terça-feira, 3 de junho de 2008

Diário de uma Arubaito - Parte 4 - O oyasumi

Tivemos dez dias para fazermos o que bem quiséssemos com o pouco dinheiro em mãos, afinal, o fechamento de todo mês se dava no dia 15 e meu primeiro salário equivaleu a somente dois dias de trabalho. Esse dinheiro, somado ao que eu havia levado, deveria ser suficiente para passear e fazer as compras de mercado até o fim de janeiro.

Em quase todos os dias passeamos em Hamamatsu, a maior cidade da província e com a maior concentração de brasileiros do Japão - cerca de 20 mil dentre mais de 800 mil habitantes. Apenas uma ponte rosa, do rio Tenryugawa, quase ao lado de meu apartamento separava Iwata de Hamamatsu; até chegar ao centro da cidade era mais fácil pegar um ônibus, apesar da praticidade e eficiência dos trens de lá. Os ônibus japoneses apresentam diferenças gigantescas com os do Brasil. Além de silenciosos, todos têm piso rebaixado, cadeiras almofadadas, ar quente e não possuem catracas. Os motoristas usam um uniforme verde ou azul escuro incluindo chapéu, falam no microfone e agradecem aos passageiros quando esses descem do veículo. Em muitos, entra-se pela porta de trás, onde há uma máquina que solta uma folhinha de papel com o número do ponto em que o passageiro entrou e só é preciso pagar na saída, pela frente, o preço referente à distância que foi percorrida. Para isso, cada um deve acompanhar a mudança de preços no painel digital localizado no canto esquerdo superior próximo ao motorista. Também não há cobrador, deve-se colocar o ticket e o dinheiro exatamente contado numa máquina que confere digitalmente o preço a ser cobrado e pago pela pessoa; caso ela não tenha troco, é necessário trocar a nota (apenas de mil yen) pela mesma quantidade em moedas de menor valor antes de chegar ao ponto de destino, para que não se formem filas. Como todos os automóveis do Japão, os ônibus também andam em velocidade baixa, cerca de 40 ou 50 km/h, e são pontuais, salvo raras exceções. Quando pára no farol, o motorista desliga o motor por questão de economia e começa-se a tocar uma música de fundo. Um rápido aviso aparece aos passageiros num outro painel digital e, durante o percurso, a voz de uma mulher pede aos passageiros que não se atenda o celular dentro do veículo; em alguns ônibus, inclusive, o aviso é dado em português, o que indica a grande freqüência de brasileiros que mantém a prática comum no Brasil.

A presença de brasileiros no centro de Hamamatsu é marcante. Apesar dos traços nipônicos dos descendentes nikkeys, era muito fácil distingui-los dos japoneses nascidos naquele país. Isso se devia principalmente pelo modo de vestir e de andar. Enquanto os colegiais são obrigados a usar uniformes escuros e não têm permissão para tingir o cabelo ou qualquer tipo de extravagância, os jovens mais velhos abusam das tinturas e da diversidade de roupas coloridas. São raras as japonesas que não têm o cabelo tingido e grande parte delas evita o liso escorregadio, admirado aqui no Brasil. O que surpreende os estrangeiros que chegam ao país é a naturalidade com que elas usam saias em pleno inverno, combinando com as botas de cano alto. As japonesas gostam de mostrar as pernas brancas, ou até mesmo roxas de frio, enquanto no verão usam somente calças para não queimá-las de sol. Também espanta a maneira de andar, já que as pernas são extremamente tortas e os pés voltados para dentro. Já os homens têm o costume de fazer as sobrancelhas, deixando-as finas e dando a eles um ar afeminado.

Durante os dias de yasumi, conheci as cavernas de Ryugashido, também conhecida como “caverna do dragão”, as dunas de Nakatajima e o Castelo de Hamamatsu, todos pontos turísticos dessa cidade.Experimentei a colheita de morangos em Fukuroi, cidade que abriga o Shizuoka Stadium Ecopa, onde foi realizado o jogo entre Brasil e Inglaterra na Copa do Mundo de Futebol de 2002. A empreiteira também havia se comprometido a levar o baitos interessados ao Parque de Nagashima, na província de Aichi.

O shogatsu (reveillon) foi passado em Tenryuu, numa casa em meio às montanhas. Diferentemente das grandes festas que são feitas no Brasil, os japoneses têm o costume de dormir e acordar cedo no dia seguinte para ir aos templos rezar. Enquanto estava lá, ouvi dizer que dava sorte ver o primeiro raio de sol do ano, e assim o fiz. Neste dia, vi a neve pela primeira vez, apesar de muito fraca. A região em que morava não era muito fria se comparada algumas outras regiões.

foto 1: Ponte rosa - acesso à Hamamatsu

foto 2: Ponte rosa. Ao fundo, prédio ACT CITY. Dali, é possível visualizar várias cidades ao redor de Hamamatsu.

foto 3: Tenryugawa (kawa = rio)

foto 4: Morango do Japão. Sem agrotóxicos e mais doces, podem ser colhidos e consumidos no pé.

foto 5: Estufa de morangos de Fukuroi. 40 minutos para comer à vontade.

4 comentários:

Thiago Dias disse...

Melhor parte até agora Lara. A sensação de novo é fantástica.
Bom..agora é esperar até a próxima terça.

Gabriel Carneiro disse...

Muito bom o texto mesmo.

Achei que acaba meio abruptamente.

Ainda prefiro a parte 2.

Lidiane Ferreira disse...

Estou aguardando as cenas do próximo capítulo. Em espera.
Ansiosamente.
beijos

Pedro Zambarda disse...

Acho que todos os textos "compõem" uma grande obra que foi a viagem da Lara =]

Parabéns!

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