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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Exposição: Albert Camus admirou e criticou o Brasil, ao visitar nosso país

Começou, no dia 5 de dezembro de 2013, a exposição gratuita O País da Desmedida: Camus no Brasil, que aborda a vida, a carreira e a visita do escritor franco-argelino Albert Camus ao nosso país. Produzido pelo Centro Universitário Maria Antonia (que fica na frente do Mackenzie, antiga FFLCH) e pela USP, com pesquisa realizada pelo grupo Criação & Crítica que é coordenado pela professora Claudia Pino, do Departamento de Línguas Modernas da Universidade de São Paulo. Eu fui conferir a exposição.

Chegada de Albert Camus no Brasil. Foto: Acervo do jornal O Estado de S. Paulo
A exposição mostra anotações, desenhos e memórias de Camus no Brasil, no ano de 1949. Muitos desses manuscritos se tornaram o livro Diário de Viagem, lançado em 1978. A mostra também mostra a trajetória de Albert Camus em nosso país, chegando de barco no Rio de Janeiro e indo embora até Paris de avião. Camus é retratado como um escritor gentil em entrevistas, mas rude e crítico acerca do Brasil, um país que despertou sentimentos ruins e confusos nele por sua pobreza. Sua dor pela tuberculose também é retratada na homenagem, que afetou sua percepção durante a viagem.

Poster da exposição de Camus pela USP
Há também os relatos de intelectuais brasileiros sobre Albert Camus, como Manuel Bandeira, Otto Lara Resende, Otto Maria Carpeaux e Érico Veríssimo. As fotos mostram Camus no Cristo Redentor, com a arquiteta Lina Bo Bardi. Na mesma época, o escritor foi entrevistado pelo jornalista Cláudio Abramo, que trabalhava no Estado de S. Paulo e editaria a Folha durante a Ditadura Militar.

Fotos de Camus no Brasil e um trecho: "O Brasil com sua fina armadura moderna, uma chapa
metálica sobre esse imenso continente fervilhante de forças naturais e primitivas".

A mostra tem curadoria de Ana Cândida de Avelar e Lara Rivetti. Os relatos são acompanhados por três vídeos: O documentário Albert Camus, Une Tragédie Du Bonheur (de Jean Daniel e Joel Calmettes, França, 1998),  uma entrevista com o especialista no escritor Manuel da Costa Pinto (no Centro Universitário Maria Antonia, em 2013) e uma entrevista com a professora Inés de Cassagne (também no Maria Antonia, em 2013).

Essa exposição vai até o dia 23 de fevereiro. Por que você não dá uma conferida, caso se interesse pelo autor?

Desenhos e anotações de Camus no Brasil

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Os textos na grande imprensa sobre o centenário de Albert Camus

Publicações que combateram Camus em vida, como o Le Figaro, e jornais americanos e brasileiros prestaram homenagens ao Nobel franco-argelino. O centenário de Albert Camus é hoje e muitos veículos de imprensa ressaltaram seu legado cultural, literário, filosófico e até político, sobretudo na crítica da esquerda. Foi uma vida de 46 anos dedicada à intelectualidade.


(Albert Camus, conflitos autorais deploráveis de uma celebração)

(Centenário do nascimento de Albert Camus: Uma homenagem limitada devido às polêmicas)

(O centenário de Albert Camus ocorre sem homenagem oficial)

(Sísifo, o homem feliz que nos lembra Albert Camus)

(Albert camus: Autorretrato do homem que buscava a felicidade)

(Albert Camus, filosofia de um espontâneo)

Los Angeles Times - Albert Camus -- forever modern
(Albert Camus - Moderno pra sempre)

(Sete fatos que você não sabe sobre Albert Camus)

(Albert Camus: Centenário segue sem muitas honrarias em seu lar)

(Quão absurdo: O mundo como Albert Camus enxergava)





Observatório da Imprensa (Via O Globo) - Camus e a busca por um jornalismo crítico e independente

O Estado de S.Paulo - O homem deprimido

Albert Camus completa 100 anos hoje

"Em 8 de novembro ele [Lucien Camus] se apresenta na prefeitura [de Mondovi, atual Dréan, na Argélia] com duas testemunhas e declara o nascimento de seu segundo filho, no dia 7. Um só nome, Albert. Na época, de cada 40 franceses um se chama Albert. Camus Albert consta no registro entre dois muçulmanos, Khadidja (gerânio). A primeira testemunha, Piro Jean, diz-se comerciante. Nascido na Sardenha, seria, antes, hortelão. A segunda, Frendo Salvatore, nativo de Mondovi, declara-se empregado. Ele entrega sêmola e massas para o merceeiro Zamathé. Lucien Camus, esclarece o registro, é de 'origem francesa'".

De Olivier Todd, jornalista com passagem pelas publicações Nouvel Observateur e L'Express. Autor da biografia Albert Camus, Uma Vida, lançada em 1996.


Albert Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, exatamente há 100 anos atrás. O horário preciso não consta nos registros, mas ele nasceu no seio de uma família de classe média baixa argelina, de origem na França. Lucien, seu pai, era descendente dos primeiros colonizadores da Argélia, trabalhava no cultivo e na colheita de uva para fazer vinho. Foi convocado para servir como militar na Primeira Guerra Mundial. Morreu no dia 11 de outubro de 1914 metralhado por uma arma Maxim, antes do filho Albert completar um ano.


Catherine Helène Sintès-Camus, a mãe, cria os filhos Lucien e Camus ao silêncio, sob a supervisão austera da avó materna também chamada Catherine. A mãe é empregada doméstica e analfabeta. Meio surda, também. As duas mulheres transformam-se em personagens nos livros de Albert Camus, por viverem a decadência e a pobreza de uma vida menos abastada na Argélia, a colônia da França.


O irmão mais velho Lucien torna-se contador. Ele vai estudar Filosofia em Argel, na capital, e desenvolve um excelente dom para textos. No entanto, vive sob pressão do pouco financiamento e envereda para a imprensa. Escreve no Sud, no Alger Étudiant [Argel estudantil], teve uma coluna de discos no La Presse Libre [A imprensa livre] e no Alger Republicain, onde consegue maior repercussão em 1938. Casa-se com Simone Hié em 16 de junho de 1934. Divorcia-se no ano seguinte, por infidelidades conjugais. Ela era viciada em morfina. "Tento fazer jornalismo para continuar minha licenciatura. Estou tão cansado, tão arrebentado. Sentimo-nos envelhecer, aos 20 anos. Bem sei que, se estou sofrendo, estou vivendo plenamente. Sei que o sublime não se separa do trágico, mas às vezes o trágico se sepra do sublime: Quando ele nos aperta demais", diz o escritor e pensador, na época.


