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sábado, 18 de janeiro de 2014

Hobbit querendo parecer com Senhor dos Anéis

Em dezembro de 2013 chegou aos cinemas o segundo filme da trilogia Hobbit, A Desolação de Smaug, lançada pelo diretor Peter Jackson, que resolveu fatiar a obra de J. R. R. Tolkien lançada em 21 de setembro de 1937. Fui assistir entusiasmado este segundo filme, esperando uma boa ambientação como no primeiro capítulo.


O filme é bom, mas apresenta problemas. Me parece o filme mais problemático de Jackson desde que decidiu fazer as versões cinematográficas das obras de Tolkien, a partir de 1999.

Longa-metragem abre com Peter Jackson comendo uma cenoura na frente da tela. O primeiro problema é o começo do filme com Beorn, um personagem que se transforma em urso e, nos livros, possui uma personalidade muito mais animada. A versão cinematográfica do personagem é breve, desanimadora e dá sono.

O segundo problema, e um dos principais, é o reino de Thranduil, pai do elfo Legolas, e o romance entre a elfa Tauriel e o anão Kili. No livro de Tolkien, este romance não existe, já que anões e elfos são inimigos históricos e a aliança entre as duas raças só ocorre na Guerra do Anel entre Gimli, filho de Glóin, e Legolas. O roteiro força um triângulo amoroso para tentar justificar a aversão dos elfos às outras raças. A interpretação de Thranduil por Lee Pace também deixa a desejar. Ele parece um estereótipo de sua própria raça no mundo mágico.

Lee Pace faz uma interpretação problemática de Thranduil

Os efeitos especiais são de tirar o fôlego em 3D, mas apresentam alguns problemas na luta entre elfos e orcs na Cidade do Lago. Há momentos interessantes, como duplo tiro na cabeça com flechas de Legolas, mas o filme perde o foco nos anões e em sua busca por retomar Erebor, a montanha usurpada pelo dragão Smaug.

O triângulo amoroso aparente entre Legolas, Tauriel e Kili
O mago Gandalf, na história, puxa dados e informações do universo de Tolkien presentes no Silmarillion, um copilado de textos e anotações, e não do enredo original de Hobbit. Pela construção da narrativa, Peter Jackson dá a entender que quis criar uma versão adulta da história, já que o romance original é voltado para crianças, embora Bilbo seja o portador do Um Anel do inimigo Sauron. Jackson tenta forçar uma ligação entre as duas histórias colocando Sauron como a força comandante dos orcs que enfrentam os anões em sua jornada, tirando o papel do Rei Bruxo dos Nâzgul, como está no livro.

Será que Peter Jackson, um dia, quer filmar as inúmeras histórias de Silmarillion?

O resultado deste enredo confuso e com mais elementos do que a história original é que o filme, infelizmente, soa como se fosse um roteiro muito parecido com Senhor dos Aneis: As Duas Torres. É um bom filme, mas poderia cortar elementos e manter sua originalidade. Ou ter sido unido ao filme anterior, diminuindo a saga.


No entanto, o filme tem um personagem muito bem representado: O dragão Smaug.

Com voz de senhor e interpretado pelo ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série de TV Sherlock, ele parece mau, orgulhoso e inteligente. O encontro entre o pequenino Bilbo Bolseiro e o gigantesco dragão é uma das cenas para ficar na memória.

O ponto fraco desta sequência é somente quando tentam derrubar o monstro com ouro quente. Não dá pra entender, exatamente, o que os protagonistas queriam ao combater o dragão.

Não assistiu o segundo capítulo de Hobbit? Vá ver, mesmo que o filme tenha eventuais defeitos do ponto de vista de algumas críticas que devem ser feitas.

O ápice do filme com Smaug

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Aniversários de J. R. R. Tolkien e Isaac Asimov: Recomendação de livros



Dois mestres da literatura e da ficção fantástica, J. R. R. Tolkien e Isaac Asimov abriram 2013 com seus aniversários: Nos dias 3 e 2 de janeiro, respectivamente. Tolkien se consagrou com as histórias medievais fantásticas de O Senhor dos Anéis, enquanto Asimov inovou na ficção científica com as leis da robótica em Eu, Robô.

Por isso, em homenagem aos 121 anos do britânico nascido na África do Sul Tolkien, se ele estivesse vivo (morreu em 1973), e aos 92 anos do russo Asimov (morreu em 1992), vamos recomendar dois livros menos conhecidos sobre esses autores.


Michael White fez um relato de fã e uma pesquisa extensa sobre detalhes da vida do escritor britânico em Tolkien: Uma Biografia. O autor de O Hobbit, que atualmente está em cartaz nos cinemas, é retratado como um profundo pesquisador e linguista que soube unir seu dom literários aos seus trabalhos acadêmicos. Embora seja uma biografia, o escritor consegue não deixar a vida de Tolkien muito entediante em seu relato, como fazem outros autores do gênero.


