terça-feira, 31 de julho de 2012

Mass Effect 3 – Uma carta de amor ao sci-fi


Quando escrevi sobre Mass Effect 2, em agosto do ano passado, comentei que a trilogia que estava sendo construida pela Bioware era a coisa mais importante acontecendo nos games naquele momento. De lá pra cá, sempre que olhava pra esse texto – e o fiz algumas boas vezes – pensava comigo mesmo: “será que exagerei?”. “Será que é mesmo tudo isso?”. Quase um ano depois, vem a resposta.

Shepard: o herói de Joseph Campbell finalmente ganha os games

Mass Effect 3 foi o game mais antecipado dos últimos dois anos e quando finalmente foi lançado, em março deste ano, a grande questão era a mesma que cerca todo capitulo final de uma grande série, seja nos games, cinema, TV ou literatura: o final conseguirá satisfazer tal expectativa? O grande problema desta pergunta é que ela geralmente tem uma resposta injusta, pois cada jogador/leitor/espectador imagina o próprio final e gostaria que a obra se encerrasse daquela determinada forma. Contudo é dificil encontrar pontas soltas e expectativas não satifeitas com o que Mass Effect 3 entrega.

Tecnicamente o game é quase perfeito. Visual lindo, um shooter em 3ª pessoa que mescla de maneira extremamente eficiente com mecânicas de RPG, tudo isto amarrado por um sonorização espetacular, desde os sons de tiros, naves, explosões até finalmente o trabalho de dublagem em um nível alto. Existe sim um bug aqui e outro ali, mas nada que estrague a experiência. Sinceramente, prefiro não perder meu tempo com detalhes técnicos. Para isso existem milhões de reviews espalhados pela internet que podem abordar este aspecto melhor que eu. O que realmente importa em Mass Effect 3 é o que ele representa para todo um gênero.

Quando os créditos finais de ME3 sobem, qualquer jogador com o minimo de sensibilidade começa a relembrar toda a jornada pelo qual passou e a relação que se criou com aquele universo e com todos os personagens que por lá passaram. O que a Bioware conseguiu criar ao longo de três jogos foi uma verdadeira jornada para o personagem, Shepard, e para o jogador. Acompanhamos o inicio de tudo, os períodos de climax e personagens maravilhosamente bem construídos que não apenas enfrentamos, mas que partilham desta jornada conosco. Garrus, Mordin Solus, Tali, Liara, Joker, Miranda...são nomes que vão marcar a lembrança de qualquer jogador. E o fato de nos importarmos com seu destino é apenas consequência de uma grande narrativa.

Mas no fim, tudo se resume a Shepard. O personagem dúbio que ora é uma extensão do jogador, ora tem vida própria, com carisma, personalidade e objetivos. Se no inicio do primeiro ME o jogador quer se tornar Shepard, no final, tudo muda. Nos momentos finais de ME3, eu não apenas queria vencer com o ele, ou ver ele agindo da forma que eu agiria. Eu queria seguir Shepard e eu finalmente conseguia entender porque, naquele universo, ele era a esperança de toda a galáxia. E é este tipo de relação entre jogador e personagem que é raro hoje em dia nos games. Shepard nada mais é do que o herói de Joseph Campbell, que após uma jornada se torna aquele em quem os outros depositam suas esperanças e medos. E, inevitavelmente, sua jornada chega a um final. Um final definitivo.

Minha opinião não mudou. Mass Effect é o que de mais importante aconteceu nos games nos últimos anos. É sem precedentes e, espero, uma porta aberta para novas investidas nas construção de narrativas mais complexas e mais completas. Acima de tudo, Mass Effect é uma carta de amor. Uma carta de amor aos games ao provar que é possível ir sempre além em uma mídia que luta até hoje para provar que é uma forma de arte. Uma carta de amor aos jogadores, dando a eles a oportunidade de decidir o final de um jornada longa e árdua. É uma carta de amor à ficção cientifica e todas as maravilhas que ela já criou. De Asimov à George Lucas, de Phillip K. Dick à Stanley Kubrick. O sci-fi vive nos games. E espero ansiosamente voltar logo para esse magnifico universo.


A polêmica do final: A grande polêmica ao redor de Mass Effect 3 foi o seu final. Muitos jogadores consideraram ele inconclusivo e graças à repercussão, a EA lançou uma expansão que explicaria melhor o final. Joguei com o novo final e em seguida assisti os vídeos do final original.

Sem contar spoilers, posso dizer que o final alternativo não mudou em nada a história do jogo, ele apenas a deixa mais clara. Pois se sou sempre a favor da incerteza e da interpretação própria em sci-fis, cheguei à conclusão que o final merecia ter sido melhor explicado. E o mais importante foi que a Bioware conseguiu fazer isto de uma forma elegante e poética, sem deixar a impressão que estava explicando tudo de qualquer jeito, deixando uma enorme espaço para que o jogador interprete o que realmente aconteceu com o personagem de acordo com as suas próprias conclusões.

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