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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O dia em que o protesto do MPL terminou em beijo na boca e a Tropa de Choque invadiu uma estação de metrô

Por Pedro Zambarda

O 3º Grande Ato do Movimento Passe Livre contra o aumento das passagens de ônibus e de metrô tinha tudo para dar errado e não deu. Começou pela decisão de sair da Praça Silvio Romero, perto da estação Tatuapé de metrô e com 35 graus de temperatura. Era a primeira mobilização no ano que ocorria numa terça-feira (20) e na zona leste de São Paulo.


A primeira coisa que se podia notar, por volta das 17hrs, é que visivelmente estavam menos pessoas do que no 2º Ato, que acabou em provocação ao prefeito Fernando Haddad e bombas gratuitas da PM do governador Geraldo Alckmin.  A Polícia Militar, no entanto, já tinha cinco viaturas em uma concessionária Honda ao lado da estação de metrô local. A Força Tática da PM chegou com suas viaturas na Silvio Romero e se pôs diante dos manifestantes que ainda preparavam cartazes. Cada esquina da praça tinha pequenos grupos policiais.


“Acho que o couro vai comer forte aqui hoje. Estou com dúvidas se realmente conseguiremos sair da praça. Quando saí de casa, aqui perto no Tatuapé, achei que fosse tomar um enquadro por conta da cor da minha camiseta, que é amarela”, me disse Tatiane, integrante do coletivo Juntos ligado ao PSOL. Outro coletivo, chamado Território Livre, também compartilhava dos mesmos temores naquele momento.


Mesmo com essa tensão no ar, idosos jogavam cartas em mesas da praça. Outro grupo também se divertia com dominó.

Dada a quantidade de pessoas, o Movimento Passe Livre iniciou sua assembléia pública para definir o trajeto e decidiu, por ampla maioria dos demais integrantes do protesto, percorrer o bairro do Tatuapé por dentro até Radial Leste. Era arriscado, mas todos os presentes tentaram mesmo assim.

Descemos a Rua Serra de Bragança e o protesto passou por uma extensa área residencial, com os poucos comércios já fechados. Passando por um condomínio de alto padrão, os moradores saíram em suas sacadas para ver a manifestação. A maioria mostrava um olhar de reprovação, mas uma senhora fez sinal de positivo e começou a cantar para que todos fossem até a rua. Um grupo de crianças que se divertia na piscina foi para a grade de outro condomínio e pegou os panfletos do MPL. Funcionários de um McDonald’s ergueram panfletos com os dizeres “Aumento Não”.


Quando nos aproximamos da Radial Leste, enorme e com um tráfego intenso de carros que liga uma metade de São Paulo com a outra, a PM deu a entender que jogaria bombas, embora a Tropa de Choque estivesse no meio da massa que protestava e não na frente. Percorri a Radial e havia poucos policiais, exceto a ROCAM e a Força Tática.

 Como a mobilização foi impedida de prosseguir, ela voltou e ficou sem roteiro muito bem definido, percorrendo ruas e fazendo pausas para tentar se decidir. O Movimento Passe Livre então puxou as pessoas de volta para a Radial Leste. Um clima de tensão se instalou. Achamos que, naquele momento, o Choque correria para frente e faria a repressão. Isso não aconteceu. E a Força Tática da PM abriu espaço para que a mobilização tomasse a pista sentido Centro da Radial.
“Achei que fosse voar bala de borracha aqui e fiquei escondida atrás desta mureta. Não to acreditando que os caras estão deixando a gente entrar na Radial! É a primeira vez que eu vejo isso acontecer”, me disse uma mulher no local.

O clima de empolgação aumentou. A polícia não tinha reprimido o protesto, os black blocs, sempre presentes, não haviam depredado nada significativo, e tudo permaneceu pacífico, embora nós não tenhamos percorrido nenhuma rua com agências bancárias.

A mobilização passou pela estação de metrô Tatuapé e prosseguiu até o Belém. Eu corri na frente e fui até o terminal de ônibus para ver o que nos aguardava mais à frente. Caminhões do Choque estavam aguardando o avanço da massa e pensei que poderia ocorrer novamente conflito. Não aconteceu e o protesto virou à esquerda, na Rua Silva Jardim, saindo da Radial Leste com sucesso. Fez o contorno e subiu pelo Viaduto Guadalajara, para estender faixas diante dos motoristas que passavam por baixo. Naquele ponto, rolou uma tensão entre alguns PMs e pessoas que estavam andando por fora da concentração da manifestação, como eu mesmo que estava na calçada e fora da rua. Mas não ocorreram brigas. Por fim, o protesto parou n Largo São José.


Ali, o 3º Grande Ato do Movimento Passe Livre estava encerrado, com muita comemoração, emoção e vibração das pessoas. Ninguém tinha tomado tiros de balas de borracha e nenhuma bomba havia sido detonada. Vi dois casais se beijando, sendo que um deles tinha uma moça que chorava sem acreditar naquela felicidade. Amigos ligavam uns para os outros para avisar que estava tudo bem. E que a manifestação tinha sido pacífica e sem repressão da PM.

Até alguns policiais pareciam felizes, ou pelo menos sem olhares ameaçadores. No entanto, duas viaturas protegiam uma agência da Caixa Econômica Federal. O MPL estima que oito mil pessoas compareceram neste protesto. Eu estimo mais ou menos cinco mil. A Polícia Militar afirma que deslocou cerca de 650 policiais, um efetivo bem menor se comparado ao protesto que terminou em correria na frente da Prefeitura, de mil pessoas.


O Movimento Passe Livre conversou com vários jornalistas que estavam presentes. “A gente consegue fazer uma manifestação pacífica sem repressão. O que aconteceu hoje é a prova disso. A gente consegue passar uma mensagem mais claramente sem as bombas e nem as balas de borracha da polícia”, disse uma ativista depois de abraçar seus amigos com força e gritar.

“A luta pela tarifa zero parece utopia pra maioria das pessoas, mas acho que elas só aceitam tanto assim o aumento do preço das tarifas porque foram condicionadas a pensar assim. Essas revistas de hoje, como a Veja, ainda tem um puta poder sobre parte da população”, me disse um simpatizante do MPL enquanto caminhávamos na rua, retornando do ato público.

Andamos até a estação Belém de metrô. E lá ocorreu o único problema daquela noite.

Os manifestantes queriam encerrar seu protesto contra o aumento das passagens de R$ 3 para R$ 3,50 defendendo a tarifa zero. Por isso, tentaram pular as catracas. Os guardas do metrô não permitiram e a Tropa de Choque da Polícia Militar invadiu o local.


As entradas da estação foram fechadas às 21h20. Quando eu tentei ver o que estava acontecendo, mais soldados do Choque subiram e ocorreu uma confusão com manifestantes que estavam estendendo faixas nas rampas do metrô. Por pouco não estourou o primeiro tiro de bala de borracha em um espaço fechado, e com pessoas tentando entrar e saindo do metrô.

O Choque ainda arrumou briga com o grupo de primeiros-socorros que ajuda manifestantes na rua. Uma moça gritava com os policiais. “Vocês são todos uns fascistas por nos abordar desta forma!”. Os oficiais limitavam a entrada do metrô, criando um corredor lotado de “RoboCops”.

Por fim, a PM foi embora da estação Belém jogando spray de pimenta no local, o que provocou algumas lágrimas nos olhos irritados dos repórteres que ainda estavam lá. Policiais fizeram enquadramentos em áreas próximas, mas nenhuma prisão foi relatada após o protesto na zona leste de São Paulo, que desta vez não acabou em tiro, porrada ou bomba.

A sensação que tivemos com o fim do ato foi positiva e negativa: Vimos menos pessoas nas ruas, mas mesmo assim o MPL se mobilizou desta vez sem atrair violência das autoridades, sobretudo promovendo diálogo entre os coletivos ali presentes.

No protesto anterior, que terminou em tiros e muitas bombas da PM, um jovem ciclista de 22 anos levou um tiro de bala de borracha no olho direito. Os médicos ainda não sabem informar se ele ainda terá sua visão, mas sua agressão lembrou bastante os abusos policiais de 2013 ocorrendo novamente dois anos depois. Se a repressão for ainda mais violenta, teremos resultados pesados ainda em 2015.

Chegando exausto em casa, vejo uma mensagem de uma amiga: “Pela primeira vez na minha vida, tomamos a Radial Leste. Eu sou filha da zona leste e isso pra mim foi histórico. Foi trazer para a minha terra os sonhos que sonhamos coletivamente. Esse ato foi muito vitorioso. E amanhã, sem dúvida, vai ser maior!”.

domingo, 18 de janeiro de 2015

O dia em que o MPL provocou Haddad e tomou bomba de graça da PM de Alckmin

Por Pedro Zambarda
Originalmente escrito para o Diário do Centro do Mundo (DCM)

Compareci, nesta sexta-feira (16), ao 2º Grande Ato do Movimento Passe Livre contra o aumento das passagens de ônibus e de metrô em 2014. O protesto estava marcado para as 17hrs, mas cheguei a passar pela Praça do Ciclista, no fim da Avenida Paulista, horas antes, entre 15hrs e 16hrs.


Não havia nem 10 pessoas no local marcado para começar a marcha, mas já rodavam viaturas da Polícia Militar cruzando a rua para se alocar nas laterais, na Rua Bela Cintra. Amigos me avisaram pelas redes sociais que outros veículos da polícia rondavam a Sé. As autoridades vieram ainda mais preparadas para este protesto. Se antes foram estimados cerca de 800 policiais, eu acredito ter visto mil efetivos colados na manifestação, além de helicópteros e viaturas de suporte.

