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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Tudo pode dar certo

A ode de Woody Allen ao caos


A vida é uma droga. Se você olhar pra ela atentamente, e com um pouco de desprendimento de qualquer crença religiosa ,você vai perceber isso. A vida é um caminho penoso, lento, triste e cheio de sofrimentos que leva ao absoluto nada, morto em um caixão que futuramente será penetrado por vermes que comerão seu corpo. Ao menos é o que pensa Boris, protagonista de “Tudo pode dar certo”. Ou será que é isso que pensa o diretor e roteirista Woody Allen?

Boris é um físico que “quase foi indicado ao Nobel de Física”, graças a seu trabalho sobre a teoria das cordas. Dono de uma mente privilegiada aliada com um entendimento anormal do ser humano e da sociedade, Boris é a encarnação do mau humor. Se casou com uma mulher que logicamente seria perfeita para ele, e quando percebeu que sua lógica falhou, tentou se matar. O acaso não permitiu e Boris posou sobre um “maldito toldo”. Pois bem, e é justamente este mesmo acaso que permeará todas as relações que se estabelecem no filme.

Depois de um longo dia ensinando xadrez para crianças – algo que odeia – Boris chega em sua casa e encontra uma garota sulista à sua porta, a inocente Melody (Evan Rachel-Wood), que não tem onde ficar depois de fugir de sua casa no Misissipi. Ela, uma inocente garota com uma visão romântica do mundo, e ele, o homem que não confia em ninguém nem para dar uma descarga, começam a conversar e, acima de qualquer lógica, se apaixonam. E partir daí uma onda de acasos e caos cai sobre a vida de Boris.

Como em todos os grandes personagens de Woody Allen, o físico começa a perder o controle sobre sua vida regrada. Primeiro surge a mãe de Melody, uma louca religiosa que guarda dentro de si um grande talento para a fotografia. E, por lances do acaso, ela resolve se soltar, e se transformar em outra pessoa. Também por acaso, ela conhece um bonitão que considera melhor partido para Melody e, também por acaso, surge o pai, que abandonou a mãe pela melhor amiga, e depois a abandonou. E daí por diante, um fato atrás do outro, ao mesmo tempo confirmando e quebrando toda a lógica de Boris.

Woody Allen adota uma direção estranhamente contida em “Tudo pode dar certo”, mas que se mostra exata. Sem entrar em teorias bobas sobre narrativa e intertextualidade, Woody faz de Boris sua própria encarnação no filme, chegando até mesmo a conversar com a platéia. Por sinal, as cenas que Boris deixa de conversar com seu amigos para se dirigir aos “bobocas comendo pipocas na platéia” são hilárias. Dessa forma, tudo fica nas mãos do roteiro e da interpretação de Larry David, co-criador de Seinfeld. Difícil dizer o que é de fato interpretação em David, já que tudo nele lembra a amargura de Boris. Desde seus óculos até sua forma de se vestir. E acredite, a única caracterização física de David filme é sua perna manca. De resto, é ele mesmo.

Em todas as suas crises de mau humor, ofendendo de todas as maneiras possíveis as pessoas e a raça humana, Boris – ou Woody Allen, ou Larry David – não erra em nada. Tudo que ele diz é a mais pura verdade. No entanto, uma estranha conjuntura de fatores, que ocorrem neste escuro e violento universo, como ele mesmo diz, pode mudar todo. E isso, nem a física quântica pode prever. Você pode se descobrir gay em um bar vazio, se libertar graças a um jantar ou, até mesmo, encontrar o amor de sua vida pulando sobre ele em uma tentativa homicídio ou contornando a esquina da padaria.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Mais uma rodada de Cassandra: Allenianos 1 X 0 Críticos

"Caro Woody
Escrevo pois, imagine você, a revista BRAVO! me chamou para fazer uma crítica em primeira mão do seu O Sonho de Cassandra. Atendi correndo ao chamado, sempre fico com saudade de você entre um filme e outro.

Penso de você o mesmo que penso de Deus: tenho certeza de sua existência, embora saiba que você não tem a menor idéia da minha.

