quarta-feira, 25 de junho de 2008

Diário de uma arubaito - A reta final e a conclusão disso tudo

Na última semana de trabalho, passei a evitar fazer muitas horas de zangyô a fim de que nas semanas seguintes, reservadas para passear e conhecer de fato o Japão, o cansaço não me impedisse de seguir meus propósitos. Mesmo durante os dois meses e meio trabalhados na ASTI quase sem recusar hora extra e um dia de falta apenas, no último dia de trabalho o chefe revelou a filosofia que reina naquele ambiente. A dor-de-garganta contraída uns dias antes e a febre alta durante o expediente não foram motivos suficientes para que ele me liberasse às 17 h, horário até o qual era obrigada a trabalhar.

Nesse dia, tive de trabalhar com a jaqueta da fábrica sob o macacão (o que num dia normal seria extremamente quente) devido ao frio que provinha da febre. Nos kyukeis (intervalos) de doze minutos, deitava-me no chão, no mesmo local onde fazia o serviço, para cochilar encostada na máquina por uns míseros cinco minutos. Apesar de todos os sintomas da dor-de-garganta, não havia como parar a produção e, naquele momento, percebi como o ser humano consegue tirar forças que até então ele desconhece para realizar as exigências que lhes são impostas. Somente depois de pedir assistência ao tantosha (funcionário da empreiteira) tive a permissão para sair de lá. O chefe alegara inicialmente que dor-de-garganta não era motivo suficiente para alguém sair do trabalho às 17h e que, naquele dia, eu deveria fazer no mínimo mais três horas extras. Vindo de alguém que proibira uma das funcionárias de sair da fábrica para procurar um médico quando ela sofrera uma hemorragia, não havia por que me espantar. Ao menos, durante os dias em que não me senti bem, a fábrica ofereceu-me medicamentos bons para me tratar, afinal, eles não queriam era que eu parasse de trabalhar.

Acabou! Não acredito!

Ao chegar ao apatto, tive uma sensação única e inexplicável. Durante mais de dois meses enfurnada numa fábrica branca e cinza, a idéia de que eu não precisaria nunca mais retornar para lá parecia inacreditável. Aquelas pessoas que conhecera, muito diferentes de mim, provavelmente eu jamais veria novamente. O fato de ter me despedido de todas com um rápido abraço em menos de cinco minutos tornava o momento um tanto quanto triste. No entanto, não havia muitos motivos para me concentrar nisso, pois logo começariam minhas duas semanas de passeio mais do que merecidas. Durante esse período, viajei de shinkansen (o famoso trem-bala) utilizando o Rail Pass, um tipo de passagem que permite andar de “shinkan” por uma semana e quantas vezes quiser. As linhas a que se tem direito são da empresa Japan Railways (JR), que vende a passagem somente fora do Japão e apenas para turistas. Teoricamente, como meu visto era de trabalho e tinha duração de três anos, eu não tinha direito ao uso, mas na estação de Hamamatsu isso nem foi verificado pela funcionária da empresa.

Nesse período, tive a oportunidade de conhecer alguns pontos turísticos das cidades de Nara (Totaiji, o Buda Gigante), Kyoto (Kinkaku-ji, o Templo Dourado, e o Castelo de Nijo), Hiroshima (o Museu da Paz), Tokyo (os bairros de Ginza, Akihabara e Asakusa), além da ilha de Miyajima e a Universal Studios de Osaka. No decorrer dos posts desse blog, contarei as histórias desses lugares e a importância dos mesmos na formação cultural desse país, rico em tradições e inovações tecnológicas.

A lição

Passar pelas dificuldades por que passei - frio, um pouco de fome, falta de tempo e dinheiro, saudade da família e dos amigos, enfim, tudo o que vem junto com o fato de viver sozinha num país desconhecido – está longe de ser uma experiência divertida. Saber encarar esses momentos como um período de amadurecimento, principalmente para alguém que até então nunca trabalhara ou saíra do próprio país, foi imprescindível.

É muito fácil criticar o Brasil quando se está aqui, vivendo diariamente os problemas que assolam toda uma sociedade cujos problemas começam na infância e são levados adiante. Afinal, o “jeitinho brasileiro” dá conta de amenizar tudo isso. Também é fácil proferir frases de amor ao “meu país” e de saudade do Brasil quando nos deparamos com uma realidade tão fria, diversa e exigente no que diz respeito aos valores humanos e às relações pessoais. Quando se é a base da escola social de um país e tudo o que há de ruim num lugar passa a não existir em outro, esquece-se daqueles problemas que ficaram lá longe. Quando retornamos, uma sensação de desacerto fica impregnada; é inevitável fazer comparações. Inútil? Talvez. Difícil mesmo é agüentar gritos de chefe, a saudade de quem faz a diferença em nossas vidas, horas e mais horas trabalhando de pé feito um robô. Por quanto tempo? Um ano, dois, três...Imaginando o momento de embarque do avião, lembrando da filha que ficou em casa e precisa do dinheiro para uma operação no estômago. Difícil é também avaliar tudo com suas devidas medidas. Por que é necessário escolher um dos extremos? Se as comparações entre países de culturas diferentes podem soar desarmônicas ao se levar em conta a história e os princípios que regem a vida de cada indivíduo proveniente de um deles, por que não aprender com essas diferenças?

