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sábado, 26 de julho de 2014

Com a morte de Suassuna, Academia Brasileira de Letras perde o terceiro acadêmico em um mês

Por Marcelo Brandão e Paulo Virgilio da Agência Brasil
Creative Commons

Morreu no dia 23 de julho, de parada cardíaca, o escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna. Ele estava internado, desde segunda-feira (21) no Real Hospital Português, após ter sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico.

A Academia Brasileira de Letras (ABL) determinou luto oficial de três dias. Em nota divulgada logo após tomar conhecimento da notícia, Holanda Cavalcanti lembra o fato de que Suassuna é o “terceiro grande acadêmico” que a  academia perde no espaço de um mês – ele se referia a Ivan Junqueira, morto no dia 3 deste mês, e a João Ubaldo Ribeiro, no dia 18.

“Estendemos à família de Ariano nossos profundos sentimentos de pesar. E, à multidão de seus amigos, leitores e admiradores no Brasil e no mundo, nossa solidariedade  pela imensa perda. Ariano reunia em sua pessoa as extraordinárias qualidades de homem de letras e de intelectual no melhor sentido da palavra, alguém que, dispondo de uma cultura invulgar, era, ao mesmo tempo, um homem de ação. À sua maneira ocupava-se e preocupava-se com os problemas sociais, focado nos da sua região”, destaca o presidente da academia.

Geraldo Holanda Cavalcanti destacou também o engajamento do escritor paraibano com o Movimento Armorial, “através do qual buscava revigorar a identidade nordestina e suas peregrinações, levando, com humor, sua mensagem por todo o Brasil”.

Ariano Suassuna era o sexto ocupante da Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 3 de agosto de 1989, na sucessão de Genolino Amado. Em 2004, a ABL apoiou a produção do documentário intitulado O Sertão: Mundo de Ariano Suassuna, dirigido por Douglas Machado e exibido na Sala José de Alencar da instituição.

sábado, 19 de julho de 2014

Morre o escritor mineiro Rubem Alves

Por Pedro Zambarda

Rubem Alves faleceu neste sábado, 19 de julho, aos 80 anos. Ele foi vítima de falência de órgãos múltiplos. Alves era educador, teólogo, psicanalista e professor. O intelectual lançou mais de 120 livros, sobre religião e educação, além de obras infantis.



Na literatura, tinha como inspiração Friedrich Nietzsche, T.S. Eliot, Guimarães Rosa, José Saramago, Fernando Pessoa, Adélia Prado e Manoel de Barros. Escreveu "O que é Religião", "Filosofia da Ciência" e "Protestantismo e Repressão".

O autor estava internado desde 10 de julho no Hospital Centro Médico de Campinas, interior de São Paulo, para tratamento de uma pneumonia. 

Via iG

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Albert Camus completa 100 anos hoje

"Em 8 de novembro ele [Lucien Camus] se apresenta na prefeitura [de Mondovi, atual Dréan, na Argélia] com duas testemunhas e declara o nascimento de seu segundo filho, no dia 7. Um só nome, Albert. Na época, de cada 40 franceses um se chama Albert. Camus Albert consta no registro entre dois muçulmanos, Khadidja (gerânio). A primeira testemunha, Piro Jean, diz-se comerciante. Nascido na Sardenha, seria, antes, hortelão. A segunda, Frendo Salvatore, nativo de Mondovi, declara-se empregado. Ele entrega sêmola e massas para o merceeiro Zamathé. Lucien Camus, esclarece o registro, é de 'origem francesa'".

De Olivier Todd, jornalista com passagem pelas publicações Nouvel Observateur e L'Express. Autor da biografia Albert Camus, Uma Vida, lançada em 1996.


Albert Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, exatamente há 100 anos atrás. O horário preciso não consta nos registros, mas ele nasceu no seio de uma família de classe média baixa argelina, de origem na França. Lucien, seu pai, era descendente dos primeiros colonizadores da Argélia, trabalhava no cultivo e na colheita de uva para fazer vinho. Foi convocado para servir como militar na Primeira Guerra Mundial. Morreu no dia 11 de outubro de 1914 metralhado por uma arma Maxim, antes do filho Albert completar um ano.


