segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A guerra de Cremilda Medina


Por Amanda Sousa, Ana Claudia Cabanas, Iara Aurora, Guilherme Müller, Mariana Campos e Thatiana Rós - Universidade Anhembi Morumbi.

Nascida em Portugal e radicada no Brasil, Cremilda Medina é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pesquisadora e professora titular da Universidade de São Paulo. Atua há mais de 40 anos na área e publicou 13 livros de sua autoria. A vasta experiência e dedicação a pesquisas na disciplina tornaram a jornalista um modelo pragmático da contemporaneidade. Trabalhou nos periódicos Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo e, neste último, desenvolveu um trabalho de 10 anos nos cadernos de arte e cultura. Nesta entrevista baseada em seu livro “Entrevista: o diálogo possível”, Medina fala do início de sua carreira, do interesse em se dedicar às pesquisas e estudos acadêmicos, do trabalho realizado no jornal O Estado de S. Paulo (principalmente no entrave entre o factual e o atemporal), dos problemas que atingem o mercado da área como advento da tecnologia, manuais de redação e o autoritarismo institucional, e ainda aconselha os jovens jornalistas sobre como lidar com a profissão.


Thatiana Rós - Cremilda, eu queria saber quais fatores da sua infância que influenciaram na escolha pelo curso de jornalismo? A senhora sempre gostou de escrever ou teve alguma influência de fora, da família, por exemplo?

Cremilda Medina - O que realmente mais marcou foi primeiro, durante o ginásio que eu fiz em Porto Alegre, eu vim de Portugal com 11 anos e meus pais me radicaram em Porto Alegre, aí de Porto Alegre eu fui parar no Colégio Farroupilha. E, o fato de eu ter ido parar na escola de alemães, ou descendente de alemães, fez com que eu me destacasse em Português. Então, a língua e literatura foram muito próximas em toda a minha formação ginasial. Agora, quando eu estava no 3° ano do colegial clássico, eu fiquei com muitas dúvidas do que eu ia fazer de faculdade, eu acho que aí é que está o momento importante. Bom, aí eu fiz uma reflexão comigo mesma, o que até hoje eu me surpreendo, e eu não queria me fechar em nenhuma área a não ser naquela que me desse uma possibilidade de trânsito social, de relação com os outros, de vir ao mundo com relação com outros e por isso eu decidi jornalismo. O que foi um tumulto em casa. O curso de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul começou em 50 exatamente e eu fiz o vestibular em 60. Na época, fiz o de jornalismo e o de letras. Era possível, na Universidade Federal daquele tempo, fazer dois. E, acontece que passei em 1° lugar em letras clássicas, que era Português, Grego e Latim e em 2° lugar em jornalismo. Mas, enfim, eu teimei, bati o pé como bati com meu pai, e terminei fazendo do curso de jornalismo. Ele foi a centralidade da minha vida universitária. A minha mudança para São Paulo foi por conta da Universidade, também porque eu em 68, em 67 mais precisamente, já era jornalista em Porto Alegre e tal, e fui chamada para dar aula na universidade federal no curso de jornalismo e assumir o jornal laboratório com os alunos. Que era preciso, pesquisar, inovar, estudar. Daí surgiu à notícia de que a ECA iria criar, isso no fim de 1960, início de 70, a primeira pós-graduação da América Latina. E aí em 1971 eu preparei tudo, já estava casada, com dois filhos e tal, para vir para São Paulo fazer a pós-graduação licenciada pela Universidade Federal. O fato é que dessa mudança para cá resultou a pesquisa. Então, dar aulas na Universidade de São Paulo significa ter um projeto de pesquisa e não simplesmente ensinar aquilo que a gente já sabe. Agora, o fato é que efetivamente, a arte e a literatura em particular sempre estiveram presentes na minha vida, isso eu digo bem nesse texto “O Povo e o Personagem”. E eu me orgulho muito, porque eu vim para São Paulo para ingressar nessa afinidade de pesquisa e resulta-se como mestrado da ECA. O trabalho foi o primeiro da América Latina e eu sou a primeira mestra formada em 75. Finquei pé nesse continente. Embora, eu tenha viajado muito, tenha feito outras coisas fora, mas a pesquisa sempre foi voltada para vocês, para nós, para os grupos de trabalho aqui no Brasil.