Fugindo das tramas de robôs ou mesmo de robótica, O Fim da Eternidade é um dos primeiros livros de Isaac Asimov e foi publicado cinco anos depois de Eu, Robô, em 1955. A obra lida com viagens no tempo e formação da sociedade. Vale para quem quer conhecer outro lado de Asimov, que ainda conserva elementos científicos, falando sobre o futuro.

Informações via Facebook do Omelete.

domingo, 8 de agosto de 2010

Erudir #7: Sobre anjos e escrita fantasiosa


Mudando seu foco, Erudir traz um dos autor brasileiro que está despontando com literatura fantástica que aborda religião e fantasia. Abordando a obra A Batalha do Apocalipse, Pedro Zambarda comenta sobre a escrita de Eduardo Spohr, que conquistou do nicho do podcast Nerdcast para as grandes livrarias nacionais. Remontando o apocalipse bíblico, Spohr humaniza os anjos e os transforma em criaturas de um universo próprio, como Tolkien fez em O Senhor dos Anéis.

O videocast está sendo um excelente laboratório para trazer temas diferentes. Se você tiver alguma sugestão de escritor para o Erudir, ou quiser sugerir outros programas, mande e-mail para boladafoca@gmail.com.

domingo, 9 de agosto de 2009

O Livro Musical?

Literatura na música? Incoerente, algo que não pode acontecer. Impossível transmitir todo o significado de um texto consagrado em um punhado de melodias, não concorda? A banda alemã de heavy metal Blind Guardian vai contra essa visão e incorpora uma das histórias mais complexas escritas por John Ronald Reuel Tolkien, mesmo autor de Senhor dos Anéis, em um trabalho único. Em Nightfall in Middle-Earth, o livro Silmarilion é incorporado em 22 faixas que contam sobre a Guerra das Jóias e de Morgoth, primeiro senhor negro de Arda. O material foi um marco para o grupo em 1998. CD válido tanto para fanáticos pelos livros, quanto para fãs da banda e para pessoas que ainda não estão completamente familiares sobre Tolkien.

Capa do CD: a elfa Lúthien sedutora, Morgoth com a coroa de Silmarils e o lobo Carcharoth

Por Pedro Zambarda

War of Wrath abre com as suplicas de um personagem muito comentado em Senhor dos Anéis por Tolkien: Sauron, servo de Morgoth no começo dos tempos. Ele lamenta o avanço dos Valar, inimigos do senhor negro. Melkor, conhecido como Morgoth, convoca a fidelidade de Sauron e também teme a perda da batalha para os inimigos da luz. Com essa história, o álbum começa seu conto parcial.

Com a guitarra distorcida e bem destacada de André Olbrich, a música Intro the Storm “explode” acompanhada pelo vocal ora rasgado, ora melódico, do vocalista Hansi Kürsch. O diálogo da aranha Ungoliant e Melkor/Morgoth nas letras narram, na verdade, a fuga deles de Valinor, terra dos deuses Valar. Lammoth é a terceira faixa, que representa o grito de Morgoth no meio de uma tempestade de areia, separando-se da aliada aracnídea.

Em Nightfall, que sintetiza a idéia do álbum do Blind Guardian, há uma mudança tanto nos instrumentais quanto na narrativa. Falando sobre a vingança do elfo Fëanor, descendente dos Valar, e seus 7 filhos por causa do roubo das jóias Silmarils, a música é acompanhada por um coro das vozes de todos os integrantes da banda, soando praticamente como uma ópera, especialmente no refrão principal. Marcus Siepen, na guitarra base, e Thomas Thomen Stauch, bateria, dão todo o toque pesado na música para que André guie um solo bem variado em toda a melodia. Nightfall / Quietly crept in and changed us all / Nightfall / Quietly crept in and changed us all / Nightfall / Immortal land lies down in agony. É o grito de guerra dos imortais contra a escuridão de Morgoth.

Novamente quebrando o ritmo, The Ministrel tem todo o acústico e o tom jovial das músicas de bardos, trazendo apenas um interlúdio de incerteza para a próxima música. The Curse of Fëanor irrompe com uma bateria coordenada e a voz rasgada do vocalista Hansi, expressando a maldição e lamentações que Fëanor atirou contra Morgoth, fazendo os próprios descendentes jurarem vingança pelo roubo das Silmarils e pelo terror em Arda, a Terra-Média. A música retoma, na verdade, o tema principal de Nightfall, mas detalhando o personagem protetor das raças élficas, e descendente dos Valar. Don't fear the eyes of the dark lord / Morgoth I cried / All hope is gone but I swear revenge / Hear my oath / I will take part in your damned fate.

Do lado do senhor negro, Captured é outro interlúdio, que mostra a captura de Maedhos, outro dos filhos de Fëanor. Em Blood Tears, o elfo foi liberado por Morgoth, mas relata seus horrores na presença do mal. Os violões de Marcus e André começam a música de uma forma mais leve, antes da explosão do vocal de Hansi e a bateria de Thomas. Ela termina mais pesada, apesar de alguns momentos mais pausados onde o vocalista marca presença com sua potência sonora. Hansi Kürsch é o fio condutor de Blind Guardian.