Catherine Helène Sintès-Camus, a mãe, cria os filhos Lucien e Camus ao silêncio, sob a supervisão austera da avó materna também chamada Catherine. A mãe é empregada doméstica e analfabeta. Meio surda, também. As duas mulheres transformam-se em personagens nos livros de Albert Camus, por viverem a decadência e a pobreza de uma vida menos abastada na Argélia, a colônia da França.


O irmão mais velho Lucien torna-se contador. Ele vai estudar Filosofia em Argel, na capital, e desenvolve um excelente dom para textos. No entanto, vive sob pressão do pouco financiamento e envereda para a imprensa. Escreve no Sud, no Alger Étudiant [Argel estudantil], teve uma coluna de discos no La Presse Libre [A imprensa livre] e no Alger Republicain, onde consegue maior repercussão em 1938. Casa-se com Simone Hié em 16 de junho de 1934. Divorcia-se no ano seguinte, por infidelidades conjugais. Ela era viciada em morfina. "Tento fazer jornalismo para continuar minha licenciatura. Estou tão cansado, tão arrebentado. Sentimo-nos envelhecer, aos 20 anos. Bem sei que, se estou sofrendo, estou vivendo plenamente. Sei que o sublime não se separa do trágico, mas às vezes o trágico se sepra do sublime: Quando ele nos aperta demais", diz o escritor e pensador, na época.


Ingressou no Partido Comunista Argelino e depois no Francês, iniciando sua educação política de esquerda no ensino superior. Era apaixonado por futebol e era fumante compulsivo. O governo da República de Vichy, de Paris, se alinha aos alemães nazistas contra a União Soviética, fortalecendo o engajamento de oposição dos intelectuais politizados que não faziam parte da gestão. Camus entra nessa disputa política na capital da França, mesmo sendo um franco-argelino pé-preto (pied-noir). Trabalha brevemente no Soir-Republicain, em 1939.


O passaporte de Camus para Paris, em meados de 1940, é um período de experiência na redação do Paris-Soir, que imprime até um milhão de exemplares. Vive um exílio forçado e politicamente voluntário na França, distante da mãe e cada vez mais engajado nos assuntos da guerra. Escreve O Estrangeiro, o livro que viria a se tornar sua maior obra escrita. Casa-se com Francine Faure, uma pianista e matemática fã de Bach.


Estrangeiro é publicado em 1942 e custa 25 francos. Narra um protagonista que vive o presente, sem ligações com seu passado e futuro. Esse personagem comete um assassinato e não consegue justificá-lo para os demais. Ele é a figuração do conceito de absurdo, que seria abordado em ensaios e reflexões filosóficas de Camus. Os editores Michel e Gaston Gallimard divulgam Albert Camus na França. O melhor resenhista de sua obra é Jean-Paul Sartre, que o apresenta para o círculo de intelectuais parisiense. Sartre é a ponte para Camus da subdesenvolvida Argélia para a potência francesa.


Junto com Pascal Pia, seu antigo editor, Albert torna-se redator-chefe do Combat, em 1944, escrevendo textos opinativos e descritivos sobre o front de combate na Segunda Guerra Mundial. É o ápice de seu engajamento político, amizade com Sartre e exercício literário simultâneo ao trabalho de jornalista. Ele tem 31 anos. O livro O Mito de Sísifo o transforma praticamente em um filósofo, embora ele mesmo negue o rótulo, apesar de sua formação universitária.


Pia fica admirado pela escrita corajosa de Camus, lendo os editoriais em voz alta. O franco-argelino traz um tom crítico quando os americanos jogam bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, mas manifesta pesar pela morte do presidente Franklin Roosevelt. O jornal transforma-se na voz da Resistência Francesa, de esquerda, em oposição ao Le Figaro, conservador, e ao Défense de la France, sensacionalista.


