segunda-feira, 30 de julho de 2012

Vladimir Safatle e a experiência intelectual na USP

Ele é o colunista da Folha que tocava no assunto delicado da PM na USP nas terças-feiras. É o comentarista da TV Cultura que, diante das câmeras, mantinha a aura de indivíduo crítico na sociedade, mesmo acompanhado por vozes que discordavam de suas ideias.


Vladimir comparecia às aulas das noites de terça-feira sempre com um terno escuro. Em muitas semanas, ele utilizava uma gravata preta, com um visual parecido com os personagens de Quentin Tarantino no filme Cães de Aluguel. Suas aulas, desde março de 2012, eram rigorosamente registradas em texto e distribuída aos alunos. A fala na sala de aula era pausada e preenchida por preposições que remetiam ao rigor dos discursos que o professor ia abordar em sua palestra. Enquanto as palavras ecoavam, a sala com espaço para cerca de 200 alunos estava lotada e silenciosa.

Mesmo pausado em seu discurso, Vladimir Safatle trabalhava para aumentar sua voz nas palavras que marcam as teses de Gilles Deleuze, Félix Gattari e pensadores franceses do século 20. Pós-modernismo, univocidade e crítica eram termos recorrentes. "O que quero ensinar é que não existe pensamento ou pensador irracional. O que vocês vão aprender com Deleuze é que, com as leituras rigorosas, tudo é permitido para ser criado dentro da filosofia. Alguns pensadores tendem a chamar de irracional o que não compreendem".

De março até junho, as aulas de Vladimir Safatle não esvaziaram em quase nenhuma semana. O método de ensino pouco mudou na transição dentro do curso: Eventualmente o professor trouxe slides-shows, mas ele não se manteve nesse artifício. As aulas transcritas, ao invés de se tornarem uma leitura chata ao vivo, viraram um roteiro organizado do professor e dos alunos. As perguntas eram fortemente incentivadas.

Os alunos da USP perseguiam Vladimir pelos corredores, em conversas alongadas sobre as teses de Gilles Deleuze tanto em suas obras originais quanto nas monografias e estudos do autor francês sobre David Hume, Friedrich Nietzsche, Henri Bergson e Baruch Spinoza. Progressivamente, alguns estudantes notaram que Deleuze era uma metáfora sobre a própria condição daqueles que assistiam as aulas de Vladimir Safatle.

"Eu quero oferecer para vocês a experiência de formação intelectual, através das leituras de Deleuze como criação de suas próprias teses", explicou Vladimir, na última aula, justificando o curso e buscando algo além do que está dentro do Departamento de Filosofia da USP hoje. O professor citou um "vício" que existe dentro da universidade: Ler de maneira superficial as obras, sob a justificativa que a investigação das estruturas basta para entender o texto, sem tentar teses mais ousadas sobre a formação histórica e intelectual do pensador. "Filosofar é pensar contra si mesmo", afirmou o professor, mostrando a contradição que é estudar, sem aceitar as estruturas oferecidas pela escola.

Com todas as formalidades e sua organização, Vladimir Safatle deixou uma mensagem final aberta e rica com seus estudos: Ouse conectar as obras que normalmente estudamos para procurar significados novos e formadores de sua própria intelectualidade. Deleuze, segundo Vladimir, pegou emprestado o conceito de hábito em Hume, de intuição em Bergson, de eterno retorno em Nietzsche e de várias outras estruturas para criar uma crítica ordenada no livro O Anti-Édipo, além de conceitos originais em Diferença e Repetição. Vladimir então deixou sua mensagem neste semestre para os alunos da USP: Criar seus próprios Frankensteins, sem se curvar passivamente à análise estrutural imposta pela maioria dos cursos superiores e pela educação em si. Vladimir ia contra a normalidade do Departamento de  Filosofia.

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