O protesto começou às 17hrs completamente frágil, pouco concentrado e fraco. A Praça do Ciclista é um péssimo local para reunião de grupos. À frente da estátua do herói venezuelano Francisco de Miranda há uma sacada circular com uma visão do túnel que liga a Paulista com a Rebolças e a Doutor Arnaldo. Por isso, o grupo ficou espalhado e pouco concentrado, no mesmo tempo em que a Tropa de Choque se concentrou do lado da Paulista e mais PMs se aglomeraram na Consolação.


Naquele momento, o MPL deveria fazer uma assembléia pública para decidir o trajeto. Mas o medo da reação da polícia e a pouca concentração de pessoas atrasaram tudo, embora as baterias dos coletivos de partidos políticos e de movimentos sociais batessem com força. Eu decidi, então, passar o cordão do Choque e ver quantos policiais estavam na Avenida Paulista.

Vi algo surreal perto do Haddock Lobo: além dos microônibus e dos carros da Tropa de Choque, havia policiais militares encapuzados com armas que certamente não eram de balas de borracha. Pareciam fuzis de relance. Estavam protegendo lojas de conveniência e até o restaurante América naquele local.

Voltei para o protesto. O MPL decidiu rapidamente que seria impossível passar a barreira do Choque e ir em direção à Paulista. Mudou a rota e decidiu descer a Consolação, passando pelo mesmo lugar em que fomos encurralados na Rua Matias Aires, entre outras vias.

O começo da caminhada foi lento. Um grupo de black blocs derrubou uma cabine da PM no final da Paulista. Achávamos que aquilo causaria um confronto com a polícia, acabando com o protesto ali mesmo. As autoridades correram para filmar o grupo, mas não puxaram o Choque para reagir.

A PM chegou a afirmar em seu Twitter que apreendeu supostas garrafas de gasolina de manifestantes. A corporação se retratou em minutos, dizendo não saber o real conteúdo do recipiente. E seguiu postando nas redes sociais a sua visão sobre o que ocorreu.

O protesto foi aumentando de tamanho. De cerca de mil pessoas na Paulista, foram concentrando cinco mil na Consolação progressivamente. Mesmo assim, as pessoas se mantiveram na faixa de descida, sem entrar na contramão. Algumas poucas pessoas foram para a outra pista. Uma senhora, por exemplo, começou a berrar para os ônibus que subiam a Consolação. “É um absurdo pagar 3,50!”. Em resposta, um motoqueiro soltou: “Parem de ficar defendendo o PT!”.

A manifestação passou a estação de metrô Paulista, ultrapassou a Matias Aires e ia em direção ao Mackenzie. Lá estourou a primeira bomba de efeito moral. O Movimento Passe Livre segurou o protesto e conteve os black blocs, mesmo diante da polícia. Não aconteceu quebra-pau, ninguém se inspirou e resolveu apedrejar bancos. Por isso o protesto seguiu.


O clima acalmou tanto que eu vi um senhor passeando com dois cachorros no meio do protesto. Os black blocs andaram perto do MPL, sem pegar pedras e nem ameaçar ninguém. Chegamos ao centro pouco antes das 20hrs. Passamos pela biblioteca Mario de Andrade e pela estação Anhangabaú de metrô. Naquele trecho, vi o Movimento Passe Livre negociando com a Tropa de Choque ao longo do percurso, para evitar reações violentas. E a polícia procurou manter a calma, embora dois policiais arrumaram briga com dois roqueiros bêbados que trombaram com eles próximo dali. Rumamos para o Teatro Municipal.


Amigos meus e jornalistas acharam que as bombas e as balas de borracha iriam voar assim que chegássemos na Prefeitura de São Paulo. Misteriosamente, a PM apenas se posicionou na frente do local e permitiu a passagem do protesto. Manifestantes e imprensa ficaram felizes pela ausência de repressão até ali. O MPL resolveu então fazer uma provocação com o prefeito Fernando Haddad. Apontou uma luz em direção à Prefeitura com os seguintes dizeres: “Je Suis Catraca”. Na imagem de fundo, estava o próprio prefeito. O que o MPL queria dizer era que o petista Haddad também é conivente com o aumento das passagens, não criticando apenas o tucano Geraldo Alckmin.

Integrantes do MPL voltaram a se reunir com a PM na frente da prefeitura. Conversei com Eudes Cassio do Movimento Passe Livre. “Estou tentando negociar com a polícia para que o protesto prossiga até a Secretaria de Transportes”, ele me explicou.


Eu fui para a lateral da prefeitura, perto de alguns fotojornalistas que se sentavam para transferir imagens do protesto pacífico até aquele momento. Aconteceu então algo que nem a própria Polícia Militar explicou nas redes sociais. Do nada começaram a ser disparadas quatro bombas na frente da prefeitura. Notando a movimentação, resolvi correr, porque vieram em seguida as balas de borracha. Logo depois, consegui ouvir fogos de artifício. Foram disparados pelos manifestantes, mas só depois do ataque da PM.

O problema é que eu corri pela lateral, por trás da Tropa de Choque, e dei de cara com a Cavalaria, que fez como se fosse avançar pra cima do grupo de jornalistas. Berrei e bati no topo do capacete de skatista que comprei para não levar balas no crânio, que estava identificado com os dizeres de imprensa. Eles hesitaram, pararam e deixaram a gente passar. Na frente da prefeitura, as pessoas começaram a correr de medo.

Uma amiga tentou fugir pela estação Anhangabaú. Foi separada de suas companhias porque o metrô fechou a entrada antes que ela pudesse correr. Só conseguiu fugir pela Consolação. Outra garota levou spray de pimenta no rosto depois de desmaiar.

Os black blocs, quietos até então, se sentiram livres para depredar e revidar o ataque espontâneo da Polícia Militar, que usou até munição química no ataque. Derrubaram um orelhão, a Caixa Econômica da Rua Líbero Badaró, uma unidade do Banco do Brasil na Xavier de Toledo e um CitiBank da Rua São João.

Atacados pelo gás e pelas balas de borracha, manifestantes tentaram descer a Anhangabaú e foram agredidos por PMs que circundavam a área embaixo. Os que correram até o Teatro Municipal encontraram outra barricada do Choque e mais bombas. A manifestação se dispersou completamente.

Eu corri por fora, através do Largo de São Francisco, até o começo da Brigadeiro Luís Antônio. Exausto e na companhia de outra jornalista, entrei com sede num posto BR para beber alguma coisa. Antes disso, vi a bateria de militantes do PSOL voltando do protesto. Uma menina entre eles tossia muito e passava mal pelos efeitos do gás lacrimogêneo. Outras pessoas andavam em pequenos grupos para evitar agressões com a PM

O Choque então apareceu com lanternas procurando manifestantes na rua. Um amigo meu, fotógrafo freelancer, voltou até o Teatro Municipal para ver como ficou o local após o protesto. Foi recebido com bombas, sendo que tinha acabado de tirar o seu capacete com os dizeres de imprensa para se proteger.

Fui embora pela estação República, que estava sendo vigiada por um cordão de seguranças particulares da Linha Amarela, privatizada por Alckmin. Desviei deles e rumei pra zona norte de São Paulo. E um protesto que tinha tudo pra ser pacífico terminou em tiro, porrada e bomba. Sem que eu entenda até agora os reais motivos por trás disso.

Porradaria da PM encerra o 2º ato contra a tarifa em SP

Por Mídia NINJA
Creative Commons

Tudo ia bem. Mas a PM não se emenda. Bastou que alguns manifestantes lançassem contra os escudos da tropa de choque entrincheirada na porta da Prefeitura algumas garrafas de plástico com água e... Uma pancadaria absurda tomou o centro de São Paulo.


(Seria esse um efeito perverso do racionamento de água, só agora admitido pelo governador Geraldo Alckmin?)

Bombas de efeito moral, de gás lacrimogêneo, balas de borracha foram disparados contra tudo o que se movesse, contra manifestantes e contra pessoas que simplesmente passavam por ali, naquela hora de pânico.


Uma covardia.

No segundo ato promovido pelo Movimento Passe Livre, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô, de R$ 3 para R$ 3,50, nesta sexta-feira, 16 de janeiro, a única guerra real que aconteceu foi a de números. O MPL dizia ter reunido 20.000 manifestantes, enquanto a PM avaliava o número de participantes em 3.000.


Até as 20h33, a manifestação vinha bem, apesar de a PM ter detido um manifestante pelo “pecado” de carregar uma rodinha de skate na mochila. Jogaram-no no chão como a um saco de lixo, imobilizaram-no. Logo ele foi solto. Também explodiu um artefato de gás lacrimogêneo na frente do Ministério do Trabalho, na rua da Consolação, 1272...


Mas a passeata seguiu firme e organizada, apesar de duas agências bancárias (uma da Caixa Econômica Federal e outra do Banco do Brasil) terem sido depredadas não se sabe nem por quem.

Era alta a tensão reinante.

Até que alguns manifestantes arremessaram as garrafinhas de água na tropa de choque.

Motivo ridículo? É, mas foi o que deflagrou a pancadaria generalizada.


“A polícia vê e entende os manifestantes como inimigos. A reação deles é desproporcional em relação aos que seguem pacificamente. Na semana passada um observador legal foi atingido com bala de borracha no pescoço. Outros três foram golpeados com cassetetes. Não há diálogo. O clima é sempre de tensão”, diagnosticou Denize Guedes, jornalista e observadora legal.

Pelo menos 1.000 PMs acompanham a marcha. Tinha de tudo. Cavalaria, Tropa de Choque, Tropa do Braço, Força Tática. Um caminhão, chamado de POE, “Plataforma de Observação Elevada”, de onde sobe um mastro cheio de câmeras, fotografava toda a manifestação.

“A gente tá lutando por vocês também! Vão caçar bandidos, seus covardes!”, gritava um manifestante para a PM. Ele estava irado com a repressão. Tinha visto uma faixa uma faixa estirada debaixo do Viaduto do Chá, em que se lia: “Agora é de R$ 3 pra baixo”. E se emocionou.