Amanda Sousa - No Estadão, a senhora ocupou as editorias dos cadernos de arte e cultura. Como foram essas experiências?

Então, essa é uma experiência que foi a mais longa do ponto de vista de mercado, porque eu sempre trabalhei com mídias, gosto muito de televisão, trabalhei na TV Cultura, na TV Bandeirantes, mas nesse período de dez anos no Estadão, foi assim o mais longo e por isso vou para implantar um trabalho de gratifica muito, um trabalho chamado que é o jornalismo cultural. E esse projeto foi um projeto de dez anos que eu tive chance de realizá-lo no Estadão, e numa época muito complicada, ainda diante de uma ditadura de censura, e uma série de obstáculos dessa natureza. No entanto ela me deu toda essa possibilidade de desenvolver um trabalho e o importante de salientar que a síntese dos intelectuais brasileiros da área de arte e de filosofia e repercussão foram importantíssimas na resistência à ditadura. Então, dar voz a esses artistas e a esses pensadores foi muito gratificante porque a gente estava na frente da luta de oposição a ditadura. E a censura e a repressão eram tudo que ele levou depois para sociedade civil a democratização do país. O Estadão foi importante por isso, porque ele estava nessa frente de luta, e ai a editoria de arte era a linha de frente. Porque todo o ato jornalístico é cultura, não é apenas a arte, ou a filosofia, ou o pensamento intelectual ou o pensamento de reflexão que pode ser chamado de cultural, qualquer editoria produz cultura. Então, é mais conveniente ser chamado, de editoria de arte do que chamar de cultura.

Mariana Campos - Você não acha que perdeu um pouco a essência do caderno de cultura, que misturou um pouco de entretenimento com cultura, outro tipo de entretenimento como fofoca?

Não, esses deslizes mais sensacionalistas existem em todo jornalismo. Na época que eu estive no Estadão estava em discussão no meio artístico, no meio literário e artístico, o desaparecimento do suplemento literário do Estadão, que foi muito marcante. Então, era assim um espaço nobre da área de arte, mesmo depois que desapareceu, eu achei isso absolutamente normal porque é uma dinâmica de alteração de editoriais, sai o suplemento literário e depois surge o sabático, e depois surge num sei o quê e, então isso é uma dinâmica de mercado, o fato é que produzia sentido, ou seja significado para as coisas é a cultura. Agora, o entretenimento que você se refere ao lúdico, o lazer é muito importante, o lúdico é muito importante para nós, para nossa vida cotidiana, como é que se vai deixar então uma coisa séria, carrancuda, sem nada de entretenimento, sem o lúdico. Então, para fazer um textinho humano, uma historia humana em uma matéria jornalística, coisa que a Folha não sabe fazer, por exemplo. Os textos da Folha são meio duros para fazer, mas a gente encontra em outras mídias, ou na televisão, ou no Globo Rural, ou no Globo Repórter, você tem que ter essa abertura, para a beleza do lúdico, inclusive o lúdico da palavra. Por que se você capta o jeito das pessoas se expressarem, fica muito gostoso trabalhar. Você não fica só lá com aquela redação padrão, aquela chatísse, da piramide invertida, do lead primário, toda aquela tralha de tecnica dogmática, tecnica enferrujada. Você não tem oportunidade de apreciar, de sentir, de se divertir inclusive com a palavra do outro, que é muito gostosa de perceber. Então se o entreterimento é um entreterimento dessa natureza, e não uma exploração sensacionalista de se falar, furungando na ferida e tal, eu acho quem deveria estar presente em todas as editorias, a começar pela política, economia, para todas. Enfim, há essa experiência humana é o cotidiano.

Thatiana Rós - A senhora sempre se dividiu entre a vida acadêmica e o jornalismo factual. Quais foram as constribuições que a vida academica trouxeram ao dia a dia como jornalista?

É um casamento mútuo que eu nunca consegui fazer a divisão do prático com o teórico. Sempre tem um alimento múltiplo. Ou seja, quando a gente está produzindo alguma coisa pratica, todo nosso arsenal de estudo está presente. E quando a gente está no arsenal teórico, às necessidades práticas interferem na linha de pesquisa. A linha de pesquisa pede às necessidades que a gente sente para trabalhar, para produzir. E o que eu acho que une as duas coisas é o que já defini neste livro [Entrevista: o diálogo possível] que é a responsabilidade social. Desde a minha decisão de ir ao outro, mudar o rumo, circular pelo mundo. Eu quero estar no mundo! Então este meu laço social com o mundo, esse vínculo de responsabilidade perante este outro que esta a minha frente é o que une a teoria e a prática.

