sexta-feira, 27 de agosto de 2010

[COM SPOILER] O sonho do sonho do filme Inception (A Origem)


Um homem capaz de invadir sonhos. Um empregador que teve seu sonho invadido. Uma mulher morta que aterroriza a imaginação de seu amado. Uma menina arquiteta. Um homem que se transforma em suas memórias. A memória de um rico empresário a ser alterada. Um clima que mistura espionagem, tiroteios e uma realidade regida pelo nosso consciente e subconsciente. Christopher Nolan reuniu todos esses elementos ricos em Inception, filme que chegou aqui com o título de A Origem, mas que significa, literalmente, Inserção.

Com todo esse enredo e suas reviravoltas, senti vontade de escrever sobre esse filme em meados de julho. Não foi possível devido às ocupações com TCC e final da faculdade de jornalismo. Por isso, começo aqui uma grande resenha, revelando inclusive detalhes da conclusão do longa-metragem e outras teorias minunciosas.

Se você não quer saber o final de Inception, pare de ler o texto agora. Se quer saber tudo sobre a obra de Nolan, clique no título do texto.

O filme inteiro gira em torno da vida de Dom Cobb, interpretado por Leonardo DiCaprio, que é um ladrão de ideias em sonhos. Através de um adormecer em conjunto, ele invade a mente de suas vítimas e descobre seus segredos. Os sonhos, no longa de Nolan, são projeções do mundo real com ambientes determinados pelo arquiteto dentro da mente de outra pessoa. Resumidamente, o sonho possui elementos de um indivíduo em um ambiente determinado por outro. Além dessas duas pessoas, outros sonhadores podem embutir conceitos dentro do mesmo sonho.

O empresário Saito é a vítima da vez de Cobb. Com uma mente altamente segura, Saito consegue fugir das investidas do ladrão e de seu ajudante, Arthur. Com essa demonstração, o japonês ainda assim está interessado no trabalho de Cobb. Ele pede para o ladrão que implemente uma ideia no chefe da corporação concorrente, que é filho de um arquiinimigo já falecido de Saito. Cobb decide que ele e Arthur não serão suficientes para a operação. Consultam Miles, mentor de Dom, para conseguir uma arquiteta mais eficiente para o sonho coletivo. Eles conhecem Ariadne, interpretada pela geniosa Ellen Page, que é uma garota aparentemente inocente sobre a arte de invasão.

Ariadne, Cobb, Arthur, o farsante Eames e uma equipe invadem a mente do empresário Fischer, concorrente de Saito. A invasão se dá em quatro níveis de imaginação, com a ajuda de um sonífero de Yusuf. O primeiro sonho é do próprio dono do sonífero. O segundo é de Arthur. O terceiro, de Eames. O último nível imaginativo é de Cobb, que desemboca no que eles chamam de "Limbo".

Paralelamente a essa história de infiltração, com muito tiroteio frente às defesas militares dos sonhos, se desenvolve o principal drama do filme: Cobb só implantou uma ideia em toda a sua carreira como assaltante de sonhos. Ele e sua esposa falecida, Mal, viviam um sonho de 50 anos inteiramente juntos. Estavam em um estado profundo de sono, até atingirem o Limbo, onde não existe nada além de fragmentos de sonhos e o vazio. Dom Cobb, nessa situação, decidiu que eles deveriam acordar para viver a realidade. Com essa ideia, ele implantou na mente de Mal que um amuleto poderia mostrar o que é sonho e o que é realidade. E indicou, com o objeto favorito da esposa, que tudo o que eles viveram era mentira.

A questão da morte

No filme, a única forma de despertar de sonhos em conjunto é morrer. Um ferimento de bala só causa dor e sofrimento. A morte é a maneira mais direta de fugir do imaginário. Com a inserção que Cobb fez em Mal, a saída dela seria morrer no Limbo, e em todas as camadas de sono, para despertar.

O problema é que a esposa acordou e, mesmo na realidade, achou que tudo era uma mentira. Com isso, ela cometeu suicídio. E Cobb se sentiu culpado pelo que aconteceu, fugindo da família e entrando na vida de invasor de mentes.

O mentor de Dom Cobb, Miles, é o pai biológico de Mal.

