domingo, 14 de novembro de 2010

As forças da boataria e da informação privilegiada


Autor: Thiago Dias
Revisão: Lívia Hayama e Pedro Zambarda

É difícil prever a força que um rumor pode ter, e não apenas nos dias de hoje, com a comunicação que alcançou as massas, basicamente, gerando e formando opinião. O que se sabe é que o potencial destrutivo, ou até mesmo construtivo, de um rumor ou de uma informação privilegiada, chamada de Insider Trading, aumentam consideravelmente quando parte de uma fonte confiável. Essa ação é repassada por um meio de comunicação e chega ao público com uma extensão maior do que a original.

O que se vê a partir daí é um perfeito cenário para uma profecia autorrealizável na economia, no mercado de ações em empresas privadas, quando um simples rumor passa a ter conseqüências reais em seu objeto.

De certa forma, uma profecia autorrealizável pode ocorrer em qualquer meio, mas em raros momentos ela tem um impacto tão significativo na economia. O termo inclusive foi cunhado em razão da corrida de clientes a bancos para retirar seu dinheiro, após rumores que falência ou quebra da instituição. Ou seja, mesmo que o banco esteja em ótimas condições financeiras, a retirada maciça de dinheiro o colocará em apuros, além dos danos consideráveis, e por vezes irremediáveis à sua reputação. Afinal de contas, ninguém se lembrará de que o rumor inicial foi falso, mas sim que o resultado final foi aquele predito.

Essa é a teoria. Na prática, especialmente nos últimos tempos, é extremamente difícil imaginar um cenário onde um rumor ou um boato surja absolutamente do nada e cause sérios danos a instituições financeiras. Embora freqüentemente apareçam boatos exagerados, eles apenas refletem uma situação que já vinha longe da perfeição, causando insegurança tanto em investidores quanto em clientes de forma geral.

Um exemplo que pode ser interpretado como um caso de profecia autorrealizável aconteceu no Brasil, no fim de 2002. O presidente Lula acabara de ser eleito e investidores, tanto internos quanto de fora, sentiam-se inseguros em relação aos rumos da economia. Digamos que, apesar de ter declarado em carta aberta que prosseguiria com a política econômica do governo FHC, o passado sindicalista de Lula não passava confiança. O que houve então foi uma crescente desconfiança em relação ao futuro econômico do Brasil, que estava apenas se recuperando dos difíceis anos de 1999 e 2000.

Um dos grandes medos que Lula inspirava, entre muitos, era sua política cambial. Investidores desconfiavam que o presidente pudesse alterar significativamente a política imposta por FHC, ou até mesmo abandonar o câmbio flutuante. Resultado disso? O câmbio se desequilibrou completamente.

A desvalorização do Real, que durante todo o ano variou entre R$2,80 e R$3,00 para cada dólar, subiu absurdamente, atingindo os R$4,00 reais no fim do ano. Obviamente, para a maior parte dos analistas, essa desvalorização se provou irreal, tendo sido motivada muito mais pelo medo de que algo pudesse acontecer do que por previsões factíveis e análises sérias.

Após Lula assumir a presidência, no início de 2003, ele pôs em prática tudo àquilo que havia deixado claro na Carta aberta ao povo brasileiro. Ou seja, com uma equipe econômica liderada por Antônio Palloci no Ministério da Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central, o governo brasileiro aos poucos controlou o câmbio e em relativamente pouco tempo ele estava de volta a patamares considerados bons para o país na época, em torno de R$2,30.

Portanto, em suma, todo o medo maior dos investidores foi uma conseqüência de suas próprias ações.

Existe, porém o outro lado da moeda. Quando pensamos estar diante de uma profecia autorrealizável, na verdade o que temos é uma tendência capitaneada por uma pessoa ou grupo especifico que possuía uma informação privilegiada. Isso é um caso de Insider trading que, por conta de boa colocação no mercado ou na empresa, consegue lucrar mais ou, em alguns casos, evitar um grande prejuízo. Esse movimento econômico, naquele momento, pode até ser visto como um palpite ou um rumor, mas só depois que percebemos que existe algo além.

