação de protesto na Paris de 1968, no auge dos movimentos estudantis da Sorbonne.

Os grafiteiros se transformam em agentes artísticos com suas mensagens e eles ganham, aos poucos, relevância com a ascensão do street art e do hip-hop como música nos anos 1990.

“Há muito tempo a arte já não é mais um assunto de elite, mas assume em substituição todos os papéis da representação de identidade cultural, os quais nesse meio tempo não têm mais lugar nas instituições da sociedade. Quem fala sobre arte  a encontra em todas as funções possíveis por ela exercidas hoje. Em todo caso, onde a arte entra em cena o especialista é apenas requisitado apenas por uma questão ritual e não mais para um esclarecimento sério. Onde a arte não gera mais conflitos, mas garante um espaço livre no interior da sociedade, ali desaparece o desejo de orientação que sempre estava voltado para o especialista. Onde não existe mais esse desejo, ali também deixa de existir o leigo”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.


Nesta teoria atual, de crítica da história da arte e de desgaste de seus principais argumentos, ascende no Brasil uma série de grafiteiros e artistas de rua que ressaltam o esgotamento dos especialistas. Os membros dessa cena de street art nacional não se enquadram em padrões culturais da elite que frequenta grandes leilões de quadros, mas parecem autores de peças de arte conectadas diretamente ao cotidiano das pessoas nas ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de muitas outras cidades urbanizadas, que convivem com a alta concentração populacional combinada com problemas de desníveis econômicos e sociais relevantes.

A cena do grafite paulistano e os protestos de junho de 2013

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Em 1986, os irmãos gêmeos Otávio e Gustavo Pandolfo começaram a grafitar aos 12 anos de idade. Era ascensão do rap norte-americano e da cultura hip-hop negra excluída. Os dois vinham de famílias de artistas e já tinham contato com lápis e desenho desde os três anos de idade. Passaram a assinar os grafites em São Paulo com o nome OSGEMEOS.

A oportunidade de crescimento dos dois, que tirou eles de apenas fazer uma arte transitória, foi o encontro com o grafiteiro Barry Mgee (Twist), que veio de São Francisco, nos Estados Unidos. Mgee exibiu sua arte de rua em exposição e mostrou à dupla que era possível conquistar notoriedade com esta arte em 1993. Em 95, OSGEMEOS chegaram ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) e ganharam holofotes para sua arte que começou com tintas de carro, látex, spray e bicos de desodorante e de perfume para moldar traços. Do MIS, partiram para mostras em Munique e em São Francisco.

Foto: Reprodução/YouTube
Muitas vezes a arte de Otávio e Gustavo se transforma em uma metáfora do próprio ato de grafitar. São ilustrações urbanas que exibem a figura transgressora do grafiteiro dentro da imagem, não no sentido de vândalo, mas sim na composição de uma determinada arte.

A ascensão do grafite no Brasil, sobretudo em São Paulo, está diretamente ligado à forma como a cidade se expandiu e como hoje ela se tornou uma metrópole com mais de 200 milhões de habitantes em 2013. O local absorveu brasileiros do norte e do nordeste que se tornaram mão-de-obra, já foi uma cidade industrial e hoje é uma capital de serviços. Com a padronização das habitações em edifícios, a arte de rua se transformou em uma modificação desses espaços públicos e privados.

“São Paulo é uma selva de concreto. Prédio, prédio, prédio e quanto mais se constrói, mais há prédios e menos árvores e parques. Eles constroem um muro em volta. De alguma forma, você tem que fugir disso ou fazer parte. Essa é a história do grafite”.

Otávio Pandolfo, grafiteiro do grupo OSGEMEOS, no documentário Cidade Cinza.

OSGEMEOS não é o único grupo de grafiteiros famoso na cena paulistana. Também temos o nome de Carina Pandolfo, esposa de Otávio conhecida pelo nome Nina. Francisco Rodrigues da Silva, o Nunca, tornou-se grafiteiro aos 12 anos no bairro de Itaquera, zona leste paulistana, na periferia da capital. Do Cambuci, região central de São Paulo, surgiu Claudio Duarte, conhecido pelo apelido Ise, que aponta a gênese de sua arte no coração da metrópole onde ele vive e gosta de traços de letras estilizadas. Um último nome muito conhecido no grafite que vale a menção é Daniel Melim, responsável pelo desenho de uma mulher loira com traços similares ao de quadrinhos americanos retros, das décadas de 1950 e 1960. O desenho feito em um prédio pode ser visualizado na Avenida Tiradentes, indo da zona norte de São Paulo em direção à zona sul, no corredor de carros.

Foto: Pedro Zambarda
No ano de 2006, o economista Gilberto Kassab assumiu a prefeitura da cidade de São Paulo no lugar de José Serra, que renunciou ao cargo para concorrer ao governo do estado. Kassab implantou, logo no primeiro ano de sua gestão, a Lei Cidade Limpa, que removeu outdoors e tudo o que a prefeitura considerou como poluição visual. O alvo, obviamente, não ficaria apenas na publicidade. Em pouco tempo, Kassab começou uma guerra de tinta contra grafiteiros e artistas de rua. Ao ser reeleito em 2009, o prefeito também criou leis contra poluição sonora, interferindo em shows musicais na metrópole e detendo musicistas na Avenida Paulista e na Rua Augusta. Até o fim da gestão Kassab, em 2012, fazer arte ganhou um tom político.

O político era do PSD (divisão do DEM), um partido alinhado aos interesses do PSDB, legenda de oposição ao governo federal do PT. Em 2013, com uma virada eleitoral não esperava, o petista Fernando Haddad triunfou nas votações e assumiu o posto de Gilberto Kassab. A vinda de Haddad do PT alimentou expectativas de que uma gestão muito diferente e bem menos austera com a street art estava por vir.

O que os artistas esperavam não se concretizou. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, em maio de 2013, a gestão Haddad removeu grafites expostos pela dupla OSGEMEOS na cidade. Os grafiteiros fizeram um manifesto público e continuaram a desenhar na cidade. Disseram eles: "A arte de rua é apagada desde 2007 na cidade! Esperamos com este alerta que a Prefeitura de São Paulo e seus órgãos 'competentes' parem definitivamente de apagar os graffitis (sic) e respeitem e preservem a arte de rua em todos os seus segmentos ".

Este embate entre a cultura que emana das ruas encontraria reforço nos protestos que tomaram conta das ruas no mês seguinte. A maioria das mobilizações foi desencadeada por um grupo de jovens do Movimento Passe Livre (MPL).

Foto: Reprodução/Facebook/Os-Gemeos
Na mesma época, as passagens de transporte coletivo de São Paulo, tanto de ônibus quanto metrô, subiram do preço de R$ 3,00 para R$ 3,20. A alta no custo atraiu uma articulação do MPL, que existe desde 2005, surgido em Porto Alegre. Formado por estudantes em sua maioria universitários, o Movimento Passe Livre não tem lideranças carismáticas e possui uma organização mais horizontalizada, o que facilita a entrada de novos nomes. A principal defesa da mobilização é a criação de um transporte 100% público , ou seja, gratuito.

No entanto, antes de atingir esta, que é a maior das pautas de reivindicações, o MPL definiu metas mais realistas. A primeira delas se tornou a redução do preço das passagens de R$ 3,20 para o valor original de R$ 3,00. Protestos passaram a ser organizados e foi desta forma que começaram as chamadas “Jornadas de Junho”.

Em 6 de junho de 2013 começou o primeiro ato impulsionado pelo MPL, saindo do Teatro Municipal, no centro paulistano. Com presença de pessoas da periferia, a mobilização chegou até a Avenida 23 de Maio e colocou fogo em catracas. O movimento já contava com os chamados Black Blocs, pessoas que adotavam uma tática de vestir máscaras e revidar reações da polícia contra os protestos.

