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domingo, 18 de janeiro de 2015

O dia em que o MPL provocou Haddad e tomou bomba de graça da PM de Alckmin

Por Pedro Zambarda
Originalmente escrito para o Diário do Centro do Mundo (DCM)

Compareci, nesta sexta-feira (16), ao 2º Grande Ato do Movimento Passe Livre contra o aumento das passagens de ônibus e de metrô em 2014. O protesto estava marcado para as 17hrs, mas cheguei a passar pela Praça do Ciclista, no fim da Avenida Paulista, horas antes, entre 15hrs e 16hrs.


Não havia nem 10 pessoas no local marcado para começar a marcha, mas já rodavam viaturas da Polícia Militar cruzando a rua para se alocar nas laterais, na Rua Bela Cintra. Amigos me avisaram pelas redes sociais que outros veículos da polícia rondavam a Sé. As autoridades vieram ainda mais preparadas para este protesto. Se antes foram estimados cerca de 800 policiais, eu acredito ter visto mil efetivos colados na manifestação, além de helicópteros e viaturas de suporte.

O protesto começou às 17hrs completamente frágil, pouco concentrado e fraco. A Praça do Ciclista é um péssimo local para reunião de grupos. À frente da estátua do herói venezuelano Francisco de Miranda há uma sacada circular com uma visão do túnel que liga a Paulista com a Rebolças e a Doutor Arnaldo. Por isso, o grupo ficou espalhado e pouco concentrado, no mesmo tempo em que a Tropa de Choque se concentrou do lado da Paulista e mais PMs se aglomeraram na Consolação.


Naquele momento, o MPL deveria fazer uma assembléia pública para decidir o trajeto. Mas o medo da reação da polícia e a pouca concentração de pessoas atrasaram tudo, embora as baterias dos coletivos de partidos políticos e de movimentos sociais batessem com força. Eu decidi, então, passar o cordão do Choque e ver quantos policiais estavam na Avenida Paulista.

Vi algo surreal perto do Haddock Lobo: além dos microônibus e dos carros da Tropa de Choque, havia policiais militares encapuzados com armas que certamente não eram de balas de borracha. Pareciam fuzis de relance. Estavam protegendo lojas de conveniência e até o restaurante América naquele local.

Voltei para o protesto. O MPL decidiu rapidamente que seria impossível passar a barreira do Choque e ir em direção à Paulista. Mudou a rota e decidiu descer a Consolação, passando pelo mesmo lugar em que fomos encurralados na Rua Matias Aires, entre outras vias.

O começo da caminhada foi lento. Um grupo de black blocs derrubou uma cabine da PM no final da Paulista. Achávamos que aquilo causaria um confronto com a polícia, acabando com o protesto ali mesmo. As autoridades correram para filmar o grupo, mas não puxaram o Choque para reagir.

A PM chegou a afirmar em seu Twitter que apreendeu supostas garrafas de gasolina de manifestantes. A corporação se retratou em minutos, dizendo não saber o real conteúdo do recipiente. E seguiu postando nas redes sociais a sua visão sobre o que ocorreu.

O protesto foi aumentando de tamanho. De cerca de mil pessoas na Paulista, foram concentrando cinco mil na Consolação progressivamente. Mesmo assim, as pessoas se mantiveram na faixa de descida, sem entrar na contramão. Algumas poucas pessoas foram para a outra pista. Uma senhora, por exemplo, começou a berrar para os ônibus que subiam a Consolação. “É um absurdo pagar 3,50!”. Em resposta, um motoqueiro soltou: “Parem de ficar defendendo o PT!”.

A manifestação passou a estação de metrô Paulista, ultrapassou a Matias Aires e ia em direção ao Mackenzie. Lá estourou a primeira bomba de efeito moral. O Movimento Passe Livre segurou o protesto e conteve os black blocs, mesmo diante da polícia. Não aconteceu quebra-pau, ninguém se inspirou e resolveu apedrejar bancos. Por isso o protesto seguiu.


O clima acalmou tanto que eu vi um senhor passeando com dois cachorros no meio do protesto. Os black blocs andaram perto do MPL, sem pegar pedras e nem ameaçar ninguém. Chegamos ao centro pouco antes das 20hrs. Passamos pela biblioteca Mario de Andrade e pela estação Anhangabaú de metrô. Naquele trecho, vi o Movimento Passe Livre negociando com a Tropa de Choque ao longo do percurso, para evitar reações violentas. E a polícia procurou manter a calma, embora dois policiais arrumaram briga com dois roqueiros bêbados que trombaram com eles próximo dali. Rumamos para o Teatro Municipal.


