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segunda-feira, 2 de março de 2015

Eu me arrependo de quem eu votei em 2014 para presidente?

Por Pedro Zambarda

Votei na Dilma Rousseff nos dois turnos na eleição passada. Não sou petista e nunca fui filiado a partido nenhum. Cheguei a votar em Marina Silva em 2010. Já anulei votos. Me arrependo do meu voto na presidente pelos ministérios e pela condução econômica. Não me arrependo se a opção fosse Aécio Neves, considerando as acusações pesadas de corrupção de seus aliados, como é o caso de José Agripino Maia do DEM.


Tenho amigos tucanos e tenho amigos que votaram em Aécio Neves por razões que considero justas. Respeito é bom e todo mundo gosta.

Não sou de esquerda, por mais que amigos tentem me convencer do contrário. Tenho forte simpatia com a esquerda dos meus tempos de grêmio na escola, mas mantive uma militância apartidária - e simpática aos partidos. E aumentei minha simpatia pela esquerda após a crise americana de 2008, fora a crise européia. Conheço teses liberais e apoio a livre iniciativa. O problema é que o capitalismo conservador caminha pra formação de oligopólios e isso é tudo, menos um sistema econômico saudável.

Digo tudo isso pra expressar: Se você culpa petistas ou pessoas de esquerda pela crise no Brasil, você só contribui para aumentar o problema. A grande maioria dos escândalos de corrupção no país é formado por conluios empresariais que abastecem políticos e impedem o progresso para atender demandas particulares.

Mesmo se a gente tivesse eleito Jesus Cristo pro cargo de presidente do país, ele seria trapaceado por um congresso comprado e com uma população leniente. São pessoas que se assustam com vidraça de banco quebrada num protesto e não entendem o que é uma formação de cartel corporativo.

Votei na urna sabendo do escândalo da operação Lava Jato que se aprofundava na Petrobras, das alianças do PT com o PMDB ao longo de mais de 10 anos e da precariedade de Dilma em falar em público, pois encontrei ela pessoalmente pelo menos duas vezes cobrindo eleições. Mas lembrei do escândalo do Helicoca de Aécio Neves em Minas Gerais, da Sabesp e Geraldo Alckmin em São Paulo, além do cartel de trens e metrôs do conluio Alstom-Siemens que une alguns dos principais nomes do PSDB.

Votei consciente e não tenho culpa nenhuma caso o governo federal se prejudique na condução de sua gestão. Quem vai sofrer não são os petistas "burros" que votaram em Dilma Rousseff. Seremos todos nós. Estamos dentro do mesmo barco e no mesmo processo político. Não ganhamos nada pensando em separar as pessoas em blocos A ou B.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O antipetismo fervoroso somado com preconceitos criaram as eleições de baixo nível

Por Pedro Zambarda


Dilma Rousseff estava virtualmente reeleita ontem, às 20hrs, e eu profetizei no Facebook: "Vai ter gente xingando os nordestinos e os pobres e virando notícia". Minutos depois, surgiram as primeiras reportagens em portais de notícia relatando episódios pitorescos de preconceito, racismo e xenofobia regional, sobretudo de paulistas e habitantes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Diziam-se todos eleitores do tucano Aécio Neves e decepcionados com o Partido dos Trabalhadores (PT) chegar ao seu quarto mandato, mesmo que tenha sido após uma eleição apertada e com um governo, no mínimo, controverso.

O segundo turno entre Dilma e Aécio foi uma disputa clássica entre a esquerda e a direita nas urnas, embora nenhum dos dois proponha economia planificada nos moldes soviéticos e nem o neoliberalismo de Margaret Thatcher do Reino Unido. Pelo menos não de acordo com os planos de governo.

Dilma quer dar continuidade aos programas sociais e precisa restaurar o relacionamento com os empresários, com a indústria e com o setor privado em geral. Aécio tinha o apoio dos empresários, mas tentou flertar com os programas sociais para não ter apenas esse apoio. O que aconteceu foi justamente isso: Uma eleição acirrada por causa de programas muito parecidos, pouco inovadores ou mesmo radicais.

Há de se analisar os votos por estados e por regiões. Dilma Rousseff não venceu só no nordeste. Venceu nas regiões nordeste, norte e nos estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Ainda levou um percentual que variou entre 30% e 40% nos sulistas.

Aécio Neves levou votos de brasileiros que estavam no exterior. E foi maioria no sudeste e no sul. Foi minoritário no nordeste e no norte, mas também teve seus percentuais similares aos de Dilma em São Paulo.

O Brasil não está dividido. O Brasil é complexo, grande e comporta todas as suas contradições, sobretudo em período eleitoral.

Os escândalos de cada candidato são pauta para outro texto. Mas justamente o jornalismo que apurou irregularidades causou um efeito nefasto para a política brasileira: O antipetismo.

Não há uma reação de petistas a ponto de criar um antitucanismo, uma seita anti-PSDB. Os petistas tem orgulho dos programas sociais que, de fato, levaram milhares para fora da linha da pobreza e da miséria. O PT nunca foi bem representado pela imprensa mais alinhada ao PSDB, sempre foi criticado e, pasmém, continua financiando essa mídia.

Mas vamos nos ater ao antipetismo.

O pior das eleições foi protagonizado pelos antipetistas. São eleitores que, acima de tudo, odeiam os últimos 12 anos do PT no governo federal querem tirar o partido do poder, não eleger uma alternativa legítima. São pessoas que, neste momento, não aceitam que eleições podem ser perdidas.

A própria Dilma temia perder as eleições, dado alguns exageros de sua campanha.

O antipetismo acredita em "ditadura comunista", mesmo que os governos Dilma e Lula tenham falado tanto com Cuba e Irã quanto com os Estados Unidos de George W. Bush e a Alemanha de Angela Merkel.

O antipetismo não vê nada de errado em ter como analista político um cantor controverso como Lobão, que mostra a cada dia um desconhecimento de ciência política mais explícito.

O antipetismo aplaude a truculência de Roger, cantor do Ultraje a Rigor. Roger pode militar para quem ele bem entende, inclusive para Aécio Neves. O que ele não pode é insultar pessoas no Twitter que sequer disseram que iriam votar em Dilma, como ele fez incontáveis vezes.

Eu mesmo bati boca com Roger e, na época, não achei que iria votar em Dilma Rousseff. Roger fez questão de me bloquear, sem sequer ouvir a minha opinião crítica sobre o escândalo do metrô do PSDB que ele nunca citou em seu Twitter.

O antipetismo caiu em argumentos furados e de baixo nível. Isso é o combustível para atrair preconceito contra nordestinos. Odiar nordestinos é um passo para odiar negros. Odiar negros também é um bom aval para desprezar minorias como gays e transsexuais. Esse caldo soma-se ao preconceito clássico contra pobres, sendo que você não precisa ser necessariamente rico.

Alguns desses antipetistas agora cogitam fazer mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff em seu segundo mandato. Utilizam um discurso separatista, para selecionar os estados que não votaram no PT e criar um novo país. Não sabem que esses processos gerariam guerra e sofrimento para as pessoas que convivem com eles.

Antipetistas são antidemocráticos por excelência. E a imprensa peca feio ao alimentar esse sentimento.

As críticas ao PT são sadias quando feitas de maneira sóbria e sem preconceitos, tanto por parte dos eleitores de Aécio Neves quanto pelo de Dilma Rousseff. Também são válidas por partidários mais à esquerda ou mesmo liberais mais extremos. No entanto, o que se formou na última década na política nacional foi a corrente do antipetismo.

O antipetismo é alimentado diariamente na mídia, por meio de colunistas que criaram a tese de que o PT quer se perpetuar no governo e que nada de bom foi feito nos últimos anos por este partido. O Bolsa Família, o Brasil fora do Mapa Mundial da Fome, o Mais Médicos, o Ciência sem Fronteiras, o Pronatec e diversos outros programas que ajudaram o país são sumariamente descartados por essas pessoas.

Não há sequer uma leitura crítica.

O antipetismo não é eleitor de Aécio Neves, necessariamente. Para o anti, qualquer coisa é melhor do que mais quatro anos de PT no poder.

Esse movimento cresceu graças ao preconceito entre as altas classes sociais com os mais pobres, sobretudo com uma vitória de um partido tradicional da esquerda brasileira em 2002. No entanto, há antipetistas com as mais diversas rendas nos dias atuais, porque a mídia massificou a mensagem de que o partido de Lula e Dilma deu um golpe para permanecer no poder, ignorando os votos de diversas pessoas que não enxergavam nem José Serra e nem Geraldo Alckmin como opções nos últimos 12 anos. E, certamente, não consideraram Aécio Neves um bom candidato agora.

Não há problemas em criticar o PT e nem em não votar no partido, mas é realmente lamentável ver os argumentos rasos quando os antipetistas são confrontados por reportagens sérias que mostram corrupção no PSDB e na oposição política ao governo federal. A ideia desse material jornalístico não é mostrar que "todos os políticos são corruptos", mas são informações que devem ser consideradas por qualquer um na hora de decidir na urna e na hora de acompanhar um governo.