Resume os males da guerra global na obra de ficção A Peste (1947), que foi terminada com muitos conflitos internos. Deixa também o Combat. Vive um período conturbado em sua amizade com Sartre. O amigo francês vai apoiar a URSS de Stalin. Ele sente os excessos do bloco comunista, mas não se alia aos capitalistas. Começa a esboçar o livro O Homem Revoltado. O Paris-Soir lança o sensacionalista Paris-Match em 1949. A imprensa deixa, aos poucos, seu lado intelectual e se torna fortemente comercial, o que o desagrada profundamente. Visita o Brasil, tanto Rio de Janeiro quanto São Paulo. Dá uma entrevista coletiva com a presença de Cláudio Abramo, o diretor do jornal O Estado de S.Paulo.

O ensaio sobre a revolta traz ideias suicidas até Camus, que transforma questões pessoais em fundamentos de sua análise. Uma carta em seu livro O Homem Revoltado, lançado em 1951, menciona os "intelectuais burgueses que querem expiar suas origens", sem citar nominalmente Jean-Paul Sartre. O francês responde, lamentando a perda da amizade. A obra crítica de Albert Camus, sobre as falhas do engajamento comunista, é o estopim de uma separação. Os conflitos das Coreias, da Argélia e de outras questões geopolíticas da Guerra Fria aumentam a diferença entre Sartre, que divulgou Camus em Paris, e o franco-argelino vindo de um mundo subdesenvolvido.

Em 1955, Camus entra no jornal de centro-esquerda L'Express, que convive com a ascensão do comercial Le Monde. Mantém-se pacifista nas questões da independência da Argélia, sua terra natal, o que lhe custa novas inimizades. Sai da publicação em 1956. Em 57, ganha o Prêmio Nobel de Literatura por uma obra "notável num sentido idealista".

Escreve os rascunhos de O Primeiro Homem, livro inspirado em sua vida e com o personagem Jacques Cormery. Em 3 de janeiro de 1960, iria pegar um trem com a mulher Francine. Por insistência de Michel Gallimard, seu publisher, retorna para Paris de carro. Morre no dia 4, às 13h55, com o impacto na hora. Tinha 46 anos. Gallimard morreu cinco dias depois, no hospital. Bateram em uma árvore no acidente.

"A seus amigos, Camus dizia com frequência que nada era mais escandaloso do que a morte de um criança e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel".

Trecho da biografia de Olivier Todd.

No Google francês e no espanhol, a empresa de tecnologia e buscas fez uma homenagem ao centenário de Camus com um logotipo estilizado e inspirado no livro O Mito de Sísifo. Veja o Doodle abaixo.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

100 anos de Vinicius de Moraes

Por Paulo Virgili
Da Agência Brasil, por Creative Commons.


Uma das personalidades da cultura brasileira de maior projeção popular, Vinicius de Moraes, cujo centenário o país foi celebrado no dia 19 de outubro, era muito mais do que o poeta de primeira linha e o letrista de músicas que há cinco décadas são executadas e regravadas em todo o mundo. O Poetinha, como ele mesmo – que cultivava os diminutivos como forma de carinho – gostava de ser chamado, foi um intelectual de múltiplas facetas.

Formado em direito e diplomata de carreira até ser aposentado compulsoriamente em 1969, pela ditadura militar, Vinicius foi também cronista e escreveu para jornais e revistas reportagens cheias de lirismo sobre as cidades onde viveu. Exerceu a crítica de cinema, com análises aprofundadas sobre filmes e cineastas dos anos 40 e 50, e foi um importante autor teatral.

Foi exatamente essa última faceta – a de dramaturgo - que motivou a aproximação do poeta, para quem a vida era “a arte do encontro”, com Antonio Carlos Jobim, em 1956. O encontro, fundamental na trajetória de ambos e um marco na cultura brasileira, aconteceu porque Vinicius estava à procura de um compositor para as músicas de sua peça Orfeu da Conceição, que pretendia encenar no Theatro Municipal do Rio.

Definida pelo autor como “tragédia carioca em três atos”, a peça é uma transposição da história do mito grego de Orfeu para uma favela do Rio de Janeiro. Escrito em 1954, o texto também estava sendo adaptado para o cinema, com o título de Orfeu Negro, pelo cineasta francês Marcel Camus. O filme, que ficou pronto em 1959, ganhou – como produção francesa – a Palma de Ouro do Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro.