Amigos meus e jornalistas acharam que as bombas e as balas de borracha iriam voar assim que chegássemos na Prefeitura de São Paulo. Misteriosamente, a PM apenas se posicionou na frente do local e permitiu a passagem do protesto. Manifestantes e imprensa ficaram felizes pela ausência de repressão até ali. O MPL resolveu então fazer uma provocação com o prefeito Fernando Haddad. Apontou uma luz em direção à Prefeitura com os seguintes dizeres: “Je Suis Catraca”. Na imagem de fundo, estava o próprio prefeito. O que o MPL queria dizer era que o petista Haddad também é conivente com o aumento das passagens, não criticando apenas o tucano Geraldo Alckmin.

Integrantes do MPL voltaram a se reunir com a PM na frente da prefeitura. Conversei com Eudes Cassio do Movimento Passe Livre. “Estou tentando negociar com a polícia para que o protesto prossiga até a Secretaria de Transportes”, ele me explicou.


Eu fui para a lateral da prefeitura, perto de alguns fotojornalistas que se sentavam para transferir imagens do protesto pacífico até aquele momento. Aconteceu então algo que nem a própria Polícia Militar explicou nas redes sociais. Do nada começaram a ser disparadas quatro bombas na frente da prefeitura. Notando a movimentação, resolvi correr, porque vieram em seguida as balas de borracha. Logo depois, consegui ouvir fogos de artifício. Foram disparados pelos manifestantes, mas só depois do ataque da PM.

O problema é que eu corri pela lateral, por trás da Tropa de Choque, e dei de cara com a Cavalaria, que fez como se fosse avançar pra cima do grupo de jornalistas. Berrei e bati no topo do capacete de skatista que comprei para não levar balas no crânio, que estava identificado com os dizeres de imprensa. Eles hesitaram, pararam e deixaram a gente passar. Na frente da prefeitura, as pessoas começaram a correr de medo.

Uma amiga tentou fugir pela estação Anhangabaú. Foi separada de suas companhias porque o metrô fechou a entrada antes que ela pudesse correr. Só conseguiu fugir pela Consolação. Outra garota levou spray de pimenta no rosto depois de desmaiar.

Os black blocs, quietos até então, se sentiram livres para depredar e revidar o ataque espontâneo da Polícia Militar, que usou até munição química no ataque. Derrubaram um orelhão, a Caixa Econômica da Rua Líbero Badaró, uma unidade do Banco do Brasil na Xavier de Toledo e um CitiBank da Rua São João.

Atacados pelo gás e pelas balas de borracha, manifestantes tentaram descer a Anhangabaú e foram agredidos por PMs que circundavam a área embaixo. Os que correram até o Teatro Municipal encontraram outra barricada do Choque e mais bombas. A manifestação se dispersou completamente.

Eu corri por fora, através do Largo de São Francisco, até o começo da Brigadeiro Luís Antônio. Exausto e na companhia de outra jornalista, entrei com sede num posto BR para beber alguma coisa. Antes disso, vi a bateria de militantes do PSOL voltando do protesto. Uma menina entre eles tossia muito e passava mal pelos efeitos do gás lacrimogêneo. Outras pessoas andavam em pequenos grupos para evitar agressões com a PM

O Choque então apareceu com lanternas procurando manifestantes na rua. Um amigo meu, fotógrafo freelancer, voltou até o Teatro Municipal para ver como ficou o local após o protesto. Foi recebido com bombas, sendo que tinha acabado de tirar o seu capacete com os dizeres de imprensa para se proteger.

Fui embora pela estação República, que estava sendo vigiada por um cordão de seguranças particulares da Linha Amarela, privatizada por Alckmin. Desviei deles e rumei pra zona norte de São Paulo. E um protesto que tinha tudo pra ser pacífico terminou em tiro, porrada e bomba. Sem que eu entenda até agora os reais motivos por trás disso.

Porradaria da PM encerra o 2º ato contra a tarifa em SP

Por Mídia NINJA
Creative Commons

Tudo ia bem. Mas a PM não se emenda. Bastou que alguns manifestantes lançassem contra os escudos da tropa de choque entrincheirada na porta da Prefeitura algumas garrafas de plástico com água e... Uma pancadaria absurda tomou o centro de São Paulo.


(Seria esse um efeito perverso do racionamento de água, só agora admitido pelo governador Geraldo Alckmin?)