Uma mulher ficou desmaiada no viaduto bombardeado. Foi socorrida por manifestantes. Em frente à Prefeitura, um manifestante sangrava no chão.

O Segundo Ato contra o Aumento das Tarifas acabou sob o ataque da polícia. O centro de São Paulo ficou às moscas e restou um cenário de devastação, apesar de os manifestantes terem a intenção (frustrada) de levar o protesto pelo largo S.Francisco, a Sé, até o  Tribunal de Justiça de São Paulo.

Fechado, o  Metrô  Anhangabaú foi o palco da revolta de usuários que protestavam contra a ação policial:  "Somos cidadãos, somos cidadãos!"

Falava-se em oito detidos, que foram enviados para o 78º DP, na rua Estados Unidos, nos Jardins.

A promessa agora, é uma só: “Amanhã vai ser maior!”

sábado, 10 de janeiro de 2015

O dia que a PM nos encurralou na Matias Aires, travessa da Consolação

Por Pedro Zambarda
Originalmente escrito para o Diário do Centro do Mundo (DCM)

Ainda lembro de dois barulhos de bombas na mesma rua, os outros três que ouvi na Consolação e do desespero das quatro mulheres que correram comigo até uma garagem de um sobrado que estava aberta na Rua Matias Aires. Era 19 hrs e ficamos escondidos ali por mais de meia hora, falando em voz baixa e com medo que a Tropa de Choque da PM invadisse o local.


Uma amiga minha conseguiu ter um azar pior. Conversávamos antes dos disparos de bala de borracha e das bombas de efeito moral. Sentíamos que o clima estava pesando quando vimos rapazes black blocs indo depredar um banco. Só não imaginávamos que a reação seria naquela proporção.

Ela fugiu para uma padaria na mesma rua, esquina da Matias com a Rua Augusta. O problema é que a polícia foi atrás e invadiu o local. E ela se escondeu atrás de uma geladeira, num local onde “jamais imaginou que caberia”.


Antes de correr para a padaria, minha amiga Cecília chegou a ver um PM apontando uma arma de bala de borracha contra seu rosto e teve uma bomba jogada próxima dos seus pés, mas conseguiu evitar o estouro se movimentando a tempo.

Minha história com o protesto ocorrido no dia 9 de janeiro, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,50, não aconteceu apenas quando fomos encurralados na Matias Aires. Começou algumas horas antes.

Eu cheguei uma hora antes do horário oficial dos protestos, às 16hrs. Conversei com integrantes do movimento Território Livre no Teatro Municipal e vi cartazes dizendo que às 17hrs ocorreria uma assembléia pública do Movimento Passe Livre  para definir o percurso da mobilização. Aproveitei o tempo livre para descobrir onde estava a polícia e vi que tudo ainda estava muito vazio.


Às 16h30, vi que a lateral direita da prefeitura encheu de viaturas da Força Tática e da Tropa de Choque. Poucos guardas municipais estavam no local e um grupo menor de manifestantes estava montando cartazes por ali, separados da turma do Municipal.

Às 17hrs, os grupos de manifestantes se reuniram. Ao mesmo tempo, a PM girou com suas vitaduras para interditar a rua de acesso à prefeitura, lotando de carros. A Tropa de Choque chegou pela lateral e se fixou na frente das Casas Bahia, antigo Mappin. Na assembléia, a PM filmou a decisão dos manifestantes, ouviu toda a rota e conversou com algumas lideranças, informando que acompanharia a mobilização. Alguns oficiais do Choque possuíam câmeras GoPro presas no torso de suas armaduras “estilo RoboCop”.


Até um grupo de petistas protestava contra o prefeito Fernando Haddad, sem fazer alusão ao governador Geraldo Alckmin que era “homenageado” em outros cartazes. O grupo pequeno de filiados do PT, cerca de 10 pessoas, pedia revogamento da tarifa de ônibus. Um homem chamado Alexandre me explicou que eles são de fato militantes.

Às 17h30, a Polícia Militar cercou completamente o protesto. Achei que teríamos  problemas para sair dali. Um senhor visivelmente bêbado começou a xingar as viaturas que impediam nosso deslocamento. “Estou aqui lutando pelos meus direitos e não por este Estado merda”, gritou, xingando os PMs na cara deles.

No mesmo local, um pouco adiante, o blogueiro do UOL Leonardo Sakamoto preenchia papéis. Tirei sarro no Facebook afirmando que ele estava recebendo autógrafos de fãs. “Não, estava só assinando a papelada de direitos de imagem que pedem em protestos”, ele me explicou, quando começamos a andar.

Não se via só bandeiras tradicionais, do PSOL, do PSTU, dos black blocs e do Movimento Passe Livre. Havia integrantes do RUA, um movimento anticapitalista, e até do Partido Pirata, que prega ciberativismo e estava fazendo streaming no local junto com outro grupo conhecido, o Mídia NINJA. Ou seja, a impressão que se tinha é que as Jornadas de Junho e 2013 aumentaram muito as vertentes de mobilizações que desejam a tarifa zero ou uma redução drástica dos custos em transporte público.

A massa de pessoas aumentou de cerca de mil para cinco mil a medida que contornamos o Teatro Municipal e pegamos as ruas em direção à Ipiranga. De lá, o protesto estava determinado a tomar a Consolação. Fraquejamos num momento, no cruzamento da São Luís, quando a PM tentou conter o avanço. Um princípio de confusão começou entre black blocs e o cordão de isolamento da polícia, mas foi suprimido. A Tropa de Choque deixou o povo avançar e os manifestantes formaram seu próprio cordão de união, enquanto gritavam e pulavam mesmo num calor de cerca de 35 graus. “Mais um aumento eu não aguento!”.


Subimos a Consolação com relativa calma no começo. O protesto tomou a pista em direção à Avenida Paulista. Progressivamente, a massa tomou a via na contramão. O problema é que, conforme expandíamos de tamanho, as pessoas ficavam cada vez mais dispersas e menos concentradas. Os blocs então assumiram a dianteira.

Começaram então palavras de ordem contra a PM. “Tem que ser dismilitarizada! Fascistas! Fascistões!”.

O clima começou a pesar cada vez mais. Os blocs então correram ainda mais à frente e depredaram uma agência bancária. O Choque não perdoou essa e contraatacou. Eu estava com Cecília naquele instante.

Perto dali, vi a jornalista Eliane Brum entrevistando um homem de rua sobre as impressões dele sobre o protesto.

Foi neste momento, da ponta da Consolação até a Rua Matias Aires, que nós fomos encurralados com três bombas de efeito moral. Quem ficou na avenida ainda teve que topar com balas de borracha.

Eu corri e entrei na primeira porta aberta que vi na Matias. Era uma garagem e eu estava com quatro mulheres e um homem que eu sequer conhecia. Ficamos escondidos agachados atrás de um carro e em silêncio. Ouvi mais duas bombas na rua, sendo uma delas ao lado da casa. Chequei no Twitter e vi que estávamos sendo perseguidos e presos, independente de ser black bloc ou não.

Ficamos mais de meia hora juntos e não esquecerei do pânico daquelas pessoas naquele protesto.

Os donos da casa foram conversar conosco. Eram evangélicos e iam começar o culto poucos minutos depois, quando foram interrompidos pelo ataque da PM. Nos ofereceram água assim que nos sentimos mais à vontade.

Eu fui olhar pela janela. Quando vi que o Choque havia saído dos bares e estava conversando com a imprensa, decidi que talvez fosse o momento de sair. Estava certo. Perguntei cordialmente a um PM como eu deveria sair dali. Ele, percebendo que eu estava no protesto, respeitosamente não respondeu minha pergunta. E pediu água mineral para o mesmo dono da residência onde eu estava.

Pensei em ir embora, mas acabei pensando em fazer uma rota segura. Subi pela Bela Cintra até a Paulista. De lá eu vi as pessoas sendo detidas pelo Choque e pela Cavalaria da Polícia Militar que blindaram a Paulista. O objetivo era que não chegássemos até ali.

O blindado que o governo estadual divulgou que atiraria água em manifestantes foi visto circulando e transportando policiais da Tropa de Choque, mas não atirou jatos na população. O protesto chegou perto do Center 3,com black blocs avançando em algumas poucas agências bancárias, mas foi contido.

Eu fui andando à frente e vi uma Avenida Paulista dividida. Até o Masp, tudo estava fechado e as pessoas estavam com medo do quebra-quebra. Mais adiante, a vida estava normal, os trabalhadores bebiam sua cervejinha e donos de cães passeavam.


Cinco viaturas protegiam uma agência do banco HSBC. A Polícia Militar ocupou a Paulista e dava voltas de carro.

Os números da manifestação são confusos, mas o Movimento Passe Livre disse que haviam 30 mil pessoas. Eu chuto em torno de 15 mil e a PM diz que haviam 5 mil. Cerca de 50 pessoas foram presas. O fato é que, conforme éramos encurralados, o movimento perdeu completamente sua força e repetiu as primeiras mobilizações de 2013, quando boa parte dos ricos e da classe média não dava a devida atenção.

2015, pelo visto, promete ser outro ano de protestos pesados contra os governos brasileiros.

Em 2013, o colunista Elio Gaspari foi aos protestos e descreveu na Folha que a batalha da Polícia Militar começou na Maria Antonia, local conhecido pela luta entre estudantes do Mackenzie e da USP durante a ditadura. Eu sinto que outro momento histórico aconteceu quando fomos encurralados há poucos metros do mesmo local, na Rua Matias Aires.