Ingressou no Partido Comunista Argelino e depois no Francês, iniciando sua educação política de esquerda no ensino superior. Era apaixonado por futebol e era fumante compulsivo. O governo da República de Vichy, de Paris, se alinha aos alemães nazistas contra a União Soviética, fortalecendo o engajamento de oposição dos intelectuais politizados que não faziam parte da gestão. Camus entra nessa disputa política na capital da França, mesmo sendo um franco-argelino pé-preto (pied-noir). Trabalha brevemente no Soir-Republicain, em 1939.


O passaporte de Camus para Paris, em meados de 1940, é um período de experiência na redação do Paris-Soir, que imprime até um milhão de exemplares. Vive um exílio forçado e politicamente voluntário na França, distante da mãe e cada vez mais engajado nos assuntos da guerra. Escreve O Estrangeiro, o livro que viria a se tornar sua maior obra escrita. Casa-se com Francine Faure, uma pianista e matemática fã de Bach.


Estrangeiro é publicado em 1942 e custa 25 francos. Narra um protagonista que vive o presente, sem ligações com seu passado e futuro. Esse personagem comete um assassinato e não consegue justificá-lo para os demais. Ele é a figuração do conceito de absurdo, que seria abordado em ensaios e reflexões filosóficas de Camus. Os editores Michel e Gaston Gallimard divulgam Albert Camus na França. O melhor resenhista de sua obra é Jean-Paul Sartre, que o apresenta para o círculo de intelectuais parisiense. Sartre é a ponte para Camus da subdesenvolvida Argélia para a potência francesa.


Junto com Pascal Pia, seu antigo editor, Albert torna-se redator-chefe do Combat, em 1944, escrevendo textos opinativos e descritivos sobre o front de combate na Segunda Guerra Mundial. É o ápice de seu engajamento político, amizade com Sartre e exercício literário simultâneo ao trabalho de jornalista. Ele tem 31 anos. O livro O Mito de Sísifo o transforma praticamente em um filósofo, embora ele mesmo negue o rótulo, apesar de sua formação universitária.


Pia fica admirado pela escrita corajosa de Camus, lendo os editoriais em voz alta. O franco-argelino traz um tom crítico quando os americanos jogam bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, mas manifesta pesar pela morte do presidente Franklin Roosevelt. O jornal transforma-se na voz da Resistência Francesa, de esquerda, em oposição ao Le Figaro, conservador, e ao Défense de la France, sensacionalista.


Resume os males da guerra global na obra de ficção A Peste (1947), que foi terminada com muitos conflitos internos. Deixa também o Combat. Vive um período conturbado em sua amizade com Sartre. O amigo francês vai apoiar a URSS de Stalin. Ele sente os excessos do bloco comunista, mas não se alia aos capitalistas. Começa a esboçar o livro O Homem Revoltado. O Paris-Soir lança o sensacionalista Paris-Match em 1949. A imprensa deixa, aos poucos, seu lado intelectual e se torna fortemente comercial, o que o desagrada profundamente. Visita o Brasil, tanto Rio de Janeiro quanto São Paulo. Dá uma entrevista coletiva com a presença de Cláudio Abramo, o diretor do jornal O Estado de S.Paulo.

O ensaio sobre a revolta traz ideias suicidas até Camus, que transforma questões pessoais em fundamentos de sua análise. Uma carta em seu livro O Homem Revoltado, lançado em 1951, menciona os "intelectuais burgueses que querem expiar suas origens", sem citar nominalmente Jean-Paul Sartre. O francês responde, lamentando a perda da amizade. A obra crítica de Albert Camus, sobre as falhas do engajamento comunista, é o estopim de uma separação. Os conflitos das Coreias, da Argélia e de outras questões geopolíticas da Guerra Fria aumentam a diferença entre Sartre, que divulgou Camus em Paris, e o franco-argelino vindo de um mundo subdesenvolvido.

Em 1955, Camus entra no jornal de centro-esquerda L'Express, que convive com a ascensão do comercial Le Monde. Mantém-se pacifista nas questões da independência da Argélia, sua terra natal, o que lhe custa novas inimizades. Sai da publicação em 1956. Em 57, ganha o Prêmio Nobel de Literatura por uma obra "notável num sentido idealista".

Escreve os rascunhos de O Primeiro Homem, livro inspirado em sua vida e com o personagem Jacques Cormery. Em 3 de janeiro de 1960, iria pegar um trem com a mulher Francine. Por insistência de Michel Gallimard, seu publisher, retorna para Paris de carro. Morre no dia 4, às 13h55, com o impacto na hora. Tinha 46 anos. Gallimard morreu cinco dias depois, no hospital. Bateram em uma árvore no acidente.

"A seus amigos, Camus dizia com frequência que nada era mais escandaloso do que a morte de um criança e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel".

Trecho da biografia de Olivier Todd.

No Google francês e no espanhol, a empresa de tecnologia e buscas fez uma homenagem ao centenário de Camus com um logotipo estilizado e inspirado no livro O Mito de Sísifo. Veja o Doodle abaixo.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Palestra vai abordar carreira jornalística de Albert Camus e filosofia moral

Farei uma palestra sobre minha iniciação científica iniciada na Faculdade Cásper Líbero, chamada O Jornalista Albert Camus, e abordarei tanto a imprensa clandestina francesa na Segunda Guerra Mundial quanto questões filosóficas sobre o tema. O evento será no dia 23 de agosto, às 19h30, na sala 110 da Faculdade de Filosofica, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). A palestra vai divulgar o jornal Discurso Sem Método, do CA do curso de Filosofia. Mais informações, abaixo:


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Memória: Morte de Albert Camus completa 53 anos


Albert Camus, escritor, romancista e jornalista da Resistência Francesa, faleceu no dia 4 de janeiro de 1960, em um acidente de carro, a caminho de Paris. Foi um dos autores que melhor retratou subdesenvolvimento e o absurdo em seus livros. Sua morte completa 53 anos. É uma leitura preciosa para quem quer entender a França e seu país colonizado, a Argélia, que guarda semelhanças com o Brasil.

Acima está uma fotografia da capa do jornal Combat, onde ele foi editor, no dia de sua morte.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Manifesto inédito de Albert Camus é divulgado pelo Le Monde



No dia 18 de março de 2012, o jornal Le Monde publicou um manifesto inédito de Albert Camus. O texto ia ser publicado no Le Soir Républicain, um jornal argelino, mas foi censurado. Na época, estava começando a Segunda Guerra Mundial.

Nesse ensaio, Camus disserta sobre o que ele acredita ser a liberdade de imprensa e o jornalismo livre. Se você quiser ler na íntegra, clique aqui. Confira um trecho abaixo.

"É difícil hoje para discutir a liberdade de imprensa sem ser taxado extravagante, acusado de ser uma Mata-Hari (famosa assassina e espiã holandesa), ou convencido de que se é sobrinho de Stálin.

(...)