Bombas de efeito moral, de gás lacrimogêneo, balas de borracha foram disparados contra tudo o que se movesse, contra manifestantes e contra pessoas que simplesmente passavam por ali, naquela hora de pânico.


Uma covardia.

No segundo ato promovido pelo Movimento Passe Livre, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô, de R$ 3 para R$ 3,50, nesta sexta-feira, 16 de janeiro, a única guerra real que aconteceu foi a de números. O MPL dizia ter reunido 20.000 manifestantes, enquanto a PM avaliava o número de participantes em 3.000.


Até as 20h33, a manifestação vinha bem, apesar de a PM ter detido um manifestante pelo “pecado” de carregar uma rodinha de skate na mochila. Jogaram-no no chão como a um saco de lixo, imobilizaram-no. Logo ele foi solto. Também explodiu um artefato de gás lacrimogêneo na frente do Ministério do Trabalho, na rua da Consolação, 1272...


Mas a passeata seguiu firme e organizada, apesar de duas agências bancárias (uma da Caixa Econômica Federal e outra do Banco do Brasil) terem sido depredadas não se sabe nem por quem.

Era alta a tensão reinante.

Até que alguns manifestantes arremessaram as garrafinhas de água na tropa de choque.

Motivo ridículo? É, mas foi o que deflagrou a pancadaria generalizada.


“A polícia vê e entende os manifestantes como inimigos. A reação deles é desproporcional em relação aos que seguem pacificamente. Na semana passada um observador legal foi atingido com bala de borracha no pescoço. Outros três foram golpeados com cassetetes. Não há diálogo. O clima é sempre de tensão”, diagnosticou Denize Guedes, jornalista e observadora legal.

Pelo menos 1.000 PMs acompanham a marcha. Tinha de tudo. Cavalaria, Tropa de Choque, Tropa do Braço, Força Tática. Um caminhão, chamado de POE, “Plataforma de Observação Elevada”, de onde sobe um mastro cheio de câmeras, fotografava toda a manifestação.

“A gente tá lutando por vocês também! Vão caçar bandidos, seus covardes!”, gritava um manifestante para a PM. Ele estava irado com a repressão. Tinha visto uma faixa uma faixa estirada debaixo do Viaduto do Chá, em que se lia: “Agora é de R$ 3 pra baixo”. E se emocionou.

Uma mulher ficou desmaiada no viaduto bombardeado. Foi socorrida por manifestantes. Em frente à Prefeitura, um manifestante sangrava no chão.

O Segundo Ato contra o Aumento das Tarifas acabou sob o ataque da polícia. O centro de São Paulo ficou às moscas e restou um cenário de devastação, apesar de os manifestantes terem a intenção (frustrada) de levar o protesto pelo largo S.Francisco, a Sé, até o  Tribunal de Justiça de São Paulo.

Fechado, o  Metrô  Anhangabaú foi o palco da revolta de usuários que protestavam contra a ação policial:  "Somos cidadãos, somos cidadãos!"

Falava-se em oito detidos, que foram enviados para o 78º DP, na rua Estados Unidos, nos Jardins.

A promessa agora, é uma só: “Amanhã vai ser maior!”

sábado, 10 de janeiro de 2015

O dia que a PM nos encurralou na Matias Aires, travessa da Consolação

Por Pedro Zambarda
Originalmente escrito para o Diário do Centro do Mundo (DCM)

Ainda lembro de dois barulhos de bombas na mesma rua, os outros três que ouvi na Consolação e do desespero das quatro mulheres que correram comigo até uma garagem de um sobrado que estava aberta na Rua Matias Aires. Era 19 hrs e ficamos escondidos ali por mais de meia hora, falando em voz baixa e com medo que a Tropa de Choque da PM invadisse o local.


Uma amiga minha conseguiu ter um azar pior. Conversávamos antes dos disparos de bala de borracha e das bombas de efeito moral. Sentíamos que o clima estava pesando quando vimos rapazes black blocs indo depredar um banco. Só não imaginávamos que a reação seria naquela proporção.

Ela fugiu para uma padaria na mesma rua, esquina da Matias com a Rua Augusta. O problema é que a polícia foi atrás e invadiu o local. E ela se escondeu atrás de uma geladeira, num local onde “jamais imaginou que caberia”.


Antes de correr para a padaria, minha amiga Cecília chegou a ver um PM apontando uma arma de bala de borracha contra seu rosto e teve uma bomba jogada próxima dos seus pés, mas conseguiu evitar o estouro se movimentando a tempo.