E vou lembrar das pessoas que sentiram medo comigo. É dose ouvir bomba de efeito moral bem de perto e ser obrigado a se esconder atrás de um carro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Um debate importante sobre segurança em um possível segundo mandato de Dilma

Por Pedro Zambarda

Estamos chegando ao fim do segundo turno das eleições presidenciais de 2014. O tucano Aécio Neves disputa com a petista Dilma Rousseff o cargo de presidente da República. Dilma destacou-se em seu primeiro mandato com avanços na educação federal, no combate à fome e na política externa menos dócil, principalmente com o escândalo de espionagem digital dos EUA. No entanto, a gestora fraquejou no avanço da economia e foi dona de uma política de segurança dura durante manifestações, que mostraram sua face inflexível durante a Copa.


Em julho deste ano eu pude conversar com Inauê Taiguara para o site Diário do Centro do Mundo (DCM). Inauê foi preso durante a reintegração de posse da reitoria durante a greve da USP em 2013, sem provas de ter depredado o local, e participou de protestos que ocorrem desde junho do ano passado. Comentamos sobre abusos dos governos e até sobre as reações violentas durante a Copa do Mundo de 2014.

Ao contrário do que o título da matéria dá a entender erroneamente, Inauê não é líder do Movimento Passe Livre (MPL), mas apenas teve uma participação junto com vários coletivos que fizeram parte das mobilizações populares.

Para entrar no debate sobre segurança, é fundamental relembrar os abusos policiais contra protestos sem nenhum motivo ou prova, além dos dados de roubos, assaltos e da criminalidade real das grandes cidades.

Recomendo a leitura da entrevista no DCM.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Fábio Hideki, acusado de ser Black Bloc sem provas, está solto

Por Pedro Zambarda

Manifestante pacífico, Fábio Hideki Harano foi preso no dia 23 de junho e ficou detido até ontem, 7 de agosto. Foi liberado após descobrirem, em perícia, que ele não portava bombas, mas sim o achocolatado nescau. Não usava máscara, mas um capacete de moto para se proteger de bombas da Polícia Militar.


Hideki foi liberado junto com o professor de inglês Rafael Marques Lusvargh. As provas foram verificadas pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) e pelo Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo. Os dois acusados voltaram para casa acompanhados pelos familiares, ambos de carro.


Fábio Hideki teve seus cabelos cortados após o período de detenção de mais de um mês.

Antes da soltura dos dois, o juiz Marcelo Matias Pereira afirmou que manteria ambos presos por depredarem patrimônio público e por serem "esquerda caviar". A autoridade fez a defesa da prisão pela posição ideológica dos acusados.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Manifestantes protestam contra posição do Brasil de condenar ofensiva de Israel

Da Agência Brasil
Creative Commons

Mais de 100 pessoas participaram de uma manifestação hoje (30) em frente ao Ministério das Relações Exteriores contra a posição do governo brasileiro de condenar Israel "por uso da força desproporcional" na Faixa de Gaza.


Líderes dos manifestantes foram recebidos pelo subsecretário para Assuntos de África e Oriente Médio, o embaixador Paulo Cordeiro, e conversaram por cerca de uma hora. O embaixador recebeu um manifesto de entidades cristãs e da comunidade judaica no Brasil. Segundo a assessoria de imprensa do ministério, os documentos serão analisados pelo Itamaraty.

Para os manifestantes, o governo brasileiro errou ao condenar Israel sem fazer qualquer menção ao movimento islâmico Hamas. Os manifestantes, de igrejas evangélicas e da comunidade judaica, também criticaram a decisão do governo brasileiro de chamar o embaixador do Brasil em Tel Aviv para consultas.

Segundo Kélita Rejanne Machado Cunha, que participou da manifestação, o subsecretário disse que o Brasil não tem a intenção de romper relações diplomáticas com Israel, mas não há previsão de retorno do embaixador brasileiro para Israel. De acordo com a manifestante, Cordeiro também enfatizou que o país não é a favor dos atos praticados pelo Hamas.

A manifestante acrescentou que a comunidade judaica e cristãos vão continuar a defender uma mudança na postura do governo brasileiro. “A gente vai continuar a dizer que o Brasil precisa ter uma posição coerente, de equilíbrio, uma postura de mediador. Essa forma do Brasil conduzir a situação não vai levar a nenhum tipo de solução”, acrescentou.

Na última quinta-feira (24), o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, defendeu a posição do governo brasileiro que, em nota divulgada no dia 23, condenou “energicamente o uso desproporcional da força” por Israel em conflito na Faixa de Gaza, levando à morte centenas de civis. O ministro também disse que o Itamaraty já havia divulgado nota condenando o movimento islâmico Hamas pelos foguetes lançados contra Israel, e também Israel pelo ataque à Faixa de Gaza.

O chanceler também defendeu a posição brasileira assumida no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. O Brasil votou favoravelmente à condenação da atual ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza e à criação de uma comissão internacional para investigar todas as violações e julgar os responsáveis.

Vencedores do chamado Nobel Alternativo assinaram uma declaração em que denunciam a "matança" de crianças e civis em Gaza e exigem o fim do conflito. "Como vencedores do Right Livelihood Award, popularmente conhecido como Prêmio Nobel Alternativo, nós condenamos energicamente a matança de centenas de crianças e civis inocentes, executada em Gaza pelo exército israelita, além do indiscriminado lançamento de mísseis por parte do Hamas sobre civis de Israel", diz o comunicado.

No abaixo-assinado, subscrito por 56 vencedores, é citado o abastecimento precário de água e eletricidade em Gaza, situação que ficou pior ao longo dos 23 dias de confronto, e o fato de "aproximadamente 24% de todos os que perderam as suas vidas em Gaza serem crianças". Entre os assinantes estão o brasileiro Leonardo Boff, professor universitário conhecido pela defesa de causas sociais; o canadense Tony Clarke, fundador do Instituto Polaris, que apoia movimentos civis pela mudança social democrática; e o holandês Theo van Boven, professor emérito de Direito Internacional e ex-diretor da Divisão para os Direitos Humanos das Nações Unidas, em 1977.

O prêmio foi fundado em 1980 e é apresentado todos os anos no Parlamento da Suécia. O prêmio nasceu da necessidade de "honrar e apoiar aqueles que oferecem respostas práticas e exemplares aos desafios mais urgentes que enfrentamos hoje". O Right Livelihood já foi entregue a 153 pessoas de 64 nacionalidades diferentes.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Anarquista Mikhail Bakunin "é procurado" pela Polícia Civil do Rio de Janeiro

Por Pedro Zambarda

O jornal Folha de S. Paulo afirma que, em um inquérito de mais de 2 mil páginas produzido pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, o pensador anarquista Mikhail Bakunin foi acusado de vandalismo entre os manifestantes na capital carioca. O russo é considerado um dos pais do anarquismo do século 19 e morreu em 1876, há 138 anos.


O filósofo Mikhail Aleksandrovitch Bakunin foi citado por um manifestante em uma mensagem interceptada pela polícia, de acordo com a Folha, e classificado como um “potencial suspeito”. A professora Camila Jourdan, de 34 anos, uma das investigadas, menciona esse nome para demonstrar a fragilidade do inquérito.

Essa não é a primeira vez que intelectuais já falecidos figuram em autos das autoridades brasileiras. Durante a ditadura militar, Karl Marx era um dos fichados no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), um dos principais órgãos de repressão aos movimentos políticos e sociais identificados como “subversivos”.

Via Revista Fórum e Folha de S. Paulo

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um resumo da Copa do Mundo do Brasil por quem viu todos os jogos


Por Pedro Zambarda

Acompanhei todos os 64 jogos da Copa do Mundo 2014 para fazer mais os posts do blog ao vivo do Diário do Centro do Mundo (DCM). Vi a maioria na televisão, acompanhei streamings na internet e vi até os protestos que acompanharam boa parte do mundial, até as quartas de final, antes das prisões das polícias no Brasil.



Confira um resumo de tudo.

Uma Copa recheada de grandes jogos

As melhores partidas da Copa do Mundo foram um misto de jogos equilibrados com algumas goleadas históricas. A vitória de 5x1 da Holanda sobre a Espanha foi uma humilhação, mas ela marcou pelo gol de cabeçada de Robin Van Persie, voando como um peixinho, no dia 13 de julho. No dia seguinte, a Itália de Mario Balotelli fez uma disputa equilibrada com a Inglaterra de Wayne Rooney, vencendo por 2x1.

Costa Rica foi a grande surpresa da primeira fase, das oitavas e das quartas de final, vencendo o Uruguai por 3x1 e a Itália por 1x0. Empataram com a Inglaterra no 0x0 e com a Grécia, por 1x1. O último jogo deles foi na Arena Fonte Nova, em Salvador, contra  Holanda no dia 5 de julho. Seguiram empatados no 0x0, para sofrer com o goleiro reserva holandês Tim Krul, escolhido a dedo pelo técnico Louis van Gaal nos pênaltis, perdendo por 4x3. Mesmo sem vencer o mundial, está foi a melhor Copa dos costa-riquenhos, conhecidos pelo apelido de “ticos”.


A França e os Estados Unidos foram boas surpresas na Copa. Os americanos tombaram para a Bélgica no dia 1º de julho, não sem antes resistir antes a toda poderosa Alemanha. Os franceses deram uma goleada de 5x2 na Suíça no dia 20 de junho. O muçulmano francês Karim Benzema cativou por seu futebol, apesar de não cantar a Marselhesa, o hino oficial da França, pelo massacre que ela provocou na Argélia, terra de seus pais. A França tombou para a Alemanha, no dia 4 de julho por 1x0.

As oitavas de final foram tomadas por times latino-americanos, sendo sete dos 16 classificados. Destes, só restaram o Brasil e a Argentina nas quartas, embora os esforços do Chile, do Uruguai, do México, da Colômbia e da Costa Rica foram dignos de nota. Se os hermanos argentinos superarem os alemães, será uma vitória inédita desde a Copa de 90, quando eles foram vices.

