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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Manifesto inédito de Albert Camus é divulgado pelo Le Monde



No dia 18 de março de 2012, o jornal Le Monde publicou um manifesto inédito de Albert Camus. O texto ia ser publicado no Le Soir Républicain, um jornal argelino, mas foi censurado. Na época, estava começando a Segunda Guerra Mundial.

Nesse ensaio, Camus disserta sobre o que ele acredita ser a liberdade de imprensa e o jornalismo livre. Se você quiser ler na íntegra, clique aqui. Confira um trecho abaixo.

"É difícil hoje para discutir a liberdade de imprensa sem ser taxado extravagante, acusado de ser uma Mata-Hari (famosa assassina e espiã holandesa), ou convencido de que se é sobrinho de Stálin.

(...)

A lucidez requer treinamento de resistência aos aspectos do ódio e ao culto da desgraça. No mundo de nossa experiência, é certo que tudo pode ser evitado. A própria guerra, que é um fenômeno humano, pode ser evitada ou parada a todo o momento por meios humanos. Basta conhecer a história dos últimos anos da política europeia para ter certeza de que a guerra, seja qual for, tem causas óbvias. Essa visão clara das coisas exclui o ódio cego e o desespero que se formam. Um jornalista livre, em 1939, não se desespera e luta por aquilo que ele acredita ser verdade se a sua ação puder afetar o curso dos acontecimentos. Ele não publica nada que possa despertar o ódio ou que provoque desespero. Tudo isso está em seu poder.

Diante da crescente onda de loucura, também é necessário se opor a certas recusas. Todas as restrições do mundo não criarão um espírito que concorda um pouco em ser desonesto. O ouro, e pouco sabemos sobre os meios de informação, é fácil ser verificado em sua autenticidade. Um jornalista livre deve oferecer toda a sua atenção. Pois, se ele pode dizer o que ele pensa, ele não pode dizer o que ele não pensa ou o que ele acredita ser falso. E isso em um jornal livre é medido tanto pelo que ele diz quanto pelo que ele não diz. Essa liberdade negativa é, de longe, a mais importante de todas, se ela se mantiver. Porque ela prepara o caminho para a verdadeira liberdade. Consequentemente, um jornal independente gera suas informações, ajuda o público a avaliá-las, repudia o sensacionalismo, remove invenções, organiza os comentários padronizando a informação, em resumo, ele é a verdade, na concentração das forças humanas. Essa recusa, se ela está é assim, pelo menos, permite que se negue o que nenhuma força na terra pode fazer o jornal aceitar: submeter-se às mentiras.

Isso nos leva para a ironia. Podemos imaginar que uma mente que tem gosto e meios para impor restrições é impermeável à ironia. Nós não vemos Hitler, para dar apenas um exemplo entre outros, usar a ironia socrática. Isso mostra que a ironia continua a ser uma arma sem precedentes contra os poderosos totalitários. Ela complementa a recusa na medida em que permite, ao invés de rejeitar o que é falso, dizer o que é a verdade, muitas vezes. Um jornalista livre, em 1939, não se rende a muitas ilusões sobre a inteligência daqueles que oprimem. Ele é pessimista no que se refere ao homem. A verdade expressa em tom dogmático é recusada por ele nove em cada dez vezes. A mesma verdade de forma jocosa é aceita em cinco de cada dez vezes. Esta disposição é quase igual às possibilidades da inteligência humana. A ironia também explica que jornais franceses como Le Canard e Le Merle se comprometem e podem publicar artigos corajosos conhecidos. Um jornalista livre, em 1939, é necessariamente irônico, mas ele é, muitas vezes, a contragosto. Mas a verdade e a liberdade são exigentes, uma vez que eles tem poucos amantes.

