quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sopa de Letras


O homem ao lado chama-se David Jon Gilmour. Tem 62 anos, muito bem expressos em sua barriga saliente e nas curtas madeixas que insistem em cair. No entanto, suas apresentações conservam o brilho dos anos 1970 - a "pegada" repleta de feeling que ele tem por sua guitarra modelo Fender, tipo Stratocaster. Quando era membro do Pink Floyd, essa expressividade, que chega a transmitir poesia por notas bem pausadas, era também adornada por seus longos cabelos castanhos claros, ora adornados também por uma barba por fazer e uma voz que não tinha nada da característica rouca atual.

Essa é uma das magias do rock´n´roll: conservar "dinossauros" como este. Gilmour nem é o mais velho, embora sua mudança física seja clara. Na foto ao lado esquerdo, ele parece um típico "tiozão", que, de forma totalmente descolada, utiliza seus truques de guitarra pra conquistar a "garotada".

Ok, sabemos que a coisa não é bem assim. E na verdade, ela também é assim. Música é algo que não se explica apenas por uma sonora, mas por performances. Neste ano, compareci em quatro shows - Sonata Arctica, Dream Theater, Ozzy Osbourne e Queensrÿche, todas bandas de heavy metal, meu sub-gênero favorito dentro do rock. E, admito que as apresentações de hoje não são como antes. Não há muitos junkies. Quando um músico erra demais, ele não é ovacionado pelo público, que passa a desprezar o ato. Alguns dizem que o povo perdeu o feeling, que eu atribuí ao guitarrista Gilmour. Não valorizam mais o mandamento de sexo, drogas e rock´n´roll, por conta do politicamente correto.

Mas, ok, se a música mudou tanto, se os parâmetros são outros, se as produções agora visam apenas lucro e pirotecnia no palco, significa que eu não posso sentir o "toque" do teclado de Adan Wakemen, que simulou um órgão de igreja, em Mr.Crowley? Caso não seja realmente a mesma coisa, por que eu realmente me senti nos céus quando Ozzy Osbourne anunciou a música, mesmo com idade similar a de Gilmour e pança igualmente saliente?

Sim, eu viajei em meu próprio entorpecimento. E me decepcionei com críticas negativas ao show do "Ozzman", não por ser o Ozzy, mas pelo "enquadramento" que sugerem aos apreciadores de música hoje - somos consumidores, não participantes de um espetáculo sem precedentes. Na revista Cover Guitarra, editada pelo jornalista Regis Tadeu, nº161, do mês passado, ele ataca o show de Ozzy Osbourne, acusando o vocalista de estar velho e fazendo playback - técnica de cantar sob o som de uma gravação, evitando erros. "Talvez seja a idade, mas não consigo mais me entusiasmar com shows em que o cara sobre no palco apenas com o nome, sem mostrar realmente uma apresentação de valor".

Idade? Acho que é realmente sua idade, senhor Tadeu. Ozzy também nunca escondeu que não se desvencilha da figura que formou. Concordo com a crítica do editorialista na seção "Entrelinhas" sobre a qualidade dos solos do guitarrista Zakk Wylde, também integrante da banda de Ozzy Osbourne, porque ele estava bêbado e "sujava" o som de seu instrumento. No entanto, acho o cúmulo acusar alguém de incompetência vocal meramente por não ter apreciado o show.

Os "tiozãos" - novamente me refiro a eles, mas não aos astros, e sim ao público - que me perdoem, mas parem de resmungar ou se questionar por que uma performance é tão distinta de outra, se questionar por que os anos 60 ou 70 não voltam. Essa discussão sacal se estende e retira o brilho que todo o rock deveria ter: levar seus ouvintes ao patamar superior com sua energia e competência. A velhice de Osbourne é um fenômeno comum. A ousadia dele em se apresentar mesmo após tantos anos de auto-flagelação nas drogas deveria ser um marco. Ele não deve ter vergonha de todos seus anos, mas sim um fiapo de vontade para continuar fazendo o que faz e estimulando jovens como estimula.

Por isso eu permaneço me embalando em notas que ressoam de suas guitarras, baixos e baterias. Por isso eu recebo e transformo as letras que saltam de suas bocas. O rock e a guitarra elétrica - do blues, passando pelo jazz até o heavy metal - são portais para interpretações, são contatos puros com o que há de mais cru e claro em minhas expressões. Nenhum crítico velho e rabujento pode tirar isso de mim, reduzindo o público de hoje a uma visão esterotipada, vazia e superficial.

Felizes são aqueles que encontram genialidade em tudo, nos velhos astros e novos. Tudo com critério, claro, mas com uma forte dose de humildade e sobriedade.

Pedro Zambarda assistiu e cobriu os shows das bandas Sonata Arctica, Dream Theater, Ozzy Osbourne e Queenrÿche, usando esse espaço para comentar as críticas desses shows. Nesta sexta-feira, dia 6, ele vai assistir o show da banda de thrash metal Megadeth.


Sopa de Letrinhas são crônicas publicadas às quintas-feiras.

Falam de comunicação, de protesto e contra-protesto.

Um comentário:

Thiago Dias disse...

Muito boa a crônica. Qnto ao imbecil que fez a crítica do show do Ozzy. Sim, pois eu li a crítica e só um imbecil escreveria uma coisa daquela, tenho apenas a dizer que a última opinião que levo em conta ao comprar um album é da critica especializada. Ngm entende menos de musica que eles

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