O confronto chegou na Avenida Paulista e voltou a acontecer nos dias subsequentes. Na mesma mobilização, surgiram pichações, uma forma de manifestação gráfica que normalmente é confundida com o grafite.

Foto: Pedro Zambarda
O MPL fez diversos atos após o dia 6, aprofundando a importância da diminuição das passagens e angariando simpatizantes. No dia 13 de junho, as jornadas se radicalizaram após excessos da Polícia Militar de São Paulo no quarto ato. Jornalistas foram agredidos no ato, como foi o caso de Giuliana Vallone, repórter da Folha de S.Paulo, que levou um tiro de bala de borracha no olho, mas não ficou cega graças ao seus óculos. No entanto, o fotógrafo da Futura Press Sérgio Silva não teve a mesma sorte: Ficou cego no olho direito. Além dos dois, Piero Locatelli, repórter da revista Carta Capital foi preso por porte de vinagre. Segundo o jornalista, ele levou vinagre no protesto para amenizar os efeitos de bombas de gás lacrimogêneo disparadas pela polícia. Pessoas foram presas arbitrariamente, sem provas de vandalismo ou transgressão social.

As Jornadas de Julho ainda foram impulsionadas pelo quinto ato, no dia 17 de junho, com adesão em massa que colocou pelo menos 1 milhão de pessoas na rua , sem nenhum revide da Polícia Militar em São Paulo. Os manifestantes chegaram até o palácio do governo de São Paulo, derrubaram as grades e, na volta, pularam as catracas do metrô. Ocorreram também manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Em Brasília, os protestos invadiram a Esplanada dos Ministérios. Outros atos foram organizados, chegando também até a sede da prefeitura de São Paulo, no centro. Os protestos agruparam outras pautas, como o combate à corrupção, a queda da PEC 37, a prisão dos mensaleiros do PT, a corrupção do metrô de SP pelo PSDB, entre outros muitos movimentos com motivação política. Até o final de 2013, continuaram ocorrendo mobilizações descentralizadas por parte da população.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Qual é a diferença entre grafite e picho?

“Em São Paulo tem várias categorias de pichação. Tem os caras que fazem só muro, tem os caras que fazem janela, tem os caras que fazem mais prédio, tem os caras que fazem mais escalada (sic) e tem os caras que fazem tudo. O fundamental da pichação daqui de São Paulo, independente das categoria (sic), é o cara ter bastante pichação”.

Djan, pichador em uma fala do documentário Pixo de 2009.

Foto: LiaC/Wikimedia Commons
De acordo com pichadores e fotógrafos entrevistados no documentário Pixo, de 2009, dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira, o principal recurso estético e linguístico do picho é sua comunicação fechada. Através de códigos e desenhos de letras, a pichação polui o ambiente e revela a manifestação de setores excluídos da sociedade, como os pobres, os favelados e os jovens que estão envolvidos em uma vida de crimes. Ao executar o ato de pichar, muitos desses indivíduos entram em choque com a segurança pública ostensiva, que é a Polícia Militar de São Paulo, a mesma que reprimiu os protestos de todo o restante da população em 2013.

Um motoboy chamado Zé, fã de Iron Maiden, que diz que cruza a metrópole paulistana toda, diz que é “viciado em pichação”, no documentário Pixo. Ele confessa: “É difícil eu não ter entrado em uma rua que eu não pichei em São Paulo”. Sua motivação não parece ser a arte ou o desenho, como é o caso dos grafiteiros OSGEMEOS, mas sim sua relação de obsessão e revolta com a cidade. 

No entanto, mesmo com essa manifestação, os pichos podem guardar uma logomarca própria, que serve para identificar o pichador. Eles podem adquirir traços próprios que buscam diferenciar determinadas letras das demais. O “caderno de caligrafia” destes pichadores são os prédios das cidades, as estruturas urbanizadas e o design cinza e sem cor da metrópole.

Das referências musicais, o grafite nasceu tipicamente do hip-hop e do rap negro, músicas tradicionais de cidades grandes. A pichação, pelo seu aspecto mais rebelde e por seus constantes confrontos com a polícia, advém de roqueiros punks paulistanos, além dos protestos da esquerda contra a Ditadura Militar . Existe muita arte entre as duas tendências de arte/protesto de rua, mas elas apontam para diferentes caminhos, embora, para um leigo, a pichação continue sendo algo tão “sujo” para a cidade quanto o melhor e mais bem acabado dos grafites.

Com as Jornadas de Junho em 2013, o picho voltou como um formato estético de impacto quanto como um veículo de mensagem dos protestos do MPL e de outros movimentos sociais.

Foto: Pedro Zambarda
Diferente dos pichadores punks ou dos jovens de periferia com linguagem cifrada, as pichações dos protestos em 2013, próximos das Copas das Confederações e do Mundo, adquiriram um discurso político pesado, irônico e escrito em uma tipografia simples e legível. Na Avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, próximo à TV Globo de São Paulo, as mensagens grafadas nos prédios atacavam uma burguesia e uma classe média alienadas em ações contra corrupções e os desmandos de políticos, partidos políticos e do Estado como um aparelho único. “Poder Popular” apareceu em um prédio comercial na Berrini. Anteriormente aos milhões nas ruas, o MPL foi duramente reprimido pela Polícia Militar de São Paulo, chamado de “vândalos” e agredidos quando tentaram se defender, em um combate desigual contra as autoridades. Esse cenário fervente alimentou o surgimento do Black Bloc como tática contra a polícia, com pessoas comuns vestindo máscaras e atacando com paus e pedras as autoridades.

No entanto, somente quando jornalistas e indivíduos de classes mais altas foram feridos fatalmente, sendo que alguns perderam a visão, os protestos ganharam ignição significativa entre a classe média. Pacificamente, mas sem entender direito as pautas daqueles que já estavam nas ruas, essas novas pessoas engrossaram as vozes e diminuíram os preços das passagens de ônibus e de metrô, atingindo uma das metas do MPL. Isso gerou, obviamente, pichações nas ruas, nos metrôs, nos grafites e em todo lugar. O picho era como se fosse uma voz rouca da rua, dizendo o que estava acontecendo historicamente, embora não tenha resolvido a maior parte dos problemas de corrupção do país.

Foto: Pedro Zambarda
Foto: Pedro Zambarda
Na frente da estação de trem da região da Vila Olímpia é possível ver duas pichações que fazem uma conexão total com os protestos que ocorreram no Brasil: “O Povo Acordou” e “Copa das Manifestações”. As frases escritas na Berrini foram apagadas no mês de setembro, após ficarem quase três meses no local, entre junho e agosto. No entanto, as pichações da Vila Olímpia permaneceram. Refletem, em parte, a identificação das pessoas com os protestos, principalmente as camadas mais pobres.

O picho ganhou força com os protestos. Foi enquadrado como depredações da mesma maneira que a destruição de vitrines de bancos por Black Blocs, que enfrentaram a Polícia Militar. No entanto, o clima de revolta contra o aumento das passagens dos transportes tornou os dizeres “Poder Popular” dos pichadores muito mais artístico e político do que o picho convencional feito por gente da periferia.

Um caso em que a pichação foi encarada de outra forma ocorreu em 12 de junho de 2008, no Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo. Um pichador mascarado invadiu uma exposição de estudantes do ensino superior da instituição. Ao tentar escrever sua mensagem, foi expulso e detido pela polícia. A atitude de proteger o local da arte de elite dos seguranças universitários foi o álibi perfeito para que um grupo de pichadores invadisse o local, manchando o interior e o exterior do prédio. O ato se transformou pancadaria entre pobres e pessoas socialmente mais favorecidas.