A lucidez requer treinamento de resistência aos aspectos do ódio e ao culto da desgraça. No mundo de nossa experiência, é certo que tudo pode ser evitado. A própria guerra, que é um fenômeno humano, pode ser evitada ou parada a todo o momento por meios humanos. Basta conhecer a história dos últimos anos da política europeia para ter certeza de que a guerra, seja qual for, tem causas óbvias. Essa visão clara das coisas exclui o ódio cego e o desespero que se formam. Um jornalista livre, em 1939, não se desespera e luta por aquilo que ele acredita ser verdade se a sua ação puder afetar o curso dos acontecimentos. Ele não publica nada que possa despertar o ódio ou que provoque desespero. Tudo isso está em seu poder.

Diante da crescente onda de loucura, também é necessário se opor a certas recusas. Todas as restrições do mundo não criarão um espírito que concorda um pouco em ser desonesto. O ouro, e pouco sabemos sobre os meios de informação, é fácil ser verificado em sua autenticidade. Um jornalista livre deve oferecer toda a sua atenção. Pois, se ele pode dizer o que ele pensa, ele não pode dizer o que ele não pensa ou o que ele acredita ser falso. E isso em um jornal livre é medido tanto pelo que ele diz quanto pelo que ele não diz. Essa liberdade negativa é, de longe, a mais importante de todas, se ela se mantiver. Porque ela prepara o caminho para a verdadeira liberdade. Consequentemente, um jornal independente gera suas informações, ajuda o público a avaliá-las, repudia o sensacionalismo, remove invenções, organiza os comentários padronizando a informação, em resumo, ele é a verdade, na concentração das forças humanas. Essa recusa, se ela está é assim, pelo menos, permite que se negue o que nenhuma força na terra pode fazer o jornal aceitar: submeter-se às mentiras.

Isso nos leva para a ironia. Podemos imaginar que uma mente que tem gosto e meios para impor restrições é impermeável à ironia. Nós não vemos Hitler, para dar apenas um exemplo entre outros, usar a ironia socrática. Isso mostra que a ironia continua a ser uma arma sem precedentes contra os poderosos totalitários. Ela complementa a recusa na medida em que permite, ao invés de rejeitar o que é falso, dizer o que é a verdade, muitas vezes. Um jornalista livre, em 1939, não se rende a muitas ilusões sobre a inteligência daqueles que oprimem. Ele é pessimista no que se refere ao homem. A verdade expressa em tom dogmático é recusada por ele nove em cada dez vezes. A mesma verdade de forma jocosa é aceita em cinco de cada dez vezes. Esta disposição é quase igual às possibilidades da inteligência humana. A ironia também explica que jornais franceses como Le Canard e Le Merle se comprometem e podem publicar artigos corajosos conhecidos. Um jornalista livre, em 1939, é necessariamente irônico, mas ele é, muitas vezes, a contragosto. Mas a verdade e a liberdade são exigentes, uma vez que eles tem poucos amantes.

Tal atitude de espírito brevemente definida, obviamente não pode ser sustentada de forma eficaz sem um mínimo de obstinação. Muitos obstáculos são colocados contra a liberdade de expressão. Eles não são mais graves do que desencorajar um espírito. Porque as ameaças, as suspensões e a repressão na França geralmente conseguem o efeito oposto ao que é proposto. Mas devemos admitir que são obstáculos desencorajadores: a constância da estupidez, as organizações covardes, a desinteligência agressiva e, por isso, nós nos desgastamos. Aqui está o grande obstáculo que devemos superar. Obstinação é uma virtude cardeal. Por um curioso paradoxo é evidente que, em seguida, começa nela a objetividade e a tolerância.

(...)

Sim, é muitas vezes a contragosto que um espírito livre do século percebeu sua ironia. O que é engraçado de se ver neste mundo em chamas? No entanto, a virtude do homem é se manter firme diante de tudo o que nega. Ninguém quer reviver esses vinte e cinco anos de experiência, tanto em 1914 quanto em 1939. Devemos, portanto, experimentar um método ainda muito novo de justiça e generosidade. Mas elas são expressas apenas em corações livres e em mentes ainda exigentes. Formar esses corações e mentes, que acordem de vez, é a tarefa tanto do homem modesto quanto do ambicioso que se torna independente. Devemos chegar nisso sem adiar mais. A história será contada ou não através desses esforços. E tudo depende se eles forem feitos."

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Albert Camus pode ter sido morto pela KGB, diz Corriere della Sera

O escritor franco-argelino Albert Camus morreu em um acidente de carro, segundo a história oficial, em 1960. De acordo com o jornal italiano Corriere della Sera, a morte do intelectual de esquerda europeu pode ter acontecido de outra forma. Baseado em dados de um acadêmico chamado Giovanni Catelli, Camus teria sido morto por uma emboscada de soviéticos, a caminho de Paris.

A fonte do jornal italiano é um poeta e tradutor tcheco Jan Zábrana, em um trecho perdido de seu livro Celý život, que foi alterado antes de chegar na Itália. No trecho excluído, constava: "Eu ouvi algo muito estranho da boca de um homem que sabia muitas coisas e era muito bem informado. De acordo com ele, o acidente que custou a vida de Albert Camus em 1960 foi organizado por espiões soviéticos". O escritor diz que a KGB teria danificado a roda do carro em movimento, provocando o acidente.

O biógrafo de Camus e correspondente da BBC em Paris, Olivier Todd, não acredita nessa versão da história. Para ele, ninguém se beneficiaria politicamente na época com o assassinato de um escritor vencedor de prêmio Nobel.

Via Guardian

domingo, 22 de maio de 2011

Conheça o trabalho jornalístico e literário de Albert Camus


Com o propósito de promover uma pesquisa comunitária - como é feito em inúmeros sites na internet - foi criado o site www.albertcamus.com.br. Se você aprecia os livros desse escritor franco-argelino, quer conhecer curiosidades sobre sua biografia ou enviar seus textos sobre Albert Camus, este é seu canal. A nova página na internet vale como mais uma área de debate e construção de conteúdo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O estranho familiar

Texto original do The Blue Writers.

Sempre gostei de encostar a caneta numa folha em branco, manifestando desejo estéril de registrar coisas que não conseguirei lembrar. Não sei se os escritos fluem bem, mas sempre me lembro de referências quando resolvo me manifestar em palavras. E uma experiência surreal, rica, vasta e aterrorizante que me tocou foi a leitura compulsiva do curto e profundo O Estrangeiro, do franco-argelino Albert Camus. Tudo lido em uma tarde de fim de primavera e começo de verão, com um deus solar tão quente e enlouquecedor quanto o calor da Argélia.

Mersault não chora no enterro de sua própria mãe e provoca a revolta silenciosa das convenções sociais. Eu choraria na morte da minha progenitora, mas entendo o personagem. Muitas vezes, não me sinto livre para manifestar abertamente o que sinto, e o jogo social de convenções é muito cruel. Mersault deseja apenas sexualmente sua parceira. E verbaliza isso. E essa mistura de homem e animal é presente em todas as pessoas, mesmo que essa natureza se esconda em uma suposta racionalidade.

