quinta-feira, 19 de junho de 2008

Um jornalista nos porões do preconceito

Um jornalista alemão trasveste-se de turco, adotando o pseudônimo Ali Sinirlioglu. Passa dois anos vivendo como tal, enfrenta o tratamento preconceituoso e precárias condições de trabalho destinadas aos imigrantes na Alemanha. Essa a história de Cabeça de Turco, livro reportagem de Günter Wallraff.
O jornalista, buscando ter uma experiência o mais verdadeira possível das condições que os estrangeiros enfrentavam na sociedade alemã, colocou-se em situações que lhe rederam denúncias sobre toda sorte de discriminação sofrida por eles.
A maior parte do livro é dedicada ao relato das situações de trabalho que encontrou e muitas vezes enfrentou. Trabalhou em uma fazenda; como tocador realejo nas ruas; no McDonald’s; em diversas fábricas através da empreiteira Adler; como cobaia de industrias farmacêuticas; como motorista; chegou a cogitar a hipótese de trabalhar na usina nuclear Würgassen; o jornalista sujeitou-se à grande parte dos trabalhos enfrentados pelos imigrantes. Desistiu do trabalho na usina por medo das conseqüências que a radiação excessiva e ilegal traria a sua saúde já debilitada devido aos trabalhos anteriores. Em um dos empregos que trabalhou por meio da Adler, na empresa de aço Thyssen, Wallraff ingeriu quantidades absurdas de pó com os mais variados elementos químicos nocivos à saúde humana. E quando cobaia de drogas farmacêuticas, sofreu com os efeitos colaterais da drogas, problemas de visão, vertigem, dores de cabeça, distúrbios de percepção. Além de sua história, Wallraff também relata a história dos verdadeiros imigrantes e as humilhações que sofrem.
Ao longo do livro também há textos com informações adicionais – matérias ou relatórios das empresas – que apesar de interessantes ilustrações, por não serem bem dispostos, interrompem o ritmo da leitura em trechos intrigantes do livro.
Um outro caso de discriminação enfrentado pelo jornalista, na pele do imigrante turco Ali, foi o religioso. Apresentando-se em diversas igrejas e outras instituições, alegando querer converter-se do islamismo ao catolicismo ou a religião em questão, encontrou sérias e até intransponíveis barreiras. Nas igrejas católicas, aonde foi pedindo melancólica história de como seria deportado se não fosse logo batizado para poder casar-se com sua namorada alemã católica. Somente encontrou um padre que simpatizasse com sua situação em uma igrejinha na Polônia, o clérigo concordou em batizá-lo sem muito tempo de espera.
Por fim, Wallraff – usando uma peruca de cabelos escuros, lentes de contato castanhas e um alemão “tosco e canhestro” – afundou-se até seus limites pessoais nos “porões da sociedade alemã” para denunciar de forma mais viva possível a situação deprimente enfrentados por imigrantes de minorias étnicas na Alemanha dos anos 1980. Seus relatos muito bem descritos iluminam um canto escuro da sociedade não só alemã, européia, mas também humana.

Um comentário:

Victor disse...

Mais revoltante que expor uma situação trágica da sociedade, é imaginar que mesmo após o esforço sério e objetivo de um jornalista (no meio de tanto sensacionalismo), nossa posição continue passiva diante de tanta barbárie. Parece que as pessoas estão anestesiadas com tanta desgraça. A "mera" apresentação de realidades como essa já não é suficiente para mobilizar a sociedade, que em sua maioria prefere permanecer míope a tais eventos. Não falta a vontade de extingüir o preconceito e a discrimiação. Falta a iniciativa e a capacidade de organização para combater esses atos ilícitos pelos meios cabíveis.

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