“Você acha que isso é beleza? Isso ai é coisa de incompetente, de pessoas frustradas, de caras que não tem objetivo na vida. Essa porcaria ai é de cara analfabeto, rapaz. Beleza é o pôr-do-sol, é (sic) as cores da luz branca, de onde vem outras cores. Ela nos alegra todo dia. É arte, tá me entendendo. Não essa porcaria sintética, fedida e que faz mal ”, afirmou José Carlos de Oliveira, funcionário da Belas Artes, na ocasião. O picho não consegue ter um reconhecimento absoluto como arte, mas transmite uma linguagem, mesmo que seja através de uma agressão e de um vandalismo. No contexto dos protestos populares impulsionado pelo Movimento Passe Livre, em São Paulo, a pichação ganhou autenticidade, aceitação e uma comunicação mais universal, além do vocabulário sufocado e cifrado da periferia.

A pichação feita na Belas Artes é feita com letras estilizadas, quase ilegíveis para quem está acostumado ao alfabeto latino tradicional. A tipografia é tratada para refletir ou uma linguagem fechada, ou o estilo do pichador. Ao ser utilizado nos protestos contra o Estado em 2013, o picho assumiu formas e letras tradicionais. Foi lido pela maioria das pessoas na rua, concordando com a mensagem ou não.

Foto: Reprodução/YouTube
“Pichação em São Paulo é muito mais interessante do que o grafite na cidade. O que eu vejo eu acho muito kitch, assim. O grafite é um tipo de arte careta, muito careta. A pichação tem uma vantagem sobre isso. Ela pode ser tudo, mas careta ela não é. Tanta coisa boa no mundo não é arte. Eu não entendo por que isso deve ser arte”.

Tiago Mesquita, crítico de arte presente no documentário Pixo.

Entendendo a história de OSGEMEOS, já mencionada, verifica-se que o grafite é uma arte que já estava internacionalizada quando ganhou forma em São Paulo. A pichação tomou um caminho inverso, nascendo com um código próprio da periferia paulistana e dos grupos punks e de roqueiros que estavam na cidade. Da mesma forma, os grafites baseados nos protestos de São Paulo demoraram um tempo maior do que as pichações para ganhar destaque para as pessoas e para a imprensa.

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Otávio e Gustavo Pandolfo grafitaram um manifestante com uma mensagem de protesto após o dia 13 de junho de 2013, quando o repórter Piero Locatelli, da Carta Capital, foi preso por porte de vinagre. OSGEMEOS fizeram uma crítica direta às constantes censuras que jornalistas estavam enfrentando nos protestos, sobretudo da Polícia Militar de São Paulo.

O desenho foi feito na Avenida 23 de Maio, no Bairro do Paraíso e continha os dizeres “Vinagre é Crime”. A prefeitura paulistana apagou a mensagem em meados de julho. OSGEMEOS então colocaram uma segunda mensagem, mais provocadora, mencionando a Constituição Brasileira: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença. Artigo 5º”. A atitude de grafitar, ser apagado e trazer uma nova mensagem ocorreu muito depois das primeiras pichações durante as Jornadas de Junho.

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Ou seja, os protestos deixaram em evidencia o picho, enquanto o grafite manteve sua dimensão artística e até aceita em determinados espaços públicos. Como o senso comum não costuma diferenciar os dois ofícios, quando a pichação ganhou destaque por mensagens da população em mobilização, ela parecia de fato uma arte de rua que refletia aquele momento histórico do Brasil.

Possível conclusão

“A arte antiga tornou-se parte integrante da cultura que veneramos por causa de sua beleza e não por causa de sua verdade ou atualidade”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.

No dia 5 de novembro de 2013, o cantor de música pop Justin Bieber grafitou um muro nas ruas de São Conrado, Rio de Janeiro, com conivência das autoridades policiais. Por ser celebridade, o músico não sofreu nenhuma repressão física. Bieber não é pobre, e não tem motivos sociais para se manifestar em um desenho em uma cidade brasileira. Mesmo assim, esteticamente, o artista canadense se sente atraído pela street art e por essas manifestações urbanas de cultura.

Por esse motivo, podemos dizer sim que grafite e pichação são formas esteticamente artísticas, que adquiriram forma com os movimentos musicais presentes nas grandes cidades hoje, acompanhadas por livros e leituras críticas sobre a verticalização das moradias. Em uma cultura de prédios e de grandes corporações capitalistas, criar obras de arte nas paredes de cor cinza é tanto uma manifestação direta quanto um formato adequado de arte, que contrasta com a pintura clássica ou mesmo com o modernismo do começo do século 20. Mesmo a transgressão das formas em Pablo Picasso não chega aos pés dos inúmeros edifícios pichados na capital paulistana. A visão artística do pichador beira a desobediência civil, sobretudo com o risco de cair dos prédios ao fazer um picho ou as perseguições, agressões físicas e processos que ele pode sofrer da polícia e das entidades de justiça brasileiras.

A pichação é paradoxal por consistir, apenas, em letras e palavras escritas de maneira cifrada. No entanto, elas manifestam o desejo subjetivo do artista daquela montagem com sprays de tinta. Não se trata de um desenho, mas apenas de termos rabiscados nas paredes. Beira o vandalismo de acordo com uma visão tradicionalista de arte, cristalizada nos museus, nas grandes curadorias e nos grandes leilões artísticos. Ao pichar um local, passa-se uma mensagem independente de reflexões prolixas sobre a arte. O picho é um ato que está sempre em discussão, mas que adquire uma estética válida, por exemplo, quando representa as vozes de milhões de brasileiros que foram reclamar de seus governantes e de seus políticos. De seus poderosos. No entanto, mesmo quando é considerado como uma estética válida, pode se tornar caso de polícia.

O grafite é parecido quando é reprimido da mesma forma pela autoridades, mas tem um forte apelo de formas por consistir essencialmente de ilustrações, monstadas com tintas, texturas e diversos materiais. Os grafiteiros se destacam como porta-vozes dos protestos, mas também ganham espaço no design de anúncios publicitários e outros formatos comercialmente aceitos pelo mercado.

Arte Fora do Museu, site criado por André Deak e Felipe Lavignatti, foi criado como uma plataforma colaborativa em 2011 e ganhou o prêmio Web’s Got Talent em 2013, promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) , pelo Núcleo de Coordenação do Ponto BR (NIC.br)  e pelo W3C Brasil. A página online traz uma premissa simples: Catalogar a arte tipicamente de rua em forma de mapas e bancos de dados.

Mais de 100 cidades brasileiras foram catalogadas e, agora, o projeto está começando a rastrear a street art em cidades como Barcelona (Espanha), Montevidéu (Uruguai) e Nova York (EUA). Deak e Lavignatti, dois jornalistas, não embolsaram um centavo do projeto, mas conseguiram patrocinadores e apoios para sustentar o site. O Governo Federal, o Ministério da Cultura e o Festival Cultura Inglesa foram algumas das entidades que contribuíram para a expansão e inclusão de colaborações na internet. Os mapas podem ser configurados e complementados por visitantes do site.  

Mesmo com essas possibilidades, o site não fez um mapeamento de pichações. As artes incluídas como categorias do site são arquitetura, grafite, colaborativa e mural. O picho, sendo uma expressão típica da periferia e dos excluídos, é controversa e não possui uma memória consistente. Dentro da iniciativa de Deak e Lavignatti, o grafite já está se tornando uma história em mapas e perfis de artistas, mesmo sobrevivendo fora de museus e de algumas galerias culturais.

Foto: Reprodução/Arte Fora do Museu
Referências

Livros
BELTING, Hans. O Fim da História da Arte. Editora Cosac Naify. 2003.
COTTINGTON, David. Cubismo. Editora Cosac Naify. 2004.

Documentários
MESQUISA, Marcelo. VALIENGO, Guilherme. Cidade Cinza. 2013.
WAINER, João. OLIVEIRA, Roberto T. Pixo. 2009.

Sites
DEAK, André. LAVIGNATTI, Felipe. Arte Fora do Museu. 2011.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Alain de Botton recorre à filosofia para criticar a imprensa

Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Masha Goncharova [“Why must the news be so newsy?”, The New York Times, 4/3/14]
Do Observatório da Imprensa, por Creative Commons.