Foram os eleitores “esclarecidos” de São Paulo que reelegeram Geraldo Alckmin governador do estado em primeiro turno, perpetuando o PSDB na região por 24 anos. O tucano quebrou o orçamento da maior universidade brasileira, a USP, colocou a Polícia Militar contra os professores em protestos, desalojou pessoas miseráveis no centro da capital paulistana e agora está acabando com a reserva de água da Cantareira, abastecida pela Sabesp, o que pode criar um racionamento sem precedentes no estado, como já ocorre em cidades como Itu.

Em 12 anos de governos do PT, a direita perdeu a oportunidade de fazer uma candidatura mais propositiva e com menos apelo às acusações de corrupção. O único efeito colateral dessa opção foi ter criado uma massa antipetista, com ajuda da grande mídia nacional.

O maior desafio do PSDB nestes próximos quatro anos não será derrotar o PT nas urnas em 2018, mas refazer a base eleitoral de seu partido. Do caso contrário, entusiastas do separatismo, da Ditadura Militar, do preconceito regional e racial serão os apoiadores de seus candidatos. Ou seja, o antipetismo mais apaixonado.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Levy Fidelix e Luciana Genro incendiaram o debate dos presidenciáveis

Por Pedro Zambarda

“Órgão excretor para mim não é órgão sexual. E eu prefiro perder votos de quem simpatiza com isso”, disse Levy Fidelix, na frase que marcou a noite.


O candidato do PRTB nitidamente fez uma declaração homofóbica, que despertou a fúria de muitos usuários de redes sociais que estavam assistindo ao debate dos presidenciáveis que ocorreu neste domingo (28).

No entanto, o debate já começou aquecido. Luciana Genro foi a responsável pelos primeiros ataques em formato de perguntas. Inquiriu Dilma Rousseff sobre a falta de reforma previdenciária nos últimos 12 anos do PT no governo federal. Depois, reclamou quando Eduardo Jorge insinuou que ela não poderia ser presidente e relembrou do trabalho dele ao lado de políticos camaleônicos como Gilberto Kassab, responsável por muitos atrasos na prefeitura de São Paulo mas com verba suficiente para fundar seu próprio partido.

Luciana não poupou nem Marina, cuja “nova política” foi imediatamente relacionada aos setores do agronegócio e às igrejas evangélicas, considerados pela candidata como “reacionários”.

Num tom de voz alto e nem sempre respeitando o tempo de suas próprias perguntas ou tréplicas, Luciana Genro adotou uma tática agressiva contra todos, defendendo a si própria e ao PSOL como uma esquerda autêntica.

Mas talvez nem ela esperava o que viria em sua última pergunta ao candidato Levy Fidelix.

“O Brasil é campeão de mortes na comunidade LGBT. Por que as pessoas que defendem a família se recusam a reconhecer como família quem tem o mesmo sexo?”.

A pergunta de Luciana foi a senha para que Levy Fidelix declarasse uma guerra da “maioria” – os heterossexuais – contra a “minoria” – os gays, lésbicas e transexuais. “Como presidente da República, não posso endossar isso ai não. Como pode ficar um pai de família, um avô, ficar escorado com medo de perder votos? Prefiro perdê-los”, disse o candidato, em alto e bom som.

Levy Fidelix provocou a euforia de quem assistia o debate e entende a importância de defender a causa LGBT, mesmo sem ser militante ou mesmo sem saber o quanto a comunidade gay sofre. O discurso do Pastor Everaldo, embora seja praticamente o mesmo, não foi tão agressivo ou contundente quanto o de Levy. Fora os dois, nenhum outro candidato tratou o tema com tanta insensibilidade quanto Levy.

O “homem do aerotrem” perdeu toda a sua aura de bonachão e terminou o debate numa declaração conformada de que iria perder as eleições. Terminada a discussão, Eduardo Jorge, o “rei da zoeira no Twitter”, foi o primeiro candidato a falar sobre a criminalização da homofobia como é feito em casos de racismo nas redes sociais.

Desta forma, os três principais candidatos nanicos botaram fogo e deram a tônica do debate nesta noite. Enquanto isso, Aécio Neves manteve seus ataques em cima da corrupção e da Petrobras e Marina Silva tentou justificar em diferentes momentos a tal da nova política.

E Dilma pediu o direito de resposta toda vez que mencionavam o seu governo, mesmo em perguntas de terceiros. Embora todos os candidatos a criticassem, não se viu nenhum dos presidenciáveis irem contra o Bolsa Família ou as iniciativas sociais, principais heranças do PT no governo federal.


Leia também, no DCM: De extravagância a excrescência: por que o eleitor é obrigado a conviver com Levy Fidelix

domingo, 10 de agosto de 2014

Os dez mandamentos do crowdfunding, segundo a Agência Pública

Estratégias e ensinamentos de um projeto de financiamento coletivo para jornalismo

Por Natalia Viana, da Agência Pública
Creative Commons

No 9º Congresso da Abraji, eu tive a oportunidade de trocar algumas experiências sobre como organizar uma campanha de crowdfunding para jornalismo. Estava muito bem acompanhada: na mesa, Natalia Garcia, a primeira jornalista no Brasil a financiar um projeto por crowdfunding – o Cidades para Pessoas – e a Sabrina Duran, que toca o projeto Arquitetura da Gentrificação. As duas campanhas de crowdfunding aconteceram antes do Reportagem Pública e nos ensinaram muito. A Natalia, em especial, foi nossa “guru” desde o começo e nos deu dicas valiosas para o primeiro financiamento coletivo da Agência Pública.O papo foi tão bom que achamos bacana compartilhar aqui, com os nossos leitores.



Vamos começar pelo começo. O projeto Reportagem Pública durou 45 dias em agosto e setembro de 2013 e arrecadou R$ 58.935 de 808 apoiadores, distribuindo 12 bolsas de R$ 6 mil. A Pública recebeu 125 propostas de reportagem e selecionou 48 delas, votadas pelos doadores através de um hotsite especial, no qual também podiam comentar as propostas e se voluntariar para ajudar os repórteres.
A ideia do projeto era testar as possibilidades de colaboração em jornalismo investigativo, engajando público e repórteres na realização de pautas de interesse mútuo, eliminando os intermediários.

Durante os meses que antecederam a campanha, as diretoras da Pública trabalharam na estratégia. A campanha teve slogans como “Queremos mais repórteres nas ruas”, “Queremos mais investigações que importam”. Estabelecemos uma rede de apoio com aliados próximos, como as organizações Escola de Ativismo, Barão de Itararé, Rosental Calmon Alves, Intervozes e Midia Ninja. Obtivemos também o apoio da fundação Omidyar Network , que proveu “Matching Funds” para o projeto: a cada real arrecadado, a fundação deu mais 1 real dobrando o valor final e possibilitando a doação de mais bolsas para jornalistas.

Uma lição importante foi a necessidade de engajar todos os que querem participar do projeto. Por isso, os doadores puderam não só votar nas pautas, mas também trocar mensagens com os repórteres, através do hotsite  do projeto e do grupo de email criado para todos os que participaram: público, repórteres e Pública. O grupo segue ativo até hoje e tem sido fonte de informações para trabalhos acadêmicos sobre o Reportagem Pública.

Outro aprendizado importante foi olhar para a campanha como uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Não vale “queimar a largada”, como fez o Brasil diante do time da Alemanha na Copa… É preciso fazer uma estratégia para cada semana, buscando grupos diferentes que podem se interessar pelo projeto, com uma tática diferente para cada uma das semanas, ângulos diferentes do projeto, e usando diferentes materiais de campanha (imagens/videos). Afinal, ninguém quem ficar tempo todo te ouvindo só pedir dinheiro, né?

Esse vídeo aqui é um exemplo. Com ele, mostramos que a Pública precisava da ajuda dos seus leitores e simpatizantes, sem ficar reforçando o pedido por dinheiro. E com Frida Kahlo sobreposta ao Tio Sam, de brinde:


Logo depois do final do projeto, fizemos uma lista com os “Dez Mandamentos do Crowdfunding”, segundo tudo o que aprendemos por aqui. A lista está abaixo, item por item, mas quiçá o maior e mais interessante de todos os aprendizados diz respeito à natureza da campanha que fizemos.

A campanha inspirou jornalistas em todo o Brasil a apostar em grandes investigações e no financiamento coletivo. Conseguimos financiar e produzir – com muito trabalho! – 12 séries de reportagens muito bacanas, que podem ser vistas aqui.

Muitos outros grupos se seguiram, e temos tentado ajudar no que podemos – claro, nem sempre temos tempo! Mas o essencial é o seguinte: o crowdfunding não é apenas uma maneira de levantar dinheiro; é uma maneira espalhar novas ideais e convidar pessoas para fazerem parte da sua construção.