Mirror Mirror é conhecida por ter um dos clipes mais populares do Blind, além de ter passagens pesadas combinadas com um refrão que gruda na cabeça. Mirror Mirror on the wall / True hope lies beyond the coast / You're a damned kind can't you see / That the winds will change / Mirror Mirror on the wall / True hope lies beyond the coast / You're a damned kind can't you see / That tomorrow bears insanity. A música, saindo da narrativa Fëanor versus Morgoth, adentra na história de Turgon, que construiu a cidade “fantasma” de Gondolin auxiliado pelo Valar, deus das águas, Ulmo.

Condemned we are / We brought hope, but also lies, and treachery. Em Face The Truth, o interlúdio de um narrador misterioso coloca o destino dos próprios elfos em dúvida, ao contrário da mudança de Mirror Mirror. Um violão seguido por uma guitarra com distorção e delay inicia a música Noldor (Dead Winters Nights), que apresenta a raça élfica de Fëanor, os noldorianos. O coro de Hansi, incorporado na fala do elfo Fingolfin, é um dos mais inspirados nessa fase do CD, anunciando outra vitória de Morgoth sobre os elfos filhos dos deuses Valar.

Battle of Sudden Flame narra a vitória de Morgoth e seus Balrogs e dragões sobre o cerco de Angband, dos Noldor. Suddely everything's gone / For all Noldor / From now on my life. A bateria de Time Stands Still (at the Iron Hill) narra, no meio do conflito contra Morgoth, a defesa heróica de Fingolfin, líder noldoriano que consegue ferir o senhor do escuro 7 vezes em Angband, falecendo após esse feito. The Dark Elf é outro prelúdio para a que narração da traição do elfo Maeglin em Gondolin, a mesma cidade de Mirror Mirror. Novamente o Blind Guardian solta a voz de todos os integrantes na música Thorn.

To the Eldar / I'm trapped inside this dream / Of the Eldar's / Song of doom. Um coro de vozes acompanhado apenas por piano é base de The Eldar. A música é uma lamentação pelo destino trágico dos elfos ao enfrentar Morgoth, chamados nos primórdios de eldar, o povo imortal. Traduz o paradoxo de um povo abençoado na desgraça do escuro, através de notas tocadas em um ritmo constante. Uma mensagem pesada, com uma harmonia leve e um vocal sereno que ganha vigor em sua conclusão.

Nom The Wise é a lamentação do humano Beren sobre a queda de Finrod, outro grande elfo, na guerra. Em seguida, sendo a música mais pesada e com bastante melodia, When Sorrow Sang destoa do CD inteiro, soando mais como uma música de thrash metal com tudo o que ela tem direito: vocal rasgado e guitarras com volume alterado. Hansi Kürsch canta sobre o sofrimento de Lúthien, a elfa azul da capa do álbum. Ela consegue adormecer Morgoth com sua música e é caçada pelo lobo Carcharoth. Em tom épico, a música narra um momento decisivo da Guerra das Jóias, quando os Silmarils são recuperados para os elfos pelo preço de dois sacrifícios – como o do mortal Beren.

Dois interlúdios que se seguem cansam um pouco a audição do CD, mas não comprometem a história que ele narra. Out Of Water faz uma breve saudação do último lugar que Beren e Lúthien habitaram em vida, enquanto The Steadfast é um grito de repúdio de Morgoth para aqueles que não revelaram segredos de Gondolin, reino dos Noldor.

The Dark Passage narra a quinta vitória de Morgoth no conflito pelos Silmarils e o controle de Arda, a Terra-Média. As progressões da bateria em sincronia com as guitarras conseguem demonstras as nuances do livro Silmarilion, que é complexo em sua história extensa, envolvendo muitas gerações de personagens contra o senhor Melkor/Morgoth. The Final Chapter (Thus ends...) mostra que a narrativa musical de Blind Guardian se encerra com outra vitória do mal, mas que os elfos ainda tem esperança de virar esse cenário. Thus ends the fifth battle / By the treachery of men the field is lost / The night falls and great is the triumph of evil / A new star shall arise / And a new day shall come, again.

Quem não é fã de J.R.R.Tolkien, dificilmente vai gostar do material do álbum, que procura realmente contar uma história e não apenas torná-la musical. No entanto, mesmo aqueles que não leram Silmarilion vão se deliciar com músicas como Nightfall, The Curse of Fëanor, Noldor (Dead Winter Nights), Time Stands Still (at the Iron Hill), Mirror Mirror, When Sorrow Sang e The Dark Passage. 98 foi um ano inspiradíssimo para Blind Guardian, que conseguiu transformar literatura em música, mesmo parcialmente. Silmarilion possui muito mais histórias, passando da ascensão e queda do deus Morgoth até o crescimento de Sauron, seu servo Maia e sucessor.

Vídeo de Mirror Mirror, para os leitores terem um gostinho do álbum:

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