O escritor suíço-britânico Alain de Botton, fundador da School of Life, é considerado uma espécie de “filósofo pop”. Seus livros aplicam conceitos filosóficos na resolução de dilemas cotidianos. Ele se assume escritor de autoajuda e já abordou assuntos como amor, arte, religião e arquitetura. Em sua mais recente obra, De Botton aplica este mesmo formato para discutir a imprensa moderna.



No início de março, o escritor se apresentou no evento literário Unbound, organizado pela Brooklyn Academy of Music, em Nova York, para falar de The News: a user’s manual (“As notícias: manual do usuário”, em tradução livre).

Segundo De Botton, o livro parte da ideia de que, atualmente, a notícia ocupa na sociedade uma posição antes pertencente à religião (ideia emprestada de Hegel). “Lemos notícias quando acordamos e quando vamos dormir”, declarou o autor, completando: “Certamente estamos numa época em que iniciamos o domingo lendo notícias em vez de ir à igreja”.

Críticas



Críticos ficaram confusos com a definição vaga de notícia – as citações apresentadas no livro vão desde textos de jornais tradicionais até postagens de blogs de fofocas de celebridades – e pela ausência de fontes acadêmicas e dados estatísticos na obra.

Em comentário para o diário americano Boston Globe, o jornalista James Sullivan escreveu que De Botton é “lamentavelmente deficiente” na pesquisa. Peter Preston escreveu no britânico Guardian que o livro poderia ser “irritante, bem como estimulante”, e criticou De Botton por “meramente bancar o consumidor insatisfeito”.

Durante a palestra na Brooklyn Academy, o autor defendeu a postura sombria de seu livro para com a imprensa moderna. “A notícia nos leva à beira de algo profundamente interessante, mas daí nos abandona ao processo que Aristóteles chama de catarse”, disse, referindo-se à forma como as notícias do mundo moderno estabelecem os fatos, porém resistem a chegar a qualquer conclusão ou expor vieses.

Ele afirma ainda que a notícia deve fazer mais para explicar a relevância dos acontecimentos atuais e aponta duas maneiras de manter um indivíduo politicamente passivo: suprimir todas as notícias dele (como no caso da Coreia do Norte), ou inundá-lo com informações. "Quem se lembra do que aconteceu nos noticiários na semana passada?”, questionou. “Ninguém consegue se lembrar de nada. É impossível”.

Visão utópica

Apesar dos argumentos dos críticos, muitos na plateia da palestra pareceram acolher as críticas do escritor. Assim que o microfone foi aberto para perguntas, um espectador questionou por que atualmente a mídia parecia “detonar” figuras supostamente apresentadas como heroicas desde nossa infância, como policiais, professores e bombeiros. Outras perguntas tocaram em situações hipotéticas, como uma agência de notícias que só apresentasse notícias positivas.

Na visão utópica de De Botton, jornalistas explicariam as “verdades que já conhecemos” em vez de ficar tentando publicar histórias mais recentes e mais reveladoras. Um membro da plateia desafiou esta versão ideal, apontando que a indústria, na verdade, visa o lucro ao levar informações recentes ao público. De Botton rebateu que o futuro do jornalismo dependerá de “micropagamentos por conteúdo fragmentado” ou da forma atual como as pessoas pagam por assinaturas. “Alterar o modo como as organizações de notícias ganham dinheiro vai mudar fundamentalmente a nossa democracia”, concluiu.

Recentemente, Alain de Botton criou um blog de notícias, o The Philosopher’s Mail (o nome é uma brincadeira com o tabloide britânico The Daily Mail). Os artigos são escritos por membros da School of Life, organização com sede em Londres que promove cursos, livros e eventos voltados à inteligência emocional. O blog apresenta fofocas de celebridades, incluindo entrevistas imaginárias com as “almas” de celebridades ao lado de notícias e artigos opinativos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Por que fazer uma graduação em Filosofia?

Desde 2010, eu faço um curso de graduação em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP). Ao chegar no quarto ano do curso, resolvi tentar responder uma pergunta: Por que você deveria estudar isso? Tentei não dar respostas muito óbvias, como parecer inteligente, escrever de forma prolixa ou entender o sentido da vida. Estes são argumentos (bem) superficiais.

Foto: Réplica da escultura "O Pensador", de Auguste Rodin, em Berlim. Autora: Andréa Lagareiro
Filosofia não dá dinheiro, filosofia geralmente é um conhecimento utilizado para formar professores de filosofia e, em casos de sucesso e bem raros, filosofia pode ser assunto de livros que são sucesso de crítica (e não de vendas). A notoriedade de um pensador normalmente acontece depois de sua morte.

Saindo dessas superficialidades, seguem 10 bons motivos para estudar filosofia.

1. Estudar filosofia é entender o começo da ciência, da cultura e do conhecimento. Quem estuda os pensadores, entra em contato com literatura, física, biologia, matemática e as diferentes abordagens para absorver informações - Ler os textos de Galileu Galilei ajuda a entender mecânica básica da física, enquanto René Descartes esclarece o papel das matemáticas em suas Meditações. Voltaire traz os textos de folhetins e dos jornais da imprensa revolucionária francesa. Aristóteles lida com os princípios da biologia. Ludwig Wittgenstein eleva o papel da linguagem para conhecer qualquer coisa.

2. Filosofia contribui para conectar diferentes conhecimentos - A ontologia (palavra que deriva dos termos gregos "ontos", que significa ser, e "logos", estudo) é o assunto principal de qualquer filósofo. Nesse aspecto, a filosofia se aproxima bastante do jornalismo e da comunicação como um todo. Ela lida com diferentes conhecimentos conectados. Ela tem como objeto de estudo o ser humano. E ele não se conhece apenas por números, por linguagem ou apenas pela ciência pura.

3. As ideias contribuem para acontecimentos práticos - Os socráticos, na Grécia, transformaram o pensamento mitológico em racionalidade e em conhecimentos científicos. Os estoicos, em Roma, prepararam o império para a decadência. Os iluministas traduziram os ideias da Revolução Francesa, que decapitou a realeza e até mesmo os próprios revoltados. Hoje há filósofos que pensam os limites da ciência e da extrema especialização, como Edgar Morin em Paris. A filosofia também se traduz em ideologias políticas e econômicas, como Adam Smith, no liberalismo capitalista inglês, e Karl Marx, na esquerda alemã.

4. A filosofia te ensina a pensar criticamente e a reproduzir as principais ideias históricas - Para que você tenha propriedade ao questionar a forma como a sua sociedade se comporta, é fundamental ler e depurar os autores que influenciaram gerações de outros pensadores, cientistas e figuras importantes da história. A filosofia nem sempre se comporta de forma linear e cronológica, mas influencia toda a humanidade, de uma forma ou de outra.

5. Filosofia te ensina o valor do sofrimento e das lições cotidianas - Os pensadores traduzem muitas de suas ideias em passagens de suas próprias biografias. No entanto, nenhum deles ensina a ser feliz, como alguns autores de autoajuda pregam. Mesmo assim, as histórias pessoais dessas pessoas acabam contribuindo para conhecimentos práticos da vida.

6. Filosofia mostra, claramente, que o conhecimento não é algo definitivo - Por ser mãe da ciência, e mais antiga do que ela própria, a filosofia prova que pensar não é definir as coisas de maneira fechada. As ideias estão em constante reforma e é por este motivo que ela floresce no ambiente acadêmico, às vezes transbordando para fora dele.

7. Estudar filosofia é, primordialmente, aprender a ler - E, para ler corretamente os autores, os professores deste tipo de curso passam anos depurando os diferentes vocabulários dos pensadores. Dar aulas de filosofia não significa simplesmente resumir livros, mas muitas vezes consiste em fazer leituras coletivas nas salas de aula.