Dez mandamentos do crowdfunding


1) O projeto tem que existir: seja honesto com você mesmo e acredite

2) Convide as pessoas a participar

3) Ouça o que os mais experientes e mais velhos têm a dizer

4) Seja organizado, desenvolva uma boa estratégia e a leve a sério

5) Seja transparente em relação a metas, intenções e uso do dinheiro

6) Encontre bons parceiros de caminhada, que sejam comprometidos com a causa

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um resumo da Copa do Mundo do Brasil por quem viu todos os jogos


Por Pedro Zambarda

Acompanhei todos os 64 jogos da Copa do Mundo 2014 para fazer mais os posts do blog ao vivo do Diário do Centro do Mundo (DCM). Vi a maioria na televisão, acompanhei streamings na internet e vi até os protestos que acompanharam boa parte do mundial, até as quartas de final, antes das prisões das polícias no Brasil.



Confira um resumo de tudo.

Uma Copa recheada de grandes jogos

As melhores partidas da Copa do Mundo foram um misto de jogos equilibrados com algumas goleadas históricas. A vitória de 5x1 da Holanda sobre a Espanha foi uma humilhação, mas ela marcou pelo gol de cabeçada de Robin Van Persie, voando como um peixinho, no dia 13 de julho. No dia seguinte, a Itália de Mario Balotelli fez uma disputa equilibrada com a Inglaterra de Wayne Rooney, vencendo por 2x1.

Costa Rica foi a grande surpresa da primeira fase, das oitavas e das quartas de final, vencendo o Uruguai por 3x1 e a Itália por 1x0. Empataram com a Inglaterra no 0x0 e com a Grécia, por 1x1. O último jogo deles foi na Arena Fonte Nova, em Salvador, contra  Holanda no dia 5 de julho. Seguiram empatados no 0x0, para sofrer com o goleiro reserva holandês Tim Krul, escolhido a dedo pelo técnico Louis van Gaal nos pênaltis, perdendo por 4x3. Mesmo sem vencer o mundial, está foi a melhor Copa dos costa-riquenhos, conhecidos pelo apelido de “ticos”.


A França e os Estados Unidos foram boas surpresas na Copa. Os americanos tombaram para a Bélgica no dia 1º de julho, não sem antes resistir antes a toda poderosa Alemanha. Os franceses deram uma goleada de 5x2 na Suíça no dia 20 de junho. O muçulmano francês Karim Benzema cativou por seu futebol, apesar de não cantar a Marselhesa, o hino oficial da França, pelo massacre que ela provocou na Argélia, terra de seus pais. A França tombou para a Alemanha, no dia 4 de julho por 1x0.

As oitavas de final foram tomadas por times latino-americanos, sendo sete dos 16 classificados. Destes, só restaram o Brasil e a Argentina nas quartas, embora os esforços do Chile, do Uruguai, do México, da Colômbia e da Costa Rica foram dignos de nota. Se os hermanos argentinos superarem os alemães, será uma vitória inédita desde a Copa de 90, quando eles foram vices.

De longe, o time que mais me deu orgulho nesta Copa do Mundo foi a Argélia, resistindo bravamente aos alemães no dia 30 de junho, mas perdendo por 2x1. O goleiro M’Bolhi fez defesas espetaculares e foi considerado o homem do jogo pela Fifa, mesmo com a derrota argelina. O escritor e intelectual Albert Camus, se estivesse vivo, teria orgulho do time “pied-noir” que jogou nesta Copa brasileira.

As decepções também fizeram parte do mundial

Jogos de times como a Rússia, Coreia do Sul, Bósnia-Herzegovina, Irã, Honduras e Camarões (exceto quando perdeu para o Brasil) deram sono. Eles são países com fraca tradição no futebol, o que se reflete em jogadas monótonas ou imprudentes. Entre si, os jogos eram parados. Contra times estruturados, eles perdiam por muitos gols. A única exceção que abro foi o jogo entre Irã e Argentina, no dia 21 de junho. De tão monótono, quase tivemos a impressão que o gigante Messi ia tombar para os iranianos. Mas o craque mudou o placar no final. 

No entanto, a grande decepção desta Copa do Mundo aconteceu com o próprio Brasil. Os brasileiros começaram bem a campanha derrubando Croácia, Camarões e Chile. No dia 4 de julho começou o primeiro capítulo da tragédia, com a joelhada do colombiano Juan Zúñiga na coluna do jogador Neymar Jr. O jogador teve a vértebra lombar fraturada, ficando fora da Copa. Mesmo assim, o Brasil ganhou por 2x1.


A grande decepção veio no dia 8 de julho de 2014, a partir das 17hrs. O Brasil foi massacrado pela Alemanha por 7x1. Apesar de serem cotados como favoritos, a seleção do técnico Luiz Felipe Scolari chegou na semi-final desgastada, pouco treinada e com poucas substituições. A falha tática de Felipão abriu espaço para que os alemães goleassem. Só no primeiro tempo, foi 5x0. O jogador Oscar fez o único gol brasileiro da partida.

O resultado péssimo levantou o caso de corrupção dos cartolas da CBF, aumentou a pressão para a retirada de Felipão da comissão técnica. Isso ainda deve causar grandes mudanças no futebol brasileiro, endeusado há cerca de 100 anos, mas com problemas muito presentes. Nossos craques não jogam mais pelo país e são constantemente comercializados por clubes europeus. A mídia esportiva, que tratava a seleção como recreação, está se vendo obrigada a adotar uma postura crítica. A reação de tristeza dos brasileiros neste dia ficou bem evidente.

Os protestos e os abusos do Estado continuaram acontecendo no mundial

No dia 12 de junho, na abertura da Copa, os protestos com o mote “se não tiver direitos, não vai ter copa” chamaram atenção. As polícias militares agiram com a truculência desproporcional que já era empregada antes do mundial. Perto do Itaquerão, uma equipe da emissora CNN chegou a ser atingida por bombas da polícia.

O estudante e funcionário da USP, Fábio Hideki Harano, foi preso no dia 23 de junho, acusado de ser líder dos black blocs. Manifestante pacífico, Fábio estava com capacete de motoqueiro, para se proteger de balas de borracha, e portava um vinagre na bolsa. A polícia implantou um coquetel molotov e o caso de falso flagrante ganhou repercussão nas mídias sociais. Enquanto vídeos mostram ilegalidade na prisão policial, o secretário de Segurança Pública do governador tucano Geraldo Alckmin, Fernando Grella, reforçou a acusação sem ter mais provas. Fábio está preso no presídio de Tremembé até agora.


A maioria dos jogos da Copa do Mundo tiveram protestos, em maior ou menor proporção. No Rio de Janeiro, barricadas foram criadas nos arredores do Maracanã para separar o conflito entre as manifestações e a polícia da torcida dos jogos. No entanto, quem invadiu o Maracanã de verdade foram os 200 torcedores chilenos no dia 18 de junho. Enquanto rolava o jogo Espanha contra Chile, a manada de invasores destruiu a sala de imprensa do estádio. O motivo da mobilização foi a falta de ingressos.

Dois repórteres do Mídia NINJA foram presos, um no Rio de Janeiro e outra em Minas Gerais. Mesmo com as detenções, o coletivo de reportagem continuou transmitindo os protestos. 

A polícia também reprimiu as festas no bairro de classe média Vila Madalena, em São Paulo. O motivo das medidas de segurança foi o horário das festividades, que mergulharam na madrugada paulistana. O problema é quando o procedimento incluiu lançar bombas de gás lacrimogêneo contra torcedores argentinos.

E a internet foi palco de memes

Com as coisas boas e ruins, a rede foi responsável por brincadeiras sem fim. O craque holandês Arjen Robben ficou famoso por se jogar no chão para forçar faltas. A internet, sem perdão, fez montagens do jogador com uma bailarina. No dia 24 de junho, o atacante uruguaio Luis Suárez mordeu o zagueiro italiano Giorgio Chiellini e foi banido da Copa do Mundo. O mundo online transformou Suárez em um tubarão, em um cachorro louco e até em um vampiro.

A derrota brasileira humilhante também virou piada. Usuários disseram que “nunca viram a Volkswagen produzir gols tão rápido”. O jogador Fred foi comparado com um cone e com a personagem “Mulher Invisível”, do quadrinho Quarteto Fantástico. A performance pífia de Hulk também foi vítima de brincadeiras, assim como seu nome foi diretamente relacionado ao monstro verde musculoso. A coluna vertebral fraturada de Neymar e a campanha pela sua melhoria também foi debochada por muitos internautas que não são tão ufanistas.

O maior meme de todos sem dúvida foi com o cantor dos Rolling Stones, Mick Jagger. Conhecido por seu pé-frio na Copa de 2010, as apostas do artista também se mostraram furadas neste mundial. Ele apostou que Portugal venceria a Copa antes mesmo do começo. O time de Cristiano Ronaldo foi eliminado na primeira fase. Jagger torceu então pela sua amada rainha Inglaterra, que tombou junto com os portugueses. Ele também apostou na Itália, que caiu na mesma fase. Por fim, o craque estava torcendo pelo Brasil contra a Alemanha, no dia dos 7x1. Ou seja, todos os times que Mick Jagger queria ver como campeã tombaram rapidamente, exceto talvez pela seleção brasileira.



Mick também virou vítimas de montagens dos internautas, especialmente no Twitter. Todos os times odiados pelo Brasil tiveram pelo menos uma imagem envolvendo o artista. Segundo as redes sociais, Mick Jagger já foi colombiano e até argentino, sendo que o astro sequer torceu para essas equipes. A apresentadora Luciana Gimenez, sua ex-mulher, chegou a reclamar dos internautas, pelo “bullying” exercidos contra o cantor e seu filho, Lucas Jagger.