Faço cinema também. E parecidíssimo com o seu. Também acho que cada plano é um filme. Conheço todas as músicas que você usa. Cantarolo na cadeira. Compreendo que você esteja cansado de si mesmo. Também me sinto assim. Na nossa idade, é preciso mudar. Superar-se.

Mas como fazê-lo? Todo grande artista é o espetáculo de si mesmo. Fellini, Bergman, Carlitos, Orson Welles fizeram, cada um, um filme só. Tudo o que fazemos é passear por dentro de nossa magnífica paisagem interior. Ninguém pode ser um "serial genial", isso é coisa para os assassinos. Temos altos e baixos. Embora isso não tenha grande importância. Quantos anos você tem? 72. Dez meses mais velho que eu. É duro. O tempo passa como um rato na sala. Se tirarmos todos os espelhos da casa, passaremos melhor o dia. Temos obsessão pela morte.

Diz Tolstói: "Um homem que depois dos 40 não tem a morte como sua principal preocupação... é um idiota". Mas é tudo uma farsa! Que engana os homens e por vezes até as mulheres. Por dentro, continuamos garotos, estamos sempre 500 anos atrasados. Temos tantas histórias para contar!

Gostaria de lhe mandar alguns de meus filmes, mas não tenho o seu endereço. Você certamente gostaria de vê-los. Somos bem semelhantes. Você é mais inteligente que eu e um pouco menos romântico, talvez. Ou, simplesmente, tem melhores condições de produção. Cada obra sua me influencia. Como me influenciaram Fellini, Godard etc. Mas não te copio, tenho provas. Enquanto você fazia O que Há de Novo, Gatinha?, eu, por aqui, já estava fazendo Todas as Mulheres do Mundo! Que é quase um filme de Woody Allen. De modo que plágio não é. Mas é sim. Assim como você, adoro subir no ombro do gigante para ver mais longe.

Woody, não estão gostando de O Sonho de Cassandra! Chegam a dizer que é o seu menos inspirado, o pior! Não se perturbe, Woody, eles estão enganados. Realmente, seria muito melhor se você mesmo não tivesse imposto um padrão tão alto nos filmes anteriores. Porém, estão lá os mesmos valores de sempre. A dramaturgia rigorosa, cenários inesperados, os atores ótimos (ok, sic!), a mesma elipse sobre momentos importantes. Uma cortesia para com o espectador.

Por exemplo, você não mostra a cena final do barco, preferindo narrá-la através dos detetives. O mesmo que você fez em Match Point. Lá estão as mesmas citações de livros ou filmes famosos anteriores, você sabe que a inteligência é uma coisa só, que tudo pertence a todos. Assim sendo, lá estão Crime e Castigo — Dostoiévski também é meu autor predileto —, muito da lenda de Caim e Abel, o fascínio saudosista de O Sol por Testemunha, além do Crimes e Pecados. Um autor tem o direito de plagiar a si mesmo. Afinal, ninguém é de ferro. Há menos humor em O Sonho de Cassandra, afinal é uma tragédia, não fica bem rir. Todo autor sério tem de se preocupar com a tragédia de vez em quando. Sua admiração pelo thriller também é compreensível num cinéfilo. Mas tenho certeza que são fases passageiras. O que vale um thriller diante de um filme de Woody Allen?

Enfim, O Sonho de Cassandra é imperdível. Quem não gostou é porque não entendeu. Ou porque ficou com inveja desse jovem cineasta de 72 anos que há décadas faz humildemente um filme por ano, seguindo o seu destino de artista.

Não há nenhuma decadência em jogo. Os gênios não decaem, depuram-se.

