Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Morre Richard Kiel, o ator que fez o vilão Jaws nos filmes de James Bond

Por Pedro Zambarda



O ator americano Richard Kiel morreu aos 74 anos, três dias antes do seu aniversário, em um hospital em Fresno, na Califórnia. O falecimento ocorreu na tarde desta quarta-feira (10) por causas desconhecidas. O artista tinha quebrado uma perna poucos dias antes de ir ao hospital.


Ele ficou famoso interpretando o vilão Jaws, dentes de aço, dos filmes do agente secreto britânico 007 na fase do ator Roger Moore. O ator surpreendia pela sua altura, que chegava a 2,18 metros. O inimigo de James Bond também ficou famoso no jogo 007 Contra GoldenEye, do console Nintendo 64.

O furo foi dado pelo site TMZ, que cobre celebridades.

Via Variety

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Marina diz que partido dará explicações sobre avião que matou Eduardo Campos

Por Flávia Albuquerque, da Agência Brasil
Creative Commons

A candidata à Presidência da República Marina Silva (PSB) visitou hoje (25) a Bienal do Livro, em São Paulo. Ela e o candidato a vice-presidente na chapa, Beto Albuquerque, disseram que o partido está investigando denúncia de que o jato usado por Eduardo Campos no acidente ocorrido no último dia 13, em Santos (SP), que matou o ex-governador pernambucano e mais seis pessoas, foi comprado com o uso de recursos não contabilizados.



De acordo com informações publicadas ontem (24) pelo jornal A Folha de S.Paulo, a Polícia Federal investiga se o jato Cessna Citation PR-AFA foi comprado com dinheiro de caixa 2 do partido. Além disso, há denúncias de que o partido não declarou nenhuma informação sobre o jatinho à Justiça Eleitoral.

Marina destacou que tem a preocupação de que todos os esclarecimentos sejam dados. “Tanto quanto as razões do acidente, quanto do ponto de vista legal. Esse é um esforço que o partido está fazendo com o senso de responsabilidade que temos que ter com uma questão como essa. Nós queremos que sejam dadas explicações de acordo com a materialidade dos fatos, e para isso é preciso que tenhamos o tempo necessário para que essas explicações tenham a devida base legal”.

“Espero que, entre hoje e amanhã, através do escritório de advocacia que contratamos, possamos dar ao Brasil todos os esclarecimentos. Estamos juntando as informações para que isso não deixe qualquer dúvida para ninguém. Não devemos passar dessa semana sem dar as explicações e esclarecimentos devidos”, disse Albuquerque, após visita à 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, na capital paulista, ao lado da sua candidata à Presidência, Marina Silva.

Marina ressaltou que a visita à Bienal ocorreu em função do espaço destinado à educação em seu programa de governo. Para ela é preciso deixar claro que a educação passa por dois processos: a entrada na escola na idade certa e da maneira certa, com ensino em período integral; e o [processo] exercido pela comunidade escolar, que envolve familiares e outros agentes educacionais.

“Queremos uma educação que seja capaz de alfabetizar com competência, de formar com capacidade, para que as pessoas possam acessar ocupações que melhorem suas vidas, e [capaz de] formar cidadãos de acordo com as necessidades do nosso país. Queremos também valorizar a leitura como forma complementar de formação da criança, do adolescente e do jovem”, disse.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Marina Silva diz que Campos estava empenhado até o final na defesa dos ideais

Por Helena Martins, da Agência Brasil
Creative Commons

A candidata à Vice-Presidência na chapa de Eduardo Campos, Marina Silva, veio a público, há pouco, lamentar a morte do político pernambucano, que foi vítima de um acidente de avião, no fim da manhã de hoje (13). Ela disse que Campos estava empenhado na defesa dos ideais que defendeu “até os últimos segundos de sua vida”.


Emocionada, Marina se solidarizou com a família de Campos e dos assessores e disse que “durante esses dez meses de convivência, aprendi a respeitá-lo, admirá-lo e a confiar nas suas atitudes e em seus ideais de vida”.

A ex-ministra do Meio Ambiente e organizadora da Rede Sustentabilidade estava em São Paulo hoje, mas cumpria agenda pessoal na capital paulista, enquanto Campos seguia para Santos.

Durante a declaração para a imprensa, Marina não falou sobre uma possível substituição da candidatura. Ela destacou a parceria com o político, afirmando que “começamos a fiar juntos, principalmente a esperança de um mundo melhor, de um mundo mais justo”.

Essa foi a primeira declaração de Marina Silva sobre o acidente ocorrido hoje. Mais cedo, a fotografia que ilustrava o seu perfil no Facebook foi trocada por uma imagem preta, em sinal de luto. Ela deveria acompanhar Eduardo Campos no voo, mas antecipou a ida a São Paulo para fazer uma gravação.

Eduardo Campos era um político promissor, diz a petista Dilma Rousseff

Por Paulo Victor Chagas, da Agência Brasil
Creative Commons

A presidente Dilma Rousseff voltou a se manifestar nesta tarde sobre a morte do ex-governador de Pernambuco e candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos. Segundo ela, Campos era um político promissor que poderia galgar os mais altos postos do país. “Em nome do governo brasileiro e do povo brasileiro, gostaria de dar os mais profundos pêsames à família de Eduardo Campos; à sua mãe, Ana Arraes; à dona Renata, como ele carinhosamente chamava sua esposa; a seus filhos e a toda família”, disse há pouco, no Palácio do Planalto.



Dilma disse que ainda não conseguiu falar com a família do ex-governador, apesar de tentar contato com Ana Arraes, ministra do Tribunal de Contas da União, mas telefonou ao governador do estado, João Soares Lyra Neto, colocando à disposição de Pernambuco todas as condições materiais que puderem ser fornecidas pelo governo federal. Consternada, a presidente garantiu que irá ao velório do político “sem sombra de dúvidas”.

“O Brasil perde uma jovem liderança com um futuro extremamente promissor pela frente. Um homem que poderia galgar os mais altos postos do país”, afirmou. A presidente disse esperar que o exemplo de Campos sirva para mantê-lo vivo nas memórias e corações dos brasileiros. “Devemos acatar com reconhecimento que nós, seres humanos, somos afetados pela fragilidade da vida, mas também pela força e exemplo das pessoas”.

Dilma também estendeu condolências às famílias dos assessores que acompanhavam o político na tragédia e dos tripulantes. “Para além das nossas divergências, sempre mantivemos uma relação de respeito mútuo”, disse.

Conforme nota oficial divulgada anteriormente, Dilma frisou o luto de três dias e a suspensão de sua agenda por três dias. “O Brasil vai agora prantear esse grande brasileiro que morreu no dia de hoje”, disse.