Minha história com o protesto ocorrido no dia 9 de janeiro, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,50, não aconteceu apenas quando fomos encurralados na Matias Aires. Começou algumas horas antes.

Eu cheguei uma hora antes do horário oficial dos protestos, às 16hrs. Conversei com integrantes do movimento Território Livre no Teatro Municipal e vi cartazes dizendo que às 17hrs ocorreria uma assembléia pública do Movimento Passe Livre  para definir o percurso da mobilização. Aproveitei o tempo livre para descobrir onde estava a polícia e vi que tudo ainda estava muito vazio.


Às 16h30, vi que a lateral direita da prefeitura encheu de viaturas da Força Tática e da Tropa de Choque. Poucos guardas municipais estavam no local e um grupo menor de manifestantes estava montando cartazes por ali, separados da turma do Municipal.

Às 17hrs, os grupos de manifestantes se reuniram. Ao mesmo tempo, a PM girou com suas vitaduras para interditar a rua de acesso à prefeitura, lotando de carros. A Tropa de Choque chegou pela lateral e se fixou na frente das Casas Bahia, antigo Mappin. Na assembléia, a PM filmou a decisão dos manifestantes, ouviu toda a rota e conversou com algumas lideranças, informando que acompanharia a mobilização. Alguns oficiais do Choque possuíam câmeras GoPro presas no torso de suas armaduras “estilo RoboCop”.


Até um grupo de petistas protestava contra o prefeito Fernando Haddad, sem fazer alusão ao governador Geraldo Alckmin que era “homenageado” em outros cartazes. O grupo pequeno de filiados do PT, cerca de 10 pessoas, pedia revogamento da tarifa de ônibus. Um homem chamado Alexandre me explicou que eles são de fato militantes.

Às 17h30, a Polícia Militar cercou completamente o protesto. Achei que teríamos  problemas para sair dali. Um senhor visivelmente bêbado começou a xingar as viaturas que impediam nosso deslocamento. “Estou aqui lutando pelos meus direitos e não por este Estado merda”, gritou, xingando os PMs na cara deles.

No mesmo local, um pouco adiante, o blogueiro do UOL Leonardo Sakamoto preenchia papéis. Tirei sarro no Facebook afirmando que ele estava recebendo autógrafos de fãs. “Não, estava só assinando a papelada de direitos de imagem que pedem em protestos”, ele me explicou, quando começamos a andar.

Não se via só bandeiras tradicionais, do PSOL, do PSTU, dos black blocs e do Movimento Passe Livre. Havia integrantes do RUA, um movimento anticapitalista, e até do Partido Pirata, que prega ciberativismo e estava fazendo streaming no local junto com outro grupo conhecido, o Mídia NINJA. Ou seja, a impressão que se tinha é que as Jornadas de Junho e 2013 aumentaram muito as vertentes de mobilizações que desejam a tarifa zero ou uma redução drástica dos custos em transporte público.

A massa de pessoas aumentou de cerca de mil para cinco mil a medida que contornamos o Teatro Municipal e pegamos as ruas em direção à Ipiranga. De lá, o protesto estava determinado a tomar a Consolação. Fraquejamos num momento, no cruzamento da São Luís, quando a PM tentou conter o avanço. Um princípio de confusão começou entre black blocs e o cordão de isolamento da polícia, mas foi suprimido. A Tropa de Choque deixou o povo avançar e os manifestantes formaram seu próprio cordão de união, enquanto gritavam e pulavam mesmo num calor de cerca de 35 graus. “Mais um aumento eu não aguento!”.


Subimos a Consolação com relativa calma no começo. O protesto tomou a pista em direção à Avenida Paulista. Progressivamente, a massa tomou a via na contramão. O problema é que, conforme expandíamos de tamanho, as pessoas ficavam cada vez mais dispersas e menos concentradas. Os blocs então assumiram a dianteira.

Começaram então palavras de ordem contra a PM. “Tem que ser dismilitarizada! Fascistas! Fascistões!”.

O clima começou a pesar cada vez mais. Os blocs então correram ainda mais à frente e depredaram uma agência bancária. O Choque não perdoou essa e contraatacou. Eu estava com Cecília naquele instante.

Perto dali, vi a jornalista Eliane Brum entrevistando um homem de rua sobre as impressões dele sobre o protesto.

Foi neste momento, da ponta da Consolação até a Rua Matias Aires, que nós fomos encurralados com três bombas de efeito moral. Quem ficou na avenida ainda teve que topar com balas de borracha.