Reprodução

Iara Aurora - A primeira edição do seu livro “Entrevista: o diálogo possível” foi lançada em 1986, 24 anos atrás e muitos probelmas destacados na obra continuam existindo hoje. Houve transformações no método de entrevista e de apuração? Pois, naquela época os repórteres saiam mais a campo e hoje muitas entrevistas são feitas por e-mail.

É, estes problemas persistem porque eles transcendem os problemas ao suporte a a técnica. E a visão de mundo independe de você ter técnicas e tecnologias a sua disposição. Você pode ser dialógico com ou sem técnica agora você pode ter monológico ou com uma maravilhosa tecnologia a sua disposição. Então, talvez seja isso que de essa discussão século XXI. Você me pergunta se as máquinas estão retroagindo aos veículos de comunicação. Eu acho que há esse risco bastante acentuado. Por mais que você use a máquina, por mais que eu use a inteligência artifcial, por mais que eu use a inteligencia natural eu vou ficar atrás da máquina. A racionalidade humana funciona bem se você tem o contato possivel com o mundo. É a partir desse contato que a inteligência humana funciona bem ou é plena, se você passa a deixar de ter contato com o mundo, é a partir desse contato que a inteligência racional funciona. A entrevista digital é útil, perguntas e respostas, quando você esta no mundo das ideias, se estiver no mundo das ideias, tudo bem. Você está ligado conceitualmente, você encena uma resposta conceitual. Agora, se você não está no mundo das idéias, está no mundo vivo, a entrevista digital não tem cheiro, não tem paladar, não tem tato. É a atrofia de três de nossos sentidos de contato, nos exercitamos o olhar vendo o que a gente quer e a audição escutando aquilo que a gente quer. Mas os três importantes que marcam o contato é o paladar, tato e olfato. Por isso que fazer uma reportagem sem esses três elementos, é uma reportagem capenga, ela não tem plenitude de vida, ela não vibra.

Mariana Campos - Ainda no seu livro ‘Entrevista, o diálogo possível’ a senhora classifica a entrevista em dois grupos, uma com um objetivo de espetacularização e outra com o objetivo de compreensão. De que maneira o jornalista deve atuar para alcançar a compreensão do leitor?

Eu acho que hoje eu resumiria em compreensão, mas eu estou cada vez mais anti-classificatória. Eu diria que o fundamental é o hábito compreensivo, tudo o que o que escapa deste abrir-se a compreensão é autoritário. A gente tem que entrar no mundo, na relação com os parceiros da história. Eu já fui armada para uma entrevista, como, por exemplo, uma vez no Estadão, o dono do boteco, que já morreu o Julio Mesquita definiu que seria eu que iria entrevistar o Carlos Lacerda. E eu disse para o meu editor: ‘olha, eu tenho diferença histórica com o Carlos lacerda’. Lá na minha juventude em Porto Alegre, corria no nosso imaginário que ele mandava matar os mendigos para eliminar a pobreza no Rio de Janeiro. Mesmo assim, eu tinha uma algebriza de direita, conservadora, aquela coisa de esquerdismo, típico da juventude. Então, ele exigiu que eu fosse, mas eu falei que não sou a melhor pessoa, que não gosto dele, eu fui armada. Com toda aquela minha bagagem ideológica dos anos 70, da minha juventude, da minha primeira fase profissional. E quando cheguei diante dele, a inteligência dele é brilhante, ele é uma pessoa cativante, eu me rendi, me desarmei, conversei com ele, e produzi um texto desse encontro que rendeu um cartão dele no dia seguinte que mandou para o Julio Mesquita. O Julio Mesquita mandou me chamar, mostrou o bilhete dele, fui borrada de medo do tipo ‘vou ser demitida hoje’, ai ele era muito duro, cheguei na frente dele, ele mandou eu sentar, ele era muito amigo do Carlos Lacerda ai ele disse: Ó, pra você! Ai, o Carlos Lacerda dizia coisas do tipo: a repórter que você mandou que visivelmente não pensa como eu, mas foi muito profissional, um monte de elogios. Então, esse desarmamento que eu fui forçada a ter por causa da personalidade do Carlos Lacerda. Eu aprendi que seria realmente o mais viável e conveniente para isso que eu chamo de responsabilidade com o outro. Então, por mais que eu saiba que o outro é diferente de mim, eu tenho que desarmar das minhas, dos meus pressupostos, da minha ideologia para tentar compreender quem é esse homem. A cobertura das revistas brasileiras denuncia uma visão aprioristica e ideológica para cobrir a guerra do Iraque que não tem nada a ver com o ato de compreensão.