Um caso no mínimo curioso aconteceu no Brasil no ano passado, durante a fusão das Casas Bahia com o Grupo Pão de Açucar. “Lembro de um caso recente, porém, não quer dizer que trata-se especificamente de um caso de Insider trading. No dia que antecedeu o anúncio da fusão entre Pão de Açúcar e Casas Bahia houve um movimento busco de alta nas ações do Pão de Açúcar, o que chamou bastante a atenção do mercado. Obviamente, a maioria esmagadora do mercado não sabia que este acordo esta à luz de acontecer” conta Marcelo Rossi Poli, jornalista do site EXAME.com, ligado à revista Exame da editora Abril.

O acordo entre as Casas Bahia e o Pão de Açucar foi anunciado em abril de 2009, mas só finalmente fechado em julho deste ano. Não foram poucos os desafios que a fusão enfrentou, a começar pela data do anúncio, que foi adiantada pela justiça justamente para evitar um caso de informação privilegiada, como se já não fosse tarde demais. “A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) se manifestou e entrou em contato com a alta cúpula do Pão de Açúcar. Ao confirmar que seria anunciada a fusão entre as companhias, a CVM interveio na data do anúncio, fazendo com que o mesmo fosse antecipado para a data mais breve possível” completa Marcelo.

As questões legais em torno do Insider trading são claras. Informações privilegiadas desequilibram as forças do mercado financeiro. Nesse ponto, a legislação brasileira se destaca, segundo Marcelo. “A regulação do mercado de capitais brasileiro é bastante rígida e cerca muito bem esse tipo de especulação. Porém, informação privilegiada sempre existirá, principalmente num ambiente onde se movimenta bilhões de reais.”

Contudo, se houve um evento que poucos, ou mesmo nenhum, Insider trading conseguiu prever e passou longe de ser uma profecia autorrealizável, levando-se em conta suas conseqüências, foi a crise econômica de 2008. Como a crise estourou com um fato que poucos acreditavam possível - o pedido de falência do Lehman Brothers - poucos conseguiram prever o que vinha acontecendo. O mais famoso destes “profetas do apocalipse”, como foram chamados, foi o economista Nouriel Roubini, que de fato ganhou dinheiro com a crise. “Tanto o Roubini quanto o Marcio Noronha, um analista técnico brasileiro que previu a queda da Bovespa para 30 mil pontos, não tinham informações privilegiadas. Tinham apenas um alto nível de conhecimento e a capacidade de enxergar além da manada” finaliza Marcelo Poli.

No dia 9 de novembro de 2010, foi detectado um rombo no Banco PanAmericano na casa dos 900 milhões de reais. Sustentado pela Caixa Econômica Federal e pelo Grupo Silvio Santos, o desequilíbrio nas contas da instituição bancária gerou um aporte de 2,5 bilhões de reais do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) feito pelo próprio Silvio Santos.

Ele, dono da emissora SBT, entregará seus 44 empreendimentos como garantia de pagamento caso não ocorra a quitação. O empresário fará o pagamento dessa dívida em 10 anos, para equilibrar novamente as finanças. As ações do PanAmericano tiveram reduções de 28%.

Caso a informação vazasse antes, em um caso típico de Insider trading, investidores derrubariam o valor de mercado do banco antes mesmo de tornar a informação pública.

Como não houve informação privilegiada, Silvio Santos garantiu a sobrevivência da instituição bancária, que sustenta seus múltiplos empreendimentos. Um vazamento e uma ação precipitada de investidores poderia gerar um efeito de manada, que poderia, injustamente, sepultar a recuperação da empresa. Por esse, e por inúmeros motivos, o tráfego de informações fechadas ao público constitui um crime para a CVM no mercado de ações.

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