Mersault mata um árabe a tiros. Mata a tiros por causa do Sol. Explica isso ao tribunal, que o reprova e o condena à morte. Mersault aceita a morte como uma vitória, porque a aceita e porque não quer entender seus motivos. Tudo, nesse jogo de ação absurda, é gratuito. O mundo, subitamente, ganha um ar de aleatoriedade que é a verdade absoluta dos fatos, mesmo dentro das crendices mais fanáticas no destino. O curso da vida não é nada mais do que a soma de seus fatos, com ou sem razão. Aquela leitura preencheu meu cérebro por horas, dias, meses, anos. Aquele Mersault era o abandono definitivo do passado e do futuro, além da aceitação da condição humana como animal. Animais dotados de sociedade, tecnologia e todo um sistema próprio de linguagem, mas ainda selvagens.

E aquele assassinato tornou-se a metáfora da escrita para mim, que é o amor da minha vida. Escrever é um absurdo. O documento escrito cria uma segurança para o homem. Preenche-o com um passado e um futuro. Preenche nossos conteúdos. No entanto, as reais motivações para se escrever são tão aleatórias quanto matar uma pessoa. Não precisaria escrever, pois outro o faria para mim. Não preciso correr atrás de uma informação, se existe um jornal que pode ser comprado, ou uma fofoca que pode ser ouvida.

Mesmo assim, eu ouso escrever. Ouso assumir o assassinato como Mersault e aceitar a sentença desse ato. A punição por escrever é saber que o passado e o futuro, um dia, serão varridos do mapa. Não há conforto.

domingo, 11 de julho de 2010

Erudir #6: Rascunhos de texto em uma grande obra



O Erudir traz agora um dos autores prediletos daquele que vos fala. Abordando a vida de Albert Camus e sua última obra, póstuma, O Primeiro Homem, trouxemos neste videocast as questões políticas e literárias da primeira parte do século XX, especialmente os fatos que influíram na Segunda Guerra Mundial. Além desses assuntos bem interessantes, vocês entenderão o que há em comum entre o franco-argelino Camus e os próprios brasileiros.

O videocast está sendo um excelente laboratório para trazer temas diferentes. Se você tiver alguma sugestão de escritor para o Erudir ou quiser sugerir outros programas, mande e-mail para boladafoca@gmail.com.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O primeiro homem é orfão

Manuscritos foram encontrados em janeiro de 1960, junto com o corpo de seu autor. Nas anotações, um livro conciso é desvendado nas primeiras páginas. Mas, com o aumento das rasuras e das várias versões de um mesmo parágrafo, a narrativa vai se perdendo a medida que chega em seu final. Nem mesmo com esses pormenores O Primeiro Homem, escrito pelo intelectual e jornalista Albert Camus até o dia de sua morte, perde seu valor. Aliás, o fato de ser um livro incompleto o torna ainda mais compatível com seu tema e seu propósito como romance.

Camus nunca escreveu ficção baseada inteiramente em sua vida pessoal. Mersault em O Estrangeiro não reflete sua personalidade, mas um conceito de absurdo em forma desumana, apesar de ser um personagem. O heroísmo do doutor Rieux em A Peste era contra uma forma generalizada do absurdo. O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado foram ensaios conceituais sobre absurdismo e revolta. Por fim, somente com a história de Jacques Cormely, filho de franceses na Argélia, que Albert Camus decidiu espelhar sua própria experiência como estudante, escritor e estrangeiro em sua própria casa. Nesse contexto existiu o maior absurdo que ele enfrentou em vida: nascer e viver em uma terra miserável tendo a riqueza interior de sempre querer saber mais e ter uma história. O desejo de um marco temporal de Cormely/Camus contrasta com a ausência de um sentido racional da pobreza, com a inexistência do pai, morto pela Primeira Guerra Mundial, além do vazio do calor solar. Todos os simbolos camuseanos de outras obras estão presentes nessa.

E o romance se desenrola em cenas desencontradas no tempo. Em certos capítulos, Cormely aparece crescido e prospero como intelectual. Outros retratam sua infância dificil, dividido entre a vida pobre doméstica e o incentivo de professores na escola, que assumem o papel de seu pai.apagado por uma morte traumática. Camus faz diversas metáforas sobre a capacidade de viagem de seu protagonista principal, alegando que os livros eram sua saída do mundo quente e subdesenvolvido em que ele se encontrava para outros lugares estranhos, mas familiares em seu íntimo.

O primeiro homem de Albert Camus é um órfão. Sua história pessoal, de abandono e busca de alguma memória, é o que o escritor franco-argelino concebe como a primeira busca humana. Se Adão e Eva existissem num universo camuseano, sua origem não seria tão judaico-cristã, mas abandonada, vazia e estranhamente repleta de símbolos que se perpetuariam em seus filhos. Nas palavras do jornalista Manuel da Costa Pinto, que redigiu o prefácio dessa obra na tradução brasileira, Camus faz uma busca ao próprio pai, que também é uma descoberta de si mesmo. Nada mais adequado do que essa revelação estar incompleta, dando muitas opções interpretativas ao leitor, tanto aquele que conhece Albert Camus quanto os que não o conhecem como literato.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Dois lados do "fracasso da esquerda do século XX"

Uma história de amizade entre intelectuais, além do rompimento em si. Essa é a definição que traz o livro Camus e Sartre - O Fim De Uma Amizade No Pós-guerra do historiador Ronald Aronson, professor da Wayne State University e americano de Detroit, Michigan. Retomando os anos de 1943 até o lançamento do livro O Homem Revoltado e o singular ano de 1952, Aronson disseca as carreiras do escritor franco-argelino Albert Camus e de um dos intelectuais que melhor o recebeu na França, o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre. De maneira direta, sem separar muito as aspas e citações de seu raciocínio central, o autor busca compreender como esses expoentes se tornaram, dentro da esquerda política e na situação da Segunda Guerra Mundial, pensadores fora dos pólos Estados Unidos - União Soviética.

No material, não é possível concluir se Aronson toma mais partido de um ou do outro protagonista, mas é claro que ele considera pontos positivos de ambos os lados. O fato é: Camus causou uma transformação no engajamento político ao tornar-se jornalista do renomado jornal Combat, entre 1944 e 1947. No entanto, sua imagem pública ficou comprometida após o contato com o intelectual húngaro Arthur Koestler, autor de O Zero e o Infinito. A crítica de Koestler ao totalitarismo stalinista foi totalmente incorporada na abordagem filosófica e mítica de O Mito de Sísifo, ensaio contundente de Camus sobre o absurdo que legitima qualquer atitude, mesmo sob a justificativa histórica. Essas conclusões vieram de encontro às teorias que Sartre estava formando, primeiro criticando os socialistas comunistas para, enfim, depois, juntar-se a eles pela luta contra o capitalismo, legitimando a violência.