8. Filosofia pode nos ajudar a pensar de maneira mais simples - Ao lidar com questões complexas elaboradas por livros filosóficos, você aprende que sua vida é muito diferente daqueles pensadores. No entanto, mesmo com essas diferenças, conseguimos enxergar suas ideias presentes em fatos mais banais. Com novas referências adquiridas dos conhecimentos filosóficos, conseguimos separar o que é importante. Nos tornamos mais simples, em determinados aspectos.

9. Filosofia é, acima de tudo, um exercício mental - Pensar filosoficamente contribui para que você não fique acomodado. Pensar de forma aprofundada acaba sendo, um pouco, pensar contra você mesmo. Você consegue calejar suas ideias ao praticar a filosofia. E isso é saudável.

10. A boa filosofia é um bom exercício de humildade - Filósofos que pensam nos limites do ser humano, no desespero, na dor e na morte nos fazem entender que o homem precisa de muito pouco para viver bem e até de maneira saudável. Por esse motivo, as boas ideias acabam sendo um exercício de humildade, que nos livra dos pensamentos mais fúteis, tanto do ponto de vista consumista quanto do ponto de vista do egoísmo puro.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A velha nova mídia, segundo o Observatório da Imprensa

Por Muniz Sodré, reproduzido pela licença Creative Commons.

A tal da Ninja


A reflexão pública sobre o fenômeno da “Mídia Ninja” suscita um exercício acadêmico adequado a este Observatório da Imprensa:

1. Digamos: dividindo uma garrafa de um litro de refrigerante em dez garrafinhas, podemos mudar o sistema de produção, de preços, de distribuição. Só que a natureza do produto oferecido ao mercado continua a mesma. Em certas circunstâncias, a pluralização da oferta é capaz de incrementar o grau de democratização da produção e do consumo, mas refrigerante não deixa de ser refrigerante.

2. Transportemos esta questão econômica para o plano sociológico, com outro produto sócio-histórico: o indivíduo. A “sociedade” sempre consistiu em ficções, com coloração e características de época. Na modernidade, o individualismo cria a possibilidade de pensá-la como uma agregação de unidades autônomas, portanto, os indivíduos como uma nova categoria de agentes na História. Tocqueville resume: “A aristocracia tinha feito de todos os cidadãos uma longa cadeia que se elevava do camponês até o rei; a democracia rompe a cadeia e separa cada elo”. Os indivíduos são múltiplos ou diversos (como as garrafinhas), mas se enfeixam todos no genérico criado pelo individualismo.

3. Ainda mais um transporte: a pluralidade dos meios de produção de informações é capaz de interferir na economia do sistema conhecido como “mídia” (também uma ficção conceitual), pode até mesmo incrementar a democratização das opiniões por meio da proliferação de canais alternativos. Não abala, porém, o conceito genérico de mídia. Pelo contrário, reforça-o.

A propósito deste assunto, é instrutivo inteirar-se da história da Rádio B-92, de Belgrado, formada por um grupo de jovens que cresceu, em meio aos destroços nacionais da Iugoslávia pós-Tito, na Sérvia oprimida por Slobodan Milosevic (ver B-92 – rock e resistência em Belgrado, de Matthew Collin). Era o que se pode chamar de uma “rádio guerrilha”. Nela se inspirou, durante dez anos e a partir de 1990, toda a resistência à tirania e ao genocídio comandado por Milosevic.

A B-92 tinha, entretanto, um slogan curioso: “Não confie em ninguém, nem na gente”. Evidentemente, era tempo de guerra, de sinistro extermínio étnico, em que cada jovem punha em jogo a própria vida em face dos riscos da dissidência jornalística. Num contexto desses, a verdadeira informação pode ser mais provocação do que objetividade factual.

Morto Milosevic, morta a ditadura, que fim levou a B-92? Consta ser hoje a mais respeitada organização de mídia dos Balcãs. Ou seja, a contrainformação militante e provocativa integrou-se à “respeitabilidade” da “velha senhora” (em evocação de “AVisita da Velha Senhora”, de F. Dürrenmatt) chamada mídia – hoje, jurássica. Na “Idade Mídia”, a classe média é ao mesmo tempo “classe mídia” e assim contribui ideologicamente para a produção de consenso hegemônico por parte desses intelectuais coletivos das classes dirigentes que são os dispositivos de informação pública.

Alma comprometida

Na verdade, talvez não precisássemos ir tão longe, até os Balcãs, para buscar exemplos midiáticos de algo caracterizado inicialmente como transgressão e que depois regressa como filho pródigo à casa da “velha senhora”. No Brasil, entre as décadas de 1960 e 80, o viés político-transgressor da questão comunicacional centrava-se nos meios de radiodifusão ditos “populares”, combatidos pelos latifundiários do espaço hertziano.

Registra-se até hoje, aliás, uma espécie de guerra subterrânea contra as emissoras de rádio comunitárias, perseguidas por aparelhos estatais e empresas hegemônicas. Segundo dados recentes, que levam em conta as multas e fechamentos cadastrados, a repressão aumentou em torno de 35% em todo o Brasil. Mas é preciso levar em conta também os altos custos de produção para qualquer um dos tipos da mídia jurássica, até mesmo uma pequena rádio que se queira minimamente apresentável.

Em contrapartida, a tecnologia eletrônica ao alcance da “classe mídia” (celulares, câmeras baratas, redes sociais) favorece um fenômeno como o da Mídia Ninja – ou pelo menos o favorece em contextos de efervescência social, como os das recentes manifestações de rua, quando se abre espaço para uma cobertura participante dos acontecimentos por meio de técnicas “precarizadas”. No passado, a ditadura militar também abriu espaço para um jornal como O Pasquim, tecnicamente precário em face dos recursos midiáticos na época, mas um sucesso de crítica e público.

Diante de fenômenos dessa natureza, pilotados por gente jovem ou disposta a experimentar, é comum assistir-se à desconfiança dos profissionais mais velhos e integrados na ordem da “velha senhora” para com os que lhes pareçam insurgentes. É o que transparece nas colunas da grande imprensa ou em entrevistas, como a realizada pelo Roda Vida, TV Cultura de São Paulo (ver aqui). Nesta última, alguns entrevistadores insistiam em detalhes do que chamavam “o négocio” dos Ninjas. As respostas tinham algo de hilário porque estavam geralmente vazadas numa terminologia ininteligível, tudo menos “jornalístico” no sentido técnico do termo. O que ficou muito claro é que havia dinheiro da Petrobras por detrás.

Depois, a questão é saber se aquela turma engajada no movimento das ruas está ou não fazendo “jornalismo”. Mas é também claro que estão! Alguém se lembra de Carlos Lacerda? Ninguém lhe contestava a condição de jornalista por se engajar na política o tempo inteiro com seus textos. E a grande mídia atual? É uma política que não ousa confessar o seu nome, a exemplo daquele amor louvado por Oscar Wilde.

É hipócrita e jurássica a definição de jornalismo atravessada por protestos de objetividade. Foi rara a objetividade da grande imprensa brasileira sob a ditadura militar. Mas quase todo mundo brandia como slogan profissional a frase de Joel Silveira: “Repórter não desfila na banda, vê a banda passar”.

Só que para desgosto desse magnífico repórter que foi Joel Silveira, a objetividade sempre pôde servir de álibi para tudo. Na redação do órgão “jornalístico” em que fomos brevemente contemporâneos de Joel, a objetividade frente à realidade apresentada (socialites, artistas, moças de biquíni etc.) consistia em ver não a banda, mas a bunda passar. Há um notável precedente para esta expressão na crítica feita por Jean-Paul Sartre ao jornalismo sensacionalista, que ele chamou de “imprensa de bunda e sangue”. Não é um trocadilho vão, portanto, mas uma metáfora válida hoje mais do que nunca para a “objetividade” de uma mídia comprometida até a alma com a difusão do espetáculo e com comércio dos gadgets eletrônicos. O objetivo pretende equivaler ao real. Mas a objetividade corporativa costuma equivaler à realidade dos objetos postos à venda.