Eduardo Campos fará falta à política nacional, diz o tucano Aécio Neves

Por Bruno Bocchini, da Agência Brasil
Creative Commons

O candidato à Presidência da República pelo PSDB, Aécio Neves, lamentou hoje (13) a morte do também candidato Eduardo Campos em acidente de avião na cidade de Santos (SP). Em pronunciamento em seu comitê de campanha, na capital paulista, Aécio disse que Campos fará falta à política nacional e que hoje é um dia de imensa tristeza para todos que acreditam na boa política.



“Eduardo era uma dos maiores representantes da boa política. Essa tristeza é muito maior para aqueles que conviveram com Eduardo. E eu convivi por mais de 20 anos. E tenho por ele uma admiração que não terminará com sua morte trágica. Convivemos muito durante vários momentos importantes da vida nacional, fomos governadores de estado e Eduardo fará uma falta imensa na política nacional”, disse, ao lado de correligionários.

Aécio ressaltou que, logo que soube do acidente, quando estava chegando em Natal, no Rio Grande do Norte, pensou na família de Campos e na sua familia. “Ainda sem informações definitivas, me veio à mente a lembrança da Renata [esposa de Campos], dos filhos. Meu pensamento, da Letícia [esposa de Aécio] e de toda minha família é voltada para eles. Ele tinha uma família extraordinária, alegre, feliz e coesa”, disse.

O candidato do PSDB informou que cancelou toda a sua agenda de candidato e que não há data para a definição de novos compromissos. “Infelizmente é uma perda que dói fundo no coração de todos nós. Eduardo sempre foi um homem valoroso, um homem público especial, um grande amigo”.

“Guardarei com muito carinho a última mensagem que recebi do Eduardo domingo agora, Dia dos Pais. Logo cedo, ele foi um dos primeiros a mandar a mensagem, ele e a Renata, cumprimentando-me pela chegada do Bernando, do meu filho, em casa, desejando que ele pudesse estar com saúde e força, continuar sua caminhada”, lembrou.

Em campanha pela presidência, ex-governador Eduardo Campos morre em acidente aéreo

Por Carolina Gonçalves, da Agência Brasil
Creative Commons

O deputado federal Julio Delgado (PSB-MG) foi quem confirmou a morte do candidato à presidência Eduardo Campos, 49 anos, em um acidente aéreo, em Santos, às 12hrs. Delgado deixou o Conselho de Ética emocionado e disse que falou com o presidente do PSB de São Paulo, Marcio França, que confirmou que não houve sobreviventes na queda do avião.



A aeronave caiu por volta das 10h. De acordo com o Comando da Aeronáutica, o Cessna 560XL, prefixo PR-AFA, decolou do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com destino ao Aeroporto de Guarujá (SP). O avião estava com o certificado de aeronavegabilidade e a inspeção anual de manutenção em dia. Quando se preparava para pouso, a aeronave arremeteu devido ao mau tempo. Em seguida, o controle de tráfego aéreo perdeu contato com o avião.

Marina Silva, vice na chapa de Eduardo Campos, não estava no avião.

Pernambucano, o candidato era neto de Miguel Arraes, que governou o estado três vezes e, coincidentemente, faleceu há nove anos, também no dia 13 de agosto. Eduardo Campos era filho de Maximiliano Arraes e da ex-deputada federal e ministra do Tribunal de Contas da União Ana Arraes. Duas vezes governador de Pernambuco, ele também foi deputado estadual, três vezes deputado federal, secretário estadual de Governo e de Fazenda e ministro no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Formado em economia na Universidade Federal de Pernambuco, Campos concorria pela primeira vez ao cargo mais importante da política brasileira.

Ontem (12), Campos cumpriu agenda de campanha no Rio de Janeiro de onde decolou hoje pela manhã para São Paulo. Ele teria agenda em Santos, no litoral do estado. Estava prevista entrevista coletiva na Praia do Mercado, às 10h30, e depois participaria de um seminário. No final da tarde, daria nova entrevista em São Paulo.

Com grande popularidade em Pernambuco e bom trânsito entre todas as correntes políticas, Campos começou a carreira política ainda na universidade, como presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco.

sábado, 26 de julho de 2014

Com a morte de Suassuna, Academia Brasileira de Letras perde o terceiro acadêmico em um mês

Por Marcelo Brandão e Paulo Virgilio da Agência Brasil
Creative Commons

Morreu no dia 23 de julho, de parada cardíaca, o escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna. Ele estava internado, desde segunda-feira (21) no Real Hospital Português, após ter sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico.

A Academia Brasileira de Letras (ABL) determinou luto oficial de três dias. Em nota divulgada logo após tomar conhecimento da notícia, Holanda Cavalcanti lembra o fato de que Suassuna é o “terceiro grande acadêmico” que a  academia perde no espaço de um mês – ele se referia a Ivan Junqueira, morto no dia 3 deste mês, e a João Ubaldo Ribeiro, no dia 18.

“Estendemos à família de Ariano nossos profundos sentimentos de pesar. E, à multidão de seus amigos, leitores e admiradores no Brasil e no mundo, nossa solidariedade  pela imensa perda. Ariano reunia em sua pessoa as extraordinárias qualidades de homem de letras e de intelectual no melhor sentido da palavra, alguém que, dispondo de uma cultura invulgar, era, ao mesmo tempo, um homem de ação. À sua maneira ocupava-se e preocupava-se com os problemas sociais, focado nos da sua região”, destaca o presidente da academia.

Geraldo Holanda Cavalcanti destacou também o engajamento do escritor paraibano com o Movimento Armorial, “através do qual buscava revigorar a identidade nordestina e suas peregrinações, levando, com humor, sua mensagem por todo o Brasil”.

Ariano Suassuna era o sexto ocupante da Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 3 de agosto de 1989, na sucessão de Genolino Amado. Em 2004, a ABL apoiou a produção do documentário intitulado O Sertão: Mundo de Ariano Suassuna, dirigido por Douglas Machado e exibido na Sala José de Alencar da instituição.

sábado, 19 de julho de 2014

Morre o escritor mineiro Rubem Alves

Por Pedro Zambarda

Rubem Alves faleceu neste sábado, 19 de julho, aos 80 anos. Ele foi vítima de falência de órgãos múltiplos. Alves era educador, teólogo, psicanalista e professor. O intelectual lançou mais de 120 livros, sobre religião e educação, além de obras infantis.



Na literatura, tinha como inspiração Friedrich Nietzsche, T.S. Eliot, Guimarães Rosa, José Saramago, Fernando Pessoa, Adélia Prado e Manoel de Barros. Escreveu "O que é Religião", "Filosofia da Ciência" e "Protestantismo e Repressão".

O autor estava internado desde 10 de julho no Hospital Centro Médico de Campinas, interior de São Paulo, para tratamento de uma pneumonia. 

Via iG

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Morre João Ubaldo Ribeiro e faltam crônicas de jornal

Por Pedro Zambarda

Faleceu na madrugada de hoje, em sua casa no Rio de Janeiro, o escritor e membro da Academia Brasileira das Letras (ABL) João Ubaldo Ribeiro. Aos 73 anos, era autor de "Viva o Povo Brasileiro", "Sargento Getúlio", "A Casa dos Budas Ditosos" e "O Sorriso do Lagarto". Deixa quatro filhos e ocupava a cadeira 34 da ABL, além de ser colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo.