Thatiana Rós - Professora, sabendo que o autoritarismo institucional acentuou a limitação de vozes da comunicação coletiva, muitos jornalistas deixam de cumprir seu dever de informar as várias versões da realidade através da pluralidade de fontes. Existe uma maneira de o jornalista exercer sua ética sem se corromper com essa limitação?

Se ele preserva a sua autoria, se ele se recusa a fazer essa encenação precária, mentirosa, do a favor e contra. Isso, não é exercer a sua autoria profissional, porque o mundo não se resume a favor e contra. Pegar o telefone, pegar uma declaração a favor, outra declaração contra, pronto tá resolvido o problema. Isso é enganar o freguês. A verdade, não é a verdade que você vai trazer aí nessa brincadeira, mas, sim a luta das verdades. A luta das verdades são as muitas das verdades que estão por aí, é claro que agente nunca consegue atingir o ideal que é uma pluralidade plena de divisões, de imersão. Mas, você sempre se angustia e sempre você vai ao máximo possível com aquela abertura de que tem mais, até onde for possível pra fechar a matéria. Uma autoria é substantiva, ela é consistente, quando traz essa polifonia, essa polissemia, por exemplo, a herança maldita do Fernando Henrique, eles pegam e eles trincham o que não é uma herança maldita, mas mostrando através de fatos, de dados e elementos, então a monossemia quer dizer a versão única do autoritarismo ela só é atacada, ela só é higienizada se você faz um esforço de montagem dessa monossemia para uma polifonia e uma monossemia para uma polissemia. Isso que está escrito aí continua sendo o dilema de um trabalho sujo, porco, feito nos joelhos ou trabalho de autoria, um trabalho respeitável, sério, digno de uma autoria.

Ana Claudia Cabanas - Ainda no livro, a senhora fala dos problemas relacionados ao manual de redação que fazem parte das empresas jornalísticas que seguem a caracterização dos trabalhos desde pauta até a publicação. Atualmente qual o perigo que os jornalistas enfrentam em relação a isso?

Todos, mesmo o pior. Agora tem um trabalho de uma jornalista brilhante que esta por ai na praça, que é a Patrícia Patrício ela dirige agora as revistas das FATECs. E o que ela fala é o que realmente você já tem essa impressão de quem começa a trabalhar de que o manual é uma dogmática, uma gramática para o jornalismo que não corresponde à autoria dinâmica criativa que a nossa profissão exige. E vocês vejam como compromisso com a nossa sociedade. Se você vai seguir aquelas regrinhas você se torna um burocrata, tanto faz trabalhar num caixa de banco como no jornalismo, se você segue aquelas regras. São regras que realmente ajudam a disciplinar industrialmente a profissão, mas como agora a profissão é própria industrial, não tem mais sentido, porque você agora tem autoria autônoma, online e tal. Agora, para disciplinar industrialmente as editorias e os manuais servem de baliza, seguidamente se os próprios jornalistas dessas empresas comprariam, por isso que algumas empresas não têm manuais.

Mariana Campos - O grande problema enfrentado, por exemplo, no caderno de artes é de manter o meio termo entre o factual e o atemporal. Como um crítico de cultura pode lidar com isso?