Espaço aberto

Por um lado, a Mídia Ninja apresenta características de empresa em nascimento: tem patrocinadores, espalha-se em rede, arrisca um vocabulário próprio e ataca as corporações de jornalismo, ou melhor, ataca nas ruas os supostos colegas de jornalismo. Isso é tática velha da competição em mercado, ainda que os jovens possam não se dar conta do fato: proclamando-se mídia nova, atacam a velha. Novo mesmo, porém, é o uso de gadgets eletrônicos e de redes sociais, além do envolvimento com os eventos. Resta determinar se o fenômeno é jornalismo inovador ou se é uma nova mídia velha.

Já em 1920, o educador e filósofo pragmatista John Dewey dizia que o jornalismo tinha de ir além do mero relato objetivo de acontecimentos para se tornar um meio de educação e debate públicos. A imprensa favoreceria o diálogo mais direto entre cidadãos e jornalistas. Mais do que “reportar”, a atividade jornalística teria em seu âmago a promoção da “conversa” pública.

A comunicação eletrônica oferece hoje recursos para se viabilizar as prescrições democratizantes de Dewey. Há um espaço aberto para experiências no atual vazio cívico da imprensa jurássica. No empuxo delas, cabe à sociedade dizer com que tipo de imprensa gostaria de conviver em termos mais duradouros.

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Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Porque devemos, sim, tirar Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos

Em um vídeo postado no dia 7 de abril de 2013, o pastor de deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos, disse que "Deus matou John Lennon", o ex-integrante da banda de rock Beatles. Para o religioso, os três tiros que mataram Lennon representam o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Dogmas cristãos em um assassinato. Marco Feliciano também disse que homens de descendência negra são uma linhagem amaldiçoada de Noé, o que justificaria atrocidades cometidas contra o continente.


As declarações de Feliciano fizeram diversas pessoas no Brasil todo se manifestarem para a sua retirada da Comissão dos Direitos Humanos. Outros indivíduos, no entanto, alegam que as manifestações são infudadas. Marco Feliciano foi eleito 212 mil votos em seu mandato como deputado. Dessa maneira, ele representaria uma boa parcela da população evangélica e cristã no Brasil. E esses religiosos estariam defendendo-o porque ele estaria sendo cerceado em seu direito de liberdade de expressão, mesmo dizendo que um beatle deveria morrer e pregando preconceito contra homossexuais e negros.

Convido-os a uma reflexão sobre o tema.

Como jornalista, eu tive privilégio de ter pelo menos uma dúzia de professores que contribuíram para minha parcela de formação intelectual. Um desses mestres é Luís Mauro Sá Martino, autor do livro Mídia e Poder Simbólico (2003). Esse trabalho de Luís nasceu em novembro de 1998 como um TCC na Cásper Líbero com o nome Mídia e Religião, escrito em dupla com o jornalista Mário Ciccone. Luís Mauro, que foi meu orientador de TCC em 2010, fez um trabalho aprofundado sobre a formação de símbolos que as novas igrejas cristãs fazem através da mídia televisiva e moderna através mensagens que não necessariamente se adequam ao público que existem em outras esferas culturais. Dessa maneira, a tendência é que essas instituições religiosas, de alguma forma, criam nichos que podem eventualmente se expandir, de acordo com o crescimento dessas televisões.

Marco Feliciano pertence a esses grupos, na Igreja Assembleia de Deus Catedral do Avivamento.

Diz Luís Mauro: "A Igreja Católica criou a Rede Vida. A Universal, já proprietária da Record, comprou a TV Mulher. A Igreja Renascer em Cristo tentou comprar a extinta TV Manchete, e por pouco não conseguiu. Outras denominações menos poderosas continuaram sua expansão, conseguindo mais tempo nos canais de TV comerciais, além de serem uma presença fixa entre as estações de rádio. A escolha desse campo não é por acaso. O que se tem, enfim, é a busca, por parte das instituições, de legitimação perante a sociedade, a fim de divulgar suas ideologias".

Ou seja, a eleição de Marco Feliciano na política não está relacionada a um nicho religioso. Esse nicho religioso midiático foi criado como instrumento ideológico, para transmitir ideias que estavam presas em outros formatos de mídia, e para legitimar um discurso em forma de negócio. Os 212 mil votos de Marco Feliciano fazem parte da expansão de um discurso que é uma adaptação, e não necessariamente uma representação fixa de um movimento que existe e é legítimo em si.

Luís Mauro continua o texto, aprofundando a análise: "A luta pelo domínio do campo religioso é uma realidade. Os meios de comunicação oferecem diversos exemplos de como as diversas ideias religiosas digladiam-se na conquista de novos adeptos. Essa violência, ainda que não beire os excessos fundamentalistas, está sempre presente, principalmente no campo simbólico cujo espaço de combate é representado pela mídia".

Dessa forma, se as igrejas cristãs utilizam de mídia e, agora, de política para se representarem, o campo de simbolização é o de um enfrentamento. Mesmo que todos os manifestantes não sejam abertamente ateus, a entrada de um deputado declaradamente preconceituoso cria um precedente para protestos populares. Se Marco Feliciano representa uma ameaça simbólica dentro da política brasileira, que ainda se vale por representações, é democrático e ético, da parte de quem discorda, pedir pela sua renúncia na presidência do Comitê de Direitos Humanos.

Quem acha que esses protestos são ilegítimos de alguma forma, não considera, provavelmente de forma ingênua, a capacidade representativa da religião na sociedade, principalmente como mídia. Não se trata de protestar exatamente contra a igreja, mas sim contra o que sociedade considera errado em suas representações. E parte dessa igreja é sim representada por Marco Feliciano. Se Feliciano adota uma postura combativa, a crítica final não pode ser branda.

EDIT: Vejam abaixo o vídeo que Feliciano comenta sobre John Lennon.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O Discurso Sem Método - o jornal do curso de Filosofia da FFLCH-USP

Em 2012, alunos do curso de graduação na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) criaram o Jornal da Filosofia, que não possuía nome, mas já continha notícias, colunas de discussão sobre movimento estudantil, poesias, resenhas de livros e discos, além de cruzadinhas.


Agora, em 2013, o jornal passa a se chamar O Discurso Sem Método - e já possui blog, que você acessa aqui. O nome foi decidido em votação virtual e física pelos próprios alunos do curso. É uma iniciativa que atende as demandas específicas dos estudantes de Filosofia, que debatem livros que são destrinchados nas aulas, e também a necessidade de uma comunidade grande e complexa, como é a USP.

O jornal é semestral e tem apoio do Centro Acadêmico de Filosofia Professor João Cruz Costa, o CAF. O Discurso é mais uma publicação e uma iniciativa que cresce dentro do ensino superior no Brasil, sustentado e alimentado pelos maiores leitores e escritores responsáveis por seus textos e conteúdos: Os estudantes.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Isadora Faber, Diário de Classe e os reais sintomas da educação brasileira


Ela tem 13 anos. Estuda em escola pública no Brasil. Ela poderia ser mais um retrato sobre a miséria da educação nacional, da falta de investimentos do Estado. Mas Isadora Faber foi além, muito além.

Ela registrou os problemas de sua escola. Sem fazer o discurso aceito por educadores e professores, que pedem mais investimento e devem receber mais investimento, ela apontou, problema por problema, os deslizes que existem dentro das instituições. Isadora, da sua forma, foi fazendo o típo mais eficiente de crítica: A diária. E o Diário de Classe transformou-se em uma página no Facebook com 528 mil fãs, comentada por 13 mil pessoas no momento.