Fica aqui minha proposta, aprender com a cultura japonesa o que há de mais belo e profundo no ser humano em sua extensão, nessa particular visão da vida, que aborda os valores e os princípios, a beleza e o sentido. Se há algo que absorvi com a experiência de arubaito no Japão foi o kenson, uma das virtudes do Bushido, o código de conduta dos samurais. Kenson é a humildade para aprender com as lições da vida, para ver que há sempre algo além.
Deixo minha mensagem.

Foto 1: Shinkansen. Os trens-bala que chegam à velocidade de 300km/h. Extremamente confortáveis e caros também.
(imagem extraída da internet)

foto 2: Outlets da Nike, Adidas, Puma vendem são encontrados em várias cidades. Preços atraentes fazem a festa de turistas.

foto 3: Sakura, a flor de cerejeira símbolo do Japão.
(imagem extraída da internet)

12 comentários:

Gabriel Carneiro disse...

Putz, vou ter que dar pitacos agora.

Lari, esse final é meio, como posso dizer, clichê, não?



e eu sie que não fui a Londres paar trabalhar, só estudar, mas fui, continuei falando mal do Brasil, e sofri muito por deixar a Inglaterra.

Jonney disse...

PARABÉNS!
primeiro por ter suportado esses meses de trabalho no japão, não é qualquer pessoa que consegue!
e parabéns também pela maneira como esta escrevendo...
essa série de reportagens só veio para confirmar a grande Mulher e "jornalista" que vc é...
continue assim, pois nao tenho duvidas do seu futuro de sucessos!
abraço

Thiago Dias disse...

Falar que o Brasil é uma bosta eh mto facil. Falar que própria vida eh uma bosta também eh mto facil. Difcil eh fazer o que vc fez Lara. Acredito que estamos mto acostumados a ver a vida de nosso patamar social, e ver ela de outra "altura", como vc fez, é algo único que deve ser valorizado.
O "Diário" foi excelente Lara, pena que acabou

Pedro Zambarda disse...

Eu, particularmente, adorei o final.

Clichê seria falar mal do Brasil ou do Japão, só pra variar.

Eric disse...

Larissa san, foi espetacular!!!
Como sempre, escreveu de forma coesa, com uma fluência e gramática impecáveis!!!
Tenho certeza absoluta e plena confiança em seu futuro promissor!

Quanto ao seu desabafo final, achei ótimo também, pois foi um excelente "tempero" para terminar o seu Diário.
No mais, concordo em gênero, grau e número com o Pedro Zambarda! Porque, se parar para pensar, quase tudo na vida é "clichê"...o que será que "ainda" não foi dito? não é?

Mais uma vez...PARABÉNS!!! ^__^

abç

Gabriel Carneiro disse...

Clichê por ser edificante. Coisas edificantes tendem a ser clichês.

E clichê não é o que foi dito, é o que foi dito (ou a maneira como foi dito) à exaustão.

Pedro Zambarda disse...

Foi justamente o que ela NÃO fez, Gabriel.

Quero dizer, poucos textos encerram com algum ensinamento do Bushido REALMENTE absorvido.

Gabriel Carneiro disse...

"Deixo minha mensagem."

Mesmo?

Lições de vida = edificante.

Não é ruim, tem gente que adore clichês; eu adoro clichês bem empregados.

Mônica Alves disse...

Larissa, li todas as reportagens, mas resolvi comentar só no final mesmo. Em primeiro lugar, parabéns, pois você escreve muuuuuito bem.
Mas parabéns principalmente por toda a experiência e pelo modo de tê-la contado. Acho que todos já tivemos, pelo menos alguma vez na vida, a vontade de morar fora por um tempo, mas poucos sabem de todas as dificuldades nisso, principalmente em um país como o Japão.
O final só mostrou a excelente conclusão dessa viagem.
Parabéns, novament.
;*

Thiago Dias disse...

Gabriel, pelos deuses vai, isso aqui não eh um filme. Não tem nada de clichê bem ou mal empregado. É a viagem da menina e ela termina do jeito que quiser. Aposto que foi edificante sim, e só de conviver com a Lara todos os dias percebe-se que a viagem mudou mto ela, pra melhor. O final não poderia ter sido mehor e mais sincero

Pedro Zambarda disse...

Bushido é mais que edificante.

Digo, é um repertório cultural, não é apenas uma experiência.

Finais diferentes por serem diferentes = coisas vazias.

Malz ae.

Thiago Dias disse...

Agora eu vou ser clichê: Se todo mundo soubesse e compreendesse o minimo do Bushido, as coisas seriam melhores e teriamos menos pessoas reclamando atoa do próprio lugar onde vive

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