Velório ocorrerá às 10hrs desta sexta-feira. O baiano João Ubaldo morre no mesmo dia de aniversário do líder sul-africano Nelson Mandela, que ganhou um dia internacional hoje. A morte do escritor brasileiro diminui o time de cronistas de alta qualidade da imprensa brasileira.

Via Estadão

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Eduardo Coutinho: “Tudo o que eu faço é contra o jornalismo”

O cineasta e documentarista Eduardo Coutinho foi assassinado no dia 2 de fevereiro de 2014. O principal suspeito do crime, que ocorreu no Rio de Janeiro, é seu filho, que sofre de esquizofria. 

Por Mariana Simões, da Agência Pública

Creative Commons


Em entrevista inédita concedida em 2011 a Mariana Simões, então estudante de comunicação, o documentarista Eduardo Coutinho não escolhe as palavras para definir o que faz.

Eu tinha 22 anos quando comprei uma passagem para o Rio de Janeiro para entrevistar Eduardo Coutinho, que morreu no domingo, dia 2/2, no Rio de Janeiro. Na época eu cursava graduação em Comunicação nos Estados Unidos e estava passando as férias em Brasília. Fiquei um mês trabalhando na tese: metade fazendo pesquisa sobre a obra de Coutinho e a outra metade com o telefone na orelha, tentando agendar uma entrevista com o documentarista.

Quando consegui o número de telefone do escritório dele,  achei que a minha entrevista estava garantida. Mas faltando uma semana para eu voltar para Nova York, ainda não tinha dado em nada. Comecei a entrar em pânico. “Se faça de boba, minha filha,” meu pais me disseram.

Eu segui o conselho: mandei um e-mail para a produtora dele dizendo que já tinha comprado minha passagem para ir ao Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, ligaria para confirmar o horário da entrevista. “Você sabe como é, ele já está velho, não gosta mais de dar entrevista,” alguém me disse pelo telefone dias depois. Expliquei que já estava no Rio de Janeiro esperando ele me atender. A passagem custou caro, eu iria voltar logo para o exterior, fui dizendo.

Eu tinha entrevistado o cineasta Vladimir Carvalho na semana anterior. Ele foi simpático ao telefone e, quando nos encontramos, ficamos horas conversando. Um homem sorridente, com boa vontade, cheio de energia. 

Com Coutinho foi praticamente o oposto. Quando entrei na sala para entrevistá-lo, a única que estava sorridente era eu. 

Coutinho estava atrás de uma mesa, me esperando, um maço de cigarros em mãos. Ele falava baixo, meio rouco. Tossia muito.

Apertou minha mão. Perguntei se podia filmar a entrevista, ele gesticulou que sim e eu comecei a agradecer como uma tonta. Disse que era uma honra poder entrevistar um homem que mudou a cara do documentário brasileiro. Fui logo acrescentando que achava ele um grande documentarista, alguém que eu admirava, mas percebi que ele não gostou dos meus elogios. Não queria se fazer de herói, nem aceitar o título de grande cineasta; ele era apenas um cara que gostava de documentar o encontro da câmera com o mundo. E, de fato, avisou que não fazia filmes para descobrir a verdade sobre ninguém.

Tudo que eu tinha entendido sobre o trabalho dele até então foi aos poucos desmoronando. “Eu estou interessado que a pessoa fale a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, e portanto tem verdade e mentira juntos. Isso é inevitável,” ele explicava. De acordo com Coutinho, não era possível fazer um documentário que só contasse a verdade. Para ele, não existia uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou várias experiências vividas que juntas pudessem contar uma história.

Assim como os gestos e o comportamento dele, naquele dia, também contaram uma história.

Quando entrei na sala, vi um homem de 80 anos que já estava cansado, cuja voz às vezes falhava, mas um homem que ao longo da entrevista foi se soltando, começou a mostrar outra cara. Apesar da aversão que sentia em dar entrevistas, eu notava o brilho no olho dele, o orgulho que tinha pelo que fazia, a paixão que sentia pela arte que havia criado. Antes de ir embora, pedi para tirarmos algumas fotos juntos. Na última, ele puxou meu braço  e disse: “Agora chega de fotos genéricas, vamos fazer uma em movimento.” E aí ele acenou para a câmera e por um instante consegui capturar algo: não a verdade sobre Coutinho, mas um retrato dele naquele momento. Que se foi.

Você acha que o documentário é de alguma forma uma extensão do jornalismo?

Questões gerais eu odeio. Se você me pergunta a diferença do documentário pra ficção nós não vamos sair do lugar. Não, eu fiz nove anos de jornalismo para a TV Globo, trabalhei três anos em jornal também, até fui jornalista, dirigi filmes para o Globo Repórter. Mas eu, desde que eu saí do Globo Repórter, tudo que eu faço é contra o jornalismo.

Contra o jornalismo?

Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessa.

Você acha que o Michael Moore interfere muito no filme?

Michael Moore é um exemplo, tem mil outros. Todo cara que começa a fazer um filme dizendo “eu vou fazer esse filme para obter tal resultado” não me interessa. Vou dar um exemplo: o filme do Al Gore, não vou ver. Não estou interessado! O filme que o cara sabe que ele vai fazer para dizer que a maconha deve ser legalizada, não estou interessado! Que o mundo vai ser aquecido, o cacete a quatro, não estou interessado! Outro pra dizer que não pode comer carne. Outro pra dizer que a miséria é boa. Não quero saber disso, não interessa. Faça um livro, faça isso no jornal. Agora a experiência de fazer cinema, que é tão ingrata, que você não ganha dinheiro, que é chata pra burro, só tem sentido para mim se é uma coisa que você goste, desse tipo de coisa eu não gosto. Tem gente que adora e faz bem. Um filme que é feito sobre o nazismo etc, isso é um filme jornalístico de um certo sentido, mas com alto nível de pesquisa e tal e interessante, mas não é o tipo de filme que me interessa fazer.

Até que ponto você, como diretor, deve interferir, por exemplo, durante uma entrevista?