Eu corri e entrei na primeira porta aberta que vi na Matias. Era uma garagem e eu estava com quatro mulheres e um homem que eu sequer conhecia. Ficamos escondidos agachados atrás de um carro e em silêncio. Ouvi mais duas bombas na rua, sendo uma delas ao lado da casa. Chequei no Twitter e vi que estávamos sendo perseguidos e presos, independente de ser black bloc ou não.

Ficamos mais de meia hora juntos e não esquecerei do pânico daquelas pessoas naquele protesto.

Os donos da casa foram conversar conosco. Eram evangélicos e iam começar o culto poucos minutos depois, quando foram interrompidos pelo ataque da PM. Nos ofereceram água assim que nos sentimos mais à vontade.

Eu fui olhar pela janela. Quando vi que o Choque havia saído dos bares e estava conversando com a imprensa, decidi que talvez fosse o momento de sair. Estava certo. Perguntei cordialmente a um PM como eu deveria sair dali. Ele, percebendo que eu estava no protesto, respeitosamente não respondeu minha pergunta. E pediu água mineral para o mesmo dono da residência onde eu estava.

Pensei em ir embora, mas acabei pensando em fazer uma rota segura. Subi pela Bela Cintra até a Paulista. De lá eu vi as pessoas sendo detidas pelo Choque e pela Cavalaria da Polícia Militar que blindaram a Paulista. O objetivo era que não chegássemos até ali.

O blindado que o governo estadual divulgou que atiraria água em manifestantes foi visto circulando e transportando policiais da Tropa de Choque, mas não atirou jatos na população. O protesto chegou perto do Center 3,com black blocs avançando em algumas poucas agências bancárias, mas foi contido.

Eu fui andando à frente e vi uma Avenida Paulista dividida. Até o Masp, tudo estava fechado e as pessoas estavam com medo do quebra-quebra. Mais adiante, a vida estava normal, os trabalhadores bebiam sua cervejinha e donos de cães passeavam.


Cinco viaturas protegiam uma agência do banco HSBC. A Polícia Militar ocupou a Paulista e dava voltas de carro.

Os números da manifestação são confusos, mas o Movimento Passe Livre disse que haviam 30 mil pessoas. Eu chuto em torno de 15 mil e a PM diz que haviam 5 mil. Cerca de 50 pessoas foram presas. O fato é que, conforme éramos encurralados, o movimento perdeu completamente sua força e repetiu as primeiras mobilizações de 2013, quando boa parte dos ricos e da classe média não dava a devida atenção.

2015, pelo visto, promete ser outro ano de protestos pesados contra os governos brasileiros.

Em 2013, o colunista Elio Gaspari foi aos protestos e descreveu na Folha que a batalha da Polícia Militar começou na Maria Antonia, local conhecido pela luta entre estudantes do Mackenzie e da USP durante a ditadura. Eu sinto que outro momento histórico aconteceu quando fomos encurralados há poucos metros do mesmo local, na Rua Matias Aires.

E vou lembrar das pessoas que sentiram medo comigo. É dose ouvir bomba de efeito moral bem de perto e ser obrigado a se esconder atrás de um carro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Um debate importante sobre segurança em um possível segundo mandato de Dilma

Por Pedro Zambarda

Estamos chegando ao fim do segundo turno das eleições presidenciais de 2014. O tucano Aécio Neves disputa com a petista Dilma Rousseff o cargo de presidente da República. Dilma destacou-se em seu primeiro mandato com avanços na educação federal, no combate à fome e na política externa menos dócil, principalmente com o escândalo de espionagem digital dos EUA. No entanto, a gestora fraquejou no avanço da economia e foi dona de uma política de segurança dura durante manifestações, que mostraram sua face inflexível durante a Copa.


Em julho deste ano eu pude conversar com Inauê Taiguara para o site Diário do Centro do Mundo (DCM). Inauê foi preso durante a reintegração de posse da reitoria durante a greve da USP em 2013, sem provas de ter depredado o local, e participou de protestos que ocorrem desde junho do ano passado. Comentamos sobre abusos dos governos e até sobre as reações violentas durante a Copa do Mundo de 2014.

Ao contrário do que o título da matéria dá a entender erroneamente, Inauê não é líder do Movimento Passe Livre (MPL), mas apenas teve uma participação junto com vários coletivos que fizeram parte das mobilizações populares.

