quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sinuosidades verbais

Apesar de ser o terror das crianças no ensino fundamental brasileiro, eu sempre gostei de conjugação verbal. Sempre gostei do pretérito perfeito e do imperfeito, dando aquele tom definitivo e não definitivo para as ações. Também sempre achei curioso, embora não entenda direito, o pretérito mais-que-perfeito, que é antes do antes, que faz a gente andar pelo próprio tempo. Brinco que é uma espécie de esquizofrenia cronológica, andando sem sair do lugar. Gosto também dessa mesma variação aplicada nos tempos futuros. Gosto de gerúndio bem aplicado, nada estadunidense. E de particípios, com duas formas que representam o ato concreto, realizado. Gosto até dos autoritários imperativos.

Essas sinuosidades verbais do português me são atraentes porque são sonoras. Não é como a aglutinação de palavras no francês, que suprime alguns termos da oração. Você sente, na língua portuguesa, cada palavra no encadeamento do falar e do escrever. E de todas elas, os verbos são os mais demarcados, enfáticos. Acredito no português como uma língua de ação.

E não sou só eu que possuo esse gosto verborrágico. Grandes autores da poesia como Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos criaram o movimento concretista e deram para os verbos aspectos visuais que foram até veiculados com famosas propagandas e anúncios publicitários, formas diretas de comunicação. Essa paixão pelo verbo, que liga sujeitos e suas predicações, é como uma carícia num encontro amoroso e até uma história de relacionamento inteiro, sendo memória afetiva de trocas, de relações que fazemos. E vejo o valor dessas palavras que sugerem ações especialmente quando estudo outras línguas, quando saio do universo lusófono e vejo essa mesma relação em outros pensamentos sobre a linguagem.

Esse apreço pelos termos em língua portuguesa que sugerem atos reflete a minha própria vontade de escrever. Posso não dimensionar a idéia do texto, os personagens, a trama, o objetivo da dissertação ou mesmo a natureza do comentário. Posso não ter a menor idéia de quais referências buscar para compor, mas sei que a relação de qualquer coisa com outra começa por uma determinada atitude, e uma palavra que significa esse ato.

A gente não escolhe língua materna, nacionalidade e, às vezes, nem temos tanta liberdade em nossos textos, mas podemos escolher os verbos empregados. A palavra tecer é muito mais curta e tem um som mais aveludado do que fazer. Empregar me parece mais explícito e abrupto do que influenciar. As palavras jogadas, sem que nada as uma, perdem qualquer sentido. Por isso, pra mim, há sempre uma conexão do português com a beleza de seus termos verbais.

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