Copa do Mundo foi uma festa

O mundial foi uma diversão para quem o viveu, com estrangeiros elogiando o comportamento de brasileiros. As festas em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo evidenciaram o lado positivo do evento. Durante os jogos, algumas reclamações ocorreram, mas as arenas conseguiram receber grandes quantidades de torcedores, chegando em uma faixa entre 40 mil e 70 mil pessoas.

Reclamações foram registradas na Arena da Baixada, em Curitiba, no Itaquerão, em São Paulo, e no Maracanã, no Rio. Técnicos reclamaram da qualidade dos gramados na semana do dia 20 de junho. Jogadores também sofreram em jogos às 13hrs em Fortaleza, horário de sol intenso. Mesmo com esses problemas pontuais, os eventos esportivos ocorreram com animação e infraestrutura.

E você, o que achou da Copa?

domingo, 6 de julho de 2014

A surpresa de David Luiz na Copa do Mundo

Por Pedro Zambarda

Não foi Neymar e nem Thiago Silva que detonaram a Colômbia, um adversário difícil na Copa do Mundo do Brasil, mas sim o zagueiro cabeludo David Luiz. Com um gol fora da área no dia 5 de julho, em um chute com barreira, ele deixou os colombianos sem defesa. O goleiro David Ospina tentou voar, mas o gol de David foi absurdamente bem colocado na rede. Foi o segundo golaço de um jogo de 2x1 que o Brasil levou com tensão contra a seleção colombiana.


O zagueiro joga atualmente no Paris Saint-Germain e vale 55 milhões de euros. Sem a pressão que Neymar sofre, David Luiz teve a liberdade de fazer dois belos gols de diferença nesta Copa do Mundo. Além do seu brilho em campo, a seleção brasileira hoje também contou com o gol do capitão Thiago Silva, feito em menos de 10 minutos de jogo.

Neymar infelizmente não mandou bem. É constantemente cobrado, é o craque da seleção e é o querido do Felipão. Não é poupado, não é substituído e está na linha de frente. Levou uma joelhada durante o jogo e caiu reclamando de dores. Foi levado para um hospital em Fortaleza, chorando fora do estádio do Castelão.

Fred, Hulk e Oscar saíram devendo. Hulk chutou bolas tortas em direção ao gol. Fred desapareceu e é o atacante ausente da nossa seleção brasileira, vítima de brincadeiras até nas redes sociais. Oscar não fez o suficiente para marcar um gol. Felipão continua errando ao insistir em alguns nomes em seu time, apesar de ter tirado Daniel Alves. O técnico vai ter que se mexer mais em uma semi-final com a Alemanha. Será um jogo difícil pro Brasil com a qualidade do time alemão, pelo que tudo indica.

Mas David Luiz é um suspiro de alívio em nossa seleção. O zagueiro é carismático, tem garra e é perfeccionista. Em suas tentativas de tirar a bola dos adversários, ele não causa faltas graves ou desnecessárias.

Nisso, é diferente do zagueiro Thiago Silva, que conseguiu um cartão amarelo desnecessário contra a Colômbia hoje e está fora da disputa com a Alemanha. David soube se poupar, fez o gol de diferença e pode continuar sendo nossa surpresa nesta Copa.

Ao acabar o jogo, David Luiz foi o primeiro a ir falar com o atacante James Rodríguez, o astro colombiano, responsável por levar sua seleção novata até essas quartas de final. Ele cumprimentou o adversário com muito respeito e sugeriu, de cara, para que trocassem suas camisetas. David não demonstrou egocentrismo e nenhum comportamento de estrela do futebol. Manteve o pé no chão até o fim.

No dia 15 de junho, um fã-mirim chamado Daniel Jr. invadiu um treino da seleção brasileira para ver seu ídolo David Luiz. Ao invés de tirá-lo dali, porque invadir um treino é errado, David preferiu conversar com o menino e autografar sua camiseta. O jovem chorou diante da atitude do jogador.

David Luiz é um cara muito legal.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Polivox: Lobão, um músico talentoso virando apenas e tão somente um polemista

Por Pedro Zambarda
Postado originalmente na Whiplash.net


Meu xará carioca, o jornalista Pedro Sprejer, escreveu uma carta aberta ao músico Lobão que merece ser lida. Não sou militante de esquerda e tenho minhas críticas à esquerda, mas é realmente suspeita essa atual "onda conservadora" entre roqueiros brasileiros. O caso de Lobão vai além de simpatias ou antipatias ao governo do ex-presidente Lula, ao PT ou à presidente Dilma Rousseff. Me parece que o músico transformou-se numa espécie de agitador oportunista, aproveitando-se do atual contexto político, e fazendo pouca arte. O que são as músicas atuais de Lobão se comparadas à discografia das décadas de 80 e 90?

Segue a carta aberta de Pedro, que é muito mais completa do que qualquer explicação minha. O texto tem autorização do próprio autor.

por Pedro Sprejer

Eu te acompanho desde meados dos anos 80, quando, ainda criança, pulava na frente da TV, e do rádio ao som de “Vida Bandida” e “Corações psicodélicos”. Essas e outras canções constituíram o meu repertório afetivo-musical, e sempre olho para elas com carinho. Hoje, entretanto, sua voz me soa amarga. Acho que cansei dela. E me atrevo a falar em nome de outros fãs que estão desapontados com o papelão que você tem feito por aí.

Você e Cazuza foram os artistas mais provocadores da geração 80, os mais autênticos. Cazuza foi um libertário genial, com sua ironia, homossexualidade escancarada, e entrega total à vida. E você, com um rock maníaco-depressivo foi mesmo uma ovelha negra dentro da MPB, como gosta de dizer. Você acrescentou à MPB algumas doses a mais, trouxe euforia, porra-louquice, mas também melancolia e desespero, fazendo a trilha dos anos 80, entre festas homéricas e ressacas suicidas. E ainda colocou na canção brasileira, comportada e luminosa na maior parte das vezes, uma violência crua. A mesma violência que já estava nos filmes do Cinema Marginal, nos contos do Rubem Fonseca ou nas peças de Plínio Marcos.

Depois de debutar com um rock dançante adolescente, você enveredou por um lado selvagem da motocicleta. Mergulhou na vida louca e bandida dos anos 80 para contar a história do personagem que “chutou a cara do cara caído” e “bateu no seu melhor amigo” e também a do que “sem dó, nem pena, sem um telefonema, matou a família e foi ao cinema”. Você propôs um verão na boca do lixo, ainda que esse universo decadente e sujo às vezes se parecesse mais com uma história de Charles Bukowsky ou com o “Taxi Driver” de Scorcese.

Sua história deu um livro, Lobão. Você fez de tudo um pouco, inclusive “Me chama” e outras belas canções. Lançou discos bons, como “Nostalgia da modernidade” (1995). Lutou uma briga boa contra as grandes gravadoras e o jabá nas rádios. Fez também, vale lembrar, uma certa dose de músicas que me parecem muito ruins.

Mas o que eu acho curioso é como você é até hoje associado aos anos 80, mesmo tendo feito tantas coisas depois. Por algum motivo, ao longo das décadas seguintes, sua música foi saindo de cena lentamente. Aí te vimos ressurgir das estepes, lobo escaldado a latir com raiva, primeiro como um entrevistado que premiava os repórteres com declarações polêmicas, depois como apresentador de TV e, por fim, colunista da Veja.

Sua primeira aparição nacional como pugilista verbal foi na longa discussão com o Caetano, que teve ótimos momentos, e gerou sua incrível “Para o mano Caetano”, na qual acertou Caê à queima-roupa, brindando-o com o maravilhoso epíteto “dandi dendê”, batendo forte, mas também o reverenciando como mestre ao mesmo tempo. A discussão virou até matéria no Fantástico. Havia ali um diálogo interessantíssimo entre duas vertentes nem sempre opostas da canção brasileira, entre o tropicalismo e uma geração roqueira que o absorveu e negou ao mesmo tempo.

Só que parece que foi justamente isso que você perdeu, Lobão, a capacidade de dialogar, entrando numa certa “décadence sans elégancé”. Tornou-se uma das figuras beligerantes de “penas afiadas e garganta acelerada” tão bem descritas numa coluna recente do Thomaz Wood Jr.

Andou injuriando por aí gente como Chico, Tom, Gil e tantos outros. Não me entenda mal, acho saudável questionar ícones, em arte nada deve ser sagrado. Há de fato, muito o que se discutir na postura aristocrática e mesmo no conjunto da obra de nossos medalhões (vide o papelão que fizeram na questão das biografias). É verdade que nem a quase extinta bossa-nova, nem a sua filha MPB, como fizeram crer, são capazes de representar e traduzir o país, se é que isso um dia chegou a acontecer.

Só que a sua virulência leviana, o seu jeito de atacar os consensos sem nada de novo para oferecer, não me parece rebeldia, mas uma outra coisinha que às vezes é confundida ingenuamente com iconoclastia: niilismo. Isso mesmo, uma negatividade incapaz de criar qualquer horizonte.