Eu tento não interferir. Ou melhor, eu tento… Eu não julgo. Eu não julgo se um cara, uma pessoa que é escrava, que gosta de ser escrava, eu não vou perguntar “mas como?!” Se ela quiser ela dá um discurso do porquê ela gostar de ser escrava. Eu não estou lá para mudar as pessoas, eu estou lá para ver o estado do mundo através das pessoas. A partir da relação que eu vou ter com a pessoa, que é o essencial, na qual tudo pode acontecer, pode haver conflitos ou não conflitos etc. Mas que eu não estou lá a fim de dizer para a pessoa que ela mude de opinião, não. Aliás, a opinião não me interessa. Me interessa que as pessoas tratem de sua vida. A partir de suas vidas, as pessoas vão ter opiniões de direita e esquerda, tanto faz, mas que são viscerais. Eu não estou interessado no conteúdo social da vida da pessoa, eu estou interessado no que a pessoa fala a partir de sua experiência sabendo que, como é memória, toda memória é mentirosa, portanto tem verdade e mentira juntas, isso é inevitável. Não há solução. Ninguém consegue desobstruir a memória, então eu aceito aquilo que é exagero. Como sabe se o sentimento é verdadeiro ou não? Sabe, “eu gostei de um cara.” Eu sei lá se gostou ou não, ela conta a história do romance dela, é um segredo. Porque são pessoas comuns. Se eu fosse entrevistar o Napoleão não ia entrevistar sobre a vida dele, o interessante é a política dele. Quer falar sobre um político, faça um livro.

Por que você começou a fazer documentário tão tarde na vida? Acho interessante que não foi na faculdade que você entrou nesse caminho. Você começou fazendo Direito, não foi?

Comecei por Direito porque era o que se fazia. Direito, Engenharia, Medicina. Mas enfim, larguei, fui trabalhar em jornalismo, depois fiz um curso de cinema e passei a fazer cinema. Agora, ninguém podia pensar em fazer documentário no Brasil nos anos 1960. Nem cinema! Quanto mais documentário. Longa metragem? Isso não existia. Som direto ia começar ainda e tal. E daí fui fazer ficção até o final dos anos 70. Fiz um filme interrompido que tinha um lado documental, mas que ao mesmo tempo eram camponeses e atores. E daí eu parei, fui fazer televisão teve o golpe de estado tal, tal, tal. Eu larguei o cinema durante dez anos e voltei para fazer o Cabra [Marcado para Morrer] onde eu fiz um trabalho de História, de jornalismo, de cinema, tudo misturado. Cabra tem tudo isso. Cabra tem tudo, pesquisei como um filho da puta. Trabalhei muito antes de fazer o filme. Sobre a história dos camponeses, pra saber que perguntas que eu devia fazer. Nos filmes que eu fiz nos últimos dez anos e tal, não faço pesquisa, não tem que fazer pesquisa. Eu vou filmar num lixo e simplesmente vou ao lixo conversar com as pessoas. Isso é bom ou ruim? Você tem que perguntar pra uma pessoa que tá lá no lixo, isso é bom ou ruim? Porque eu sei que tem aquilo e tem coisa pior que aquilo.

Em Boca do Lixo, você se surpreendeu com o que as pessoas falaram nos depoimentos?

Não há coisa mais degradante do mundo do que o cara ser filmado catando o lixo. E tive a reação deles e aí eu dizia ‘e por que?’ E depois eles diziam os motivos pelos quais trabalham no lixo. Motivos até econômicos, entende? Enfim, eu tentei ouvir o lado deles. Ninguém diz aqui é bom, mas muitos dizem “não, mas aqui eu alimentei meus filhos, eu conheci amigos”, por exemplo. O cara de esquerda supõe que aquilo dali é horrível, que a culpa é do governo, que a culpa é do capitalismo. Acontece que eu fui lá aberto e ouvi gente dizendo: “Eu prefiro isso do que ser empregada”. Tá aí um troço novo. Porque o cara nas condições terríveis do lixo, pelo menos ele é autônomo, ele não tem patrão. Alienado ou não, o cara julga um triunfo ele não ter um patrão. No Brasil inteiro deve ter um milhão de pessoas que vivem na rua vendendo coisas. E essa noção de liberdade, se é falsa ou não, não importa. O cara no lixo diz: “Olha eu trabalho aqui, agora sábado eu não venho. Sábado eu faço feira, não sei o que.” Não ter um patrão. Para quem tem herança de escravidão é um troço essencial. Tudo no Brasil está ligado ao troço da escravidão. Isso pesa muito, entende? O horror ao trabalho é um troço que vem dos 350 anos de escravidão. 

Pulando um pouco, o filme que me introduziu ao seu trabalho, foi o Edifício Master…

É onde eu já estou num outro caminho, em que eu não quero dizer que aquilo ali é o inferno ou o paraíso. Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá eu dizia ‘pô, fim de linha, que fracasso’. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, tem pessoas de classe média que estão lá um período da vida que depois saíram de lá e também foram para Alemanha, o cacete. Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre, dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar.

Inclusive a minha tia avô ela mora em um edifício igualzinho a esse...

Em Copacabana?

Em Copacabana!

A maior porcentagem de idosos no Brasil é em Copacabana: tem 15% de idosos. A razão é muito simples. Tem tudo lá: prostituição, crime, tal. Mas é um bairro que tem muita vida, tem comércio, tudo é perto. É muito melhor morar em Copacabana do que no centro da cidade que não tem nada. E a praia está perto então o velhinho vai lá e passeia. Então morar em Copacabana, hoje, para aquelas pessoas foi um ganho. É uma coisa interessante com todos os problemas que tem.

Eu li uma entrevista em que você dizia que, quando você começou a fazer o Edifício Master, sentia medo de não desenvolver uma história boa porque era um bairro de classe média.

Isso aí é porque as pessoas se defendem. Você vai lá na favela e todo mundo está disposto a falar, eles têm eloquência, têm beleza na fala, têm a gíria. Cem anos de cultura em favela. A favela é um troço orgânico e forte em comparação com o asfalto. O exterior/interior não existe, você está andando e da janela alguém te chama pra entrar, entende? Eles têm consciência que tem o ‘nós da favela’ e tem o ‘nós do asfalto’. Isso está ligado, porque eles vivem a vida do asfalto também, vão à praia e tal mas eles tem consciência do ‘nós’ favelados. Num prédio, ninguém fala ‘nós’. A diferença é essa. Como é que eu vou dizer ‘nós do meu prédio’? Eu moro num prédio normal- 30 apartamentos, 35, sei lá. Mas não vou dizer ‘nós’. Nem conheço quem mora lá, nem quero conhecer ninguém. As pessoas na favela se conhecem todas, é um outro tipo de vida. Tem esse lado positivo de formar comunidade, de que é uma vida muito aberta. Então quem se mata é quem mora no Master, em favela ninguém se mata. Já ouviu falar em algum suicídio em favela? Eu nunca vi. É impressionante, não sei se tem estudo sobre isso, mas eu não conheço caso. Um mata o outro, droga é outra coisa porque o cara é viciado, dependente e guerra do tráfico é outra coisa. Mas suicídio mesmo, sem razão ou por depressão, é difícil.

Então por isso eles [os personagens de Master] falavam pouco, eles riam pouco, tinham pouca riqueza vocabular. Em termos de experiência de vida também não era tão forte. É por isso que tem 37 personagens – eu tinha que ter quantidade porque eu sabia que não ia ter personagens maravilhosos como tive em outros filmes que podiam ocupar dez minutos. Tem 37 pessoas no filme e acho que nenhum chega a cinco seis minutos. Pessoas que entram por três, quatro minutos. Mas em compensação é 1 hora e 50 minutos de gente falando.