Tal atitude de espírito brevemente definida, obviamente não pode ser sustentada de forma eficaz sem um mínimo de obstinação. Muitos obstáculos são colocados contra a liberdade de expressão. Eles não são mais graves do que desencorajar um espírito. Porque as ameaças, as suspensões e a repressão na França geralmente conseguem o efeito oposto ao que é proposto. Mas devemos admitir que são obstáculos desencorajadores: a constância da estupidez, as organizações covardes, a desinteligência agressiva e, por isso, nós nos desgastamos. Aqui está o grande obstáculo que devemos superar. Obstinação é uma virtude cardeal. Por um curioso paradoxo é evidente que, em seguida, começa nela a objetividade e a tolerância.

(...)

Sim, é muitas vezes a contragosto que um espírito livre do século percebeu sua ironia. O que é engraçado de se ver neste mundo em chamas? No entanto, a virtude do homem é se manter firme diante de tudo o que nega. Ninguém quer reviver esses vinte e cinco anos de experiência, tanto em 1914 quanto em 1939. Devemos, portanto, experimentar um método ainda muito novo de justiça e generosidade. Mas elas são expressas apenas em corações livres e em mentes ainda exigentes. Formar esses corações e mentes, que acordem de vez, é a tarefa tanto do homem modesto quanto do ambicioso que se torna independente. Devemos chegar nisso sem adiar mais. A história será contada ou não através desses esforços. E tudo depende se eles forem feitos."

sábado, 5 de dezembro de 2009

Adivinhe de qual filme. Adivinhe o personagem

Post do blog Design You Trust, mostra fotos da revista Empire comemorativa de 20 anos. São fotografias recentes de grandes astros de Hollywood encarnando seus papéis favoritos, sendo em algumas com o figurino completo ou com apenas parte dele.

É bacana ver Laurence Fishburne cabeludo e grisalho hoje em dia, bem diferente do careca Morpheus no filme Matrix de 1999, criado há 10 anos atrás. Algumas estrelas foram mais discretas, como Mel Gibson e Arnold Schwarzenegger. Apenas um objeto característico remete a personagens históricos como William Wallace (Coração Valente, 1995) e T-800 (Exterminador do Futuro 2, 1991).

Sean Bean e Viggo Mortensen são dois atores que se transformaram nos papéis de Boromir e Aragorn, na trilogia Senhor dos Anéis. Hoje em dia eles não se parecem nada com seus personagens, mas é sempre bom recordar, após esse tempo.

A revista Empire é especializada em cinema. Vale a pena ver o material, tanto pela qualidade das fotos quanto pelo intuito do ensaio.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Filme de boleiro?


A primeira vez que Gael Garcia Bernal e Diego Luna contracenaram juntos foi na novela mexicana “Vovô e Eu”, sucesso da Televisa e do SBT nos anos 90. Gael era um dos protagonistas e Diego fazia parte de sua turminha de amigos. Mas eles apenas se tornaram internacionalmente conhecidos com o lançamento do road-movie-latino-americano “E Sua Mãe Também”, premiado no Festival de Veneza em 2001.

A dupla voltou a dividir as telas esse ano em “Rudo Y Cursi”. Exibido no Festival de Sundance no começo do ano. O filme será lançado no Brasil diretamente nas locadoras, depois de exibições no Festival de Cinema Latino-Americano. O longa é a primeira produção da ChaChaCha, produtora de Guillermo Del Toro ("Labirinto do Fauno"), Alejandro González Iñárritu ("Babel") e Alfonso Cuarón ("Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban").

O filme é uma crônica diferente sobre o mundo do futebol, suas aventuras e desventuras. Tato (Luna), o "Rude", e Beto (Bernal), o "Brega", são irmãos e trabalham em uma plantação de bananas no México. Durante uma partida de futebol de várzea, chamam a atenção do olheiro Batuta (Guillermo Francella). Mas, como apenas um deles pode ser escolhido, Beto acaba se tornando uma grande estrela do futebol, mesmo tendo o sonho de se tornar cantor. Um tempo depois, Tato acaba tendo a sua chance também, mas no time rival do irmão. Máfia futebolística, "maria-chuteiras", breguisse, drogas e muitas metáforas futebolísticas completam o humor negro tradicional dos roteiros de Carlos Cuarón ("E Sua Mãe Também").