É justamente o contrário do que faz o artista. Se é o artista quem puxa o nó da realidade e faz de tudo que vê um “link” para a criação, o difamador maledicente usa da retórica apenas para destruir e mortificar.

Sabe, Lobo, a gota d’água que me motivou a escrever esta carta-beliscão foi a besteira que você falou a respeito dos Racionais MC´s, um grupo que sempre admirei e que tem como líder aquele que é, sem dúvida, o melhor letrista a despontar no Brasil nos últimos 25 anos. (Se você não acredita, ouça “Eu to ouvindo alguém me chamar” ou “Capítulo 4, versículo 3”). Procure saber.

Então, Lobão, os Racionais são mesmo, como você escreveu no último livro que lançou, “o braço armado do PT”? Como é isso? Panteras-negras-bolivarianos? Ou uma facção leninista do PCC? Aliás, recentemente você voltou a provocar, chamando, em sua coluna na Veja, os Racionais, o MST e outros de “rebeldes chapa-branca”. Tentando botar uma pimenta na sua salada envenenada maluca, disse que Mano Brown e seus manos “sobem nos palanques, têm o beneplácito da mídia oficial bancada pelo governo e, mesmo assim, são revoltadíssimos com o sistema!”. Uma frase acusatória com vestes de denúncia desprovida de qualquer dado concreto, que desemboca rasteiramente numa bobagem malvada e infame.

Como se os Racionais não tivessem legitimidade para falar em nome da periferia. Como se qualquer discurso socialmente engajado fosse oportunismo. Ou os próprios rappers fossem apenas populistas que se beneficiam de um discurso revolucionário. Lobão, o golpe foi baixo, mas o movimento previsível demais. Você apenas pega o que outros articulistas de direita falam sobre Lula e encaixa grosseiramente em Mano Brown.

Você que viveu e cantou sua vida bandida no Leblon deveria ter mais boa vontade com o relato daqueles que vivem a vida loka nas ruas das Ruandas brasileiras. O Haiti é aqui, Lobo.

É curioso te ver reagir assim uma das expressões mais interessantes surgidas no Brasil dos anos 90, década em que o rock dos 80 foi perdendo a força até virar praticamente só a saudade da Legião e o “retorno triunfante” da Capital Inicial. Sim, é engraçado, pois foi justamente o rap, como o Chico Buarque notou, que fez com que a violência real do país passasse a jorrar na música brasileira, sedimentada desde os anos 30 em torno da ideia de conciliação e apaziguamento das tensões sociais. Se para você a MPB é “paumolescência” e o rap oportunismo, o que sobrará? Respondo: o niilismo. Lágrimas no escuro.

Lobão, você gritou “Lula” no Faustão, em 89, e, pelo andar da carruagem, qualquer dia ainda vai gritar “Olavo de Carvalho!” no Circo Voador. O problema, porém, não é a sua “conversão”. O triste é ver um músico talentoso virando apenas e tão somente um polemista, espalhando niilismo coxinha e faturando com a idiotização do país, a polarização burra. Lobo de patas dadas com as raposas, papagaiando e batendo palma pra macaco. Para um ex-fã é um espetáculo triste.

Greil Marcus, considerado por muitos o maior crítico musical americano, definiu o ethos do rock como “uma afronta à entropia” e “um combate contra a mesmice”. Talvez esses elementos estejam no ímpeto das suas críticas, Lobão, mas te falta uma noção básica de hegemonia e contra-hegemonia, para saber que hoje é você, e não o Mano Brown, quem está do lado mais poderoso, do lado daqueles que dão as cartas mais valiosas no país e no mundo, valendo-se do controle da economia e da mídia. Não, Lobão, os comunistas não mandam no Brasil. Você ainda não percebeu?

A triste conclusão, porém, é que talvez sejam justamente besteiras infundadas desse tipo que os seus novos admiradores querem ler. Eu não, me inclua fora dessa. Daqui em diante, dançarei “Corações psicodélicos” nas festas (como resistir?). E só.

Um abraço sincero e um gancho metafórico de esquerda, do teu ex-fã,

Pedro.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Comunicação em Grafite e Pichação durante os protestos de junho e ao longo de 2013

Artigo originalmente desenvolvido como um trabalho do curso de Estética III, do professor Dr. Leon Kossovitch, na FFLCH-USP. Aviso: O texto é longo.

Por Pedro Zambarda

A arte como representação de seu tempo

“O fim da história da arte não significa que a arte e a ciência da arte tenham alcançado o seu fim, mas registra o fato de que na arte, assim como no pensamento da história da arte, delineia-se o fim de uma tradição, que desde a modernidade se tornara o cânone na forma que nos foi confiada”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.

Quando Hans Belting lançou seu livro O Fim da História da Arte, decidiu colocar um ponto de interrogação no final da sentença, indicando, em parte, uma dúvida ao questionar os padrões estéticos. O autor estava num impasse ao duvidar de uma noção de trajetória histórica fixada pela educação formal. O meio artístico, ressaltado por Belting, já havia passado por movimentos como o Cubista, o Dadaísta, o Bauhaus e diversas vanguardas contemporâneas que contribuíram para facilidade de difusão dos meios. No campo da filosofia, Belting também ressalta escassez de pensadores totalmente originais no século 20 e ressalta o esvaziamento que atingiu a metafísica. Cita Jean-Paul Sartre, Martin Heidegger e Theodor W. Adorno. Os três, nascidos entre os anos de 1890 e 1900, exibem teorias que tentam refundar a ótica do pensamento histórico-filosófico, ou denunciam o desgaste de uma visão moderna.

“A obra de arte possui uma unidade peculiar que possibilita uma forma totalmente própria de narrativa: A interpretação. Ela não está ligada a priori nem a um método e nem mesmo a um ponto de vista, pois uma obra pode admitir vários métodos e responde a muitas questões ”, explica Hans Belting, em um capítulo de seu livro dedicado a uma dúvida se a história deve ser da arte ou das obras em si. Belting estabelece como visão diferenciada, por exemplo, da visão dos poetas da Antiguidade Clássica, greco-romana. A tradição, nesta civilização antiga, era a das obras simbólicas e até mesmo das obras de arte “inventadas”, de acordo com o autor alemão. Um exemplo claro, dentro da filosofia, são os manuscritos divulgados por Platão sobre os atos e os pensamentos de seu mestre, Sócrates, entre os anos 399 e 347 a.C. A biografia de Homero e de diversos nomes conhecidos do mundo grego também foram submetidas a uma análise que escapam de uma interpretação direta, está transformada em símbolo.

Com esta estética esgotada, progressivamente mais subjetiva ao olhar do espectador e muito distante de padrões estabelecidos pelo Renascimento Cultural na Europa dos séculos 14 e 16, o grafite ressurge como uma manifestação de protesto na Paris de 1968, no auge dos movimentos estudantis da Sorbonne.

Os grafiteiros se transformam em agentes artísticos com suas mensagens e eles ganham, aos poucos, relevância com a ascensão do street art e do hip-hop como música nos anos 1990.

“Há muito tempo a arte já não é mais um assunto de elite, mas assume em substituição todos os papéis da representação de identidade cultural, os quais nesse meio tempo não têm mais lugar nas instituições da sociedade. Quem fala sobre arte  a encontra em todas as funções possíveis por ela exercidas hoje. Em todo caso, onde a arte entra em cena o especialista é apenas requisitado apenas por uma questão ritual e não mais para um esclarecimento sério. Onde a arte não gera mais conflitos, mas garante um espaço livre no interior da sociedade, ali desaparece o desejo de orientação que sempre estava voltado para o especialista. Onde não existe mais esse desejo, ali também deixa de existir o leigo”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.


Nesta teoria atual, de crítica da história da arte e de desgaste de seus principais argumentos, ascende no Brasil uma série de grafiteiros e artistas de rua que ressaltam o esgotamento dos especialistas. Os membros dessa cena de street art nacional não se enquadram em padrões culturais da elite que frequenta grandes leilões de quadros, mas parecem autores de peças de arte conectadas diretamente ao cotidiano das pessoas nas ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro e de muitas outras cidades urbanizadas, que convivem com a alta concentração populacional combinada com problemas de desníveis econômicos e sociais relevantes.

A cena do grafite paulistano e os protestos de junho de 2013

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Em 1986, os irmãos gêmeos Otávio e Gustavo Pandolfo começaram a grafitar aos 12 anos de idade. Era ascensão do rap norte-americano e da cultura hip-hop negra excluída. Os dois vinham de famílias de artistas e já tinham contato com lápis e desenho desde os três anos de idade. Passaram a assinar os grafites em São Paulo com o nome OSGEMEOS.

A oportunidade de crescimento dos dois, que tirou eles de apenas fazer uma arte transitória, foi o encontro com o grafiteiro Barry Mgee (Twist), que veio de São Francisco, nos Estados Unidos. Mgee exibiu sua arte de rua em exposição e mostrou à dupla que era possível conquistar notoriedade com esta arte em 1993. Em 95, OSGEMEOS chegaram ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) e ganharam holofotes para sua arte que começou com tintas de carro, látex, spray e bicos de desodorante e de perfume para moldar traços. Do MIS, partiram para mostras em Munique e em São Francisco.

