quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Senna - O maior ídolo da história do Brasil ganha uma faceta humana

Uma vez, conversando com um amigo, defendi que “Voo 93”, o filme de Paul Greengras que contava a história do único avião que não atingiu seu alvo nos ataques de 2001 era quase um filme de terror. Durante todo o filme nos identificamos e passamos a torcer por aqueles personagens, o que torna toda a experiência angustiante em face do fim da história. E agora esta estrutura pesada e até certo ponto aterradora se repete de forma infinitamente mais intensa em “Senna”, o documentário sobre a vida do maior ídolo do esporte no Brasil, dirigido pelo inglês Asif Kapadialo.

Existem duas formas de se analisar “Senna”: a fria análise cinematográfica e a passional análise da pessoa de Ayrton. E é quase impossível fazer da primeira maneira, seja o espectador um simples brasileiro que não liga muito para Fórmula 1, seja um fã incondicional de Ayrton ou seja um apaixonado pelo esporte. Eu sou o último. Nasci em 1988, justamente quando Senna foi campeão pela primeira vez, e comecei a acompanhar Fórmula 1 em 93. Lembro de corridas de Ayrton, mas sua única vitória cravada em minha memória foi a do GP da Austrália no mesmo ano, sua última. E quase como todos os brasileiro nascidos até 88, lembro do que fazia quando Senna morreu. Ou seja, embora não tenha crescido vendo suas corridas, cresci sob sua aura de ídolo eterno, que ascendeu a níveis inimagináveis para qualquer outro esportista, e Ayrton então se tornou quase um semi-deus brasileiro. Nosso único.

Kapadialo sabe a força do personagem que tem em suas mãos. Todo o filme é balanceado de forma que não crie uma aura sobre-humana em Ayrton, e até certo ponto consegue êxito. Se em algum momento isto escapa de suas mãos é devido à força de Ayrton, e assim se cria um verdadeiro paradoxo. Dependendo do ponto de vista do espectador, a maior qualidade do filme se torna seu maior defeito: Em nenhum momento existe algum julgamento sobre a personalidade de Senna. O filme tende sim as mostrar suas qualidades sobre seus defeitos, e isto incomodará aqueles poucos que possuem antipatia com o piloto. Mas para os mais atentos, todas as facetas da personalidade de Ayrton estão expostas como peças de um quebra-cabeças. Se conseguir juntá-las, o mistério que era a pessoa Ayrton Senna se tornará um pouco mais claro.

E a dentre estas peças, três se destacam: A paixão de Ayrton pelo esporte, sua fé em Deus e sua obsessão por vitórias. Alguns diriam que são os três ingredientes principais para se formar um gênio, outros diriam que apenas a primeira e a última são necessárias. O que importa é que elas funcionaram em Senna. E desde a primeira cena do documentário vemos isso. Um jovem Ayrton, sem qualquer ostentação, em uma fila do Campeonato Europeu de Kart. “Aquilo sim era correr. Não tinha política nem nada. Só tinha que sentar no carro e correr” define Senna em uma entrevista. E sem narração, apenas com imagens de transmissões e entrevistas da época, além do áudio de entrevistas feitas por Asif, o documentário conta cada ano da história de Senna na Fórmula 1. Desde sua ascensão meteórica, passando pelos seus três títulos mundiais e culminando em seu acidente fatal, em 1994.

A relação de Senna com Alain Prost ocupa quase metade do filme. E obviamente, em um documentário chamado “Senna”, era de se esperar que Prost fosse tratado como um vilão. De fato ele não era um santo, especialmente quando aliado a Jean-Maria Balestre, então presidente da FIA. Mas o filme ganha alguns pontos ao mostrar que Senna, embora fosse um pouco mais leal que o francês, não hesitou em jogar o carro para cima do adversário e tirar ambos da corrida, se tornando bicampeão. Se para os fãs mais entusiasmados a fala de Ron Dennis sobre o conflito interno de Ayrton por ter feito o que fez apenas ressalta sua ética, o que vemos é uma pessoa que não via a derrota como uma opção. “A vitória é como uma droga. Depois que você experimenta a primeira vez, não quer mais parar” chegou a afirmar Senna logo após vencer pela primeira vez.

E esta obsessão por vencer, está paixão por correr, se torna o principal motivo da parte final do documentário se tornar quase insuportavelmente tensa. Construindo o trágico desfecho com maestria, sem ser apelativo em qualquer momento e ressaltando sempre a fatalidade que foi o acidente, Asif mostra um Senna que se sentia completo como esportista, mas vazio como pessoa. E que diante do trágico fim de semana em Ímola, com o grave acidente de Barrichelo na sexta e a morte de Roland Ratzenberger no sábado questionou pela primeira vez se tudo aquilo valia a pena. E quem define de forma magistral este momento é seu velho amigo, o então médico da Fórmula 1, Sid Watkins. “Perguntei a Ayrton ‘Você é tricampeão mundial e o homem mais rápido do mundo. Por que você não para, eu não paro e nós dois vamos pescar?’ Ele me respondeu ‘Não posso parar.’” Ele não podia parar... e isso, mais que qualquer exagero ufanista ou adjetivo sobre-humano é o que melhor define Ayrton Senna. Ele não podia parar.

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