Para entrar no debate sobre segurança, é fundamental relembrar os abusos policiais contra protestos sem nenhum motivo ou prova, além dos dados de roubos, assaltos e da criminalidade real das grandes cidades.

Recomendo a leitura da entrevista no DCM.

sábado, 5 de julho de 2014

Fábio Hideki, acusado de ser Black Bloc sem máscara, escreve carta de dentro da prisão

Por Mídia NINJA
Via Creative Commons

Em documento entregue ao Movimento Nacional de Direitos Humanos, Fabio Hideki revela sua consciência de preso político e tranquilidade quanto a necessidade de lutar por direitos no Brasil. Leia na íntegra:


03/07/2014  Fábio Hideki Haramo

Escrevendo de maneira leve e solta, sem pensar elaboradamente digo que não fiz nada de errado pois participar de manifestações de rua, usar equipamentos de proteção e resistir na defensiva, para fazer valer o direito de expressão pública, não é nem um pouco crime.

Estou sendo alvo de uma grande e suja perseguição política. Não neguei revista pois não tinha nada a esconder. Implantaram uma suposta bomba, que só fui ver no DEIC, horas depois de minha detenção.

Sou trabalhador, funcionário público e estudante da USP, gosto de ler, de mangá, de Tokusatsu (seriados japoneses de super-herois), de heavy metal, artes marciais, luta política por um mundo melhor, justo e sem desumanindade.

Sei da importância de lutar. Pratico kentô e sei que só viver de maneira individualista não leva a um mundo melhor. Assim, participo sim de sindicato, apoio determinados movimentos sociais como MTST e o MPL. Sei que lutar, sem briga, nas ruas é importante. Participo de manifestações sem partir para agressões. 

Tanto é que meus pais e meus avós sabem com tranquilidade que não faço lutas erradas".

Conheça Fábio Hideki

Fábio Hideki Harano foi preso em São Paulo após participar da manifestação “Se não tiver direitos, não vai ter Copa” no dia 23/06/14.  As testemunhas declararam não haver nenhum objeto ilegal em seus pertences naquele momento. Apesar disso, ele é acusado do crime inafiançável de portar um artefato explosivo. 

Atualmente cumpre prisão preventiva na Penitenciária Dr. José Augusto César Salgado, localizada na cidade de Tremembé - SP, acusado por quatro artigos do Código Penal – entre eles associação criminosa – e um artigo do Estatuto do Desarmamento.

Movimentos sociais, advogados ativistas e militantes prestam solidariedade ao caso e garantem a pressão popular para que Fábio seja libertado. Para saber mais conheça a campanha Liberdade para Hideki. 

sábado, 28 de junho de 2014

Conheça Fábio Hideki, que sofreu prisão preventiva, está no presídio de Tremembé e é acusado de ser Black Bloc

Por Mídia NINJA
Via Creative Commons


Após o término da manifestação do dia 23 de junho, em São Paulo, Fábio Hideki Harano foi preso por policiais civis à paisana sob a acusação de associação criminosa, incitação ao crime, porte de explosivo e suposta posse de um coquetel molotov.



Segundo o Secretário de Segurança Fernando Grella, “É a resposta da lei para esses indivíduos”. Curiosamente, a revista pessoal realizada por mais de dois policiais em frente às câmeras não encontrou qualquer objeto ilícito, muito menos um explosivo. O Secretário de Segurança, em mais uma prova do paradoxo legal de nossas forças de segurança, incentiva sua polícia a praticar crimes para que crimes não sejam praticados.

A prisão desse manifestante pacífico ocorre em um momento muito delicado para o país, e mostra mais uma vez que a Constituição Federal não é parte do treinamento de nossas corporações militares. Objeto de crítica em diversos órgãos de Direitos Humanos nacionais e internacionais, a polícia política mostra que continua nas ruas do país.

O Judiciário, na contra mão das declarações de Grella, tem se demonstrado cauteloso e desconfiado quanto o material apresentado pela Polícia Civil, que vem tentando imputar a qualquer pessoa a qualidade de ”black bloc”. Parlamentares paulistas também estão acompanhando o caso de perto. A insuficiência de provas contra Fábio e a declaração do Padre Julio Lancelotti, que diz ter visto um flagrante forjado, colocam ainda mais suspeita sobre as ações recorrentes de nossa política pública de segurança.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Vídeo mostra PM disparando balas de borracha em metroviários de SP

Por NINJA
Via Creative Commons

Trabalhadores do Metrô foram reprimidos com bombas e balas de borracha durante essa madrugada enquanto realizavam paralisação na Estação Ana Rosa, na zona sul da capital. Diversos outros pontos do metrô ainda concentram focos de resistência similares, como Brás, Jabaquara, Itaquera, Capão Redondo e Tamanduateí.



