sábado, 15 de outubro de 2011

A dúvida como base do pensamento, segundo Kierkegaard


O dinamarquês Søren Kierkegaard foi um dos maiores pensadores de teologia e um católico religioso fervoroso. Mesmo com textos voltados, quase todos, para a espiritualidade, é um erro encaixá-lo como um pensador conservador ou retrógrado. Ele foi responsável, no começo do século XIX, por introduzir a filosofia existencialista, que valoriza o conhecimento subjetivo, complexo, no lugar de uma compreensão superficial e rasa.

Em É preciso duvidar de tudo, um texto inacabado curto (cerca de 100 páginas), que foi escrito entre 1841 e 1842, Kierkegaard cria uma ficção e não escreve um tratado filosófico nem pedante e nem rigorosamente elaborado. Sua intenção é fazer filosofia, mas ele conta, de maneira leve, seus princípios através de um protagonista chamado Johannes Climacus.

Johannes é um estudante recluso e misântropo que passa a refletir sobre como é o pensamento em seus dias. Ele leu os clássicos, mas ele repara que pensadores modernos trazem teorias mais múltiplas. E, em todos esses autores novos e no seu próprio pensamento, ele encontra um ponto em comum: A dúvida.

Kierkegaard trabalha a dúvida que faz relação, a dúvida construtiva, que busca construir aproximações entre elementos diferentes na vida das pessoas. Não é a dúvida por simplesmente discordar, mas sim um elemento que faz parte ser homem, de falar e de se comunicar.

"A imediatidade é a realidade, a linguagem é a idealidade, a consciência é a contradição (...). A possibilidade da dúvida situa-se na consciência", diz o autor, através de seu personagem. O pensamento duvidoso se torna fonte para as afirmações.

Climacus pensa muito sobre a modernidade, mas estabelece padrões que temos para ter curiosidade em aprender novos conhecimentos. Para o personagem literário e filosófico, existe um paradoxo mental ao pensar por nós mesmos. O livro aponta que não é possível imaginar de maneira coerente sem nenhum questionamento. Duvidando ou não das teses de Kierkegaard, esse livro é uma pérola universal entre todas as suas obras, religiosas ou não.

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