A iniciativa de Isadora foi criada em julho de 2012 e se tornou fonte de inúmeras reportagens. A autora, assim como seu tema polêmico, já foi vítima de professores que não aceitam a crítica. Neste último dia do ano, acho que não custa lembrar desse tipo de engajamento, que foi apontado na época como "sintomas de um novo tipo de jornalismo".

Não acho que é um novo tipo de imprensa, mas, sim, é um tipo novo e eficiente de crítica.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O fim do News of the World

Uma mancha histórica no jornalismo


O próximo domingo, dia 10 de junho, marcará uma data histórica no jornalismo do século XXI. Nesta data será publicada a última edição do tablóide britânico News of the World, o maior tablóide semanal da Grã-Bretanha, com uma tiragem de 2,8 milhões de cópias semanais e 168 anos de história. O News of the World não encerrará suas atividades devido a uma crise financeira do jornalismo, ou porque ninguém quer mais anunciar no papel. O jornal, um dos mais fortes braços da News Corp. – de Rupert Murdoch – encerrará suas atividades devido a uma avassaladora crise de ética que o atinge há três semanas.

Para quem não se interou do caso: O News of the World vem sofrendo inúmeras acusações de usar meios escusos para conseguir suas informações. Grampos telefônicos, hackear e-mails, contas bancárias, perfis em redes sociais, entre outros. Pior: Os alvos não eram apenas celebridades ou membros da família real. Políticos, empresários, famílias de soldados - no Afeganistão e no Iraque - e até mesmo famílias de vitimas de crimes que se tornaram notórios no país. Todos eles tinham sua privacidade invadida por detetives e hackers contratados pelo jornal. As suspeitas chegam até membros do gabinete do primeiro-ministro Britânico, David Cameron, que sabiam do caso, mas não abriam a boca com medo do dano que o jornal poderia causar as suas carreiras.

Na última quinta feira, James Murdoch, filho de Rupert Murdoch e CEO da News Corp. na Ásia e Europa, anunciou o fim das atividades do tablóide. O caso é espetacular por si só, mas ele se torna literalmente cinematográfico. Um dos pivôs do fim do News of the World é o ator Hugh Grant, um alvo corriqueiro de paparazzi ingleses. Grant usou um gravador escondido para registrar uma conversa informal que teve com um ex-repórter do tablóide, que acabou por confirmar diversos casos de grampos telefônicos. O ator fingiu várias vezes que concordava com as práticas, para que o jornalista desse mais detalhes. Em seguida, Grant entregou a gravação à rede BBC. Foi o golpe de misericórdia no mais polêmico e sensacionalista tablóide britânico.

Esse não será o fim da News Corp., muito menos do jornalismo sensacionalista na Inglaterra ou em qualquer outro lugar no mundo. Mas o que assusta é até que ponto as coisas podem chegar. Se escândalos envolvendo jornais e redes de TV pagando subornos, comprando fontes ou adulterando completamente uma história não são novidade – até pelo contrário – o News of the World cavou um pouco mais no que seria o fundo do poço.

É verdade sim que a reação do grupo de Rupert Murdoch foi na medida certa mas, ao mesmo tempo, uma mancha se imprime agora em todo o jornalismo. Afinal, se eles usaram de tais meios para conseguir informações, não deve ser nenhum tipo de novidade. Daqui pra frente, não vai faltar tiroteio entre fãs e detratores de veículos jornalísticos, até aqui mesmo no Brasil. Frases como “certeza que a Veja ou a Folha fazem a mesma coisa” serão lidas aos montes na internet. E o que mais assusta, é que elas não soam mais tão radicais quanto antes.

Que sempre existiu muita coisa suja na imprensa, disso todos sabem. A internet apenas transportou esta impressão para fora do ciclo de pessoas que trabalham no meio, mas infelizmente é uma discussão que ainda se perde, pelo menos aqui no Brasil, dentro do âmbito político. “O jornal A, apóia partido B, e vice versa”. Não é este o caminho. O caminho é a discussão do jornalismo pelo jornalismo, simplesmente isso. E mais, o Brasil tem que parar com a ridícula mania de achar que qualquer critica a imprensa é uma manobra contra a liberdade de expressão. Liberdade de imprensa dá espaço para o bom jornalismo, mas não o garante. Não estou dizendo que todo santo jornal ou TV têm que ser investigado, afinal, ainda vivemos sob o mantra iluminista de que todos são inocentes até que se prove o contrário. Mas temos sim que discutir o assunto, de forma ampla e honesta. Apenas temo que esta realidade está longe do Brasil.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Carros 2 - Quando um ótimo filme se torna um tropeço

Os filmes da Pixar se tornaram uma espécie de evento anual para mim. Por mais que a temporada de blockbusters – geralmente de maio até agosto – estivesse fraca, eu sabia que pelo menos o estúdio da Disney iria salvar a conta e entregar alguma animação maravilhosa. Ano passado foi assim, com uma temporada fraquíssima, mas que teve uma das melhores animações de todos os tempos: Toy Story 3. A partir daí, dá pra entender a crítica do mundo em relação a Carros 2, lançado na semana passada. Depois de 16 anos entregando obras-primas atrás de obras-primas, a Pixar finalmente lança um filme divertido. E só.

Carros 2 mistura uma trama de espionagem inspirada em filmes do 007 dos anos 70 com uma competição internacional que reúne os melhores corredores do mundo, inclusive Relâmpago McQueen. Contudo, quem puxa a história e se torna o protagonista da seqüência é o “wing-man” To Mate, o amigo caipira e de inteligência simples – não confundir com falta de inteligência – de McQueen. Não dá pra negar que foi uma decisão arriscada de John Lasseter, que escreve e dirige, de catapultar um personagem que antes era apenas o alívio cômico necessário em toda animação à condição de protagonista. E verdade seja dita, não é este o defeito de Carros 2. To Mate sustenta muito bem o filme, acompanhado do “James Bond” Frank McMíssil (dublado por Michael Caine).

Tecnicamente o filme é um espetáculo. Se a Pixar melhora o visual de seus filmes ano após ano, aqui o 3D surge pela primeira vez no ano como um recurso que acrescenta à obra, e se torna natural dentro dela. Mas o grande destaque é o som, e é nessas horas que ir ao cinema faz diferença. Para fãs de automobilismo, todas as cenas de corridas em Carros 2 são de dar arrepios. O som dos motores de cada tipo de carro foram gravados separadamente e mixados de uma forma que é possível ouvir cada um deles, o que dá uma sensação única, especialmente quando o Fórmula 1 é colocado em primeiro plano, ao lado do carro de turismo que serve como base para McQueen.

A história rende bem durante os 90 e poucos minutos do filme. A jornada de superação pela qual To Mate passa pode até soar previsível, mas ainda assim é conduzida de uma forma que não ofende a inteligência do público. Os personagens secundários aparecem muito bem, seja a dupla de espiões, ou Francesco, a Ferrari Fórmula 1, rival de McQueen – impossível não perceber as cutucadas em pilotos da principal categoria do automobilismo. E embora a reviravolta final não seja exatamente uma reviravolta, as cenas de ação são incrivelmente bem construídas, e saímos do cinema com a sensação que o dinheiro foi bem gasto.

Pois bem, tudo isto dito, então vamos a pergunta que muitos estão tentando responder: onde a Pixar errou em Carros 2? E esta pergunta é um pouco mais difícil do que parece porque, como já disse acima, tecnicamente, não tem nada de errado no longa. Falta em Carros 2 justamente aquilo que sobra em todos os outros filmes da Pixar, e que não quase ninguém conseguia copiar: paixão.