Um ponto positivo do filme, além das frases filosóficas de jogo de futebol e mesa de bar, é o trabalho de divulgação do filme. O site oficial é divertidíssimo e faz com que você entre no mundo do filme. Também foi lançado no Youtube um vídeo-clipe de Gael Garcia Bernal, caracterizado como Brega, cantando "Queiro que me queiras", mais conhecida como "I want you to love me". Para fãs ou não de futebol, humor negro e atores bonitinhos, "Rudo y Cursi" é uma ótima jogada.


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Terror no Éden

É notório que os filmes de Lars Von Trier conseguem aflorar sensações bastante adversas em seus telespectadores. Segundo uma das milhares de comunidades do site Orkut que celebram o talento do cineasta dinamarquês, quem assiste um de seus filmes tem vontade de agredi-lo e de abraçá-lo. Com o seu novo filme, essas “sensações adversativas” ficam à flor da pele.

Criado em uma crise depressiva do cineastra, "Anticristo" é a sua mais nova obra. E, logo em sua primeira exibição no Festival de Cannes, gerou, como já era de se esperar, muita polêmica. Cenas de sexo e de mutilação, dois atores em cena, um cenário bucólico, câmera lenta e uma raposa falante se misturam em um universo paralelo chamado Lars Von Trier.

A história do filme é a seguinte: depois da morte do filho pequeno, uma jovem escritora (Charlotte Gainsbourg) entra em profundo luto. O seu marido (Willem Dafoe), que trabalha como terapeuta, começa a tratar a esposa. Em uma viagem a uma cabana, chamada ironicamente de Éden, fatos estranhos começam a ocorrer. Sinopse de filme de terror, não? Mas o filme é muito mais que um simples filme de terror, pois trata do medo e do mal como forças supremas e muito maiores do que podemos controlar.

O filme é dividido em 6 partes. Na sequência inicial, o "Prólogo", é apresentada uma cena de sexo estilizada em preto-e-branco, que contrasta com a cena da morte do filho. Esse contraste é constante em todo o filme. Drama, terror e sangue se misturam com sensações de nojo, repulsa, ódio e prazer. Enquanto Lars brinca com os sentimentos dos expectadores, os expectadores brincam de gostar e de odiar os seus filmes.


sexta-feira, 6 de março de 2009

O Pasquim: a chave que abriu a mente popular

Disse uma vez Ziraldo: "O jornalista tem muita importância para ser preso e nenhuma para ser solto." O grande cartunista se referia à censura e à perseguição cultural no período militar, que não só ele como todos os membros d'O Pasquim poderiam comentar com precisão.

O tablóide de alma carioca pode ser considerado o que mais ousou durante a ditadura militar. Além de Ziraldo, o time que compunha a redação era, na verdade, uma seleção. Com nomes como Jaguar, Henfil, Sérgio Cabral, Paulo Francis e Millôr Fernandes, o humor era peça-chave para driblar a censura e discutir, com autenticidade, o que se bem quisesse.

Com essa postura, o jornal foi conquistando leitores rapidamente, e quando deu-se conta, O Pasquim já estava presente em cada casa carioca, falando exatamente o que a consciência brasileira queria ouvir.

Posteriormente, alcançou também os estados paulistas e mineiros, chegando a uma escala de divulgação além do controle ditatorial. Incomodados com este sucesso desfavorável a seu governo, os militares invadiram a redação do tablóide e prenderam todos os membros que ali estavam. Dessa forma, O Pasquim encerraria seu trabalho de vez.