Itálico
Reprodução
É muito interessante você levantar esse aspecto. Morreu agora, há duas semanas, infelizmente, um jornalista que trabalhou comigo, que tinha sido aluno na ECA na década de 60, depois ele foi para o jornalismo econômico, e aí ele veio para arte trabalhar comigo no Estadão, o Mauricio Lelo. O Mauricio Lelo chegou um dia para mim e disse: eu queria te propor o seguinte, os serviços de teatro, cinema, música, rádio, ele fazia um programa de rádio muito interessante que não existia em nenhum outro jornal, que nós produzíssemos uma pequena frase do conteúdo daquela peça, daquele filme, ou daquela exposição de arte plásticas. Eu disse: claro, experimenta, vamos lá! E ele introduziu o que hoje é banal, no Estadão pelo Mauricio Lelo, que criou uma frasesinha para definir um filme, uma peça de teatro, porque era assim muito seco, tal hora, tal lugar, aquela coisa assim sem nada. Vejam o que é a autoria, o serviço seco, passa a ser um serviço de informação a mais, um “plus a mais”, uma informação muito importante. E isso se consagrou e deu origem a um serviço que afinal tem um pouco mais do que um árido serviço. A outra estrutura de pé, era a informação factual, que você está falando. O acompanhamento de tudo o que acontece na arte. E nós tínhamos o princípio, o grupo de fugir do centro do acontecimento, do chamado centrão das artes, das artes estabelecidas e ir para a periferia. A periferia de São Paulo é riquíssima em manifestações. Então, nós também fazíamos o factual com a periferia, não apenas no centrão do Brasil e de São Paulo. Isso era muito importante, porque era a grande realização na reportagem para o repórter de arte. Não simplesmente ele ser um portador, um porta voz dos releases que chegaram a informação, mas era dele ir ao mundo buscar essas informações. E finalmente, o terceiro pé também era muito cultivado, que era o da crítica. Como administrar isso? Eu fiz uma experiência única, não quero aqui me vangloriar, realmente foi única, fui considerada maluca por causa dessa experiência, que era fazer um encontro mensal de críticos e repórteres da editoria para debaterem o confronto entre o repórter e o crítico. O crítico achava que o repórter era um ignorante; e o repórter achava que o critico era um sujeito insuportável. Então, eu reunia uma vez por mês o corpo de crítico e o corpo de repórter para quebrarem o pau; para o crítico dizer: olha você está chamando de peça o que é espetáculo, o que é espetáculo está chamando de peça, você não sabe nada disso. Aí quebravam o pau. Aí o repórter dizia assim: você mandou um texto de crítica que ninguém pode ler, porque tem não sei quantas linhas a mais, e porque as palavras que você usa. Então, era maravilhoso isso, quer dizer administrar o conflito. Mas, era um conflito que nasce alguma coisa. De maneira que os críticos tinham um diálogo muito rico com os repórteres, e o factual não brigava com a crítica; nem a critica com o factual, se harmonizavam. Mas, se a gente tem então uma proposta, uma visão, uma filosofia de trabalho, isso vai indo e vai se realizando na medida enfim, das possibilidades do grupo e da própria empresa e tal. Não é fácil, não é tranqüilo, é conflito constante. Mas, você tem naturalmente que lutar e usar argumentos consistentes. No “cotidiano do dia a dia” as pessoas são fracas as vezes, acho que não querem se incomodar, vão levando de qualquer jeito. Eu não, porque eu tenho na minha carteira profissional 14 pedidos de demissão, que eu pedi demissão. Quando bate no teto dos meus limites éticos e profissionais, eu vou caçar trabalho, vou ter meus filhos para alimentar, minha casa para pagar e tal, mas eu vou embora, não quero saber. Então, eu acho que a gente tem que se manter dentro dessa proposta, da sua visão das coisas e sempre na luta, não tem como escapar, não há trégua. Guerra permanente.

Amanda Sousa - A senhora busca desde 1970 o fazer jornalístico e apesar das dificuldades que encontrou pelo caminho nunca desistiu. Hoje muitos dos jovens jornalistas que estão iniciando essa profissão, eles criam a expectativa em relação à profissão e muitos acabam se decepcionItálicoando. O que a senhora diria para os que estão começando, para eles não desistirem e para que eles tenham força para enfrentar o naufrágio e assim alcançarem o Diálogo Possível?

Primeiro se manter como repórter, não ceder a sedução da carreira, se logo vinga para a burocrática, para você ganhar dinheiro, para você ter poder, tal, e sobe na carreira e deixa de ser repórter. O abandono da reportagem, o hábito de ser repórter mata o vigor do jornalismo. Segundo, eu acho que é essa questão do compromisso, manter o compromisso social, que é coerente com a sua decisão de jovem. É uma decisão ética, decide porque gosta, tem um gosto e um compromisso de estar ligado ao seu tempo, na atualidade, a parceria histórica, a parceria com o outro. Se você mantém esse compromisso e você permanece no seu estado de repórter você termina se alimentando na rua com os outros, da chamada comunhão da luta. Eu acho isso uma paixão, apesar de tudo, estamos aí.