O final do filme

Cobb, teoricamente, conseguiu colocar uma ideia em Fischer, que havia morrido na terceira camada de sonho. Sendo ressuscitado pela equipe, Fischer achou que o pai teria pedido para ser um líder único, muito diferente do seu totalitarismo na empresa antiga. Com essa operação, os invasores teriam atendido ao pedido de Saito, criando um concorrente mais ameno em relação ao seu antecessor.

No entanto, essa é uma questão muito superificial dentro do final do longa.

Cobb chega ao quarto nível para concluir esse objetivo, resgantando Saito, que morreu no primeiro sonho e se encontrava no Limbo. Nessa quarta camada, ele e Ariadne matam o fantasma de Mal, que o assombra durante todos os níveis de imaginação. Nesse nível, também, Cobb explica sua história pessoal. As cenas dão a entender que ele conseguiu salvar Saito ao mergulhar no mar. Mas que eles teriam sido os últimos a sair.

Saito consegue viabilizar a volta de Cobb para a casa de Miles, onde se encontram as crianças orfãs de Mal. Dom Cobb, com essa atitude, teria conseguido se redimir do crime contra a esposa, fazendo o serviço sujo para Saito. Mas será que foi isso mesmo que aconteceu?

A questão levantada no final

Antes de se encontrar com os filhos, Cobb gira o pião, o artefato de Mal, para saber se está na realidade ou no sonho. Ele faz isso em outras passagens do filme. Nessa parte, a cena corta, e divide especulações entre a audiência do filme. Afinal, o final foi um sonho? O que é o sonho?

Para aqueles que acreditam que o pião parou

Essa, normalmente, é a interpretação linear do filme. Cobb se perdoou, voltou aos filhos e enfrentou níveis de sonhos para antigir seus objetivos, incluindo o Limbo, que ele define como morte na imaginação. Foi graças ao Limbo que Mal faleceu, duvidando de tudo e aceitando a ideia que ele implantou.

O grande paradoxo de acreditar na parada do pião é: Essa verdade só é aceita porque Cobb disse. A única pessoa que possui amuleto, além dele e de Mal, é Ariadne. Acreditando nos três, você acredita em todo o sistema de sonho que Cobb quer que você acredite. A audiência que opta por essa interpretação está em sintonia com o protagonista. Aceita sua versão dos fatos.

Para aqueles que acreditam que o pião girou eternamente

O final do filme é outro sonho.

O problema é: Sonhado por quem? O filme inteiro é um sonho com vários sonhos dentro? A ideia de Cobb sobre amuletos é falsa? A inserção foi realmente feita em Fischer? Ou o foco de tudo era em Cobb?

Inception, desde sua estréia no começo de julho, gerou uma discussão interminável sobre seu conteúdo justamente por essa segunda opção de final. Alguns dizem que o filme inteiro é a imaginação do protagonista Dom Cobb, que tenta fugir do arrependimento do amor, mas é atormentado justamente por sua amada. Outros dizem que certas etapas do filme são realidade, mas a maioria é um sonho. Todas essas questões fizeram a própria audiência fabular, contribuindo ainda mais para ideias, que é o foco principal do filme.

Teorias sobre o segundo final

O último sonho pode ser do próprio Cobb, trancado no Limbo com Saito.

O último sonho pode ser da própria Mal, que realmente saiu da imaginação ao se suicidar.

O último sonho pode ser de Miles. Essa é uma teoria muito interessante: Ele teria sido o real mentor da operação. Ele enviou Ariadne como uma garantia que Cobb chegaria ao limbo. Seu intuito era inserir a ideia de que ele não é culpado pela morte de Mal, sua filha.

Aspectos que comprovam as teorias do segundo final

A trilha sonora do filme, de Hans Zimmer, é uma versão lenta de Non, Je Ne Regrette Rien, de Edith Piaf. O nome significa "não, eu não me arrependo de nada". Não parece ser uma referência clara ao sentimento de culpa de Cobb? A mesma música é utilizada para acordar os personagens do filme em seus sonhos.

Para quem duvidar da composição de Zimmer ao deixar a música mais lenta, veja o vídeo abaixo.



Parece, não é?

Para fechar

Todas as opiniões expressas neste texto são do autor ou baseadas em conversas com outros que viram Inception. Não deixe de assistir e dar sua contribuição para essa discussão na internet.

É uma ficção científica o filme? É um sonho dentro de outros muitos? É um universo próprio? É um filme de ação? De infiltração? É drama? A dúvida é sua riqueza, certamente.

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