O que o governo não imaginava, é que o jornal contava com influentes amigos leitores, que dariam continuidade ao trabalho até a volta dos seus criadores. Os colaboradores eram Chico Buarque, Caetano Veloso, Leila Diniz, Sérgio Augusto, Vinícius de Moraes, Tom Jobim e outros importantes ícones da época. A edição impressa por estes continha uma nota dizendo que os membros d'O Pasquim haviam pego uma gripe coletiva e por isso estavam ausentes, mais uma maneira implícita de passar recados aos pasquinianos.

Com a repercussão que esta edição causou, Jaguar e cia. foram imediatamente soltos e, assim, o periódico pôde continuar com sua trajetória debatedora. Começando como uma brincadeira de amigos boêmios, O Pasquim se tornou o mais querido jornal contrário à ditadura, aquele que deu ânsia de renovação aos desacreditados, coragem aos retraídos e informação aos alienados. Foi uma das provas que o necessário para a clareza de uma situação é a presença ética de formação de opinião. E esta só é possível com o velho "Quarto Poder" social: o jornalismo.

As fotos são dos volumes 1 e 2 da antologia reunindo entrevistas, artigos e reportagens feitas pelo O Pasquim.

sábado, 6 de setembro de 2008

Epicure-se

Prazer, do latim placere, indica um ato de satisfação pessoal, seja ela sensível ou lasciva. A eterna busca pelo prazer gera questões onde conceitos básicos são discutidos, com o intuito de se descobrir o quão válida essa procura pode ser. Existem limites? As expectativas alcançam o ato em si? Ou viver por um momento gera tamanha excitação ao ponto de um indivíduo se frustrar? É preciso encontrar essas respostas para que, enfim, possamos existir como um todo, respeitando as barreiras e, principalmente, a nós mesmos.

Hedonismo e exagero entram na lista de substantivos presentes na vida cotidiana. O consumismo acelerado, dispensável e sem sentido é encontrado a cada esquina, nas sacolas seguradas por pessoas já demarcadas por este vício. Cegas pela alienação, entregam-se a futilidades e deixam-se levar por propagandas enganosas, acreditando que, assim, são pessoas felizes. Um prazer muitas vezes culposo, mas já irrefutável na sociedade.

A admiração pelo corpo e seus sentidos vem de longa data. Gregos e romanos viviam em uma organização invejável, mas que escondia atitudes regadas ao sexo casual e negligente. Em paradoxo vem a Idade Média, onde o medo e o pecado habitavam as pessoas, as quais se prendiam a um celibato mental onde tudo era considerado proibido e indigno de Deus. Já no mundo contemporâneo, onde a hipocrisia e a negação são particularidades de muitos, a censura persiste oculta, a partir do momento em que o corpo passa a ser visto como um aglomerado de impurezas.

A consumação do ato sexual pode demorar anos, mesmo entre aqueles que já se arriscam em preliminares mais do que excitantes. Guardar-se para o parceiro adequado envolve forte determinação, assim como a espera pelo momento. Chico Buarque já pregava a filosofia do “tô me guardando pra quando o carnaval chegar”, deixando bem claro o adiamento de uma vontade tão reprimida.

Decidir pela castidade ou não depende apenas do psicológico pessoal, podendo levar em conta argumentos sociais e religiosos. A definição da escolha e do prazer não deve ser vista como pecado, mas sim como um auto conhecimento literal e construtivo. Se conscientizar e prevenir são rituais diários, que devem ser vistos como fortificação para um epicurismo sadio, responsável e, acima de tudo, proveitoso.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Anna-Varney Cantodea - Sopor Aeternus & The Ensemble of Shadows