Quando te veio essa ideia de botar só gente falando?

Isso foi desde que eu voltei a fazer cinema com Santo Forte. Fui fazer um filme sobre religião mas não queria botar culto nenhum, queria botar gente falando sobre religião. Daí eu fiz, acabei filmando também culto, mas acabei tirando e jogando fora. Depois de longas experiências arrumando e montando, tirei praticamente tudo, mas ainda tem imagens. E eu fui reduzindo e atualmente tem um filme que não tem imagem nenhuma. Só tem um preto e tem uma pessoa que fala ou canta. E é chegar no limite. Filme que só tem pessoas falando como Jogo de Cena. O próximo vai ser pior ainda, só tem uma pessoa que fala, um corpo falando. Então atrás você não tem que distrair, mostrar fotografia do filho, do neto. “Meu filho morreu”, pronto, conta a história do filho. A pessoa imagina, não preciso da foto do filho. Se é dito, a imagem é totalmente desnecessária no caso dos filmes que eu faço. Eu trabalho com cinema que se baseia na palavra. Por isso é muito difícil vender pra fora. Nunca vendeu. Quem não entende português é difícil, a legenda passa 60 %. Então é difícil porque meus filmes não vendem.

Você acha que vocês documentaristas são heroicos?

Não, não, não, não. A palavra herói não existe. Vítima e herói: não existe. Não tem coitadinho. Sabe o pobre, o coitadinho, como são feito os filmes. “Ah o coitadinho do pobre!” Eu não fui no lixo para tratar de vítima, senão acaba a relação. Eu vou tratar ele de igual pra igual na medida que é possível. Eu quero conhecer a sua razão. As minhas razões para estar aqui eu sei – eu posso, eu quero. Agora quais são as suas? Cada um tem suas razões para estar em algum lugar para fazer alguma coisa. Isso que eu quero descobrir. Então a razão do outro me interessa. Tentar estar no lugar do outro é a chave da questão. É impossível, mas tem que tentar, e nesse confronto de tentar entender o outro sai um diálogo que é improvisado, que é inventado, porque você inventa também quando fala. E não importa, se inventa bem, é verdade. Se é bem inventado, é verdadeiro e ponto final. “Eu fui feliz”, sei lá se é verdade. Tá dizendo! Pode ser que daqui um ano diga outra coisa. Entendeu? Tem que ser inventado com verdade. Quem inventa mal tá fora!

O documentário já existe à margem do cinema brasileiro. E os filmes estrangeiros dominam o mercado brasileiro então…

Tem o Cinema Novo, tem o cinema brasileiro sério que sempre foi marginal e vai continuar a ser. Tem Globo Filmes e tal, as exceções, mas é 15 % do mercado. O cinema brasileiro em geral é marginal no mercado. Calcule os filmes sérios que tem alguma dimensão estética, o que seja, social, o que seja. São filmes que se tiver 30, 50 mil espectadores já é extraordinário. No mundo todo o documentário é um lixo pequeno. Pensa que na França é diferente? Passou um filme que tem 100 mil espectadores e é extraordinário, é uma festa. Na França! Entende? As pessoas vão ao cinema para ver histórias inventadas com atores. Baseadas em fatos reais ou não, mas simplesmente vão para o cinema sonhar. Sempre foi assim. E agora é sonhar em 3D. E aumentou até o nível de diferença de um cinema para o outro. Não dá pra competir com os filmes 3D americanos. Não tem como o brasileiro fazer isso. Agora daí, de repente, pega essa esquema de novela e tal e faz o filme. São exceções. Mas o conjunto do cinema, o cinema brasileiro foi, é, e será sempre marginal. O próprio cinema vai passar a ocupar um lugar marginal. As pessoas vão ver filme aonde? Até em celular. Entendeu? Então o ato social de ver filme vai ficar menor, vai ficar como teatro. Ou então filmes que exigem telas gigantescas IMAX, sei lá. Os caras vão ver lá, vão ver esse tipo de cinema.

Voltando ao Cabra. Você disse antes que você não tem uma intenção politica com seus filmes. Você diria que nesse filme você teve alguma intenção politica?

Não tem intenção política na medida que a palavra política é equivocada. Todo filme é político. Mas eu estou interessado no social, não no político. Como é que uma sociedade existe? Por que o Brasil é como é? Por que as pessoas são como são? Primeiro, você tem que saber como as coisas são para depois se quiser mudar. No Cabra, eu estava fazendo uma coisa que é diferente porque o Cabra tinha um ato político de fazer o filme, porque tinha história envolvida no filme. Isto é: minha vida parou com o filme. Esse é o fantasma. Como parou a vida dos camponeses. Então apresentou para mim uma dimensão psicológica, é realmente um filme de um caráter politico mas a partir de uma coisa pessoal também. Peões, não. Qualquer cara pode filmar a greve dos operários. Eu fui e fiz um filme lá, mas não tem nada ver com Cabra.

Por isso você quis que o enfoque do peões fossem nos metalúrgicos em vez de políticos?

Tem uma divisão né? Tem a história do Lula e o João [Moreira Salles] estava interessado e eu não, até pelo fato de que é o tipo de filme que tem que negociar cada dia o que filmar etc. Tinha que pedir ajuda ao sindicato foi muito trabalhoso, muito penoso. Cem mil sindicalistas. E eu tinha que achar gente que o sindicato queria e encontrar gente que dissesse coisas que não fossem evidentes. Então teve uma limitação. Não faço mais filme politico, histórico. Em princípio não faço mais.

O Peões deve ter sido difícil porque você estava pegando uma região inteira não era como o Master que você ficou num prédio só…

Esse é o problema, ficou um negócio amplo demais. Só se eu ficasse um ano fazendo pesquisa que era impossível. A prisão espacial é essencial para mim. Eu preciso ter uma prisão espacial e naquela prisão eu sou inteiramente livre. Essa pobreza espacial é essencial pra eu não procurar ideologicamente aquele cara interessante. Não, nesse prédio eu tenho que achar um filme. Todos os filmes que eu filmo a regra é essa: num lugar tem que achar um filme. Até agora pelo menos tenho achado uns filmes que não são iguais. Mas são sempre num lugar só. Tirando Peões, todos os filmes que eu fiz recentemente são num lugar só. Numa vila que tem 80 famílias, num canto de lixo, num teatro de gente que responde a um anúncio. Se eu não pedir nada para a pessoa fazer e conversar meia hora com ela, ninguém mais controla se está filmando ou se não está. Não tem como conversar meia hora e a pessoa ficar engessada. Ou fica e sai do filme.

Igual àquele momento no Peões que o rapaz está falando e a esposa não quer participar, ela fala mas não quer aparecer.

