quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Meu nome é Bourn..ops! Bond, James Bond!

Se existe um motivo pelo qual a franquia 007 chegou ao 22º filme em sua história é a capacidade de se reinventar e se adequar de acordo com seu tempo. Nenhuma outra franquia durou tanto tempo e com tanta receptividade. Só para se ter idéia, os filmes de James Bond batem sucessivamente os recordes próprios de bilheteria, desde 007 contra Goldeneye, de 1996. E, com a atual aventura, a coisa não foi diferente: 007 Quantum of Solace (título não traduzido no Brasil) bateu todos os recordes da franquia em sua estréia nos EUA, com efeitos ainda maiores no Reino Unido.

A série sofreu uma drástica quebra em sua aventura anterior, Cassino Royale. Saía de cena o elegante e refinado Pierce Brosnan e entrava Daniel Craig, um Bond loiro, violento, e, quem diria, humano. Quantum of Solace é a seqüência direta de Cassino Royale, tendo início apenas alguns minutos após o fim do primeiro filme. O roteiro conta a tentativa de Bond em descobrir os responsáveis pela morte de único amor, Vésper Lynd (Eva Green). No meio do caminho ele acaba se esbarrando com o pretenso filantropo Dominic Greene (Mathieu Almaric), um agente da organização secreta Quantum (ecos da lendária S.P.E.C.T.R.E?) e com a boliviana Camille (Olga Kurylenko), que planejava se vingar de um ditador na Bolívia, que mantém negócios com Greene.

Talvez o primeiro grande problema que Quantum of Solace enfrente seja o fato de que o filme é claramente o segundo episódio de uma trilogia, embora nada oficial tenha sido dito. O roteiro é consideravelmente menos denso que o de Cassino Royale, o que gera um filme de “apenas” uma hora e cinqüenta minutos, nada em comparação com as duas horas e meia do antecessor. No entanto essa falta de densidade não deve ser confundida com uma má qualidade no roteiro. Não existem pontas soltas aleatórias, e aquelas criadas são visivelmente feitas de propósito, com o intuito de serem respondidas em um terceiro filme. Em resumo, a produção faz com que você saia do cinema sensação de que viu um ótimo filme de ação, ligado por um enredo presente, embora não muito forte.

Na direção, Martin Campbell deu lugar ao alemão Marc Foster. A escolhe soou estranha no começo, já que Foster não tinha nenhuma experiência em filmes de ação, sendo conhecido apenas por ótimos dramas como Em Busca da Terra do Nunca e Mais estranho que a ficção. No entanto o “novato” não faz feio, e mescla uma ótima direção de atores com seqüências impecáveis e tensas de ação. No entanto, quem esperava uma revolução ou ao menos uma nova leitura do gênero pelo diretor, vai acabar se decepcionando. A única sombra de algo realmente novo é um tiroteio feito paralelamente à seqüência da opera Tosca. A montagem final da cena é de cair o queixo. Mas o grande ponto relevante de Quantum of Solace está mesmo na criação do mito de James Bond

Em Cassino Royale James Bond não lembrava em nada aquele que estávamos acostumados a ver. Não era sutil, não era elegante, e não era preciso. Era visivelmente um grande agente apenas em começo de carreira, que por um acaso do destino, acabou confrontando-se com o amor de sua vida, algo que lhe abriu feridas que antes estavam cobertas, como a infância órfã ou a falta de apresso pela própria vida. Neste filme Bond está inflado de ódio, e ao mesmo tempo, severamente marcado pelo fato de acreditar ter sido traído por Vésper. E é neste contexto que vemos claramente o agente aos poucos se tornando aquilo que Ian Flamming criou em sua obra inicial. Bond se torna uma máquina de matar fria e calculada. Seus sentimentos existem, mas são suprimidos graças a várias doses de Martini e noites com lindas mulheres. De fato é justamente esta frieza de Bond e sua falta de apresso por qualquer vida que lhe garantem tantas mulheres. Vale a pena lembrar que tal tema já foi levemente tratado em 007 contra Goldeneye (estréia de Pierce Brosnan), em sua relação com 006. No entanto os produtores se acovardaram diante de tanta profundidade. Em Quantum of Solace, nem mesmo M (Judi Dench) escapa de seu charme, mas não no sentido sexual, entenda bem.

Embora esta nova faceta de Bond tenha forte ligação com o personagem original escrito por Ian Flamming, ele encontra ecos recentes em outro espião com iniciais JB. A trilogia Bourne foi uma grande revolução na construção de heróis de ação, e é impossível deixar de notar suas influências no Bond de Daniel Craig. Embora tais influências desagradem aos mais puristas, e de certa forma desvirtuem de fato o personagem (algumas seqüências clássicas como “Bond, James Bond” ficaram de fora), nota-se que elas foram necessárias para a continuidade da série. O público de hoje não se interessa mais por foguetes da morte ou laboratórios em vulcões. A série se foca muito mais na construção de um personagem que foi se descaracterizando ao decorrer do tempo, e o talento de Daniel Craig nesta nova empreitada é fundamental. Vale dizer que o novo Bond não é uma cópia de Jason Bourne, mas sim uma remodelação muito eficiente que pegou carona em uma trilogia que, por que não, também não existiria sem o agente inglês.

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