Anna-Varney Cantodea é vocalista e compositor da banda alemã Sopor Aeternus & The Ensemble of Shadows, que se iniciou em 1987, numa casa noturna de Frankfurt, Negativ, quando Varney chamou a atenção de duas pessoas quanto sua crítica sobre a banda que se apresentava. Um dos interessados, Holger, esteve envolvido no projeto por dois anos.
A banda iniciou-se com uma demo-tape chamada "Es Reiten Die Toten So Schnell", que seria a primeira de uma triologia nunca finalizada. A partir daí, mais de dez álbuns foram lançados, além de um projeto em conjunto com Constance Fröhling, chamado "Nenia C'alladhan" (2002).
O verdadeiro nome de Anna-Varney, que prefere ser tratado no feminino, apesar de já ter revelado ter nascido do sexo masculino na revista 'Witchcraft', é um segredo. O nome artístico consiste em Anna, apenas como nome, Varney, nome do vampiro protagonista do folhetim
Varney the Vampire, or the Feast of Blood (James Malcom Rymer, 1847) e Cantodea, que é um vernáculo feminino em latim para som, cantora ou canção. Esse seu anonimato abrange à recusa de se apresentar no palco durante shows e à escassez de informações sobre a artista, o que faz os dados beirarem da verdade ao boato, como histórias sobre sua infância e a agressão dos pais que sofria.
Anna-Varney é tida como o único membro da banda Sopor Aeternus, por conta do desconhecimento da composição de "The Ensemble of Shadows". Cantodea diz que eles são espíritos que a ajudam a compôr as músicas, tais quais as Musas, da mitologia grega, que inspiravam os músicos e poetas.
The Ensemble of Shadows surgira quando Varney estava à beira do sucídio, aos 20 anos. A depressão, que adquirira aos seis anos, estava em seu ápice, fazendo Cantodea não sair mais ao sol e assim, adoecer. Para fugir da dor, a artista dormia e, em seus sonhos, ouvia as melodias de 'Ensemble of Shadows', que eram músicas suas para si mesma. Varney afirma que trabalhar com Sopor Aeternus é uma forma de lidar com seus conflitos, procurando elevar-se espiritualmente.
A dúvida sobre a sexualidade de Anna-Varney é comum quando se vê fotos da cantora, que comumente aparece nua. Cantodea não fez nenhuma cirurgia de mudança de sexo, diz que prefere ter as genitais trabalhadas no computador, daí tendo a versatilidade de as fazer feminina ou apenas desfazê-las. Varney diz que isto está associado a conflitos espirituais. A compositora aborda principalmente esse assunto em suas canções, sendo mais notável nos álbuns "The Inexperienced Spiral Traveller” e "Voyager - Jugglers of Jusa".

"I wish I cut my genitals and threw them to the dogs"
Eu queria cortar minhas genitais e jogá-las aos cachorros.

Não obstante, a vocalista tem a capacidade de entonar sua voz como feminina ou masculina.


Anna-Varney influencia suas músicas no planeta Saturno, nomeando essa tendência astral como "Saturnian Path". É possível remeter à mitologia grega, em que Saturno equivale a Chronos, que por sua vez, tem a etimologia de seu nome obscura, surgindo assim a ligação com "cornos", que rege o demônio indiano Kroni ou a divindade levantina El. O próprio símbolo da banda é o símbolo astronômico de Saturno () sobreposto pelo símbolo de Júpiter (), fazendo-se assim a analogia mitológica entre os planetas, em relação à paternidade de Saturno quanto Júpiter.



A música de Anne-Varney Cantodea tem toques de medievalismo, é emocional, melancólica e é composta por instrumentos como violinos, sinos, flautas, órgão, guitarra, além de arranjos de teclado. Apesar da temática sobre a sexualidade ser mais evidente, além do obscurantismo, as músicas também tratam sobre suicídio, amor não correspondido, dor, morte, solidão, tristeza, astrologia, sonhos e figuras mitológicas. Um bom exemplo inaugural seria a música The Conqueror Worm, que tem como letra o poema de Edgar Allan Poe, em que são tratados temas como a mortalidade do homem e sua inevitabilidade.