Isso é extraordinário! Justamente houve uma briga porque o fotógrafo queria que minha assistente filmasse ela. Eu não quis e ela teve razão de não ter filmado porque o que me interessava era ela fora [de cena]. Ela sai da filmagem, portanto contra, daí ela às vezes dava palpite. Foi maravilhoso. Quem está no campo, quem está fora do campo isso é essencial. Ao lado estava o filho deles que é débil mental. Então tinha, a meio metro do quadro, no sofá, um filho de vinte anos completamente nervoso que gemia. Eu até perdi uma sequência interessante porque entrava o gemido do cara. Você filmando e tinha o cara aqui, a mulher aqui atrás e aqui do lado do sofá o filho gemendo. Não é que ele está com dor,  o cara tem problemas gravíssimos. E você filma e…pra eles é normal, eles vivem com aquele filho, então é normal pra mim, e vamos filmar.

A sua infância teve alguma coisa a ver com seu envolvimento no cinema mais tarde?

Não, eu era cinéfilo, uma pessoa que via filme. Ser cinéfilo é assistir três filmes por dia, anotar no caderno. Quando eu tinha dez anos eu fazia isso. Agora era impossível pensar no cinema brasileiro. Eu vi nove vezes uma chanchada, Carnaval no fogo. O que eu via de cinema brasileiro era chanchada, carnaval. Isso até 1951, 52. Fora isso eu via cinema americano, depois argentino, mexicano. Depois neorrealismo, até que eu fui estudar cinema e passei a me interessar. Mas isso de fazer cinema foi um passo gigantesco que só foi possível depois que eu voltei da Europa em 1960, 61 quando o Cinema Novo começou a nascer e se tornou possível fazer cinema no Brasil. De uma forma marginal, mas de qualquer maneira uma tentativa de ver o Brasil que não tinha aparecido no cinema brasileiro de antes. E fora da chanchada que realmente já não precisava mais porque com a chegada da televisão a chanchada não tinha mais mercado.

Se o Brasil não fosse não atrasado naquela época teria sido possível você entrar antes no ramo do cinema?

Isso não sei. Antes do Cabra, em que eu já tinha uns 40 anos, tudo que eu fizesse não tinha importância. Só quando eu fui filmar o Cabra que eu me libertei. Tudo que eu fiz antes não importa porque eu não sabia o que eu queria da vida. Quando eu fui fazer o Cabra, eu sabia o que queria fazer. Trabalhei cinco, seis anos, pesquisa, filmagem e fiz um filme à altura do que tinha sido a história. Depois fiquei 15 anos praticamente sem fazer filme até fazer o Santo Forte.

Se o Santo Forte não tivesse tido tanto êxito…

Se não fosse a produção do Santo Forte, eu tava morto. Se a repercussão crítica fosse ruim ou ninguém fosse ver, é possível que eu desistisse. Mas a verdade é que eu confiava, sempre confiei no filme falado que era como era e tal. Meus amigos diziam que era impossível, que ninguém ia aguentar. Todos os meus amigos, todos. Tirando uma pessoa da equipe, todos. “Não, é impossível, é uma tortura etc.” Mas foi gravado, foi aceito e foi maravilhoso. O documentário teve cinco prêmios e o público foi de 18 mil pessoas, o que até hoje é difícil fazer, e a crítica foi maravilhosa. Pensei “ Pô, achei, finalmente achei e eu quero continuar a fazer isso” e fiz e não parei de filmar de lá pra cá.

Tem documentário que mostra um caso isolado, por exemplo, de uma criança  pobre que trabalha nas minas da Bolívia e você como espectador se sente muito deprimido e culpado. Mas quando você sai dali você não sente continuidade…

Tem um monte de filmes que se aproximam do outro. Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, americano adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Então existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco…sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.

Eles colocam aquela narração em off que é uma voz assim divina falando…
                   
Quando tem voz em off é pra tratar da pobre vítima da crueldade, os mineiros da Bolívia. E tratam de um jeito que é pra fazer o cara ter culpa, chorar.  Não estou fazendo filme pra ONG, pra arranjar dinheiro. Eu fiz o filme sobre o lixo, ninguém me deu dinheiro pra terminar. Pra começar sim, pra terminar foi difícil. Por quê? Porque se eu dissesse que era pra promover um sindicato, eu ganhava. Se fosse catador que queria fazer um sindicato. Porque esses são os filmes que são politicamente corretos. Como meu filme não era, era o cotidiano dos catadores só, ninguém deu dinheiro.  

De todos os seus filmes, qual abriu mais portas para você?

Eu me identifiquei com o Cabra. Se não fosse pelo Cabra estava na televisão, TV Globo até hoje, eu estava morto. Fora o Cabra, foi o Santo Forte. Agora, prazer tive em quase todos. Se eu não tivesse prazer eu não fazia. Não sou missionário.

Você acha que Cabra não seria um filme tão bom se não tivesse sido retomado anos depois?

Evidente. Teria sido um documento de época importante mas o filme é um filme com 70 camadas de sentido histórico. É uma revisão da história do Cinema Novo, do cinema brasileiro que inclui tudo: jornalismo, história, cinema, linguagem. Exatamente porque é um filme que conta a história do filme, cinema e história todo tempo, lado a lado. É extraordinário que eu consegui, porque eu soube fazer, tive um montador que me ajudou, tive um fotógrafo que me ajudou a fazer. Enfim, é um filme que aguenta até hoje porque ele não é um filme triunfalista. Ele lida com uma verdade do personagem e não com discurso. Os filmes em geral políticos são triunfalistas, tomamos o poder. Mentira. Jamais faria um filme assim. Quando se ganha se perde também porque dura dez anos. E esse é um filme muito chão, muito simples. Cabra tem dispositivos de montagem extraordinários, tem jornal, manchete, o filme antigo, o filme que eu filmei na UNE, filmes de outras pessoas. Tem filme americano que eu roubei pra usar a imagem, que não paguei, graças a Deus. E a aventura foi essa.

Por que você acha que mudou tanto sua visão entre o primeiro e o segundo filme?

Eu comecei a fazer documentário na TV Globo e eu comecei a descobrir que era aquilo que eu queria fazer. Aí foi uma escola pra fazer o Cabra porque a rapidez que se trabalha em televisão me ajudou a fazer isso depois de uma forma muito mais refinada. Então me ajudou, me educando e me deseducando. Cabra é um filme de suspense porque eu também não sabia o que eu ia encontrar. Quando fui filmar [pela segunda vez] eu não via a Elizabeth [personagem de Cabra] há 17 anos, exatamente o tanto de tempo quanto o espectador… Fui encontrar 17 anos depois, conhecer os filhos. Conheci eles quando filmei eles em 1962, 64 e fui lá ver eles 17, 18 anos depois como está no filme. Eu tinha que chegar filmando.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Nelson Mandela morre, aos 95 anos

O líder sul-africano Nelson Mandela faleceu hoje, aos 95 anos, em sua casa, em Johanesburgo. Ficou preso 27 anos devido ao apartheid, regime que separava brancos e negros. Liberto, foi presidente da África do Sul entre 1994 e 1999. Tornou-se um líder mundial admirado por diversos presidentes, de Fidel Castro, até Bill Clinton, Fernando Henrique Cardoso e Lula.