Trate-se de uma greve legítima, deflagrada pelo Sindicato dos Metroviários por ampla maioria e que afetou cerca de 4,6 milhões de usuários do Metrô na quinta-feira (5), há menos de uma semana para o início da Copa do Mundo.

A categoria tentou de todas as formas negociar pelos seus direitos sem prejudicar usuários mas nenhuma proposta foi aceita até então pela Secretaria de Transporte do Estado.

Os Metroviários chegaram inclusive a propor a catraca livre enquanto forma de manter o protesto sem afetar a população: “Seria uma alternativa à paralisação”, propôs o presidente do Sindicato Altino de Melo Prazeres Júnior. Geraldo Alckmin, Governador do Estado e responsável pela gestão do Metrô, afirma que o movimento é "político e sem sentido", e atua com a força militar da polícia para impedir a reivindicação trabalhalista prevista em Lei.

Um trabalhador foi preso e depois solto. A greve do Metrô continua por tempo indeterminado.

Leia mais sobre a greve dos Metroviários no NINJA

http://ninj.as/qlep4

sábado, 30 de novembro de 2013

Estudantes de Filosofia da USP comentam prisões arbitrárias no campus

Inauê Taiguara Monteiro de Almeida e João Vitor Gonzaga foram presos na manhã do dia 12 de novembro de 2013, na reintegração de posse da reitoria da USP, sem estarem no local. As prisões ocorreram na Praça do Relógio, do mesmo campus. Inauê tinha cabelos longos e encaracolados, que foram raspados. Os dois passaram uma noite presos sob alegação de formação de quadrilha, sem provas concretas. Em público, os estudantes comentaram as prisões, acompanhados pelas professoras Tessa Moura Lacerda e Marilena Chauí. Vídeo está abaixo:




domingo, 23 de junho de 2013

Segunda-feira, dia 17 de junho: O grande dia da "Revolta do Vinagre"

Eu queria ter escrito este texto no dia que ocorreu aquele protesto que uniu mais de 100 mil pessoas nas ruas de São Paulo. Queria ter narrado o medo que as pessoas expressavam nas redes sociais naquele dia. Estávamos com medo de ir às ruas protestar e pedir a diminuição da tarifa de ônibus de R$ 3,20 para R$ 3 e levar borrachadas da Polícia Militar. Estávamos com medo de nos machucar na rua. Alguns nunca tinham indo protestar. Outros já estavam exaustos de protestar e de tanta repressão do governo aos pedidos da população carente e que sofre com a economia predatória no Brasil.

Mas nós fomos às ruas naquele dia 17 de junho de 2013, em nossa Revolta do Vinagre. Fomos às ruas depois da agressão à jornalista Giuliana Vallone, que levou uma bala de borracha no olho. Fomos às ruas depois de cerca de 250 detenções sem sentido da PM, por porte de vinagre em protestos entre outros motivos no mínimo discutíveis.




Aquele dia, em São Paulo, foi a vitória dos partidos de esquerda, como PSTU, PSOL e outros, que conseguiram emplacar e democratizar suas pautas. Foi uma vitória dos apartidários não-conservadores, que conseguiram sugerir novas abordagens de protesto, sem violência e com muitas adesões. Teve coxinha e pessoal de direita no protesto? Teve, e que bom que teve, para diversificar opiniões. Teve skinhead e grupos extremistas naquele dia? Eles deviam estar lá, porque depois se manifestaram em outros dias, quebrando bandeiras de partidos políticos. Este é o lado ruim da história. Mas a grande vitória foi de todos, unidos pelos R$ 3,20 da tarifa do ônibus e contra outras pautas, genéricas ou não, contra as injustiças praticadas pelo Estado.

O grande dia da Revolta do Vinagre incentivou as pessoas a permanecerem nas ruas. Contra Marco Feliciano e outras pautas. Pelos motivos certos e equivocados. 17 de junho, para o bem ou para o mal, ficará para a história.

No Rio de Janeiro, aquele dia foi marcado pela violência de alguns manifestantes contra prédios públicos. Em Brasília, será lembrado pela invasão significativa na Esplanada dos Ministérios, incomodando a raiz federal da política nacional. No Brasil, os protestos e as indignações ficarão registradas pela absurda sincronia entre os grupos pulverizados no Facebook e no Twitter. Faltam pautas concretas? Faltam, mas a primeira vitória está selada.