Anna-Varney participou, em 1995, da compilação "Jekura - Deep the Eternal Forest" com quatro músicas: duas canções de "White Onyx Elephant", seu projeto instrumental paralelo ao Sopor, e dois covers do Black Sabbath, "
Paranoid" e " A National Acrobat", publicados com acentuação estranha e os nomes invertidos. Atualmente Sopor Aeternus & The Ensemble of Shadows possui 16 álbuns.

sábado, 28 de junho de 2008

São tantas emoções


Texto e charge por Leonam Bernardo

Um close na mãe que chora a perda do filho; um acidente grave, de preferência, com vítimas graves; sangue, muito sangue; grandes catástrofes; desastres; violência. O jornalismo na TV tem sempre um quê de emoção. É quase uma pré-condição da noticiabilidade neste meio que a atenção do telespectador esteja sempre voltada ao visual.

Não se trata de sensacionalismo. Pelo menos não em todos os casos. Tem mais a ver com o poder de captação da atenção de quem assiste. Ou seja, a importância de um fato, a ponto de virar noticiável na TV, está diretamente relacionada ao valor-imagem do acontecimento. Claro que não é sempre assim, mas freqüentemente o tempo dispensado no meio televisiviso ao-que-quer-que-seja apóia-se sempre no quanto este o-que-quer-que-seja possa render visualmente.

John Langer, em seu livro Tabloid television, afirma que as notícias na televisão são um “espetáculo gratuito”, e que as imagens filmadas geram, conseqüentemente, um conteúdo superficial. Além disso, o autor defende que elas não passam de um produto mercantil regulado por encargos de marketing, que tentam fazer aumentar a audiência por razões comerciais, não jornalísticas. Para Langer, as notícias na TV tratam de assuntos banais com um suspeito sentimentalismo e são, em sua maioria, exploradoras.

Pode ser que o autor generalize um pouco demais, mesmo porque o tema central de seu livro é o sensacionalismo televisivo. Mas não é exagero afirmar que o telejornalismo seja pautado pelas imagens, e por uma busca contínua pela atenção e emoção dos telespectadores. Na televisão - diferentemente dos meios impressos, em que o leitor seleciona suas editorias de interesse - há uma necessidade maior em segurar o telespectador em frente ao aparelho, garantindo a audiência. Para que isso aconteça, vale até trilha sonora em programas policiais. Tudo emocionalmente calculado.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Música de que mundo?

Por Laís Clemente

No dia 19 de junho, terá início o Bridgestone Music Festival. O evento ocorrerá no Citibank Hall, em São Paulo, e tem a pretensão de, em três dias, inserir a platéia no universo de um estilo musical de fronteiras nada bem definidas, a world music.

Numa mal feita tradução, o gênero significaria “música do mundo”. Assim, estariam nele inclusas toda a produção musical do planeta, o que não faria dela uma categoria, pois, até onde os cientistas têm conhecimento, não há produção musical fora deste planeta. Este “mundo” a que o termo faz menção, seria então o de uma realidade distinta da do ponto tomado como referencial, o centro da cultura dominante, que no caso seria a dos mais importantes países de língua inglesa: Estados Unidos e Inglaterra.

Esses países sim, possuem o jazz, o blues, o folk, e o rock’n roll em todos os seus incontáveis desdobramentos. Quanto aos estilos do resto do mundo? Bem, o resto...o resto é world music, um saco sem fundos onde foram colocados o fado português, o bolero, o africano kora, os brasileiros samba, bossa nova e tropicália, e até mesmo ritmos que tiveram grande influência na base rítmica da música popular americana, como a música cubana.

Esse termo classificatório foi criado por um grupo de empresários de gravadoras em 1987. Vendo o interesse crescente pelo som produzido por músicos não ocidentais, como Thomas Mapfumo, natural do Zimbábue, eles inventaram o termo e saíram em espécie de campanha para popularizar a world music (o termo, não exatamente seus representantes). A intenção era garantir que o potencial comprador de um álbum de, por exemplo, música indiana, encontrasse o disco com facilidade nas lojas, assegurando a venda e os lucros das gravadoras.