Da esquerda para a direita: Ana Claudia, Thatiana, Mariana,
Cremilda Medina, Amanda e Iara

9 comentários:

Anônimo disse...

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- Rob

Jorge Scarpin disse...

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Um grande abraço,


Jorge Eduardo Scarpin

Pedro Zambarda disse...

Thá, a entrevista tá interessante, mas tá um material bruto demais. Se você quiser editar mais, ficará interessante. Mas mantive como está, de qualquer maneira :)

Anônimo disse...

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Olá tudo bem ?
Meu nome é Marcela Mannocci, estudo na Universidade Mackenzie e estou fazendo uma matéria/trabalho sobre a Cremilda Medina. Já procurei um contato dela mas não econtrei. Vocês poderiam me passar um e-mail ou telefone dela ?
meu e-mail é mamannocci@yahoo.com.br

Desde já agradeço.
Att.,
Marcela Mannocci

Jama Libya disse...

O PROTESTO 1955 / 2O15. 60 ANOS do Poeta CARLOS DE ASSUMPÇÃO o mestre que completa 88 anos de muitos parabéns num sábado de muita luz 23 de maio glorioso que realça valoriza nossa luta a historia sempre viva do poeta guerreiro Cassump de Ébano como disse o herói poeta angolano Agostinho Neto.
CARLOS DE ASSUMPÇÃO seu nome esta realçado entre os maiores poetas do mundo e assim no Brasil nas principais obras da cultura afro brasileiro"A Mão Afro-Brasileira" Emanoel Araújo. “Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana” Nei Lopes. “Enciclopédia Quem é quem na negritude brasileira” Eduardo de Oliveira.Enciclopédia“África Mãe dos Gênios Negros Afros Brasileiros” Jorge J. Oliveira entre outras obras. Os Dizeres dos grandes mestres sobre Carlos Assumpção diz Abdias do Nascimento é o meu poeta, Solano Trindade Protesto é minha alma, Geraldo Filme me arrepia, Clovis Moura a lira de nossas revoltas, Barbosa sinto cada letra, Prof. Eduardo Oliveira minha inspiração, Luís Carlos da Vilaa alma da Kizomba,Tião Carreiro uma alegria triste, Milton Santos Diz tudo, Grande Otelo é o Poema Hino Nacional da luta da Consciência e Resistencia Negra Afro-brasileira.
CARLOS DE ASSUMPÇÃO – O maior poeta da militância negra da historia do Brasil autor do poema o PROTESTO Hino Nacional da luta da Consciência eResistencia Negra Afro-brasileira. O poetaAssumpção é o maior ícone das lideranças e dos movimentos negrose afros brasileiras e uma das maiores referencias do mundo dos ativistas e humanistasem celebração completa 88 anos de vida. CARLOS DE ASSUMPÇÃO nasceu 23 de maio de 1927 em Tiete - SP. Por graças e as benções de Olorum 88 anos de vida com sua família, amigos e nós da ORGANIZAÇÃO NEGRA NACIONAL QUILOMBO O. N. N. Q. FUNDADO 20/11/1970 (E diversas entidades e admiradores parabenizam o aniversario de 88 anos do mestre poeta negro Carlos Assumpção) temos a honra orgulho e satisfação de ligar para a histórica pessoa desejando felicidades, saúde e agradecer a Carlos de Assunpção pela sua obra gigante, em especial o poema escrito em 1955 o Protesto que para muitos é o maior e o mais significante poema dos afros brasileiros o Hino Nacional dos negros. “O Protesto” é o poema mais emblemático dos Afros Brasileiros e uns das América Negra, a escravidão em sua dor e as cicatrizes contemporâneas da inconsciência pragmática da alta sociedade permanente perversa no Poema “O Protesto” foi lançado 1958, na alegria do Brasil campeão de futebol, mas havia impropriedades e povo brasileiro era mal condicionado e hoje na Copa Mundial de Futebol no Brasil 2014 o poema “O Protesto” de Carlos de Assunpção está mais vivo com o povo na revolução para (Queda da Bas. Brasil.tilha) as manifestações reivindicatórias por justiça social econômica do povo brasileiro que desperta na reflexão do vivo protesto.
O mestre Milton Santos dizia os versos do Protesto e o discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington. «I have a Dream» (Eu tenho um sonho) foram os dois maiores clamores pela liberdade, direitos, paz e justiça dos afros americanos. São centenas de jornalistas, críticos e intelectuais do Brasil e de todo mundo que elogia a (O Protesto) (Manifestação que é negra essência poderosa na transformação dos ideais do povo) obra enaltece com eloquência o divisor de águas inquestionável do racismo e cordialidade vigente do Brasil Mas a ditadura e o monopólio da mídia e manipulação das elites que dominam o Brasil censuram o poema Protesto de Carlos de Assunpção que é nosso protesto histórico e renasce e manifesta e congregam os negros e todos os oprimidos, injustiçados desta nação que faz a Copa do Mundo gastando bilhões para uma ilusão de um mês que poderá ser triste ou alegre para o povo brasileiro este mesmo que às vezes não tem ou economiza centavos para as necessidades básicas e até para sua sobrevivência e dos seus. No Brasil
.

