sexta-feira, 3 de abril de 2009

O Terrível Silêncio da Morte

Há dois anos Boaz tem o mesmo sonho. O israelense imagina que 26 cachorros raivosos correm pela cidade, param e ladram na frente da janela de seu quarto. Não são 30 e nem são 20 cães. São 26. E ele pode dizer com enorme certeza esse número, pois foi ele mesmo quem matou esses cachorros. Só que vinte anos antes dos pesadelos começarem. É com essa lembrança em forma de pesadelo que se inicia Valsa com Bashir, o filme israelense que premiado em Cannes no ano passado e que estréia no grande circuito essa semana.

O documentário trata sobre a tentativa de Ari Folman, veterano israelense na invasão do Líbano de 1982, em recuperar memórias de um fato que participou como testemunha ocular: o massacre dos campos de refugiados de Sabra e Shatila, que matou 3 mil palestinos.

Como não se recorda de nada, Ari, que é o protagonista e diretor do filme, busca nas lembranças de amigos rememorar momentos sangrentos que ele mesmo “apagou do seu sistema”. Por tratar de um fato extremamente cruel, o diretor transformou o documentário em uma animação, onde ele claramente brinca com as cores. O uso do preto e do contraste entre cores quentes e frias torna o filme uma experiência inigualável.


Apesar de não se tornar leve e “bonitinho”, o filme mostra uma realidade triste e sangrenta de uma forma quase lúdica. O espectador se entretêm com a trilha sonora que passa do rock progressivo a música clássica e com a união da realidade e da imaginação que quase se esquece que grande parte do que vê aconteceu de verdade. Todo o lirismo da cena em o amigo de Ari entra em transe e dança com uma arma na mão perante o cartaz do presidente Bashir Gemayel pode ter realmente acontecido, mas a platéia a vê como apenas uma alegoria da idéia que um homem com uma arma na mão pode enlouquecer.

De repente, a animação faz questão de lembrar que é um documentário e nos últimos minutos do filme coloca imagens reais dos palestinos mortos no massacre. Para se tornar mais forte, essa cena não tem trilha sonora, há apenas a voz e a imagem de uma senhora palestina que chora e sofre a morte de seus companheiros. A platéia, em choque com a súbita demonstração de realidade, sente que o diretor fez com que todos dançassem ao som de uma valsa que quando acaba traz o terrível silêncio da morte.


2 comentários:

Thiago Dias disse...

Eu to simplesmente louco pra ver esse filme. Primeiro pq o cinema dessa região sempre soou como "mais do mesmo" e segundo pq a estética parece ser maravilhosa.
As vezes nada melhor que a animação para documentar uma tragédia real

Lidia Zuin disse...

ow, eu queria assistir a essa animação né... pq animação, desse tipo, no cinema, não é lá mto comum... enfim... quando soube a temática, brochei legal

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