domingo, 15 de setembro de 2013

Salão do Jornalista Escritor discute imprensa voltada para estudantes universitários

Audálio Dantas, Domingos Meirelles, Ricardo Viveiros, Caco Barcellos e outros nomes famosos do jornalismo discutiram, entre os dias 6 e 8 de setembro, sobre a imprensa e sua atual situação de crise focados nos estudantes universitários. O Salão do Jornalista Escritor ocorreu pela primeira vez em 2007 e, nesta segunda edição de 2013, contou com apoio União Brasileira de Escritores (UBE) e da Mega Brasil Comunicação.


Acompanhamos duas palestras no dia 8. A primeira delas foi um debate com Moacir Assunção e Ricardo Viveiros sobre a imprensa tradicional e as mudanças com os protestos no Brasil, mediado por Assis Ângelo. Ricardo Viveiros chamou atenção tanto sobre sua carreira com 21 livros publicados quanto seu passado como repórter que foi exilado durante a Ditadura Militar. Ele contou, por exemplo, que sua própria mãe ajudou-o a recuperar sua carteira de trabalho e habilitação de jornalista ao ser anistiado no Brasil. "Mamãe recortava e guardava todas as minhas reportagens de jornal. Era uma clipadora profissional. Quando voltei, exigiram comprovantes para que eu recuperasse minha habilitação como jornalista. Meu irmão me lembrou das manias de mamãe e isso me salvou de perder o emprego. Mamãe foi uma pioneira na assessoria de imprensa", explicou o jornalista.

Moacir Assunção, Assis Ângelos e Ricardo Viveiros

Moacir e Ricardo concordaram que o novo repórter, mesmo com as novas mídias, deve ler os veículos tradicionais para entender sua lógica. "Deve-se ler a Folha, o Estadão, a revista Veja e assistir os telejornais. Não porque você concorda com os veículos, mas sim para entender a linguagem de cada um deles. Isso é muito produtivo para qualquer jornalista", disse Ricardo Viveiros.

Na palestra seguinte, Caco Barcellos, do Profissão Repórter da TV Globo, e Ivan Masiglia, do caderno Aliás do Estado de S.Paulo, discutiram sobre livro-reportagem e formação da imprensa. Caco atrasou para a palestra e Audálio Dantas, curador do evento, fez alguns comentários sobre o evento antes da chegada do repórter. O debate foi mediado por Fernando Coelho, que foi chefe de Caco Barcellos.

"Tenho reclamações a fazer, principalmente às universidades, que se tornaram verdadeiros balcões de negócio, infelizmente, e que não apoiaram este evento. Reclamo também da EBC, que manifestou apoio mas não enviou representantes. Este evento reúne grandes jornalistas e é voltado sobretudo para estudantes. Ele não pode ser tratado desta maneira", disse Audálio Dantas. O organizador foi crítico, sobretudo, às instituições privadas que são controladas pelo marketing e que, na sua opinião, estão destruindo o jornalismo mais genuíno.

Audálio Dantas, curador do Salão do Jornalista Escritor

Ivan Masiglia falou sobre sua experiência como repórter nu em uma praia de nudismo pelo Estadão, mas também aproveitou para se recordar de sua formação. "Eu fiz o Curso Abril de Jornalismo na década de 90, e fiz um trabalho voltado para a Playboy. Muito de vocês não sabem ou não se lembram, mas a revista Playboy era uma grande escola de texto. Alguns discordam e dizem que era a Veja, por exemplo, mas a redação deles contava com Eugenio Bucci, Juca Kfouri e era liderada por Ricardo Setti. Era um time e tanto", relembra o jornalista.

Já Caco Barcellos lembrou, com Fernando Coelho, da estreia de Rota 66, que foi muito criticado por oficiais da Rota da Polícia Militar de São Paulo, que chegaram a ir no lançamento para intimidar o repórter. "Felizmente, eles não foram mal-tratados, eu fiz minha denúncia e estou aqui, vivo", completou. Caco também se recordou de como começou na imprensa. "Eu era motorista de taxi e consegui um emprego no Folha da Manhã. Eu me escondia para que ninguém soubesse do meu outro emprego, mas um colega de redação me dedurou e a chefia descobriu. Ao invés de me demitir, o chefe de redação pediu que eu fizesse uma reportagem sobre o cotidiano de um taxista. Foi meu primeiro texto assinado", disse Caco Barcellos.

Caco Barcellos, Fernando Coelho e Ivan Masiglia

O II Salão do Jornalista Escritor foi um evento forte em relatos de experiências de um período que não existe mais na imprensa brasileira. Foi discutido o papel da Mídia Ninja e de novos veículos, mas os debatedores lembraram que grandes veículos como o jornal O Globo reformularam sua visão sobre a Ditadura Militar, por exemplo, se arrependendo do apoio que exerceram no passado. Tanto os velhos jornalistas quanto os novos estão vivendo, e provavelmente vão continuar a presenciar, períodos de crise na comunicação.

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