Foto: Reprodução/YouTube
Muitas vezes a arte de Otávio e Gustavo se transforma em uma metáfora do próprio ato de grafitar. São ilustrações urbanas que exibem a figura transgressora do grafiteiro dentro da imagem, não no sentido de vândalo, mas sim na composição de uma determinada arte.

A ascensão do grafite no Brasil, sobretudo em São Paulo, está diretamente ligado à forma como a cidade se expandiu e como hoje ela se tornou uma metrópole com mais de 200 milhões de habitantes em 2013. O local absorveu brasileiros do norte e do nordeste que se tornaram mão-de-obra, já foi uma cidade industrial e hoje é uma capital de serviços. Com a padronização das habitações em edifícios, a arte de rua se transformou em uma modificação desses espaços públicos e privados.

“São Paulo é uma selva de concreto. Prédio, prédio, prédio e quanto mais se constrói, mais há prédios e menos árvores e parques. Eles constroem um muro em volta. De alguma forma, você tem que fugir disso ou fazer parte. Essa é a história do grafite”.

Otávio Pandolfo, grafiteiro do grupo OSGEMEOS, no documentário Cidade Cinza.

OSGEMEOS não é o único grupo de grafiteiros famoso na cena paulistana. Também temos o nome de Carina Pandolfo, esposa de Otávio conhecida pelo nome Nina. Francisco Rodrigues da Silva, o Nunca, tornou-se grafiteiro aos 12 anos no bairro de Itaquera, zona leste paulistana, na periferia da capital. Do Cambuci, região central de São Paulo, surgiu Claudio Duarte, conhecido pelo apelido Ise, que aponta a gênese de sua arte no coração da metrópole onde ele vive e gosta de traços de letras estilizadas. Um último nome muito conhecido no grafite que vale a menção é Daniel Melim, responsável pelo desenho de uma mulher loira com traços similares ao de quadrinhos americanos retros, das décadas de 1950 e 1960. O desenho feito em um prédio pode ser visualizado na Avenida Tiradentes, indo da zona norte de São Paulo em direção à zona sul, no corredor de carros.

Foto: Pedro Zambarda
No ano de 2006, o economista Gilberto Kassab assumiu a prefeitura da cidade de São Paulo no lugar de José Serra, que renunciou ao cargo para concorrer ao governo do estado. Kassab implantou, logo no primeiro ano de sua gestão, a Lei Cidade Limpa, que removeu outdoors e tudo o que a prefeitura considerou como poluição visual. O alvo, obviamente, não ficaria apenas na publicidade. Em pouco tempo, Kassab começou uma guerra de tinta contra grafiteiros e artistas de rua. Ao ser reeleito em 2009, o prefeito também criou leis contra poluição sonora, interferindo em shows musicais na metrópole e detendo musicistas na Avenida Paulista e na Rua Augusta. Até o fim da gestão Kassab, em 2012, fazer arte ganhou um tom político.

O político era do PSD (divisão do DEM), um partido alinhado aos interesses do PSDB, legenda de oposição ao governo federal do PT. Em 2013, com uma virada eleitoral não esperava, o petista Fernando Haddad triunfou nas votações e assumiu o posto de Gilberto Kassab. A vinda de Haddad do PT alimentou expectativas de que uma gestão muito diferente e bem menos austera com a street art estava por vir.

O que os artistas esperavam não se concretizou. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, em maio de 2013, a gestão Haddad removeu grafites expostos pela dupla OSGEMEOS na cidade. Os grafiteiros fizeram um manifesto público e continuaram a desenhar na cidade. Disseram eles: "A arte de rua é apagada desde 2007 na cidade! Esperamos com este alerta que a Prefeitura de São Paulo e seus órgãos 'competentes' parem definitivamente de apagar os graffitis (sic) e respeitem e preservem a arte de rua em todos os seus segmentos ".

Este embate entre a cultura que emana das ruas encontraria reforço nos protestos que tomaram conta das ruas no mês seguinte. A maioria das mobilizações foi desencadeada por um grupo de jovens do Movimento Passe Livre (MPL).

Foto: Reprodução/Facebook/Os-Gemeos
Na mesma época, as passagens de transporte coletivo de São Paulo, tanto de ônibus quanto metrô, subiram do preço de R$ 3,00 para R$ 3,20. A alta no custo atraiu uma articulação do MPL, que existe desde 2005, surgido em Porto Alegre. Formado por estudantes em sua maioria universitários, o Movimento Passe Livre não tem lideranças carismáticas e possui uma organização mais horizontalizada, o que facilita a entrada de novos nomes. A principal defesa da mobilização é a criação de um transporte 100% público , ou seja, gratuito.

No entanto, antes de atingir esta, que é a maior das pautas de reivindicações, o MPL definiu metas mais realistas. A primeira delas se tornou a redução do preço das passagens de R$ 3,20 para o valor original de R$ 3,00. Protestos passaram a ser organizados e foi desta forma que começaram as chamadas “Jornadas de Junho”.

Em 6 de junho de 2013 começou o primeiro ato impulsionado pelo MPL, saindo do Teatro Municipal, no centro paulistano. Com presença de pessoas da periferia, a mobilização chegou até a Avenida 23 de Maio e colocou fogo em catracas. O movimento já contava com os chamados Black Blocs, pessoas que adotavam uma tática de vestir máscaras e revidar reações da polícia contra os protestos.

O confronto chegou na Avenida Paulista e voltou a acontecer nos dias subsequentes. Na mesma mobilização, surgiram pichações, uma forma de manifestação gráfica que normalmente é confundida com o grafite.

Foto: Pedro Zambarda
O MPL fez diversos atos após o dia 6, aprofundando a importância da diminuição das passagens e angariando simpatizantes. No dia 13 de junho, as jornadas se radicalizaram após excessos da Polícia Militar de São Paulo no quarto ato. Jornalistas foram agredidos no ato, como foi o caso de Giuliana Vallone, repórter da Folha de S.Paulo, que levou um tiro de bala de borracha no olho, mas não ficou cega graças ao seus óculos. No entanto, o fotógrafo da Futura Press Sérgio Silva não teve a mesma sorte: Ficou cego no olho direito. Além dos dois, Piero Locatelli, repórter da revista Carta Capital foi preso por porte de vinagre. Segundo o jornalista, ele levou vinagre no protesto para amenizar os efeitos de bombas de gás lacrimogêneo disparadas pela polícia. Pessoas foram presas arbitrariamente, sem provas de vandalismo ou transgressão social.

As Jornadas de Julho ainda foram impulsionadas pelo quinto ato, no dia 17 de junho, com adesão em massa que colocou pelo menos 1 milhão de pessoas na rua , sem nenhum revide da Polícia Militar em São Paulo. Os manifestantes chegaram até o palácio do governo de São Paulo, derrubaram as grades e, na volta, pularam as catracas do metrô. Ocorreram também manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Em Brasília, os protestos invadiram a Esplanada dos Ministérios. Outros atos foram organizados, chegando também até a sede da prefeitura de São Paulo, no centro. Os protestos agruparam outras pautas, como o combate à corrupção, a queda da PEC 37, a prisão dos mensaleiros do PT, a corrupção do metrô de SP pelo PSDB, entre outros muitos movimentos com motivação política. Até o final de 2013, continuaram ocorrendo mobilizações descentralizadas por parte da população.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Qual é a diferença entre grafite e picho?

“Em São Paulo tem várias categorias de pichação. Tem os caras que fazem só muro, tem os caras que fazem janela, tem os caras que fazem mais prédio, tem os caras que fazem mais escalada (sic) e tem os caras que fazem tudo. O fundamental da pichação daqui de São Paulo, independente das categoria (sic), é o cara ter bastante pichação”.

Djan, pichador em uma fala do documentário Pixo de 2009.

Foto: LiaC/Wikimedia Commons
De acordo com pichadores e fotógrafos entrevistados no documentário Pixo, de 2009, dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira, o principal recurso estético e linguístico do picho é sua comunicação fechada. Através de códigos e desenhos de letras, a pichação polui o ambiente e revela a manifestação de setores excluídos da sociedade, como os pobres, os favelados e os jovens que estão envolvidos em uma vida de crimes. Ao executar o ato de pichar, muitos desses indivíduos entram em choque com a segurança pública ostensiva, que é a Polícia Militar de São Paulo, a mesma que reprimiu os protestos de todo o restante da população em 2013.

Um motoboy chamado Zé, fã de Iron Maiden, que diz que cruza a metrópole paulistana toda, diz que é “viciado em pichação”, no documentário Pixo. Ele confessa: “É difícil eu não ter entrado em uma rua que eu não pichei em São Paulo”. Sua motivação não parece ser a arte ou o desenho, como é o caso dos grafiteiros OSGEMEOS, mas sim sua relação de obsessão e revolta com a cidade. 

No entanto, mesmo com essa manifestação, os pichos podem guardar uma logomarca própria, que serve para identificar o pichador. Eles podem adquirir traços próprios que buscam diferenciar determinadas letras das demais. O “caderno de caligrafia” destes pichadores são os prédios das cidades, as estruturas urbanizadas e o design cinza e sem cor da metrópole.