Aronson traz trechos de conversas entre os dois intelectuais, discursos, relatos de outras personalidades como Simone de Beauvoir (esposa de Jean-Paul Sartre e uma grande existencialista feminista), além de trechos de diversas obras que explicam o período, as argumentações políticas e suas consequências sociais. Camus lança O Homem Revoltado em 1952 e arranca uma crítica negativa feita por Francis Jeanson no periódico Les Temps Modernes, editado por Sartre. Motivo: o livro condena toda e qualquer forma de revolução, acreditando que elas levam para a matança sistemática, que é usada pelos governos totalitários. Mesmo com essa lógica anti-revolucionária, Albert Camus continua comprometido com a esquerda francesa, mas tendendo mais para democracia, enquanto Sartre rompe definitivamente com seu amigo de guerra através de uma tréplica publicada em seu veículo.

Depois desse clímax, o livro penetra no período de recuperação de Camus, abalado pela exposição pública promovida por Jean-Paul Sartre. O lançamento de A queda mostra um Albert Camus revigorado, mas outras polêmicas incluindo seu envolvimento no jornal L´Express e seu silêncio diante das revoltas árabes da Argélia, sua terra natal, no final dos anos 1950 acabaram enaltecendo a figura de Sartre. Ambos são intelectuais reconhecidos, mas, no começo de 1960, Jean-Paul Sartre gozava de maior fama por ter apoiado as revoluções em países do chamado Terceiro Mundo, incluindo Che Guevara em Cuba e os próprios argelinos, transformando sua visão pró-soviética em anti-repressão a qualquer preço.

No entanto, com a queda do Muro de Berlim em 1989, novamente as obras de Albert Camus voltaram a ser valorizadas, tanto pela esquerda quanto pela direita política. Seu senso de humanismo e anti-violência sistemática está simbolizado em textos memoráveis, como sua reflexão sobre as bombas atômicas atiradas no Japão no jornal clandestino Combat ou o romance sobre resistência chamado A Peste.

Se você quer referências de leitura, Aronson fornece dados satisfatório de títulos tanto de Sartre quanto Camus, além de obras correlacionadas. De Jean-Paul Sartre, é importante ressaltar O Ser e o Nada, um de seus principais tratados filosóficos, além das peças As Moscas e Entre Quatro Paredes, que possuem personagens referenciais de seu pensamento e de suas críticas.

O ideal não é tomar partido do moralismo de Camus ou do engajamento comprometido de Sartre com a esquerda, mas enxergar os dois como lados distintos do "fracasso da esquerda do século XX", com alguns argumentos ainda válidos para a crítica atual da globalização. E não é qualquer tipo de socialismo, mas uma corrente que questionou o sonho comunista da União Soviética e que foi contra o capitalismo pelo caráter corrupto de muitas grandes corporações durante a Segunda Guerra Mundial, como a Renault e muitos jornais financiados por norte-americanos após o conflito.

Esse trecho final é esclarecedor sobre o valor de ambos os autores: "podemos imaginar alguém falando a verdade todo tempo, e se opondo à opressão em todo lugar, unindo a capacidade perspectiva característica de ambos sob um único padrão moral. Tal intelectual iluminaria a violência sistêmica de hoje aceitando o desafio de que a luta não deve criar novos males. Um Camus-Sartre?".

Agradecimento a Priscila Jordão pelo empréstimo do livro.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Crime sem passado ou futuro

O Sol, um revólver, a indiferença perante à perda da mãe e o subdesenvolvimento da Argélia. Em uma ficção breve, com frases secas e personagens enigmáticos, o escritor, jornalista e intelectual pied noir (argelino de origem francesa) Albert Camus marcou o século XX com o livro O Estrangeiro (nome original: L´Étranger), em 1942. Seu enredo aborda a vida do personagem Mersault, um homem que comete um cruel assassinato sem uma única justificativa. Essa história rendeu ao autor o Prêmio Nobel de Literatura de 1957, sendo o primeiro africano a receber tal reconhecimento.

Começando por um velório, que deveria supor um sentimento de angústia, somos apresentados ao protagonista que vê a situação de uma forma mais sistemática. "Tudo se passou, então, com tanta rapidez, certeza e naturalidade, que já não me lembro mais de nada" exclama Mersault, sem nenhuma forte afirmação de lamento ou perda. No desenvolvimento da história, ele possui uma relação supostamente sentimental com a namorada Marie, mas a descrição de seus encontros revela um interesse mais carnal do protagonista.

Com uma narrativa que parece retirar os fatos do cotidiano, como uma espécie de diário, a trama segue até uma praia argelina onde Mersault, Marie e os amigos Raymond e Masson são abordados por um grupo de árabes. O confronto na praia termina com o protagonista disparando cinco tiros de seu revólver contra uma vítima desarmada, sem ter aparentemente um motivo plausível para tal reação. Um tiro derruba o suposto inimigo e mais quatro são disparados contra um corpo inerte. "Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz" narra Mersault, fazendo uma descrição que transforma o Sol, o calor e seu ato horrendo em um único retrato, com um significado que não está descrito nos tribunais que vão julgá-lo.

Essa mudança central no roteiro, que se torna fonte de todas as situações na prisão de Mersault, mostram que o personagem não se arrepende do que fez, mesmo diante da sociedade e da cobrança de uma ética em sua recuperação. E ele ainda teoriza sobre a vida na prisão, tendo um raciocínio totalmente fora da normalidade: "compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar cem anos numa prisão".

O que Mersault revela, sendo uma criação distinta de Albert Camus, é que ele é um indivíduo que vive o chamado "estado de absurdo", explorado tanto na filosofia como nas artes, especialmente a dramaturgia. A pessoa absurda não está ligada ao passado histórico e cultural e, por isso, é livre de qualquer lógica e pode cometer qualquer ato impensado. Quando não há ligação com o futuro, essa pessoa também deixa de temer possíveis consequências de seus atos.

Do crime aos tribunais, Camus mostra nesse romance o retrato de seu tempo: ele foi um jornalista engajado na época da Segunda Guerra Mundial e das bombas atômicas. Mersault é a encarnação das aberrações que surgiram no século XX, fruto de um pensamento que rompeu com as tradições da modernidade, apesar do absurdo não ser um tema exclusivo de determino período histórico.

Pode-se condenar Mersault por seu assassinato, mas sua mente não sente culpa ou remorso. Ao transferir seu ponto de vista ao do personagem, porém, não podemos mais recriminá-lo, especialmente porque ele não acredita na justiça dos homens. "Durante as falas do promotor e do meu advogado, posso dizer que se falou muito de mim, e talvez até mais de mim do que do meu crime. Eram, aliás, assim tão diferentes os discursos?"