A parceria com Tom, iniciada com as canções para a peça – as mais conhecidas são Se Todos Fossem Iguais a Você e Lamento no Morro, deu início a um movimento de renovação da música popular brasileira. Dois anos depois, em 1958, com João Gilberto e a sua inovadora batida no violão, e o lançamento do LP Canção do Amor Demais, com Elizeth Cardoso interpretando composições da dupla, esse movimento, que começava a ganhar forma, logo iria ser chamado de Bossa Nova.

“Vinicius de Moraes foi um divisor de águas na história da música popular brasileira. Um poeta de livro que de repente se torna letrista e traz para as letras da música brasileira uma grande densidade poética”, define o crítico musical Tárik de Souza. Mais do que parceiros, Vinicius de Moraes colecionou amigos, companheiros de boemia e da vida cotidiana. A troca ia muito além das rimas e notas musicais.

Para Tárik, que apresenta na Rádio MEC FM o programa Bossamoderna, Vinicius exerceu um papel de catalisador na música popular, estimulando o surgimento de novos compositores. “Ele foi o primeiro parceiro do Edu Lobo, o primeiro parceiro do João Bosco, incentivou o Francis Hime e vários outros artistas a se dedicarem realmente à música, a partir de parcerias com ele. Vinicius tinha essa generosidade de lançar artistas e de abrir novas frentes, como ele fez com Toquinho, que foi o seu último grande parceiro”.

É grande a lista. Além dos já citados, inclui Carlos Lyra, Baden Powell (que formavam, juntamente com Tom, o que o poeta chamava de sua “santíssima trindade”), Chico Buarque e muitos outros. Lyra, um dos integrantes da “trindade” de Vinicius, conta como foi seu primeiro contato com o poeta. “Liguei para a casa dele: ‘Vinicius de Moraes? Aqui é o Carlos Lyra”.. e ele, com aquela mania de diminutivos, respondeu: ‘Ah, Carlinhos, ouvi muito falar de você. O que você quer de mim?’ E eu: ‘quero umas letrinhas...’. E ele:’então venha já pra minha casa’. E aí começou a amizade e a parceria”.

Vinicius fez letras também para o clássico choro Odeon, de Ernesto Nazareth (1863-1934), e para duas composições de Pixinguinha (Lamentos e Mundo Melhor). Na área da música erudita, Cláudio Santoro e Edino Krieger tiveram versos de Vinicius para composições suas. A obra do Poetinha inclui ainda canções em que ele foi autor de letra e música, dispensando as parcerias, como Pela Luz dos Olhos Teus, Serenata do Adeus e Rancho das Flores. E poemas seus, publicados anteriormente em livros, ganharam música, como os sonetos da Separação, musicados por Tom Jobim, e da Fidelidade, pelo pernambucano Capiba. O poema Rosa de Hiroxima ganhou nos anos 70 música de Gerson Conrad, líder da banda Secos e Molhados, de estrondoso sucesso na época em que lançou o cantor Ney Matogrosso.

O lado menos conhecido de Vinicius de Moraes: Crítico de cinema

Por Paulo Virgili
Da Agência Brasil, por Creative Commons.


O Poetinha que o Brasil admira e cultua pelo lirismo de seus versos era também um cinéfilo de carteirinha. Ao longo de toda a década de 40 e na primeira metade dos anos 50, Vinicius de Moraes exerceu, paralelamente à carreira de diplomata, intensa atividade como crítico de cinema para os jornais A Manhã e Última Hora e para as revistas Diretrizes e Sombra.

“Creio no cinema, meio de expressão total em seu poder transmissor e capacidade de emoção, possuidor de uma forma própria que lhe é imanente (conceito religioso e metafísico que defende a existência de um ser supremo e divino (ou força) dentro do mundo físico) e que, contendo todas as outras, nada lhes deve”, escreveu Vinicius, em artigo publicado em agosto de 1941 no jornal A Manhã. Parte do acervo literário de Vinicius, sob a guarda da Fundação Casa de Rui Barbosa, os escritos revelam que o poeta produziu análises aprofundadas sobre os grandes mestres do cinema da época, como Orson Welles, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock, René Clair, Fritz Lang, Sergei Eisenstein, Vittorio de Sica e o brasileiro Alberto Cavalcanti.