Das referências musicais, o grafite nasceu tipicamente do hip-hop e do rap negro, músicas tradicionais de cidades grandes. A pichação, pelo seu aspecto mais rebelde e por seus constantes confrontos com a polícia, advém de roqueiros punks paulistanos, além dos protestos da esquerda contra a Ditadura Militar . Existe muita arte entre as duas tendências de arte/protesto de rua, mas elas apontam para diferentes caminhos, embora, para um leigo, a pichação continue sendo algo tão “sujo” para a cidade quanto o melhor e mais bem acabado dos grafites.

Com as Jornadas de Junho em 2013, o picho voltou como um formato estético de impacto quanto como um veículo de mensagem dos protestos do MPL e de outros movimentos sociais.

Foto: Pedro Zambarda
Diferente dos pichadores punks ou dos jovens de periferia com linguagem cifrada, as pichações dos protestos em 2013, próximos das Copas das Confederações e do Mundo, adquiriram um discurso político pesado, irônico e escrito em uma tipografia simples e legível. Na Avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, próximo à TV Globo de São Paulo, as mensagens grafadas nos prédios atacavam uma burguesia e uma classe média alienadas em ações contra corrupções e os desmandos de políticos, partidos políticos e do Estado como um aparelho único. “Poder Popular” apareceu em um prédio comercial na Berrini. Anteriormente aos milhões nas ruas, o MPL foi duramente reprimido pela Polícia Militar de São Paulo, chamado de “vândalos” e agredidos quando tentaram se defender, em um combate desigual contra as autoridades. Esse cenário fervente alimentou o surgimento do Black Bloc como tática contra a polícia, com pessoas comuns vestindo máscaras e atacando com paus e pedras as autoridades.

No entanto, somente quando jornalistas e indivíduos de classes mais altas foram feridos fatalmente, sendo que alguns perderam a visão, os protestos ganharam ignição significativa entre a classe média. Pacificamente, mas sem entender direito as pautas daqueles que já estavam nas ruas, essas novas pessoas engrossaram as vozes e diminuíram os preços das passagens de ônibus e de metrô, atingindo uma das metas do MPL. Isso gerou, obviamente, pichações nas ruas, nos metrôs, nos grafites e em todo lugar. O picho era como se fosse uma voz rouca da rua, dizendo o que estava acontecendo historicamente, embora não tenha resolvido a maior parte dos problemas de corrupção do país.

Foto: Pedro Zambarda
Foto: Pedro Zambarda
Na frente da estação de trem da região da Vila Olímpia é possível ver duas pichações que fazem uma conexão total com os protestos que ocorreram no Brasil: “O Povo Acordou” e “Copa das Manifestações”. As frases escritas na Berrini foram apagadas no mês de setembro, após ficarem quase três meses no local, entre junho e agosto. No entanto, as pichações da Vila Olímpia permaneceram. Refletem, em parte, a identificação das pessoas com os protestos, principalmente as camadas mais pobres.

O picho ganhou força com os protestos. Foi enquadrado como depredações da mesma maneira que a destruição de vitrines de bancos por Black Blocs, que enfrentaram a Polícia Militar. No entanto, o clima de revolta contra o aumento das passagens dos transportes tornou os dizeres “Poder Popular” dos pichadores muito mais artístico e político do que o picho convencional feito por gente da periferia.

Um caso em que a pichação foi encarada de outra forma ocorreu em 12 de junho de 2008, no Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo. Um pichador mascarado invadiu uma exposição de estudantes do ensino superior da instituição. Ao tentar escrever sua mensagem, foi expulso e detido pela polícia. A atitude de proteger o local da arte de elite dos seguranças universitários foi o álibi perfeito para que um grupo de pichadores invadisse o local, manchando o interior e o exterior do prédio. O ato se transformou pancadaria entre pobres e pessoas socialmente mais favorecidas.

“Você acha que isso é beleza? Isso ai é coisa de incompetente, de pessoas frustradas, de caras que não tem objetivo na vida. Essa porcaria ai é de cara analfabeto, rapaz. Beleza é o pôr-do-sol, é (sic) as cores da luz branca, de onde vem outras cores. Ela nos alegra todo dia. É arte, tá me entendendo. Não essa porcaria sintética, fedida e que faz mal ”, afirmou José Carlos de Oliveira, funcionário da Belas Artes, na ocasião. O picho não consegue ter um reconhecimento absoluto como arte, mas transmite uma linguagem, mesmo que seja através de uma agressão e de um vandalismo. No contexto dos protestos populares impulsionado pelo Movimento Passe Livre, em São Paulo, a pichação ganhou autenticidade, aceitação e uma comunicação mais universal, além do vocabulário sufocado e cifrado da periferia.

A pichação feita na Belas Artes é feita com letras estilizadas, quase ilegíveis para quem está acostumado ao alfabeto latino tradicional. A tipografia é tratada para refletir ou uma linguagem fechada, ou o estilo do pichador. Ao ser utilizado nos protestos contra o Estado em 2013, o picho assumiu formas e letras tradicionais. Foi lido pela maioria das pessoas na rua, concordando com a mensagem ou não.

Foto: Reprodução/YouTube
“Pichação em São Paulo é muito mais interessante do que o grafite na cidade. O que eu vejo eu acho muito kitch, assim. O grafite é um tipo de arte careta, muito careta. A pichação tem uma vantagem sobre isso. Ela pode ser tudo, mas careta ela não é. Tanta coisa boa no mundo não é arte. Eu não entendo por que isso deve ser arte”.

Tiago Mesquita, crítico de arte presente no documentário Pixo.

Entendendo a história de OSGEMEOS, já mencionada, verifica-se que o grafite é uma arte que já estava internacionalizada quando ganhou forma em São Paulo. A pichação tomou um caminho inverso, nascendo com um código próprio da periferia paulistana e dos grupos punks e de roqueiros que estavam na cidade. Da mesma forma, os grafites baseados nos protestos de São Paulo demoraram um tempo maior do que as pichações para ganhar destaque para as pessoas e para a imprensa.

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Otávio e Gustavo Pandolfo grafitaram um manifestante com uma mensagem de protesto após o dia 13 de junho de 2013, quando o repórter Piero Locatelli, da Carta Capital, foi preso por porte de vinagre. OSGEMEOS fizeram uma crítica direta às constantes censuras que jornalistas estavam enfrentando nos protestos, sobretudo da Polícia Militar de São Paulo.

O desenho foi feito na Avenida 23 de Maio, no Bairro do Paraíso e continha os dizeres “Vinagre é Crime”. A prefeitura paulistana apagou a mensagem em meados de julho. OSGEMEOS então colocaram uma segunda mensagem, mais provocadora, mencionando a Constituição Brasileira: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença. Artigo 5º”. A atitude de grafitar, ser apagado e trazer uma nova mensagem ocorreu muito depois das primeiras pichações durante as Jornadas de Junho.

Foto: Divulgação/OSGEMEOS
Ou seja, os protestos deixaram em evidencia o picho, enquanto o grafite manteve sua dimensão artística e até aceita em determinados espaços públicos. Como o senso comum não costuma diferenciar os dois ofícios, quando a pichação ganhou destaque por mensagens da população em mobilização, ela parecia de fato uma arte de rua que refletia aquele momento histórico do Brasil.

Possível conclusão

“A arte antiga tornou-se parte integrante da cultura que veneramos por causa de sua beleza e não por causa de sua verdade ou atualidade”.

BELTING, Hans. O Fim da História da Arte.

No dia 5 de novembro de 2013, o cantor de música pop Justin Bieber grafitou um muro nas ruas de São Conrado, Rio de Janeiro, com conivência das autoridades policiais. Por ser celebridade, o músico não sofreu nenhuma repressão física. Bieber não é pobre, e não tem motivos sociais para se manifestar em um desenho em uma cidade brasileira. Mesmo assim, esteticamente, o artista canadense se sente atraído pela street art e por essas manifestações urbanas de cultura.

Por esse motivo, podemos dizer sim que grafite e pichação são formas esteticamente artísticas, que adquiriram forma com os movimentos musicais presentes nas grandes cidades hoje, acompanhadas por livros e leituras críticas sobre a verticalização das moradias. Em uma cultura de prédios e de grandes corporações capitalistas, criar obras de arte nas paredes de cor cinza é tanto uma manifestação direta quanto um formato adequado de arte, que contrasta com a pintura clássica ou mesmo com o modernismo do começo do século 20. Mesmo a transgressão das formas em Pablo Picasso não chega aos pés dos inúmeros edifícios pichados na capital paulistana. A visão artística do pichador beira a desobediência civil, sobretudo com o risco de cair dos prédios ao fazer um picho ou as perseguições, agressões físicas e processos que ele pode sofrer da polícia e das entidades de justiça brasileiras.