Quando assistimos ao primeiro Carros, também escrito e dirigido por Lasseter, percebemos que por trás daquilo está um homem e uma equipe não apenas ama carros, mas que também ama o prazer que eles proporcionam e que poucos aproveitam. A paixão por dirigir por qualquer lugar pelo simples prazer de dirigir, enquanto se conhece lugares fascinantes e espetaculares que nunca seriam percebidos na pressa do dia-a-dia. Radiator Springs, a cidadezinha perdida no meio do nada do primeiro filme, era a encarnação desta paixão, parafraseando o filme, “uma pequena jóia perdida no deserto”. Quando se tira a ação e a história de Radiator Springs, a própria essência do filme se perde, e a paixão se vai. O que nos resta? Um divertido filme, com personagens carismáticos e uma história de espionagem e corridas que satisfaz o público. O problema é que, se pra qualquer outro estúdio isto é o objetivo, para a Pixar isso é “só”.


ps: Se existe algum momento emocionante em Carros 2, é a homenagem prestada a Paul Newman, através do memorial para o seu personagem, Doc Hudson. Realmente tocante.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando o circo se faz necessário


O que está ocorrendo na mina San José, em pleno deserto do Atacama, no Chile, é um acontecimento que entrará para a história do Século XXI.

Da mesma forma que os ataques de 11/9, o Furacão Katrina, o tsunami no Oceano Índico ou os terremotos no Haiti e no Chile, a história dos 33 mineiros presos por mais de 2 meses há mais de 600 metros de profundidade são daquelas que atraem atenção do mundo, que criam histórias e imagens que nunca serão esquecidas.

E de todos os acontecimentos citadas, essa situação é a mais peculiar, única em todos os aspectos. Única pois nunca se viu nada em igual na tragédia com um resgate,elaborado e executado em proporções épicas. Única pois é a única história que se desenrolou lentamente, através de dois meses e com acontecimentos diários. Por fim, única pois seu final foi completamente feliz.

O mundo acompanhou por revistas, jornais, sites, blogs, perfis de Facebook e Twitter. Não faltou gente cobrindo e comentando a saga dos 33 mineiros chilenos, considerados heróis desde o principio. Segundo a última contagem são 1500 jornalistas, de quase 100 países cobrindo in loco o resgate, alguns de forma mais ativa, outros menos. É impossível prever quantos livros sairão dessa cobertura, a maior do século até aqui.

Um filme chileno, intitulado Os 33 já foi anunciado, e ninguém dúvida que a versão hollywoodiana sairá em breve. Enfim, um verdadeiro circo foi montado para os derradeiros dois dias de suspense. Mas como em poucas vezes, o circo foi necessário.

Na internet, e apenas na internet diga-se, não faltam críticas ao circo jornalístico e político que se fez em torno do resgate dos mineiros. Nâo faltam criticas à cobertura 24 horas, aos termos usados por jornalistas, comentaristas e, principalmente, à presença constante do presidente chileno Sebastian Piñera na mina, abraçando cada um dos resgatados. Críticas que soam, na melhor das hipóteses, a uma vontade intrinseca que jornalistas sentem impelidos a criticar fatos alheios que não estão acompanhando.

É uma aversão natural ao papel espectador onde a natural necessidade de comentar e relatar se tranforma em uma necessidade de criticar. Embora isto seja compreensivel, não deixa de ser uma atitude antipática e, até, antiética. O fato é que qualquer jornalista que se preze gostaria de estar acampado ao lado da mina de San José. Um bom exemplo é o contado pela ótima reporter Patrícia Campos Mello, em seu blog no Estado: Uma equipe de um pequeno jornal chileno foi dirigindo por mais de 3000 km de Buenos Aires até ao local.

A história foi escrita como poucas vezes vimos, de forma bonita, sem sangue e com lágrimas de alegria. Um país sul-americano deu um espetáculo de organização, eficiência e rapidez ao lidar com uma tragédia que se tornou nacional. Um presidente agiu de forma exemplar, cuidando pessoalmente de todos os aspectos ao redor do resgate e quando necessário, delegando tarefas que não lhe cabiam.

Com todo o respeito ao criticos, mas todo o capital politico Piñera acumulou neste episódio foi merecido. Se ele não é um herói, porque este título apenas pode ser dado aos mineiros, o presidente do Chile teve participação crucial no grande desfecho. Ocorreu tudo perfeitamente no deserto do Atacama nos últimos dois meses. Não há nada a criticar. Talvez seja isto que incomode tantos jornalistas de Twitter por aí.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O mau humor e vontade de aparecer em torno de A Origem

A Origem é o grande filme deste ano. Se no ano passado o mundo esperou e falou de Avatar, e em 2008 ocorreu o mesmo com Batman – O Cavaleiro das Trevas, algo muito grande e surpreendente terá que surgir para ofuscar todo o barulho que A Origem causou. E no meio disso tudo, é claro, toda a polêmica da internet, com blogs e blogs, com centenas de comentários falando bem e mal do filme, e internautas raivosos por discordarem das críticas. Seguem abaixo dois textos opostos sobre o filme:

http://www.omelete.com.br/cinema/critica-origem/

http://cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=7588&id_filme=8791&aba=critica

Parece que as impressões sobre o filme seguem o "8 ou 80", tendência que se torna cada vez mais popular na internet. Pois, então, chegou a hora de um pequeno exercício anti-ético, falando a respeito das opiniões dos gabaritados e sempre imparciais jornalistas de blogs e sites.

O hype em cima de A Origem não foi pequeno. Lançado nos EUA com três semanas de antecedência em relação ao Brasil, não foram poucas as pessoas o consideraram a maior obra-prima de Christopher Nolan, um filme incrivelmente superior à Cavaleiro das Trevas e Amnésia. Em seguida a isso veio sua absurda bilheteria, tanto lá fora quanto aqui. Soma-se à equação a legião de fãs que Nolan possui e a polêmica está formada.

A Origem é indiscutivelmente um bom filme. É uma questão quase exata. Bem escrito, muito bem dirigido e com atores muito competentes. Simples assim. O ponto é o quão bom é o filme, e o quão relevante ele é. Bom, sinceramente, o simples fato de o filme estar originando tanta controvérsia já mostra o quão relevante ele é. Se é que isto importa por algum motivo - e geralmente eu acho que não - o filme ainda está nos trending topics do Twitter, há mais de um mês depois de sua estréia nos cinemas. A grande maioria dos comentários são positivas, e não são poucas as pessoas que disseram que sua visão de cinema se alterou depois de vê-lo. Para completar, um tal de Robert Downey Jr soltou o seguinte comentário durante a Comic-Con: “Vocês já viram A Origem? Acabei de vê-lo e pensei, ‘Uow, esse é o filme mais ambicioso já feito’. Vejam”.

A impressão que fica é que a má vontade de alguns críticos com A Origem – e veja bem, só vi criticas negativas deles até agora – vem de uma necessidade que sempre os acompanhou de ser do contra. De estar no caminho oposto do senso comum. E o senso comum atualmente é: A Origem é um dos melhores filmes do ano. Ponto. E indo além, é muito cedo para dizer a real relevância do filme, tanto no aspecto negativo, quanto no positivo. Mas tudo bem, a crítica cinematográfica sempre teve seus devaneios incompreensíveis, o problema é quando eles se tornam mentiras absurdas ditas apenas para causar polêmica. A pior delas? Alegar que o filme é apenas um diversão esquecível de fim de semana, que não deve e não pode ser levado a sério. Segue abaixo:

http://mauriciostycer.blog.uol.com.br/arch2010-08-15_2010-08-21.html#2010_08-15_13_40_26-143380757-0

Há muito que as redes sociais e blogs se tornarão um ambiente quase insuportável graças aos comentários sempre relevantes de pessoas só sabem agredir, xingar e se enraivecer contra qualquer opinião contrária a sua. Ao que parece, os blogueiros estão trilhando o mesmo caminho, emitindo opiniões apenas para aparecer e aumentar os comentários. Com isso, cada vez mais perdem credibilidade na mesma proporção que aumentam seus números de leitores. Dia após dia, a internet brasileira se torna um meio mais mal-humorado e chato.

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