Essa intenção inicial acabou nivelando todos os ritmos que a categoria abrange por terra, dando margem a uma preguiçosa forma de classificação para críticos musicais e donos de selos. Tudo o que não for de língua inglesa, é world music.

Se lembrarmos do tamanho do ego que a cultura americana tem, fica até compreensível o porquê do termo ter virado hábito nesse país. Mas por que o resto do mundo, que tem seus estilos regionais enquadrados na world music, também se utiliza dessa nomenclatura? Certamente nenhum brasileiro diria que a Bossa Nova é um exemplar do “gênero”, mas ao falar de estilos, mesmo que de países vizinhos, lá está a “música do mundo”. Duvida? Faça uma experiência: entre na loja de discos mais próxima de sua casa e veja o que há nessa seção. Provavelmente encontrará bandas mexicanas, grupos cubanos e até mesmo músicos da nossa vizinha Argentina.
No Brasil, enxergamos a cultura de outros países do mesmo modo que americanos e ingleses enxergam a nossa. Queremos reconhecimento internacional, reclamamos quando representam Rio de Janeiro como a capital da Argentina, mas tratamos outras culturas, mesmo que próximas da nossa, com descaso semelhante.

É aí que entram iniciativas como a do Bridgestone Music Festival. Apesar de reafirmar a nomenclatura world music, a tentativa do Bridgestone é trazer esse world para mais perto dos brasileiros. Com apresentações como as do cantor e guitarrista Daby Touré – que explora em seu trabalho as fronteiras da música africana com o jazz - e da argelina Souad Massi - que tem seu trabalho influenciado por música clássica árabe, pop argelino, folk e soul music -, a esperança é que, quem sabe, após muitos anos de festivais como esse, o termo “música do mundo” caia por terra e, ao menos nós brasileiros, comecemos a realmente discernir a infinidade de sons hoje identificados pelas mesmas vãs palavras.


Imagem 1: logo do Bridgestone Music Festival
Imagem 2: Souad Massi, cantora argelina que é uma das principais atrações do festival.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O suicídio de Ian Curtis e os debates sobre o rock moderno

A visão romanceada do filme Control e qual a realidade do rock´n´roll após o grande impacto causado pelo Joy Division nos anos 1980

Por Pedro Zambarda de Araújo, 2º ano de jornalismo

“Muitas das músicas são feitas para não serem agradáveis mesmo” diz Sam Riley, na pele do vocalista Ian Curtis. A fisionomia do ator, nascido no ano de falecimento do verdadeiro Curtis, 1980, remete totalmente às fotografias e poucas gravações audiovisuais da banda Joy Division. A ouvinte da frase é Annik Honoré, jornalista belga e amante do músico, vivida pela atriz Alexandra Maria Lara.

Essa frase talvez fundamente o filme Control, lançado oficialmente nos cinemas do Brasil em 21 de maio de 2008, com direção do fotógrafo belga Anton Cobjn e baseado no livro Touching from a Distance, da viúva de Curtis, Deborah. Esses manuscritos são um dos motivos básicos do eixo da trama girar em torno da própria ex-mulher, interpretada por Samantha Morton, que convence diante das cameras, com suas feições sofridas e desiludidas frente a misantropia clara do companheiro. No entanto, esse foco obscurece vários outros, como a própria banda, a natureza dos ataques epiléticos do astro do rock e o contexto histórico da época.

Ian Curtis é, assim como “parte” do filme, um retrato filmado em preto e branco de uma realidade inglesa e global dos anos 80: a desilusão do punk rock, da vida junkie dos drogados radicais e a limitação musical da época. As performances do vocalista do Joy Division seriam mais lembradas do que as músicas em si, de certa forma. A epilepsia que o atacava no palco era uma imagem pitoresca do post-punk, da new wave que emergia do som inglês decadente. Futuras bandas, embaladas pelo grupo de Curtis, não se prenderiam mais em “rótulos”, mas na sinceridade de suas expressões físicas, nas letras geradas de maneira espontâneas e desprendidas de qualquer estilo.