A mídia primeiro condenou os protestos, chamando quem sempre protestava na rua de vândalo e de baderneiro. Quando jornalistas começaram a se ferir, o cenário mudou. Quando pessoas inocentes começaram a ser presas por excessos da polícia, o cenário para o dia 17 de junho estava selado.

Termino o texto com uma fotografia que tirei na Faria Lima, em São Paulo, de um prédio espelhado com os manifestantes marchando. E também linko aqui o texto do blogueiro da Folha, Leonardo Sakamoto, chamado "Manifestantes derrubam aumento da tarifa do transporte público em São Paulo e no Rio". Foi a grande vitória desses protestos: A redução da tarifa de ônibus e a abertura de um processo de discussão sobre os transporte e os gastos dos governos no Brasil. Mereceram capa do jornal americano New York Times e uma cobertura ampla de blogs independentes estes protestos em nosso país.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

O protesto de todos os protestos

No dia 9 de março de 2013, escrevi um texto afirmando que as manifestações contra o deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos era o protesto de todos os protestos. Eu estava errado. Esse grande protesto, que pode movimentar o Brasil novamente nesta segunda-feira, aconteceu no dia 13 de junho de 2013.



Resumirei os fatos daquela quinta-feira.

Foram aproximadamente 250 presos, a maioria liberados até o dia seguinte, sem provas. 15 jornalistas detidos. O jornalista da Carta Capital, Piero Locatelli, foi detido por porte de vinagre, utilizado por manifestantes para amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo disparado pela polícia contra manifestantes que pedem a redução de R$ 0,20 do aumento das passagens de ônibus (R$ 3,20). Foram diversas pessoas agredidas. A manifestação começo aproximadamente às 15h do dia 13 na frente do Theatro Municipal. No local, já eram realizadas detenções só na averiguação. O protesto foi organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) que defende até algo mais radical: A passagem gratuita.

vídeos de pessoas em seus apartamento tirando fotografias e recebendo, em troca, balas de borracha da Polícia Militar. A repressão invadiu a propriedade privada.

Os manifestantes caminharam pacificamente até a Rua Augusta e a Bela Cintra, tentando chegar na Avenida Paulista. Os relatos postados na internet mostram que apenas um vidro de uma residência e um ônibus foram pichados pelos manifestantes. O lixo queimado e os vidros de viaturas quebrados foram obras da Polícia Militar de São Paulo, com agentes infiltrados e a Tropa de Choque.

Fala-se em repressão contra estudantes, trabalhadores, militantes de partidos políticos e civis comuns. Um casal chegou a ser agredido em um bar quando a PM de São Paulo decidiu interditar a Avenida Paulista para afastar protestos.

Um amigo meu recebeu bomba de gás lacrimogêneo na Avenida Nove de Julho, buscando uma rota alternativa para chegar ao metrô.

Hoje está marcado outro protesto para as 17h. A pauta já não é mais R$ 0,20, mas sim melhorias no transporte público, combate à corrupção e aos males da política brasileira, como a sobrecarga de impostos. O prefeito petista Fernando Haddad e o governador tucano Geraldo Alckmin afirmaram em coletivas que não vão abaixar o preço, mas agora estão dispostos a conversar pela pressão popular.

Quer saber mais, quer lembrar alguma coisa? Leia o texto do Melhor que Bacon e seja feliz. Todas as fontes são confiáveis.

Veja também a entrevista de Giuliana Vallone, repórter da Folha que levou um tiro de bala de borracha no olho, mas não ficou cega porque estava de óculos. Ela é um retrato dos excessos dos governos e da repressão policial em protestos pacíficos.


Este é o protesto de todos os protestos. Sem uma causa única, mas com a maioria das pautas da chamada Reforma Polícia. Rendeu, inclusive, vaias à presidente Dilma na abertura da Copa das Confederações.

PS: Sábado, dia 15, ocorreu outro protesto pacífico, mas sem repressão da polícia ou repercussão gigantesca. Trata-se do Ato contra o Estatuto do Nasciturno, projeto que pretende conceder uma pensão de estupradores às suas vítimas como um direito ao feto, se a mulher engravidar. O processo foi interpretado como mais um projeto de lei que não legaliza o aborto e mantém a criminalização, tirando o direito da mulher de cuidar do próprio corpo se a gravidez trouxer riscos à sua saúde. A foto é minha, logo abaixo.


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