Nelson Mandela se tornou um símbolo da luta dos negros. Aqueles que eram "burros", "inferiores", "subalternos" e "defeituosos" por sua cor de pele. Que o consenso em torno de seu nome nos ajude contra os outros preconceitos, sobretudo de sexualidade, gênero e situação econômica.

Falta um Mandela pelos gays. Um Mandela pelas mulheres. Um Mandela pelos pobres. Há grandes mulheres, gays e pobres, mas as injustiças seguem. Falta reconhecimento como o que existe ao líder Nelson Mandela.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

"Todo o poder aos estudantes"

Edson Flosi, ex-professor de Jornalismo Jurídico na Faculdade Cásper Líbero, ex-jornalista da Folha de S.Paulo na era Cláudio Abramo, advogado e eterno repórter faleceu da manhã desta quarta-feira, dia 5 de junho de 2013. Ele tinha 73 anos, estava internado desde sexta-feira (31) no Hospital AC Camargo e lutava contra um câncer há sete anos.


Fiquei chateado de verdade com este falecimento. Descanse em paz, professor.

Obrigado pela piada que fez a gente chorar de rir na sala de aula, envolvendo um macaco que o senhor adotou após uma reportagem com índios. Obrigado pelo jornalismo romântico e muito anterior à internet que o senhor sempre defendeu. Obrigado pela lucidez, apesar de sua avançada idade. E obrigado, muito obrigado mesmo, pelas boas histórias do jornalismo policial, do Direito e da vida.

A grande imprensa, seus alunos da Cásper e admiradores de suas reportagens estão em luto. E não esqueceremos do senhor. Quando o senhor foi demitido injustamente, fomos até a rua protestar contra aquele absurdo.

E como ele disse, depois de ser demitido da faculdade: "Todo o poder aos estudantes".

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Memória: Morte de Albert Camus completa 53 anos


Albert Camus, escritor, romancista e jornalista da Resistência Francesa, faleceu no dia 4 de janeiro de 1960, em um acidente de carro, a caminho de Paris. Foi um dos autores que melhor retratou subdesenvolvimento e o absurdo em seus livros. Sua morte completa 53 anos. É uma leitura preciosa para quem quer entender a França e seu país colonizado, a Argélia, que guarda semelhanças com o Brasil.

Acima está uma fotografia da capa do jornal Combat, onde ele foi editor, no dia de sua morte.

terça-feira, 17 de julho de 2012

O adeus de John Lord, tecladista roqueiro e erudito do Deep Purple



O tecladista John Lord morreu de embolia pulmonar aos 71 anos, ontem, dia 16 de julho de 2012. Ele estava em tratamento contra um câncer no pâncreas. Nascido em 1941, ele criou o Deep Purple com Ian Paice em 68, dando origem a uma banda que ditou tendências do hard rock e dos roqueiros que buscavam referências eruditas e pesadas em suas músicas. Saiu da banda em 2002.

Fez parte do Whitesnake entre 78 e 84. Em sua carreira solo, criou melodias orquestradas e fez inclusive uma apresentação na Virada Cultural de São Paulo, em 2009.

O músico recebeu uma bela homenagem na Folha de S.Paulo em um obituário assinado pelo jornalista Marcelo Soares, fã do Deep Purple e da carreira de Lord. Para quem não pode conferir o tecladista ao vivo, ele foi responsável pelas belas composições e solos de clássicos do rock´n´roll como Smoke on the Water e Highway Star. Ficará imortalizado tanto pelas referências a Beethoven que colocava em suas músicas quanto pelos ótimos duetos com o guitarrista Richie Blackmore e o vocalista Ian Gillan.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

As boas homenagens à vida de Steve Jobs

Veja as boas homenagens que os sites brasileiros fizeram ao que foi a vida e a morte de Steve Jobs, ex-presidente da Apple e um dos marketeiros mais inovadores da informática:



Pessoal do Nerdcast fez um programa sem risadas, sem "lambda, lambda, lambda" na abertura e com muita informação pessoal sobre a influência do tabalho de Jobs em suas vidas. Vale cada segundo ouvido no podcast (audiocast).


O Rapaduracast não gravou um programa de audio, mas recomendou seu cast sobre a história da Pixar. E fez uma pequena homenagem que pode ser lida aqui.


O UOL, assim como a maioria dos portais de notícias da web, reproduziu um discurso de Jobs na Universidade de Stanford, em 2005. Vale por cada minuto.

Steve Paul Jobs faleceu aos 56 anos



Steven Paul Jobs morreu junto com sua família no dia 5 de outubro de 2011, aos 56 anos. A informação foi divulgada pelo próprio site da Apple, que publicou uma foto com sua data de nascimento e morte (segunda foto). Essa foi a notícia da semana, que ecoará por décadas, tanto por sua história quanto pelo seu legado  na criação de empresas inovadoras, como Apple, NeXT e Pixar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Albert Camus pode ter sido morto pela KGB, diz Corriere della Sera

O escritor franco-argelino Albert Camus morreu em um acidente de carro, segundo a história oficial, em 1960. De acordo com o jornal italiano Corriere della Sera, a morte do intelectual de esquerda europeu pode ter acontecido de outra forma. Baseado em dados de um acadêmico chamado Giovanni Catelli, Camus teria sido morto por uma emboscada de soviéticos, a caminho de Paris.

A fonte do jornal italiano é um poeta e tradutor tcheco Jan Zábrana, em um trecho perdido de seu livro Celý život, que foi alterado antes de chegar na Itália. No trecho excluído, constava: "Eu ouvi algo muito estranho da boca de um homem que sabia muitas coisas e era muito bem informado. De acordo com ele, o acidente que custou a vida de Albert Camus em 1960 foi organizado por espiões soviéticos". O escritor diz que a KGB teria danificado a roda do carro em movimento, provocando o acidente.

O biógrafo de Camus e correspondente da BBC em Paris, Olivier Todd, não acredita nessa versão da história. Para ele, ninguém se beneficiaria politicamente na época com o assassinato de um escritor vencedor de prêmio Nobel.

Via Guardian

sábado, 2 de julho de 2011

Morre o ex-presidente Itamar Franco


Faleceu neste sábado, aos 81 anos, em São Paulo, o senador e ex-presidente da República Itamar Franco. Segundo o Hospital Albert Einstein, o tratamento quimioterápico contra a leucemia do político surtiu efeito. No entanto, o senador contraiu uma pneumonia e teve outras complicações. A morte aconteceu às 10h15.

Via Exame

terça-feira, 13 de julho de 2010

Um funeral em forma de CD?