Os rumos do cinema brasileiro e o resgate da obra de nossos primeiros cineastas também estavam nas preocupações do poeta. “Vinicius de Moraes foi importante não só como crítico de cinema, mas também como cineclubista. Foi por meio do Vinicius e das pessoas que integravam a turma dele, de cinéfilos, que o público tomou conhecimento da existência de Limite, o filme de Mário Peixoto que estava perdido há anos”, disse Fabiano Canosa, um dos curadores do Festival do Rio.

Entre 1946 e 1950, período em que foi vice-cônsul do Brasil em Los Angeles, Vinicius estudou cinema com Welles e teve uma convivência muito grande com o meio cinematográfico de Hollywood. “Ele frequentava muito a casa de Carmen Miranda e promoveu a aproximação de muitos nomes da cultura brasileira com Hollywood nos anos posteriores à 2ª Guerra Mundial, como por exemplo o escritor Érico Veríssimo”, declarou Canosa, ex-programador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e do Public Theatre de Nova York. 

Atualmente apresentador do programa Kinoscope, da Rádio MEC FM, Fabiano Canosa lembra ainda que Vinicius teve uma antológica contribuição, juntamente com Pixinguinha, na criação da trilha sonora do filme Sol sobre a Lama, de Alex Viany. Com relação ao filme Orfeu Negro, do diretor francês Marcel Camus, adaptado de sua peça Orfeu da Conceição, Vinicius não teve uma participação direta na produção.

“É interessante o fato de que a peça, que estreou em 1956, três anos depois, em 1959, já era um filme que ganhou o Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro daquele ano. Normalmente, se leva de cinco a seis anos para que uma peça ganhe sua versão para o cinema”, destacou Canosa.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Internet presta homenagens 130 anos do nascimento do escritor Franz Kafka

Franz Kafka nasceu em Praga, cidade que atualmente fica na República Tcheca, em 3 de julho de 1883. Hoje, o escritor autor de O Processo e A Metamorfose completa 130 anos do dia de seu nascimento. Sites na internet já fizeram homenagens ao autor.


Google homenageou Kafka com um Doogle, um logotipo personalizado, na página de buscas. No símbolo, aparece o homem-inseto Gregor Samsa, protagonista de "A Metamorfose"



Pirikart, a série de tiras de Adriano Kitani, já havia feito uma homenagem pop ao escritor, comparando-o ao herói japonês Kamen Raider

domingo, 27 de dezembro de 2009

Os milímetros entre o jornalista e o escritor

Na Avenida Angélica, no bairro da Consolação de São Paulo, em um prédio antigo, com a entrada uma confusa sem muita sinalização e elevadores arcaicos, um senhor abre sorridente a porta de seu apartamento no último andar, receptivo como se conhecesse a visita antes da entrevista. O diálogo começa quando o senhor, vestido de traje social, com um colete de lã por cima da camisa, se encosta na cadeira de balanço, meticulosamente colocada ao lado da lareira.

O personagem, o cenário e a atmosfera mostram-se extremamente literários, ricos em detalhes e histórias. A volumosa decoração, entre muitos quadros e pequenos objetos, são em sua maioria presentes dados à Cremilda Medina, sua esposa, na época em que trabalhava no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo. Nada mais apropriado para o escritor e jornalista Sinval Medina, ficcionista histórico (estilo que prefere chamar de “fundacional”), autor de uma vasta obra literária: 4 romances, 3 novelas infanto-juvenis, 2 livros de histórias infantis em versos, 1 dicionário de História, além de ensaios publicados na revista Novo Pacto da Ciência da ECA/USP e outras narrativas publicadas em antologias.

