quinta-feira, 8 de março de 2012

O MMA, a TV e o deputado

O ano era 1985 e Dee Snider, vocalista do Twisted Sister, era chamado para depor ao congresso americano a respeito de sua música, considerada “ofensiva e explicita” por uma ala conservadora do Congresso americano capitaneada Tipper Gore, mulher do então deputado Al Gore. Snider entra no Capitólio e, para a surpresa de todos que assistiam a audiência in loco ou pela tv, ele está completamente maquiado, exatamente como se apresenta em seus shows e clips. E, causando a maior de todas as surpresas, Snider rebate todos os possíveis argumentos contra a sua música e o próprio rock’n’roll com duas afirmações: “Confiem nas escolhas de seus filhos, afinal, vocês os criaram” e, talvez a mais incontestável de todas, “vocês ao menos já pararam para ler as minhas letras?”.
Essa longa introdução retrata um episódio que pode se repetir logo no Brasil, apenas substituindo o rockstar por um lutador de MMA. Com a popularização do esporte vem aumentando cada vez uma polêmica previsível e vazia: Quais efeitos o MMA poderia ter sobre nossa sociedade? O mais recente e mais explicito golpe veio do deputado José Mentor (PT-SP), que propôs uma lei que proibiria a transmissão do esporte em tv aberta, alegando que, bom, MMA não é um esporte e que a prática nada mais é que “rinha humana”, causando graves efeitos sobre nossa sociedade, argumentos defendidos em um artigo publicado na Folha de S. Paulo no último dia 5 de março.
Não vou entrar no mérito se MMA é um esporte ou não. Esta discussão é tão absurda quanto questionar se automobilismo e boxe também o são. A discussão aqui vai além e passa pelo lugar do jornalismo nessa história. O deputado tem todo o direito de propor as leis que quiser e publicar seu artigo em um jornal de grande circulação, afinal, isso é democracia: O direito sagrado de darmos nossa opinião sobre qualquer assunto, independente se ela é ridícula ou não. O grande problema da lei proposta é querer, autoritariamente, decidir o que cidadãos maiores de idade, perfeitamente capazes de julgar o que é certo ou errado, devem ou não assistir em suas TVs.
Realmente o MMA não é um esporte para todos, e é justo que alguns o considerem plasticamente violento. Portanto nada mais correto do que sua transmissão passar por uma classificação etária através de um órgão responsável que já existe, o Ministério Público. Junte isto ao fato de que geralmente as lutas ocorrem em um sábado após às 23 horas e temos finalmente a dimensão do autoritarismo proposto pelo deputado: Ele não quer defender a “família” (talvez o argumento mais detestável de todos) ou as nossas crianças, pois não é uma transmissão voltada para as crianças. Ele quer simplesmente proibir todos de assistir a algo que ele não aprova.
O Brasil é o país do "falso-conservador", algo muito pior do que o conservadorismo assumido e explicito que se vê em lugares como os EUA e Austrália. Aqui pregamos a criatividade, improviso e liberdade, mas ao mesmo tempo, setores importantes de nossa sociedade usam e abusam de palavras como “regulamentação” e “debate” para que nossos hábitos sejam definidos por regras, e não pela realidade. Mais arcaico impossível, e a situação piora quando veículos de comunicação, que deveriam partir do básico principio da liberdade de escolha e expressão, se manifestam a favor de tais ações.
O exemplo neste caso foi um editorial publicado também na Folha de S. Paulo, no dia 19 de dezembro, logo após a primeira transmissão do UFC pela Rede Globo, pedindo que o governo regulamentasse a transmissão “em defesa dos telespectadores”. Sim, o mesmo jornal que afirma que qualquer proposta para regulamentar a operação de veículos de comunicação é uma volta à censura. Dois pesos e duas medidas? Imaginem. Talvez em meio a esse debate seria produtivo lembrar das palavras de Dee Snider, e adaptá-las para nossos dias: Confiem em seus filhos, e se não gostarem, exerçam seu direito inenarrável de mudar de canal.

Um comentário:

Pedro Zambarda disse...

Não curto o MMA por ser apenas uma versão light e publicizável do vale-tudo. Mas não é que eu odeie, eu só não gosto tanto. Nada justifica querer censurar por uma questão de gosto.

A liberdade de expressão devia valer pra quem gosta de rock até batidão. As leis deveriam ajudar as pessoas, não atender a demandas individuais.