De longe, o time que mais me deu orgulho nesta Copa do Mundo foi a Argélia, resistindo bravamente aos alemães no dia 30 de junho, mas perdendo por 2x1. O goleiro M’Bolhi fez defesas espetaculares e foi considerado o homem do jogo pela Fifa, mesmo com a derrota argelina. O escritor e intelectual Albert Camus, se estivesse vivo, teria orgulho do time “pied-noir” que jogou nesta Copa brasileira.

As decepções também fizeram parte do mundial

Jogos de times como a Rússia, Coreia do Sul, Bósnia-Herzegovina, Irã, Honduras e Camarões (exceto quando perdeu para o Brasil) deram sono. Eles são países com fraca tradição no futebol, o que se reflete em jogadas monótonas ou imprudentes. Entre si, os jogos eram parados. Contra times estruturados, eles perdiam por muitos gols. A única exceção que abro foi o jogo entre Irã e Argentina, no dia 21 de junho. De tão monótono, quase tivemos a impressão que o gigante Messi ia tombar para os iranianos. Mas o craque mudou o placar no final. 

No entanto, a grande decepção desta Copa do Mundo aconteceu com o próprio Brasil. Os brasileiros começaram bem a campanha derrubando Croácia, Camarões e Chile. No dia 4 de julho começou o primeiro capítulo da tragédia, com a joelhada do colombiano Juan Zúñiga na coluna do jogador Neymar Jr. O jogador teve a vértebra lombar fraturada, ficando fora da Copa. Mesmo assim, o Brasil ganhou por 2x1.


A grande decepção veio no dia 8 de julho de 2014, a partir das 17hrs. O Brasil foi massacrado pela Alemanha por 7x1. Apesar de serem cotados como favoritos, a seleção do técnico Luiz Felipe Scolari chegou na semi-final desgastada, pouco treinada e com poucas substituições. A falha tática de Felipão abriu espaço para que os alemães goleassem. Só no primeiro tempo, foi 5x0. O jogador Oscar fez o único gol brasileiro da partida.

O resultado péssimo levantou o caso de corrupção dos cartolas da CBF, aumentou a pressão para a retirada de Felipão da comissão técnica. Isso ainda deve causar grandes mudanças no futebol brasileiro, endeusado há cerca de 100 anos, mas com problemas muito presentes. Nossos craques não jogam mais pelo país e são constantemente comercializados por clubes europeus. A mídia esportiva, que tratava a seleção como recreação, está se vendo obrigada a adotar uma postura crítica. A reação de tristeza dos brasileiros neste dia ficou bem evidente.

Os protestos e os abusos do Estado continuaram acontecendo no mundial

No dia 12 de junho, na abertura da Copa, os protestos com o mote “se não tiver direitos, não vai ter copa” chamaram atenção. As polícias militares agiram com a truculência desproporcional que já era empregada antes do mundial. Perto do Itaquerão, uma equipe da emissora CNN chegou a ser atingida por bombas da polícia.

O estudante e funcionário da USP, Fábio Hideki Harano, foi preso no dia 23 de junho, acusado de ser líder dos black blocs. Manifestante pacífico, Fábio estava com capacete de motoqueiro, para se proteger de balas de borracha, e portava um vinagre na bolsa. A polícia implantou um coquetel molotov e o caso de falso flagrante ganhou repercussão nas mídias sociais. Enquanto vídeos mostram ilegalidade na prisão policial, o secretário de Segurança Pública do governador tucano Geraldo Alckmin, Fernando Grella, reforçou a acusação sem ter mais provas. Fábio está preso no presídio de Tremembé até agora.


A maioria dos jogos da Copa do Mundo tiveram protestos, em maior ou menor proporção. No Rio de Janeiro, barricadas foram criadas nos arredores do Maracanã para separar o conflito entre as manifestações e a polícia da torcida dos jogos. No entanto, quem invadiu o Maracanã de verdade foram os 200 torcedores chilenos no dia 18 de junho. Enquanto rolava o jogo Espanha contra Chile, a manada de invasores destruiu a sala de imprensa do estádio. O motivo da mobilização foi a falta de ingressos.

Dois repórteres do Mídia NINJA foram presos, um no Rio de Janeiro e outra em Minas Gerais. Mesmo com as detenções, o coletivo de reportagem continuou transmitindo os protestos. 

A polícia também reprimiu as festas no bairro de classe média Vila Madalena, em São Paulo. O motivo das medidas de segurança foi o horário das festividades, que mergulharam na madrugada paulistana. O problema é quando o procedimento incluiu lançar bombas de gás lacrimogêneo contra torcedores argentinos.

E a internet foi palco de memes

Com as coisas boas e ruins, a rede foi responsável por brincadeiras sem fim. O craque holandês Arjen Robben ficou famoso por se jogar no chão para forçar faltas. A internet, sem perdão, fez montagens do jogador com uma bailarina. No dia 24 de junho, o atacante uruguaio Luis Suárez mordeu o zagueiro italiano Giorgio Chiellini e foi banido da Copa do Mundo. O mundo online transformou Suárez em um tubarão, em um cachorro louco e até em um vampiro.

A derrota brasileira humilhante também virou piada. Usuários disseram que “nunca viram a Volkswagen produzir gols tão rápido”. O jogador Fred foi comparado com um cone e com a personagem “Mulher Invisível”, do quadrinho Quarteto Fantástico. A performance pífia de Hulk também foi vítima de brincadeiras, assim como seu nome foi diretamente relacionado ao monstro verde musculoso. A coluna vertebral fraturada de Neymar e a campanha pela sua melhoria também foi debochada por muitos internautas que não são tão ufanistas.

O maior meme de todos sem dúvida foi com o cantor dos Rolling Stones, Mick Jagger. Conhecido por seu pé-frio na Copa de 2010, as apostas do artista também se mostraram furadas neste mundial. Ele apostou que Portugal venceria a Copa antes mesmo do começo. O time de Cristiano Ronaldo foi eliminado na primeira fase. Jagger torceu então pela sua amada rainha Inglaterra, que tombou junto com os portugueses. Ele também apostou na Itália, que caiu na mesma fase. Por fim, o craque estava torcendo pelo Brasil contra a Alemanha, no dia dos 7x1. Ou seja, todos os times que Mick Jagger queria ver como campeã tombaram rapidamente, exceto talvez pela seleção brasileira.



Mick também virou vítimas de montagens dos internautas, especialmente no Twitter. Todos os times odiados pelo Brasil tiveram pelo menos uma imagem envolvendo o artista. Segundo as redes sociais, Mick Jagger já foi colombiano e até argentino, sendo que o astro sequer torceu para essas equipes. A apresentadora Luciana Gimenez, sua ex-mulher, chegou a reclamar dos internautas, pelo “bullying” exercidos contra o cantor e seu filho, Lucas Jagger.

Copa do Mundo foi uma festa

O mundial foi uma diversão para quem o viveu, com estrangeiros elogiando o comportamento de brasileiros. As festas em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo evidenciaram o lado positivo do evento. Durante os jogos, algumas reclamações ocorreram, mas as arenas conseguiram receber grandes quantidades de torcedores, chegando em uma faixa entre 40 mil e 70 mil pessoas.

Reclamações foram registradas na Arena da Baixada, em Curitiba, no Itaquerão, em São Paulo, e no Maracanã, no Rio. Técnicos reclamaram da qualidade dos gramados na semana do dia 20 de junho. Jogadores também sofreram em jogos às 13hrs em Fortaleza, horário de sol intenso. Mesmo com esses problemas pontuais, os eventos esportivos ocorreram com animação e infraestrutura.

E você, o que achou da Copa?

terça-feira, 15 de julho de 2014

Um protesto contra o cartel de metrôs de São Paulo dentro do metrô

Já e o segundo que aparece na internet com o design de um aviso regular da instituição. Parabéns ao autor do protesto, ainda desconhecido.


sábado, 5 de julho de 2014

Fábio Hideki, acusado de ser Black Bloc sem máscara, escreve carta de dentro da prisão

Por Mídia NINJA
Via Creative Commons

Em documento entregue ao Movimento Nacional de Direitos Humanos, Fabio Hideki revela sua consciência de preso político e tranquilidade quanto a necessidade de lutar por direitos no Brasil. Leia na íntegra:


03/07/2014  Fábio Hideki Haramo

Escrevendo de maneira leve e solta, sem pensar elaboradamente digo que não fiz nada de errado pois participar de manifestações de rua, usar equipamentos de proteção e resistir na defensiva, para fazer valer o direito de expressão pública, não é nem um pouco crime.

Estou sendo alvo de uma grande e suja perseguição política. Não neguei revista pois não tinha nada a esconder. Implantaram uma suposta bomba, que só fui ver no DEIC, horas depois de minha detenção.

Sou trabalhador, funcionário público e estudante da USP, gosto de ler, de mangá, de Tokusatsu (seriados japoneses de super-herois), de heavy metal, artes marciais, luta política por um mundo melhor, justo e sem desumanindade.

Sei da importância de lutar. Pratico kentô e sei que só viver de maneira individualista não leva a um mundo melhor. Assim, participo sim de sindicato, apoio determinados movimentos sociais como MTST e o MPL. Sei que lutar, sem briga, nas ruas é importante. Participo de manifestações sem partir para agressões. 

Tanto é que meus pais e meus avós sabem com tranquilidade que não faço lutas erradas".

Conheça Fábio Hideki

Fábio Hideki Harano foi preso em São Paulo após participar da manifestação “Se não tiver direitos, não vai ter Copa” no dia 23/06/14.  As testemunhas declararam não haver nenhum objeto ilegal em seus pertences naquele momento. Apesar disso, ele é acusado do crime inafiançável de portar um artefato explosivo. 

Atualmente cumpre prisão preventiva na Penitenciária Dr. José Augusto César Salgado, localizada na cidade de Tremembé - SP, acusado por quatro artigos do Código Penal – entre eles associação criminosa – e um artigo do Estatuto do Desarmamento.