Um bom livro para ler em uma única tarde, tendo pouco mais do que 120 páginas em média, com frases e parágrafos curtos e diretos, embora o personagem seja fruto de análise profunda para muitos outros processos, situações ou mesmo épocas distintas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Entrevistas com Manuel da Costa Pinto: Segunda Parte

Albert Camus: o jornalista e o homem atemporal

Por Pedro Zambarda de Araújo
Primeira entrevista: http://boladafoca.blogspot.com/2008/09/entrevistas-com-manuel-da-costa-pinto.html

Pedro: O que você acha de Camus ter feito carreira jornalística em um jornal como o Combat, durante a Segunda Guerra Mundial? Seria útil estudar o jornalismo dele nos dias de hoje?

MCP: Quanto ao Combat, foi um jornal publicado pela Resistência Francesa, sendo da época de um Camus saindo da Argélia miserável para morar na França. E, da mesma forma que ele formula uma idéia de absurdo que não está ligada a um período histórico específico, ele verifica a dimensão histórica desse absurdo. Há uma frase que ilustra isso em O Verão, “o homem não é totalmente culpado já que ele não inventou a história, nem é totalmente inocente porque a continua”. Ele vê na história a materialização de situações absurdas, que exigem participação ou engajamento, com a consciência que isso não elimina o absurdo, que é algo anterior a própria história. Dessa forma, o tempo de intervenção dele no Combat, assim como suas contribuições no L´Express, um outro jornal francês durante os anos 1950 e a Guerra da Argélia, será criadora de textos cuja responsabilidade política do intelectual se manifesta intensamente. Participando de jornais clandestinos, ele ajudava pessoas contra o regime nazista. Essa postura, no entanto, não esgota a luta política em si. Nesse aspecto, Albert Camus é muito diferente de outros escritores de sua época, que viam na literatura de ficção, na prosa em geral e na dramaturgia um caráter ideológico e pedagógico, engajado. Ele não era politizado nesse sentido, pois ele formula a idéia de absurdo em relação ao que é chamado de condição humana, termo do antigo humanismo do século XVI e XVII. Apesar da uniformidade do homem nesse conceito, Camus ainda consegue colocar que há manifestações específicas desse absurdo. Ele sempre oscila nesse universal e específico. Quando ele vai para o interior da Argélia e escreve uma verdadeira reportagem ao jornal Combat, ele denuncia as condições sub-humanas dos berberes, povo nômade do deserto. Isso dá o tom em seus artigos jornalísticos, que tratam de muitos assuntos específicos, como a Guerra da Argélia.

Pedro: E o ensaio, como se insere nesse processo?

MCP: O que migra do ensaio para seus textos de intervenção é o combate ao totalitarismo e às ideologias assassinas como imperativo categórico moral que deve ser seguido, mas sem transformar a história em um fim, um reino, em si mesma. Fazer isso, do ponto de vista dele, é justificar a própria história em sua plenitude. Seria justificar qualquer ação histórica, transformando o assassinato em regra porque, eventualmente, você estará do lado correto de quem é assassino ou é assassinado. Se você comete o “bom” assassinato, o assassinato revolucionário, você não é mais compelido a cometer esse radicalismo, mas o transforma em uma prática. Foi isso que ele visualizou no comunismo, estabelecendo uma linha de continuidade entre o nazismo e a própria doutrina comunista, sendo a principal questão de discordância em relação aos pensadores de esquerda. A história não esgota a nossa vivência com a realidade, que precede ela mesma. Portanto, ela não pode prever um desacordo entre o homem e seu mundo. O fato de ter uma atividade jornalística que denuncia e critica questões diversas, como injustiças financeiras e étnicas, não o coloca com postura de ideólogos tradicionais, mas coloca o próprio Camus em diálogo com suas duas percepções claras da realidade.

Pedro: Por que explorar Camus pelo ponto de vista dos moralistas franceses?

MCP: Pensar ele pelos moralistas redimensiona o pensamento dele em relação ao absurdo a luz de uma tradição de ceticismo moral e filosófico. Essa relação com Camus faz com que a filosofia não tenha idéias independentes do mundo, pois existe sempre uma dimensão concreta do pensamento. Você não generaliza mais, você não tem mais generalizações conceituais que são opressivas e impõem uma interpretação do mundo que respeite o homem concreto, o homem em sua variedade e precariedade. Nisso, os moralistas franceses ao trabalharem não mais com o conceito abstrato e universal, mas sim a notação do real em suas nuances, quase ficcionais, são mais realistas e respeitadores das descontinuidades do provisório que há no homem, irredutível a uma forma. Um dos problemas da metafísica é reduzir o homem a forma.

Pedro: Como funciona o mito solar na obra de Camus? Isso vale para os dias de hoje?

MCP: Essa dimensão solar em relação no mundo de hoje está na figura mítica do Sol, que permite pensar em valores e percepções atemporais fruto do encontro entre o homem e a realidade independente da história. E isso evita que se transforme a história em uma máquina que aliena. Nos tendemos hoje a pensar como seres sem sujeitos, historicamente. Isso, de hoje, é uma coisa que nem passava pela cabeça de Camus e dos existencialistas. Nós pensamos nas nossas determinações materiais, históricas e biológicas hoje em dia. O que Albert Camus jamais imaginou é que nós pudéssemos pensar nossa realidade como necessidades neurofisiológicas, como se tudo tivesse uma causa, uma materialidade ou alienação perante uma realidade. A “celebração dessa vivência solar” em Camus é um emblema ou símbolo de uma outra realidade onde se vive apartado dessas alienações, pois você vive irredutível a essas relações sociais que se impõem, o absurdo. Camus pensa o sol como emblema de gratuidade, de acaso. Estar aberto a essa gratuidade é viver relativizando aquilo que te determina, te condiciona.

Pedro: Manuel, muito obrigado pela entrevista. Assim que for possível, faremos outra, para abordar outros tópicos sobre Albert Camus.

MCP: Foi um prazer e estou à disposição.

Entrevista feita originalmente para monografia de iniciação científica no Centro Interdisiplinar de Pesquisa (CIP) da Faculdade Cásper Líbero.

Para mais informações: http://www.facasper.com.br/cip/

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Entrevistas com Manuel da Costa Pinto: Primeira Parte

Albert Camus: autor universal e específico

Por Pedro Zambarda de Araújo

Autor de Albert Camus: um elogio ao ensaio, Manuel da Costa Pinto é jornalista da Folha de S.Paulo, além de trabalhar na TV Cultura. Destacando-se dentro da academia, escolheu abordar o ensaio nesse livro e mestrado sobre o escritor franco-argelino Albert Camus, dentro do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A entrevista que se segue, feita no dia 2 de setembro, é um ponto de vista particular sobre a obra de Camus e um profundo estudo sobre as origens de sua escrita e pensamento.