Uma despedida? Um adeus antecipado? Muitas perguntas saltam na cabeça do ouvinte atento de Scream, o novo álbum do criador do heavy metal Ozzy Osbourne. No entanto, pelo menos uma resposta é bem dada nas onze faixas do CD novo, lançado mês passado: o astro do rock´n´roll está em forma, fazendo o som agressivo que contagia e que é esperado por seus fãs. Nada melhor do que uma música dessas para este Dia do Rock.


A peça abre com Let it Die, onde é possível acompanhar o talento confessional de Ozzy aliado à excelente cozinha de baixo e teclado composta por Rob "Blasko" Nicholson e pelo filho do ícone do Yes, Adam Wakeman. "I'm a rock star,I'm a dealer / I'm a servant, I'm a leader / I'm a savior, I'm a sinner, I'm a killer / I'll be anything you want me to be". Osbourne se define com muitos nomes que mostram a sua vida instável. A guitarra do novato Gus G. dá suas primeiras explosões, com acordes mais concisos em relação ao antecessor Zakk Wylde. A voz de Ozzy é modulada no começo para não ser reconhecida, mas, ao longo da canção, ele vai se revelando, entre todas as definições instáveis. E sua mensagem final é "let it go, let it die", isto é, deixe tudo ir embora, morrer.

Com esse tom confessional e se liberando de definições, a guitarra de Gus novamente causa uma explosão em Let Me Hear Your Scream. Feita para tocar em qualquer situação, essa música dá o tom do novo álbum: um simples grito de um rockstar que está na fase final de sua carreira, mas em plena forma. Ozzy quer também ouvir os sons de quem o ouve, e convida as pessoas a lançarem seus gritos. Nesse pedido que, aparentemente, é violento, está também o catarse da sua música, que deve ser apreciada na adrenalina.

Soul Sucker mostra mais claramente o propósito do CD, pois Ozzy confronta seus fantasmas de um passado de abuso de drogas e problemas pessoais. O tom lento traz um pouco de melancolia, mas nosso astro consegue vencer essa assombração. Life Won´t Wait é uma das mensagens mais positivas que Ozzy Osbourne poderia trazer depois de tantos obstáculos à sua sanidade: "When it's gone, it's gone / A fight 'til the bitter end / Life won't wait for you, no / Life won't wait for you, my friend". Essa letra marcante é mesclada entre passagens acústicas e uma guitarra agressiva de Gus G. É a música sobre como resistir, não se render ao que pode te atrasar na vida e, acima de tudo, aceitar a velhice passando a tocha para frente.

Com o emocional à flor da pele, Ozzy lança a pesada Diggin´Me Down, trazendo questionamentos religiosos. Duvidando da crença cega e das falsas luzes, o vocalista questiona Deus e o próprio Jesus Cristo, orquestrado por todo o instrumental pesado. Crucify estende a crítica do divino aos problemas materiais e toda a sua mentira. A crucificação é o rompimento dos lanços verdadeiros entre as pessoas.

Fearless é uma música que traduz o espírito guerreiro de Ozzy, muitas vezes repleto de crueldade, mas tendo uma outra face de desafio contra os males que o aflingem. A música que se segue é de emocionar ainda mais quem acompanhou a carreira do fundador do Black Sabbath. Em Time, Ozzy Osbourne assume sua derrota diante do tempo, em um clima tão leve quanto Changes, mas extremamente melancólico. A guitarra de Gus G. se une a uma letra que mostra toda a instabilidade de viver. Não se deve fazer as coisas por um futuro e nem viver intensamente o presente. Em tudo, Ozzy enxerga insuficiência, mas que é natural do tempo em si.

I Want it More traduz a vontade do vocalista em viver mais, ao mesmo tempo em que se constata que a vida é insuficiente em si. Latimer´s Mercy parece um pedido de misericórdia para se retornar ao início de tudo. I Love You All é uma faixa de apenas um minuto que traduz a conclusão que Ozzy tirou toda a vida: não é possível viver sozinho. Ele agradece então a todos e diz que os ama. É uma declaração aberta tanto aos fãs quanto aos que o testemunharam de perto.

Ouvir todas essas canções e ver a capa do CD dá realmente a impressão que o compositor Ozzy está, de alguma forma, se despedindo das pessoas. Vestido de sobretudo, com asas e segurando uma bandeira preta, Ozzy Osbourne está pronto para encarar a morte. E ver um trabalho com tamanha ligação com sua vida particular é enriquecedor para seus fãs e para o rock´n´roll como um todo. Um trabalho digno para ser lembrado, embora ninguém realmente queira que a morte o leve.

domingo, 16 de maio de 2010

Morte de Dio, último ícone do metal


“In the misty morning, on the edge of time / We've lost the rising sun, a final sign”.
Black Sabbath, Children of the Sea


Como diz a letra de Children of the Sea, música de um dos álbuns mais famosos do revolucionário Black Sabbath, perdemos hoje um verdadeiro sol, o último sinal, o maior ícone do heavy metal mundial: o vocalista Ronnie James Dio.

Dio foi responsável por inspirar gerações de amantes do metal e compor algumas das canções mais exaustivamente entoadas pelas legiões de fãs. Tive a oportunidade de ver como, em sua última turnê pelo Brasil, todos acompanhavam a letra de Holy Diver sem perder uma única palavra e, é claro, falhando miseravelmente ao tentar reproduzir os agudos do mestre.

Com uma presença de palco fantástica, Dio incitou o Black Sabbath, o Rainbow e sua banda Dio a acompanharem seu vigor. Ao mesmo tempo, levou a platéia à loucura com as nuances inacreditáveis e o alcance de sua voz. Também, não era para menos. O transe, o mal e a insanidade eram alguns de seus temas favoritos.

Na abertura de shows de outras bandas, enquanto os artistas não entravam no palco, Don´t Talk To Strangers e Rainbow in the Dark eram tocadas como verdadeiros hinos do metal e verdadeiros representantes do gênero. Mesmo em músicas menos conhecidas como I, do Dehumanizer, Dio nunca perdia o vigor e demonstrava até onde sua voz potente e rasgante podia chegar: as portas do inferno.

Falando em inferno, eu costumava me perguntar se Dio, por acaso, não tomou sua voz emprestada de algum demônio. Depois de vê-lo em pessoa, cheguei à conclusão de que não. Se o chifrudo estivesse de passagem pela Terra, Dio com certeza o mandaria de volta para aquele lugar cheio de fogo só com a força de seus pulmões.

Dio morreu de câncer depois de uma longa luta, e com ele foram nossos profundos sentimentos. A sensação de perda é inevitável, pois foram tantas as contribuições, tantas as composições inigualáveis, que dá até um certo medo. Será que Dio levou o metal com ele?

A resposta, certamente, é não, pois ele foi um daqueles gênios inesquecíveis cuja morte só contribui para aumentar a fama. O metal está bem aqui, firme e forte como Dio o consolidou. E o mestre, agora, livre da dor do câncer, quer esteja no céu ou no inferno, deve estar tirando de lá inspiração para novas músicas.

Posts mais lidos