A pichação é paradoxal por consistir, apenas, em letras e palavras escritas de maneira cifrada. No entanto, elas manifestam o desejo subjetivo do artista daquela montagem com sprays de tinta. Não se trata de um desenho, mas apenas de termos rabiscados nas paredes. Beira o vandalismo de acordo com uma visão tradicionalista de arte, cristalizada nos museus, nas grandes curadorias e nos grandes leilões artísticos. Ao pichar um local, passa-se uma mensagem independente de reflexões prolixas sobre a arte. O picho é um ato que está sempre em discussão, mas que adquire uma estética válida, por exemplo, quando representa as vozes de milhões de brasileiros que foram reclamar de seus governantes e de seus políticos. De seus poderosos. No entanto, mesmo quando é considerado como uma estética válida, pode se tornar caso de polícia.

O grafite é parecido quando é reprimido da mesma forma pela autoridades, mas tem um forte apelo de formas por consistir essencialmente de ilustrações, monstadas com tintas, texturas e diversos materiais. Os grafiteiros se destacam como porta-vozes dos protestos, mas também ganham espaço no design de anúncios publicitários e outros formatos comercialmente aceitos pelo mercado.

Arte Fora do Museu, site criado por André Deak e Felipe Lavignatti, foi criado como uma plataforma colaborativa em 2011 e ganhou o prêmio Web’s Got Talent em 2013, promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) , pelo Núcleo de Coordenação do Ponto BR (NIC.br)  e pelo W3C Brasil. A página online traz uma premissa simples: Catalogar a arte tipicamente de rua em forma de mapas e bancos de dados.

Mais de 100 cidades brasileiras foram catalogadas e, agora, o projeto está começando a rastrear a street art em cidades como Barcelona (Espanha), Montevidéu (Uruguai) e Nova York (EUA). Deak e Lavignatti, dois jornalistas, não embolsaram um centavo do projeto, mas conseguiram patrocinadores e apoios para sustentar o site. O Governo Federal, o Ministério da Cultura e o Festival Cultura Inglesa foram algumas das entidades que contribuíram para a expansão e inclusão de colaborações na internet. Os mapas podem ser configurados e complementados por visitantes do site.  

Mesmo com essas possibilidades, o site não fez um mapeamento de pichações. As artes incluídas como categorias do site são arquitetura, grafite, colaborativa e mural. O picho, sendo uma expressão típica da periferia e dos excluídos, é controversa e não possui uma memória consistente. Dentro da iniciativa de Deak e Lavignatti, o grafite já está se tornando uma história em mapas e perfis de artistas, mesmo sobrevivendo fora de museus e de algumas galerias culturais.

Foto: Reprodução/Arte Fora do Museu
Referências

Livros
BELTING, Hans. O Fim da História da Arte. Editora Cosac Naify. 2003.
COTTINGTON, David. Cubismo. Editora Cosac Naify. 2004.

Documentários
MESQUISA, Marcelo. VALIENGO, Guilherme. Cidade Cinza. 2013.
WAINER, João. OLIVEIRA, Roberto T. Pixo. 2009.

Sites
DEAK, André. LAVIGNATTI, Felipe. Arte Fora do Museu. 2011.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sobre Santiago: "Mataram um jornalista, atingiram a democracia"

Por Alberto Dines
Do Observatório da Imprensa, por Creative Commons.


Os assassinos não miraram no cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes. Queriam acertar alguém, pegaram quem estava na linha de frente. Não fosse ele o atingido, seria outro. Ou outros.

A bandidagem que se esconde sob a camuflagem de “manifestante” faz parte de um surto terrorista não muito diferente dos fascistas e nazistas que saíram às ruas em Roma e Berlim para impor o regime da violência.

Este tatuador, Fábio Barbosa, com cara de bom menino, é na realidade um agressor contumaz. Sabotador. Ele sabe o perigo que representa um rojão – aceso ou apagado. É como um facão que mesmo enferrujado pode degolar.

Se fosse um autêntico protestador ou protestante, sinceramente revoltado com o aumento do preço das passagens, saberia que a violência só prejudica as reivindicações populares. Fábio Barbosa vai a passeatas como quem vai se divertir. É o seu programa, projeto de vida. Faz parte daquele lúmpen de vadios e semiempregados que funciona como massa de manobra para a bandidagem política.

Morte e demissões

É justa a revolta dos jornalistas diante do colega morto e das empresas de comunicação pela ameaça que o atentado representa à liberdade de informação. Mas o luto que devemos envergar inclui a aniquilação da “sociedade cordial”. Era mito, mas servia como meta. Agora nem isso.

O Brasil está se deixando levar pelo perigoso frenesi da insurgência pela insurgência. Os black blocs estão nas passeatas, mas igualmente em tribunas legislativas, em piquetes de greves ilegais, em antros do narcotráfico. Os black blocs pretendem ser anarquistas, mas são produtos do explosivo mix esquerdo-direitista. Ou direito-esquerdista. Estão em todas, também em colunas, blogs, seriados e filmes de “ação”.

Horas antes do comunicado da morte cerebral de Santiago Andrade, o SBT demitia três respeitados comentaristas políticos (Carlos Chagas, José Nêumanne Pinto e Denise Campos de Toledo). Por quê? Sílvio Santos está sem grana? Foram demitidos para comemorar os 50 anos do golpe militar que jogou o país no vale de lágrimas e do qual até hoje não conseguiu escapar. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O que é o rolezinho?

Por Thaís Antonio, repórter do Radiojornalismo da EBC
Da Agência Brasil, por Creative Commons.

Veja também a reportagem do G1

Rolezinhos” estão sendo programados pelas redes sociais em mais de dez estados para as próximas semanas. Em muitos deles, movimentos sociais e universitários organizam os encontros em protesto à repressão policial contra a reunião que ocorreu em um shopping de Itaquera, bairro da zona leste de São Paulo. Na linguagem popular, “rolezinho” significa passear ou dar uma volta. Nas últimas semanas, a palavra tem sido bastante usada para descrever reuniões de jovens, principalmente da periferia, em shopping centers.

Mcs Dedé, Gui e Bio. Foto: Divulgação

De acordo com a professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ivana Bentes, o fenômeno tem um forte caráter político e surpreende por resgatar o espírito das manifestações do ano passado em um cenário inusitado, os shoppings. “Mesmo que não tivesse uma intenção de causar politicamente, ele é político. A simples existência de um jovem negro da periferia dentro de um shopping center, sendo rejeitado, sendo considerado um consumidor indesejado, já é um fato político, independentemente da intencionalidade”, disse. “Acho muito importante que outros grupos sociais tenham se organizado para manifestar solidariedade a esses jovens”, completou.

O chamado “rolezinho” começou em São Paulo, no fim do ano passado. Desde então, vários ocorreram, chegando a reunir milhares de pessoas. No último sábado (11) foi no Shopping Itaquera, teve a participação de 6 mil jovens e terminou em confronto com a Polícia Militar. Daniel de Souza, o MC Danadinho, esteve presente. Ele disse que a origem do “rolezinho” são os chamados encontros de admiradores, em que fãs dos cantores de funk ostentação iam aos shoppings para encontrar os ídolos. “Antes do 'rolezinho' tinha o encontro de admiradores, que era com os famosinhos das redes sociais, que faziam o seu encontro e reuniam o povo no shopping”, declarou. “É o único lugar que todo mundo conhece e é público”.

O jovem acredita que os encontros de admiradores cresceram e se tornaram os “rolezinhos” de hoje, atraindo também pessoas que aproveitam a situação para causar tumulto. “Começou a encostar os caras que faz baderna, começou a colar os polícias para tirar a gente do shopping, começou a passar na televisão, começou a vir os caras de longe para tumultuar. Aí, por causa de uns, todos os que vão para curtir pagam do mesmo jeito dos que vão para tumultuar”, disse. 

As administrações de alguns shoppings conseguiram, na Justiça, liminares para impedir os encontros. Para o professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Fernando Menezes, o que está em jogo, nesse caso, é o direito de ir e vir e o direito à propriedade. “No caso em que um grupo, se valendo da sua liberdade de ir e vir, combina um encontro de tal volume e de tal tamanho e com tais atitudes que começam a, exageradamente, impedir o exercício de outros direitos e liberdade por outras pessoas, estão abusando do seu direito”, explicou.

O professor da Universidade de Brasília, Alexandre Bernardino, discorda. Na opinião dela, a proibição da entrada nos shoppings está ligada ao perfil dos jovens que fazem os "rolezinhos". “É claramente uma manifestação de preconceito em relação a um determinado grupamento social que se caracteriza por pobreza e por negritude, um grupo que se manifesta politicamente, no sentido mais amplo da palavra, e que não pode ter seu direito de manifestação e de ir e vir cerceado em um lugar público, porque o lugar é privado, mas é aberto ao público, então é publico”, defende.

A professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, Liana Lewis, entende que o fenômeno evidencia contrastes da sociedade brasileira. “Quando a gente trata de 'rolezinho', a gente não pode separar a questão de classe da questão de raça. O 'rolezinho' é um fenômeno de classe e de faixa etária, mas sobretudo de raça”, explicou. Para Liana, existe um estranhamento quando universos diferentes passam a ocupar o mesmo espaço. “O que mais amedronta no 'rolezinho', para além da questão de classe, é que você tem vários garotos negros em um espaço majoritariamente branco”, destacou.

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