Pedro: Começaremos uma entrevista aqui com Manuel da Costa Pinto, especialista na questão do ensaio em Albert Camus. Manuel, o que te levou a escolher Camus como tese de mestrado para ser publicada, posteriormente, em livro (Albert Camus: um elogio ao ensaio)? Como a carreira ensaísta de Albert Camus despertou curiosidade em você?

Manuel da Costa Pinto: Não fui ler Camus para fazer mestrado ou doutorado. Eu leio os livros dele desde os 15 anos de idade, mais ou menos. Fundamental foi uma leitura de Horácio Gonzalez, em um livro brevíssimo e muito agudo sobre uma obra de Albert Camus, a peça teatral Os Justos. Isso que me instigou mais a ler a obra do escritor franco-argelino, tanto ficcional quanto ensaística. Depois das leituras, Camus assumiu o posto de segundo escritor que eu mais gostava, apenas atrás do que mais admiro, Fiódor Dostoiévski. Por isso, meu projeto inicial no mestrado era fazer uma relação direta entre a obra de Albert Camus e Dostoiévski. O tema era muito específico. Camus era apenas um leitor da obra do russo, em suas citações no ensaio O Mito de Sísifo abordando o personagem Kirilov, de Os Demônios, além de outra menção no livro O Homem Revoltado ao Ivan Karamazov da tragédia Os Irmãos Karamazov. Ele também encenou uma adaptação da própria obra Os Demônios de Dostoiévski, uma peça chamada Os Possessos.

Pedro: Foi uma das poucas peças que ele atuou e dirigiu, certo?

MCP: É, e foi bem jovem que ele fez isso. Então, considerando que Albert Camus cita Dostoiévski em seus dois maiores ensaios, O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado, a presença do russo é destaque. Além do que eu já disse, há também outra obra dele que é referencia direta a Dostoiévski, o monólogo crítico-reflexivo A Queda, cujo protagonista e cuja forma de narrar remetem a uma obra chamada Memória do Subsolo. Dessa forma, é interessante ver que ambos os escritores revelam uma dimensão ensaísta. Não pensaram o romance apenas como uma narrativa de trama, mas como um pensamento da realidade de seu tempo. Essa é uma característica do romance do século XIX que sobrevive com os existencialistas do século XX, embora Camus não fosse propriamente um existencialista. Escritores dessa geração, na França, fizeram uma prosa metafísica, reflexiva, especulativa e conceitual. Nesse contexto, a relação entre Dostoiévski e Camus muito me interessava para a pesquisa. Eu ia fazer uma tese sobre os dois, mas por sugestão de João Alexandre Barbosa, um dos maiores ensaístas brasileiros e amigo meu, falecido há dois anos, mudei a pesquisa para o gênero ensaio. Teve com foco o ensaio de tradição francesa, que é específica, vinda de autores como Montaigne e Chamfort, que são dos séculos XVII e XVIII e de uma tradição do pessimismo clássico, que se vale do emprego de aforismas ou aforismos, ou seja, fragmentos da anatomia da moral e dos costumes. Não por acaso, Jean-Paul Sartre em sua crítica ao romance O Estrangeiro insere Albert Camus exatamente nessa tradição de ensaístas. E eu achei muito rico isso, porque a idéia do romance de Camus acaba sendo reduzido a obras filosóficas. O estudo do ensaio me fez compreender que não é assim que se define a obra deles, porque eles não são filósofos que decidem escrever romances. Não é uma mera ilustração o ensaio, mas existe nele uma forma de pensar a realidade que é muito ligada à obra ficcional. É um ceticismo, sem usar o significado mais forte e radical do termo, que, dentro da reflexão moderna, deforma o mundo com caráter intencional. Na obra de Camus, está presente a idéia que toda a reflexão é, simultaneamente, uma invenção, ao contrário da fenomenologia forte em Sartre. De certa forma, é como se você tivesse um pé atrás nas concepções filosóficas e não aceitasse tudo como verdade, tendo uma espécie de relativismo principalmente considerando o imaginário por trás da idéia. Esse imaginário deforma a realidade.

Pedro: E como essa forma de pensar age em Albert Camus?

MCP: Essa perspectiva, no caso de Camus, está muito ligada a invenção ficcional dele. Então, o melhor exemplo nesse caso é quando Albert Camus fala sobre o conceito de absurdo nos textos, sobretudo O Mito de Sísifo que tem o subtítulo “o ensaio sobre o absurdo”. No entanto, qual é a melhor ilustração sobre o absurdo? Os melhores exemplos não são quando ele fala da “situação do homem diante de seu mundo”, mas estão nas representações ficcionais. Mersault (de O Estrangeiro), por exemplo, é um grande herói absurdo. Dessa forma, há uma comunicação incessante entre a ficção e o ensaio, um alimentando o outro. O romance tem origem na idéia primordial do absurdo, mas o próprio absurdo, formado conceitualmente, é baseado numa personagem literária. É um círculo que se alimenta reciprocamente e que me interessou muito. Camus torna o absurdo uma reflexão sobre a condição humana que depois se desdobra numa ética política, de conduta, em O Homem Revoltado.

Pedro: O que você fez, especificamente, nesse trabalho?

MCP: Eu procurei, nesse trabalho, fazer uma análise do ensaio como gênero literário. Não sou filósofo, portanto fiz em teoria literária. Meu trabalho foi sobre a singularidade presente no gênero ensaio. Uma coisa a ser levada em consideração é que a gente chama de o ensaio todo texto reflexivo e curto. Dessa forma, você pode considerar ensaio determinadas crônicas de jornal, como as que o Marcelo Coelho escreve na Folha. Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre ou Raízes do Brasil do Sérgio Buarque de Hollanda são ensaios de interpretação do Brasil. Sim, ensaio é isso e está correto. Ele é um gênero de reflexão que não é conceitual, nem técnico, é livre, mais pessoal. No entanto, generalizar o ensaio para qualquer gênero ficcional põe a perder a tradição ensaística que é francesa e específica. Ela que vem de Montaigne, passando por Camus e chega até um Roland Barthes, com uma reflexão moral e altamente literária. É prosa literária de não-ficção, segundo um crítico influente chamado Alexandre Eulálio. Uma prosa que é concentrada, mas que não inventa personagens. Apesar dessa definição, ela ainda não é suficiente para caracterizar a tradição francesa. No ceticismo de Montagne, por exemplo, há a falta de acesso ao mundo que enuncia, simultaneamente. De certa forma, esse ensaio específico anuncia a falência da filosofia pela incapacidade de apreender o mundo. O ensaísta percebe que o mundo é opaco e...

Pedro: Subjetivo?