P
Organização Negra Nacional Quilombo ONNQ 20/11/1970 –
quilombonnq@bol.com.br

Jama Libya disse...


Poema. Protesto de Carlos de Assunpção

Mesmo que voltem as costas
Às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei de gritar

Senhores
Eu fui enviado ao mundo
Para protestar
Mentiras ouropéis nada
Nada me fará calar

Senhores
Atrás do muro da noite
Sem que ninguém o perceba
Muitos dos meus ancestrais
Já mortos há muito tempo
Reúnem-se em minha casa
E nos pomos a conversar
Sobre coisas amargas
Sobre grilhões e correntes
Que no passado eram visíveis
Sobre grilhões e correntes
Que no presente são invisíveis
Invisíveis mas existentes
Nos braços no pensamento
Nos passos nos sonhos na vida
De cada um dos que vivem
Juntos comigo enjeitados da Pátria

Senhores
O sangue dos meus avós
Que corre nas minhas veias
São gritos de rebeldia

Um dia talvez alguém perguntará
Comovido ante meu sofrimento
Quem é que esta gritando
Quem é que lamenta assim
Quem é

E eu responderei
Sou eu irmão
Irmão tu me desconheces
Sou eu aquele que se tornara
Vitima dos homens
Sou eu aquele que sendo homem
Foi vendido pelos homens
Em leilões em praça pública
Que foi vendido ou trocado
Como instrumento qualquer
Sou eu aquele que plantara
Os canaviais e cafezais
E os regou com suor e sangue
Aquele que sustentou
Sobre os ombros negros e fortes
O progresso do País
O que sofrera mil torturas
O que chorara inutilmente
O que dera tudo o que tinha
E hoje em dia não tem nada
Mas hoje grito não é
Pelo que já se passou
Que se passou é passado
Meu coração já perdoou
Hoje grito meu irmão
É porque depois de tudo
A justiça não chegou

Sou eu quem grita sou eu
O enganado no passado
Preterido no presente
Sou eu quem grita sou eu
Sou eu meu irmão aquele
Que viveu na prisão
Que trabalhou na prisão
Que sofreu na prisão
Para que fosse construído
O alicerce da nação
O alicerce da nação
Tem as pedras dos meus braços
Tem a cal das minhas lágrima
Por isso a nação é triste
É muito grande mas triste
É entre tanta gente triste
Irmão sou eu o mais triste

A minha história é contada
Com tintas de amargura
Um dia sob ovações e rosas de alegria
Jogaram-me de repente
Da prisão em que me achava
Para uma prisão mais ampla
Foi um cavalo de Tróia
A liberdade que me deram
Havia serpentes futuras
Sob o manto do entusiasmo
Um dia jogaram-me de repente
Como bagaços de cana
Como palhas de café
Como coisa imprestável
Que não servia mais pra nada
Um dia jogaram-me de repente
Nas sarjetas da rua do desamparo
Sob ovações e rosas de alegria

Sempre sonhara com a liberdade
Mas a liberdade que me deram
Foi mais ilusão que liberdade

Irmão sou eu quem grita
Eu tenho fortes razões
Irmão sou eu quem grita
Tenho mais necessidade
De gritar que de respirar
Mas irmão fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver
No porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minh'alma já está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar.
Organização Negra Nacional Quilombo ONNQ 20/11/1970 –
quilombonnq@bol.com.br

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