Movimentos sociais, advogados ativistas e militantes prestam solidariedade ao caso e garantem a pressão popular para que Fábio seja libertado. Para saber mais conheça a campanha Liberdade para Hideki. 

sábado, 28 de junho de 2014

Conheça Fábio Hideki, que sofreu prisão preventiva, está no presídio de Tremembé e é acusado de ser Black Bloc

Por Mídia NINJA
Via Creative Commons


Após o término da manifestação do dia 23 de junho, em São Paulo, Fábio Hideki Harano foi preso por policiais civis à paisana sob a acusação de associação criminosa, incitação ao crime, porte de explosivo e suposta posse de um coquetel molotov.



Segundo o Secretário de Segurança Fernando Grella, “É a resposta da lei para esses indivíduos”. Curiosamente, a revista pessoal realizada por mais de dois policiais em frente às câmeras não encontrou qualquer objeto ilícito, muito menos um explosivo. O Secretário de Segurança, em mais uma prova do paradoxo legal de nossas forças de segurança, incentiva sua polícia a praticar crimes para que crimes não sejam praticados.

A prisão desse manifestante pacífico ocorre em um momento muito delicado para o país, e mostra mais uma vez que a Constituição Federal não é parte do treinamento de nossas corporações militares. Objeto de crítica em diversos órgãos de Direitos Humanos nacionais e internacionais, a polícia política mostra que continua nas ruas do país.

O Judiciário, na contra mão das declarações de Grella, tem se demonstrado cauteloso e desconfiado quanto o material apresentado pela Polícia Civil, que vem tentando imputar a qualquer pessoa a qualidade de ”black bloc”. Parlamentares paulistas também estão acompanhando o caso de perto. A insuficiência de provas contra Fábio e a declaração do Padre Julio Lancelotti, que diz ter visto um flagrante forjado, colocam ainda mais suspeita sobre as ações recorrentes de nossa política pública de segurança.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Vídeo mostra PM disparando balas de borracha em metroviários de SP

Por NINJA
Via Creative Commons

Trabalhadores do Metrô foram reprimidos com bombas e balas de borracha durante essa madrugada enquanto realizavam paralisação na Estação Ana Rosa, na zona sul da capital. Diversos outros pontos do metrô ainda concentram focos de resistência similares, como Brás, Jabaquara, Itaquera, Capão Redondo e Tamanduateí.



Trate-se de uma greve legítima, deflagrada pelo Sindicato dos Metroviários por ampla maioria e que afetou cerca de 4,6 milhões de usuários do Metrô na quinta-feira (5), há menos de uma semana para o início da Copa do Mundo.

A categoria tentou de todas as formas negociar pelos seus direitos sem prejudicar usuários mas nenhuma proposta foi aceita até então pela Secretaria de Transporte do Estado.

Os Metroviários chegaram inclusive a propor a catraca livre enquanto forma de manter o protesto sem afetar a população: “Seria uma alternativa à paralisação”, propôs o presidente do Sindicato Altino de Melo Prazeres Júnior. Geraldo Alckmin, Governador do Estado e responsável pela gestão do Metrô, afirma que o movimento é "político e sem sentido", e atua com a força militar da polícia para impedir a reivindicação trabalhalista prevista em Lei.

Um trabalhador foi preso e depois solto. A greve do Metrô continua por tempo indeterminado.

Leia mais sobre a greve dos Metroviários no NINJA

http://ninj.as/qlep4

quarta-feira, 26 de março de 2014

Comunicação em Grafite e Pichação durante os protestos de junho e ao longo de 2013

Artigo originalmente desenvolvido como um trabalho do curso de Estética III, do professor Dr. Leon Kossovitch, na FFLCH-USP. Aviso: O texto é longo.

Por Pedro Zambarda

A arte como representação de seu tempo

“O fim da história da arte não significa que a arte e a ciência da arte tenham alcançado o seu fim, mas registra o fato de que na arte, assim como no pensamento da história da arte, delineia-se o fim de uma tradição, que desde a modernidade se tornara o cânone na forma que nos foi confiada”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.

Quando Hans Belting lançou seu livro O Fim da História da Arte, decidiu colocar um ponto de interrogação no final da sentença, indicando, em parte, uma dúvida ao questionar os padrões estéticos. O autor estava num impasse ao duvidar de uma noção de trajetória histórica fixada pela educação formal. O meio artístico, ressaltado por Belting, já havia passado por movimentos como o Cubista, o Dadaísta, o Bauhaus e diversas vanguardas contemporâneas que contribuíram para facilidade de difusão dos meios. No campo da filosofia, Belting também ressalta escassez de pensadores totalmente originais no século 20 e ressalta o esvaziamento que atingiu a metafísica. Cita Jean-Paul Sartre, Martin Heidegger e Theodor W. Adorno. Os três, nascidos entre os anos de 1890 e 1900, exibem teorias que tentam refundar a ótica do pensamento histórico-filosófico, ou denunciam o desgaste de uma visão moderna.

“A obra de arte possui uma unidade peculiar que possibilita uma forma totalmente própria de narrativa: A interpretação. Ela não está ligada a priori nem a um método e nem mesmo a um ponto de vista, pois uma obra pode admitir vários métodos e responde a muitas questões ”, explica Hans Belting, em um capítulo de seu livro dedicado a uma dúvida se a história deve ser da arte ou das obras em si. Belting estabelece como visão diferenciada, por exemplo, da visão dos poetas da Antiguidade Clássica, greco-romana. A tradição, nesta civilização antiga, era a das obras simbólicas e até mesmo das obras de arte “inventadas”, de acordo com o autor alemão. Um exemplo claro, dentro da filosofia, são os manuscritos divulgados por Platão sobre os atos e os pensamentos de seu mestre, Sócrates, entre os anos 399 e 347 a.C. A biografia de Homero e de diversos nomes conhecidos do mundo grego também foram submetidas a uma análise que escapam de uma interpretação direta, está transformada em símbolo.

Com esta estética esgotada, progressivamente mais subjetiva ao olhar do espectador e muito distante de padrões estabelecidos pelo Renascimento Cultural na Europa dos séculos 14 e 16, o grafite ressurge como uma manifestação de protesto na Paris de 1968, no auge dos movimentos estudantis da Sorbonne.

Os grafiteiros se transformam em agentes artísticos com suas mensagens e eles ganham, aos poucos, relevância com a ascensão do street art e do hip-hop como música nos anos 1990.

“Há muito tempo a arte já não é mais um assunto de elite, mas assume em substituição todos os papéis da representação de identidade cultural, os quais nesse meio tempo não têm mais lugar nas instituições da sociedade. Quem fala sobre arte  a encontra em todas as funções possíveis por ela exercidas hoje. Em todo caso, onde a arte entra em cena o especialista é apenas requisitado apenas por uma questão ritual e não mais para um esclarecimento sério. Onde a arte não gera mais conflitos, mas garante um espaço livre no interior da sociedade, ali desaparece o desejo de orientação que sempre estava voltado para o especialista. Onde não existe mais esse desejo, ali também deixa de existir o leigo”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.


Nesta teoria atual, de crítica da história da arte e de desgaste de seus principais argumentos, ascende no Brasil uma série de grafiteiros e artistas de rua que ressaltam o esgotamento dos especialistas. Os membros dessa cena de street art nacional não se enquadram em padrões culturais da elite que frequenta grandes leilões de quadros, mas parecem autores de peças de arte conectadas diretamente ao cotidiano das pessoas nas ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de muitas outras cidades urbanizadas, que convivem com a alta concentração populacional combinada com problemas de desníveis econômicos e sociais relevantes.

A cena do grafite paulistano e os protestos de junho de 2013

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Em 1986, os irmãos gêmeos Otávio e Gustavo Pandolfo começaram a grafitar aos 12 anos de idade. Era ascensão do rap norte-americano e da cultura hip-hop negra excluída. Os dois vinham de famílias de artistas e já tinham contato com lápis e desenho desde os três anos de idade. Passaram a assinar os grafites em São Paulo com o nome OSGEMEOS.

A oportunidade de crescimento dos dois, que tirou eles de apenas fazer uma arte transitória, foi o encontro com o grafiteiro Barry Mgee (Twist), que veio de São Francisco, nos Estados Unidos. Mgee exibiu sua arte de rua em exposição e mostrou à dupla que era possível conquistar notoriedade com esta arte em 1993. Em 95, OSGEMEOS chegaram ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) e ganharam holofotes para sua arte que começou com tintas de carro, látex, spray e bicos de desodorante e de perfume para moldar traços. Do MIS, partiram para mostras em Munique e em São Francisco.

Foto: Reprodução/YouTube
Muitas vezes a arte de Otávio e Gustavo se transforma em uma metáfora do próprio ato de grafitar. São ilustrações urbanas que exibem a figura transgressora do grafiteiro dentro da imagem, não no sentido de vândalo, mas sim na composição de uma determinada arte.

A ascensão do grafite no Brasil, sobretudo em São Paulo, está diretamente ligado à forma como a cidade se expandiu e como hoje ela se tornou uma metrópole com mais de 200 milhões de habitantes em 2013. O local absorveu brasileiros do norte e do nordeste que se tornaram mão-de-obra, já foi uma cidade industrial e hoje é uma capital de serviços. Com a padronização das habitações em edifícios, a arte de rua se transformou em uma modificação desses espaços públicos e privados.

“São Paulo é uma selva de concreto. Prédio, prédio, prédio e quanto mais se constrói, mais há prédios e menos árvores e parques. Eles constroem um muro em volta. De alguma forma, você tem que fugir disso ou fazer parte. Essa é a história do grafite”.

Otávio Pandolfo, grafiteiro do grupo OSGEMEOS, no documentário Cidade Cinza.