MCP: É. O mundo é irredutível ao conceito. O que faz com que esse conceito não seja o conceito no sentido clássico do termo, mas sim uma invenção da realidade que você descreve, sem cair no relativismo total. Isso faz parte do jogo do ensaísta francês, tendo uma reflexão que pretende falar da realidade e mostra como ela é fugidia. O próprio movimento do ensaio em suas nuances mostra uma narrativa do “eu” diante da realidade, jamais apreensível. Por isso esse é o tema do meu livro, que é um livro sobre o gênero ensaio. Numa primeira parte, ele tenta definir a tradição ensaística e, num segundo momento, definir como Camus se insere nesse gênero, não sendo casual o fato dele ser, simultaneamente, um ensaísta e um ficcionista ao mesmo tempo.

Pedro: Você já respondeu muitas perguntas nessa resposta (risos). Quais outros pesquisadores sobre Camus você conhece na região de São Paulo ou até mesmo no Brasil?

MCP: Pesquisadores brasileiros? Além do Horácio Gonzalez, atual dono da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, que, mesmo sendo argentino, escreveu aqui, no Brasil há pouquíssimas pessoas que escreveram sobre Camus. Há um belo trabalho comparando Vidas Secas de Graciliano Ramos com O Estrangeiro de um autor chamado Lorival Holanda.

Pedro: Por essa sua resposta eu gostaria de perguntar por que Albert Camus não tão lido? Você encontra motivos para não o ler aqui? Mesmo depois da Universidade Federal da Bahia ter encenado uma de suas peças, Calígula (em 1961), há motivo? Ele até mesmo viajou ao Brasil, conforme o livro Diário de Viagem, editado pela Record. Como explicar esse esquecimento dele?

MCP: É fato que toda essa geração de 1950-60, incluindo Camus, ficou muito marcada pelas questões políticas daquele momento. Isso marcou, sobretudo no caso dele na ruptura com Sartre, uma imagem de escritor idealista do ponto de vista político e ético, além de insuficiente para pensar a realidade pós-1970. Ele foi um pouco estigmatizado por não ser um escritor de esquerda, estigmatizado também por se encontrar numa posição delicada durante a Guerra da Argélia, mesmo sendo franco-argelino. Era um momento que “não ser de esquerda” significava ser de direita, que “não ser colonialista” significava “não ser francês” ou “não ser revoltado” significava ser contra os argelinos, uma posição de hesitação. Ele jamais via o povo francês como opressor, mas como formador da Argélia, mesmo sendo colônia. Ele era conciliatório. Hoje isso não é tão fácil de compreender, até mesmo porque são as esquerdas que são mais criticadas. Houve um momento da história ideológica da América Latina em que um escritor que não era alinhado a esquerda, não era um “companheiro de viagem dos comunistas”, era necessariamente um conservador. Esse fato não corresponde a verdade no caso de Camus, mas acabou prejudicando a recepção dele. Existe uma razão também de ordem filosófica, pois o existencialismo passou a ser encarado como uma “moda” em certo momento, o que é um equívoco, pois o Camus não é existencialista. Apesar dessa sucessão de equívocos, essas coisas acabaram obscurecendo a figura dele no cenário intelectual. Um terceiro elemento, que me parece o mais pertinente de todos, é que Albert Camus era um escritor clássico num certo sentido. Momento de mudanças drásticas no experimentalismo literário e estético, ele era um escritor que não correspondia a essa demanda ou expectativa de obra transgressiva. Ele era mais clássico e menos ousado do ponto de vista formal, principalmente na dramaturgia, por exemplo. Além disso, revelou-se nos anos 1960 e 1970 o noveau roman francês que trouxe autores experimentais, muito mais experimentais que os existencialistas, ou seja, que Camus e Sartre. Entre eles está Samuel Beckett, que era dramaturgo de origem irlandês, mas escrevia tanto em inglês quanto em francês. Dessa forma, os autores da década de 1950 foram vistos como menos inventivos. Apesar disso, ele foi um dos escritores mais enigmáticos da história da literatura francesa da primeira metade do século XX.

Pedro: E isso mudou?

MCP: Bom, mas é claro que esse julgamento estético estava muito enraizado pelo contexto político da época, fato que começou a ser revertido pelo fim da Guerra Fria nos anos 1980 e 1990. Essa nova configuração permitiu visualizar que Camus não era bem de direita, mas sim que era crítico quanto a história de maneira não ideológica. O fim das ideologias fez com que o estigma sobre Camus desaparecesse também. Ocorreu também uma redescoberta dele na revelação de um romance inacabado chamado O Primeiro Homem, cujos manuscritos foram encontrados no corpo dele após o acidente de carro com Gallimard, seu editor. Ambos faleceram, Camus com apenas 47 anos. Essa revisão da obra de Camus traz a tona, em certo momento, uma legibilidade que não significa pertencer ao realismo do século XIX, mas sim dos romances que não cabem em uma realidade e cujas várias dimensões incompreensíveis a deixa fragmentada. A realidade pede uma literatura que não seja uniforme ou linear. Apesar disso, esta linearidade está presente em Albert Camus, mas é perceptível uma certa inverossimilhança que está nas entrelinhas. Não é tão explícito quanto os autores do noveau roman, que rompem com o tempo e o espaço, mas está presente no que há de inverossímil na narrativa desenvolvida em Camus, com fatores “perturbadores” do verossímil em O Estrangeiro.

Pedro: Explique melhor.

MCP: O personagem Mersault, por exemplo, escreve na forma de diário, o que é incompatível com sua própria narrativa. É um narrador que, apesar de parecer, não é o convencional do realismo. Na verdade, ele escreve em um “não tempo”, num instante e o próprio romance se desenrola numa soma de acasos, soma de instantes presentes. Isso é inventivo do ponto de vista do romance. Dessa forma não é, explicitamente, experimental a primeira vista. Não por acaso, O Estrangeiro é a fonte do noveau roman, pelo menos segundo O Grau Zero da Escrita, de Roland Barthes. É um romance muito difícil de analisar nos dias de hoje, até porque ele é aparentemente uma obra de um personagem que tem uma psicologia, uma interioridade, e nada disso acontece. Se você for ler com um olhar mais apurado, você vai ver que o Mersault é como se fosse uma entidade mítica, que perambula pelas ruas de Argel naquela vida miúda e banal que tem uma dimensão trágica, chamada por Sartre de “tragédia solar”. Um dos artifícios mais interessantes que ele fez foi dar a uma vivência banal um ritmo e a alegoria de uma tragédia grega antiga. No caso de outro romance crônico de 1947, A Peste, ele narra como se fosse uma coluna jornalística, mas desdobrando os personagens em figuras simbólicas e muito alegóricas. Portanto, a prosa de Camus oscila entre o natural e o inverossímil, no sentido que não corresponde às categorias convencionais que temos – tempo, espaço, linearidade e compreensão. Ele faz isso porque atende, e isso eu acho interessante, não ao desejo de ser experimental ou alinhado a idéias estéticas, mas que obedece a realidade do absurdo. O absurdo, o gratuito, o incompreensível, torna equivalente todos os pontos de vista, com acontecimentos em seqüência que geram, simultaneamente, êxtase e morte.

Entrevista continua na segunda parte.

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