Precipitadamente, poderíamos dizer que até o rock emocore, estilo bastante popularizado no Brasil nos últimos anos, teria tirado suas raízes do fenômeno Ian Curtis. É também prematuro admitir que o cenário alternativo tende a adotar a depressão e o sofrimento como ideologias dentro de sua sonoridade.

No entanto, tal análise se torna errada por um único fator: se Curtis realmente apreciasse seu sofrimento, a decisão extrema de se enforcar no varal de sua casa, após o processo de divórcio com Deborah, não teria ocorrido, como demonstra bem o filme. Se os demais integrantes do Joy Division realmente só se vangloriassem do vocalista problemático que tinham, e que encerraria a banda em 1980, eles não formariam, naquele mesmo ano a banda New Order, que entrou em um som mais eletrônico e menos depressivo.

Ao contrário do emo, que começou em 1985, no cenário musical de Washington D.C., o Joy Division faria brotar na cabeça dos jovens, sem as extravagâncias de David Bowie nos anos 1970, que a música é sim imagem, ato, não só depressão ou temas obscuros, que também foram abordados pelo grupo.

O futuro musical certamente não está apenas na nostalgia do rock mais clássico, que sempre remonta aos já explorados Beatles, Elvis Presley, Pink Floyd, Rolling Stones, entre outros. A música também não se reduziria ao peso excessivo do heavy metal, que prosseguiria numa linha mais agressiva em relação ao padrão, nem aos protestos do punk, que teve uma “morte” como movimento social marcada pela overdose fatal do músico junkie Sid Vicious, em 1979.

Apesar de, hoje, ser considerado apenas um suicida, Curtis foi um mito na atuação e sua banda, uma herança. Paul Banks, vocalista da banda Interpol, nos Estados Unidos, faz um som bastante similar ao da Joy Division em pleno século XXI, sem ter problemas com depressão ou tendências autodestrutivas. A temática obscura da banda de Ian Curtis não era apenas reflexo do seu estado emocional, mas do mundo globalizado, dos males urbanos, dos protestos que não deveriam carregar fortes ideologias e preconceitos, mas conservar a pureza de suas palavras.

Uma das cenas de Control tem uma mensagem subliminar interessante: em uma das últimas apresentações do Joy Division, um homem é pago para substituir Curtis, que se recusa a se apresentar devido a suas crises epiléticas cada vez mais agudas. O visual do músico contratado lembra um emo, com uma enorme franja cobrindo o olho, uma voz fina e dedos pintados. Talvez por isso, foi vaiado. A ausência de Ian começava a representar um perigo para todos, já que a platéia passou a reagir com ameaças verbais aos músicos. Curtis retoma os microfones, canta parte de Disorder, a música que estava sendo executada, se decepciona com a alegria automática do público e abandona o palco. O músico contratado retorna e os fãs invadem o palco, e o show acaba em pancadaria.

A banda Joy Division significa atitude pessoal de músico, não pura depressão, não puramente “Ian Curtis”. É provável que a maioria dos jornais faça comentários que o filme Control e a história do grupo sejam um retrato puro do negativismo moderno. Vejo a música deles como algo que se descreve nos atos de cada integrante na cena: Peter Hook tocando o contrabaixo nas cordas mais agudas devido à má qualidade do instrumento (Peter só conseguia ouvir notas altas no amplificador, reproduzindo poucos graves nas melodias), o olhar de decepção do guitarrista Bernard Summer ao ver a degradação de Ian, o ruído dos sprays e outros sons que são aproveitados na música, um experimentalismo que dá o toque necessário ao rock mais atual.

A chaminé que aparece no último take do filme, fazendo um paralelo com os cigarros que Curtis sempre tragou em vida, é uma metáfora de nossos tempos: alguns observam o charme degradante do fumante, outros vêem os males da nicotina manifestados ali. Isso também se aplica ao Joy Division.

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