OSGEMEOS não é o único grupo de grafiteiros famoso na cena paulistana. Também temos o nome de Carina Pandolfo, esposa de Otávio conhecida pelo nome Nina. Francisco Rodrigues da Silva, o Nunca, tornou-se grafiteiro aos 12 anos no bairro de Itaquera, zona leste paulistana, na periferia da capital. Do Cambuci, região central de São Paulo, surgiu Claudio Duarte, conhecido pelo apelido Ise, que aponta a gênese de sua arte no coração da metrópole onde ele vive e gosta de traços de letras estilizadas. Um último nome muito conhecido no grafite que vale a menção é Daniel Melim, responsável pelo desenho de uma mulher loira com traços similares ao de quadrinhos americanos retros, das décadas de 1950 e 1960. O desenho feito em um prédio pode ser visualizado na Avenida Tiradentes, indo da zona norte de São Paulo em direção à zona sul, no corredor de carros.

Foto: Pedro Zambarda
No ano de 2006, o economista Gilberto Kassab assumiu a prefeitura da cidade de São Paulo no lugar de José Serra, que renunciou ao cargo para concorrer ao governo do estado. Kassab implantou, logo no primeiro ano de sua gestão, a Lei Cidade Limpa, que removeu outdoors e tudo o que a prefeitura considerou como poluição visual. O alvo, obviamente, não ficaria apenas na publicidade. Em pouco tempo, Kassab começou uma guerra de tinta contra grafiteiros e artistas de rua. Ao ser reeleito em 2009, o prefeito também criou leis contra poluição sonora, interferindo em shows musicais na metrópole e detendo musicistas na Avenida Paulista e na Rua Augusta. Até o fim da gestão Kassab, em 2012, fazer arte ganhou um tom político.

O político era do PSD (divisão do DEM), um partido alinhado aos interesses do PSDB, legenda de oposição ao governo federal do PT. Em 2013, com uma virada eleitoral não esperava, o petista Fernando Haddad triunfou nas votações e assumiu o posto de Gilberto Kassab. A vinda de Haddad do PT alimentou expectativas de que uma gestão muito diferente e bem menos austera com a street art estava por vir.

O que os artistas esperavam não se concretizou. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, em maio de 2013, a gestão Haddad removeu grafites expostos pela dupla OSGEMEOS na cidade. Os grafiteiros fizeram um manifesto público e continuaram a desenhar na cidade. Disseram eles: "A arte de rua é apagada desde 2007 na cidade! Esperamos com este alerta que a Prefeitura de São Paulo e seus órgãos 'competentes' parem definitivamente de apagar os graffitis (sic) e respeitem e preservem a arte de rua em todos os seus segmentos ".

Este embate entre a cultura que emana das ruas encontraria reforço nos protestos que tomaram conta das ruas no mês seguinte. A maioria das mobilizações foi desencadeada por um grupo de jovens do Movimento Passe Livre (MPL).

Foto: Reprodução/Facebook/Os-Gemeos
Na mesma época, as passagens de transporte coletivo de São Paulo, tanto de ônibus quanto metrô, subiram do preço de R$ 3,00 para R$ 3,20. A alta no custo atraiu uma articulação do MPL, que existe desde 2005, surgido em Porto Alegre. Formado por estudantes em sua maioria universitários, o Movimento Passe Livre não tem lideranças carismáticas e possui uma organização mais horizontalizada, o que facilita a entrada de novos nomes. A principal defesa da mobilização é a criação de um transporte 100% público , ou seja, gratuito.

No entanto, antes de atingir esta, que é a maior das pautas de reivindicações, o MPL definiu metas mais realistas. A primeira delas se tornou a redução do preço das passagens de R$ 3,20 para o valor original de R$ 3,00. Protestos passaram a ser organizados e foi desta forma que começaram as chamadas “Jornadas de Junho”.

Em 6 de junho de 2013 começou o primeiro ato impulsionado pelo MPL, saindo do Teatro Municipal, no centro paulistano. Com presença de pessoas da periferia, a mobilização chegou até a Avenida 23 de Maio e colocou fogo em catracas. O movimento já contava com os chamados Black Blocs, pessoas que adotavam uma tática de vestir máscaras e revidar reações da polícia contra os protestos.

O confronto chegou na Avenida Paulista e voltou a acontecer nos dias subsequentes. Na mesma mobilização, surgiram pichações, uma forma de manifestação gráfica que normalmente é confundida com o grafite.

Foto: Pedro Zambarda
O MPL fez diversos atos após o dia 6, aprofundando a importância da diminuição das passagens e angariando simpatizantes. No dia 13 de junho, as jornadas se radicalizaram após excessos da Polícia Militar de São Paulo no quarto ato. Jornalistas foram agredidos no ato, como foi o caso de Giuliana Vallone, repórter da Folha de S.Paulo, que levou um tiro de bala de borracha no olho, mas não ficou cega graças ao seus óculos. No entanto, o fotógrafo da Futura Press Sérgio Silva não teve a mesma sorte: Ficou cego no olho direito. Além dos dois, Piero Locatelli, repórter da revista Carta Capital foi preso por porte de vinagre. Segundo o jornalista, ele levou vinagre no protesto para amenizar os efeitos de bombas de gás lacrimogêneo disparadas pela polícia. Pessoas foram presas arbitrariamente, sem provas de vandalismo ou transgressão social.

As Jornadas de Julho ainda foram impulsionadas pelo quinto ato, no dia 17 de junho, com adesão em massa que colocou pelo menos 1 milhão de pessoas na rua , sem nenhum revide da Polícia Militar em São Paulo. Os manifestantes chegaram até o palácio do governo de São Paulo, derrubaram as grades e, na volta, pularam as catracas do metrô. Ocorreram também manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Em Brasília, os protestos invadiram a Esplanada dos Ministérios. Outros atos foram organizados, chegando também até a sede da prefeitura de São Paulo, no centro. Os protestos agruparam outras pautas, como o combate à corrupção, a queda da PEC 37, a prisão dos mensaleiros do PT, a corrupção do metrô de SP pelo PSDB, entre outros muitos movimentos com motivação política. Até o final de 2013, continuaram ocorrendo mobilizações descentralizadas por parte da população.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Qual é a diferença entre grafite e picho?

“Em São Paulo tem várias categorias de pichação. Tem os caras que fazem só muro, tem os caras que fazem janela, tem os caras que fazem mais prédio, tem os caras que fazem mais escalada (sic) e tem os caras que fazem tudo. O fundamental da pichação daqui de São Paulo, independente das categoria (sic), é o cara ter bastante pichação”.

Djan, pichador em uma fala do documentário Pixo de 2009.

Foto: LiaC/Wikimedia Commons
De acordo com pichadores e fotógrafos entrevistados no documentário Pixo, de 2009, dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira, o principal recurso estético e linguístico do picho é sua comunicação fechada. Através de códigos e desenhos de letras, a pichação polui o ambiente e revela a manifestação de setores excluídos da sociedade, como os pobres, os favelados e os jovens que estão envolvidos em uma vida de crimes. Ao executar o ato de pichar, muitos desses indivíduos entram em choque com a segurança pública ostensiva, que é a Polícia Militar de São Paulo, a mesma que reprimiu os protestos de todo o restante da população em 2013.

Um motoboy chamado Zé, fã de Iron Maiden, que diz que cruza a metrópole paulistana toda, diz que é “viciado em pichação”, no documentário Pixo. Ele confessa: “É difícil eu não ter entrado em uma rua que eu não pichei em São Paulo”. Sua motivação não parece ser a arte ou o desenho, como é o caso dos grafiteiros OSGEMEOS, mas sim sua relação de obsessão e revolta com a cidade. 

No entanto, mesmo com essa manifestação, os pichos podem guardar uma logomarca própria, que serve para identificar o pichador. Eles podem adquirir traços próprios que buscam diferenciar determinadas letras das demais. O “caderno de caligrafia” destes pichadores são os prédios das cidades, as estruturas urbanizadas e o design cinza e sem cor da metrópole.

Das referências musicais, o grafite nasceu tipicamente do hip-hop e do rap negro, músicas tradicionais de cidades grandes. A pichação, pelo seu aspecto mais rebelde e por seus constantes confrontos com a polícia, advém de roqueiros punks paulistanos, além dos protestos da esquerda contra a Ditadura Militar . Existe muita arte entre as duas tendências de arte/protesto de rua, mas elas apontam para diferentes caminhos, embora, para um leigo, a pichação continue sendo algo tão “sujo” para a cidade quanto o melhor e mais bem acabado dos grafites.

Com as Jornadas de Junho em 2013, o picho voltou como um formato estético de impacto quanto como um veículo de mensagem dos protestos do MPL e de outros movimentos sociais.

Foto: Pedro Zambarda
Diferente dos pichadores punks ou dos jovens de periferia com linguagem cifrada, as pichações dos protestos em 2013, próximos das Copas das Confederações e do Mundo, adquiriram um discurso político pesado, irônico e escrito em uma tipografia simples e legível. Na Avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, próximo à TV Globo de São Paulo, as mensagens grafadas nos prédios atacavam uma burguesia e uma classe média alienadas em ações contra corrupções e os desmandos de políticos, partidos políticos e do Estado como um aparelho único. “Poder Popular” apareceu em um prédio comercial na Berrini. Anteriormente aos milhões nas ruas, o MPL foi duramente reprimido pela Polícia Militar de São Paulo, chamado de “vândalos” e agredidos quando tentaram se defender, em um combate desigual contra as autoridades. Esse cenário fervente alimentou o surgimento do Black Bloc como tática contra a polícia, com pessoas comuns vestindo máscaras e atacando com paus e pedras as autoridades.