Quando Jó se rebela contra Deus, e pede uma resposta, Deus faz desfilar diante dele toda a maravilha da natureza. Diante dos nossos olhos marejados, você fez desfilar no mínimo vinte obras-primas: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Manhattan, Interiores, Memórias, Zelig, Broadway Danny Rose, A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e Suas Irmãs, A Era do Rádio, Setembro, Uma Outra Mulher, Histórias de Nova York, Crimes e Pecados, Alice, Neblina e Sombras, Maridos e Esposas, Um Misterioso Assassinato em Manhattan, Tiros na Broadway, Poderosa Afrodite, Desconstruindo Harry, Poucas e Boas, Vigaristas de Bairro, O Escorpião de Jade, Dirigindo no Escuro, Igual a Tudo na Vida, Match Point... Bem, isso é melhor que a Disneylândia, é como passear na Via-Láctea. Vale viver para passar por isso.

Bem, sei que ainda vem muito pela frente. Porém, meu caro Allan Stewart Konigsberg, o dever de casa já está feito!

Quando vier ao Rio, não se esqueça de descobrir quem eu sou e passar por aqui para eu te mostrar uns filmes e comermos um risoto de camarão, discutindo até a madrugada de onde viemos, para onde vamos...

Seu,
Domingos Oliveira

Domingos Oliveira é cineasta e dirigiu, entre outros, Todas as Mulheres do Mundo e Amores."

Fonte: Revista BRAVO!, maio de 2008.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O sonho incompreendido de Woody


Imagem: Hernández (http://www.monerohernandez.com/)


O mais novo filme de Woody Allen, O Sonho de Cassandra, tem sido presença constante na mídia desde sua estréia, há algumas semanas. O que tem me espantado é a quantidade impressionante de críticos que dizem que Woody perdeu a mão e está se repetindo, explorando a mesma temática de Match Point (2005). A base dos dois filmes é a mesma: um crime seguido de um dilema (e não propriamente um castigo, por mais admirador que Allen seja de Dostoiévski). A grande sacada do diretor - e é isso que a maioria está falhando em enxergar - é o tratamento dado ao tal dilema.

Match Point explorava a tentativa de Chris Wilton de escapar do crime que cometeu quando sua amante engravidou acidentalmente e tornou-se uma ameaça para seus planos de escalada social. O ex-tenista, no entanto, não é um "criminoso nato" e começa a ser esmagado pelo peso do ato que cometeu, o que chega até a, em alguns momentos, sugerir seu desejo de ser capturado para acabar logo com tudo aquilo (bem nos moldes Dostoievskianos de Crime e Castigo). Esse peso, porém, é aliviado quando a responsabilidade acaba pesando sobre outro personagem, o que mostra que Chris Wilton não é propriamente um homem de caráter - exemplificado por sua máxima "Prefiro ter sorte do que ser bom".

O Sonho de Cassandra mostra a reação de Ian e Terry - representações allenianas de Cain e Abel - frente ao mesmo crime, quase como se os irmãos sem sobrenome que velejam no sonho de cassandra fossem os dois lados da personalidade de Chris Wilton.
Terry é um homem casado, com uma vida estável, que está pensando em constituir uma família e conseguir um emprego melhor, abrindo sua tão sonhada loja de materiais esportivos. Ian despeja toda sua vida (e suas economias) na fachada de bon vivant que sustenta para namorar uma ambiciosa atriz de teatro, que, intencionalmente ou não, parece controlá-lo como quer.

Por viverem situações tão distintas, os irmãos esboçam atitudes completamente diferentes e até mesmo antagônicas frente ao favor pedido por seu tio Howard; e é aí que está a genialidade de Woody Allen, quando ele nos mostra como somos frágeis e manipuláveis e como não podemos sempre confiar em nossos instintos, nem mesmo em nosso julgamento - e tudo envolto na trilha brilhante de Philip Glass.

Claro que eu posso estar errado. Woody pode mesmo ter explorado o tema de Match Point, poupado esforços enquanto fazia Vicky Cristina Barcelona, (com Penélope Cruz e Javier Bardem) e tudo isso que eu escrevi pode ser um monte de besteiras. Mas como vocês nunca vão saber se eu estou apaixonado por uma femme fatale ou casado com uma inglesinha sem sal, vão ser obrigados a acreditar na foca; ou discordar. Enfim, façam o que quiserem, foi só um desabafo.

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