No entanto, somente quando jornalistas e indivíduos de classes mais altas foram feridos fatalmente, sendo que alguns perderam a visão, os protestos ganharam ignição significativa entre a classe média. Pacificamente, mas sem entender direito as pautas daqueles que já estavam nas ruas, essas novas pessoas engrossaram as vozes e diminuíram os preços das passagens de ônibus e de metrô, atingindo uma das metas do MPL. Isso gerou, obviamente, pichações nas ruas, nos metrôs, nos grafites e em todo lugar. O picho era como se fosse uma voz rouca da rua, dizendo o que estava acontecendo historicamente, embora não tenha resolvido a maior parte dos problemas de corrupção do país.

Foto: Pedro Zambarda
Foto: Pedro Zambarda
Na frente da estação de trem da região da Vila Olímpia é possível ver duas pichações que fazem uma conexão total com os protestos que ocorreram no Brasil: “O Povo Acordou” e “Copa das Manifestações”. As frases escritas na Berrini foram apagadas no mês de setembro, após ficarem quase três meses no local, entre junho e agosto. No entanto, as pichações da Vila Olímpia permaneceram. Refletem, em parte, a identificação das pessoas com os protestos, principalmente as camadas mais pobres.

O picho ganhou força com os protestos. Foi enquadrado como depredações da mesma maneira que a destruição de vitrines de bancos por Black Blocs, que enfrentaram a Polícia Militar. No entanto, o clima de revolta contra o aumento das passagens dos transportes tornou os dizeres “Poder Popular” dos pichadores muito mais artístico e político do que o picho convencional feito por gente da periferia.

Um caso em que a pichação foi encarada de outra forma ocorreu em 12 de junho de 2008, no Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo. Um pichador mascarado invadiu uma exposição de estudantes do ensino superior da instituição. Ao tentar escrever sua mensagem, foi expulso e detido pela polícia. A atitude de proteger o local da arte de elite dos seguranças universitários foi o álibi perfeito para que um grupo de pichadores invadisse o local, manchando o interior e o exterior do prédio. O ato se transformou pancadaria entre pobres e pessoas socialmente mais favorecidas.

“Você acha que isso é beleza? Isso ai é coisa de incompetente, de pessoas frustradas, de caras que não tem objetivo na vida. Essa porcaria ai é de cara analfabeto, rapaz. Beleza é o pôr-do-sol, é (sic) as cores da luz branca, de onde vem outras cores. Ela nos alegra todo dia. É arte, tá me entendendo. Não essa porcaria sintética, fedida e que faz mal ”, afirmou José Carlos de Oliveira, funcionário da Belas Artes, na ocasião. O picho não consegue ter um reconhecimento absoluto como arte, mas transmite uma linguagem, mesmo que seja através de uma agressão e de um vandalismo. No contexto dos protestos populares impulsionado pelo Movimento Passe Livre, em São Paulo, a pichação ganhou autenticidade, aceitação e uma comunicação mais universal, além do vocabulário sufocado e cifrado da periferia.

A pichação feita na Belas Artes é feita com letras estilizadas, quase ilegíveis para quem está acostumado ao alfabeto latino tradicional. A tipografia é tratada para refletir ou uma linguagem fechada, ou o estilo do pichador. Ao ser utilizado nos protestos contra o Estado em 2013, o picho assumiu formas e letras tradicionais. Foi lido pela maioria das pessoas na rua, concordando com a mensagem ou não.

Foto: Reprodução/YouTube
“Pichação em São Paulo é muito mais interessante do que o grafite na cidade. O que eu vejo eu acho muito kitch, assim. O grafite é um tipo de arte careta, muito careta. A pichação tem uma vantagem sobre isso. Ela pode ser tudo, mas careta ela não é. Tanta coisa boa no mundo não é arte. Eu não entendo por que isso deve ser arte”.

Tiago Mesquita, crítico de arte presente no documentário Pixo.

Entendendo a história de OSGEMEOS, já mencionada, verifica-se que o grafite é uma arte que já estava internacionalizada quando ganhou forma em São Paulo. A pichação tomou um caminho inverso, nascendo com um código próprio da periferia paulistana e dos grupos punks e de roqueiros que estavam na cidade. Da mesma forma, os grafites baseados nos protestos de São Paulo demoraram um tempo maior do que as pichações para ganhar destaque para as pessoas e para a imprensa.

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Otávio e Gustavo Pandolfo grafitaram um manifestante com uma mensagem de protesto após o dia 13 de junho de 2013, quando o repórter Piero Locatelli, da Carta Capital, foi preso por porte de vinagre. OSGEMEOS fizeram uma crítica direta às constantes censuras que jornalistas estavam enfrentando nos protestos, sobretudo da Polícia Militar de São Paulo.

O desenho foi feito na Avenida 23 de Maio, no Bairro do Paraíso e continha os dizeres “Vinagre é Crime”. A prefeitura paulistana apagou a mensagem em meados de julho. OSGEMEOS então colocaram uma segunda mensagem, mais provocadora, mencionando a Constituição Brasileira: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença. Artigo 5º”. A atitude de grafitar, ser apagado e trazer uma nova mensagem ocorreu muito depois das primeiras pichações durante as Jornadas de Junho.

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Ou seja, os protestos deixaram em evidencia o picho, enquanto o grafite manteve sua dimensão artística e até aceita em determinados espaços públicos. Como o senso comum não costuma diferenciar os dois ofícios, quando a pichação ganhou destaque por mensagens da população em mobilização, ela parecia de fato uma arte de rua que refletia aquele momento histórico do Brasil.

Possível conclusão

“A arte antiga tornou-se parte integrante da cultura que veneramos por causa de sua beleza e não por causa de sua verdade ou atualidade”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.

No dia 5 de novembro de 2013, o cantor de música pop Justin Bieber grafitou um muro nas ruas de São Conrado, Rio de Janeiro, com conivência das autoridades policiais. Por ser celebridade, o músico não sofreu nenhuma repressão física. Bieber não é pobre, e não tem motivos sociais para se manifestar em um desenho em uma cidade brasileira. Mesmo assim, esteticamente, o artista canadense se sente atraído pela street art e por essas manifestações urbanas de cultura.

Por esse motivo, podemos dizer sim que grafite e pichação são formas esteticamente artísticas, que adquiriram forma com os movimentos musicais presentes nas grandes cidades hoje, acompanhadas por livros e leituras críticas sobre a verticalização das moradias. Em uma cultura de prédios e de grandes corporações capitalistas, criar obras de arte nas paredes de cor cinza é tanto uma manifestação direta quanto um formato adequado de arte, que contrasta com a pintura clássica ou mesmo com o modernismo do começo do século 20. Mesmo a transgressão das formas em Pablo Picasso não chega aos pés dos inúmeros edifícios pichados na capital paulistana. A visão artística do pichador beira a desobediência civil, sobretudo com o risco de cair dos prédios ao fazer um picho ou as perseguições, agressões físicas e processos que ele pode sofrer da polícia e das entidades de justiça brasileiras.

A pichação é paradoxal por consistir, apenas, em letras e palavras escritas de maneira cifrada. No entanto, elas manifestam o desejo subjetivo do artista daquela montagem com sprays de tinta. Não se trata de um desenho, mas apenas de termos rabiscados nas paredes. Beira o vandalismo de acordo com uma visão tradicionalista de arte, cristalizada nos museus, nas grandes curadorias e nos grandes leilões artísticos. Ao pichar um local, passa-se uma mensagem independente de reflexões prolixas sobre a arte. O picho é um ato que está sempre em discussão, mas que adquire uma estética válida, por exemplo, quando representa as vozes de milhões de brasileiros que foram reclamar de seus governantes e de seus políticos. De seus poderosos. No entanto, mesmo quando é considerado como uma estética válida, pode se tornar caso de polícia.

O grafite é parecido quando é reprimido da mesma forma pela autoridades, mas tem um forte apelo de formas por consistir essencialmente de ilustrações, monstadas com tintas, texturas e diversos materiais. Os grafiteiros se destacam como porta-vozes dos protestos, mas também ganham espaço no design de anúncios publicitários e outros formatos comercialmente aceitos pelo mercado.

Arte Fora do Museu, site criado por André Deak e Felipe Lavignatti, foi criado como uma plataforma colaborativa em 2011 e ganhou o prêmio Web’s Got Talent em 2013, promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) , pelo Núcleo de Coordenação do Ponto BR (NIC.br)  e pelo W3C Brasil. A página online traz uma premissa simples: Catalogar a arte tipicamente de rua em forma de mapas e bancos de dados.

Mais de 100 cidades brasileiras foram catalogadas e, agora, o projeto está começando a rastrear a street art em cidades como Barcelona (Espanha), Montevidéu (Uruguai) e Nova York (EUA). Deak e Lavignatti, dois jornalistas, não embolsaram um centavo do projeto, mas conseguiram patrocinadores e apoios para sustentar o site. O Governo Federal, o Ministério da Cultura e o Festival Cultura Inglesa foram algumas das entidades que contribuíram para a expansão e inclusão de colaborações na internet. Os mapas podem ser configurados e complementados por visitantes do site.  

Mesmo com essas possibilidades, o site não fez um mapeamento de pichações. As artes incluídas como categorias do site são arquitetura, grafite, colaborativa e mural. O picho, sendo uma expressão típica da periferia e dos excluídos, é controversa e não possui uma memória consistente. Dentro da iniciativa de Deak e Lavignatti, o grafite já está se tornando uma história em mapas e perfis de artistas, mesmo sobrevivendo fora de museus e de algumas galerias culturais.

Foto: Reprodução/Arte Fora do Museu
Referências

Livros
BELTING, Hans. O Fim da História da Arte. Editora Cosac Naify. 2003.
COTTINGTON, David. Cubismo. Editora Cosac Naify. 2004.

Documentários
MESQUISA, Marcelo. VALIENGO, Guilherme. Cidade Cinza. 2013.
WAINER, João. OLIVEIRA, Roberto T. Pixo. 2009.

Sites
DEAK, André. LAVIGNATTI, Felipe. Arte Fora do Museu. 2011.

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