Contudo, a placidez e a serenidade de Sinval faz tudo parecer mais simples. “Sou um sujeito mais comum do que você pode imaginar. Sem nada de muito interessante do ponto de vista midiático.” diz. “Sou muito certinho” Sinval, se define. Colorado roxo, Sinval nasceu em Porto Alegre, em 1943, em uma família de classe média. Aos 17 anos, já tecia textos de ficção e teve o acesso à literatura não só muito rápido, mas também muito incentivado principalmente por seus pais. “Tive uma infância modesta, mas sempre tive estímulo e facilidade para estudar”, conta.

Seu pai, um executivo na área de vendas de uma multinacional, “era um leitor eclético e, nesse sentido de cultura literária, ele era autodidata”, relembra. A mãe de Sinval, dona de casa, também gostava muito de ler e nunca trabalhou. Porém, “criou quatro filhos”, brinca o escritor de riso solto, o único homem entre as três irmãs, sendo uma já falecida.

No ano de 1964, ele se formou em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e relembra o golpe militar de uma maneira bem inusitada. “Houve um atraso e a data da nossa formatura era 31 de março de 1964. No dia do golpe nós estávamos participando da solenidade da formatura”, declara. Com a repressão política, Sinval paralisou a publicação de sua produção literária, temendo o risco de ter os escritos apreendidos. “Fui escrevendo e colocando na gaveta”, revela. Publicou o primeiro romance, Liberdade Condicional, somente em 1980, quando o regime estava se abrandando. Foi também na UFRGS que o ficcionista conheceu, em um cursinho pré-vestibular, a futura professora Cremilda Medina, com quem está casado há 45 anos e tem um casal de filhos, sendo a mais velha com 43 e o mais novo com 40 anos. “A partir daí a gente praticamente conviveu todos os dias”, declara. “Além da convivência doméstica a gente tem uma convivência profissional e intelectual muito intensa”, diz.

Mesmo colaborando na área de comunicação em Porto alegre, trabalhou primeiramente como funcionário público no Banco do Brasil e mudou-se para São Paulo em 1971, quando a esposa conseguiu uma bolsa de estudos para o primeiro curso de pós-graduação da ECA e, paralelamente, Sinval também conseguiu a transferência para o sudeste. O escritor relata que, nesse momento, ou continuava burocrata para o resto da vida ou deixava a função. “Podia até virar Ministro da Fazenda. O Maílson Ferreira da Nóbrega entrou no Banco no meu concurso. Eu corria esse risco” ri Sinval.

Apesar de somar 17 anos trabalhando na editora Abril como jornalista, chegando a ser editor-chefe da revista Boa Forma, prefere a posição de escritor ficcionista pois “o dia-a-dia da redação é algo terrível para alguém que quer escrever”, indaga. Teimoso, chegava mais cedo à redação para poder se dedicar aos seus escritos; uma de suas obras, Memorial Santa Cruz, de 1983, foi em maior parte escrito na redação.

Prêmio Passo Fundo de literatura em 1999 (com o livro Tratado da altura das estrelas), Sinval Medina tece seus textos dentro do “gênero fundacional”, como define o escritor. O grande mote de suas obras é a fundação da cultura brasileira ou, basicamente, a tentativa de responder à pergunta: o que é ser brasileiro? Sinval procura fatos e personagens históricos e vai adicionando ficção à narrativa. Apaixonado por História, o escritor desenvolve uma pesquisa extremamente profunda tanto para encontrar seus personagens quanto para ambientar a história. “Ele vai a fundo para pesquisar coisas sobre esses livros, ele vai a arquivos, vai a bibliotecas, conversa com pessoas, vai atrás, levanta dados históricos, vai nos lugares onde os personagens sobre os quais ele vai escrever viveram” comenta Pedro Ortiz, diretor geral da TV USP e professor de Telejornalismo da Cásper Líbero, amigo do escritor. “Ele tem esse outro lado que é o de pesquisador”, conclui. O próximo livro do escritor, com previsão de lançamento para o fim de 2009, segue também essa linha editorial e será sobre Cristóvão Pereira de Abreu, pioneiro do tropeirismo no século XVIII, que abriu caminho por terra entre o Uruguai e São Paulo.

Extremamente metódico, herdou muitas coisas do jornalismo que aplica à vida de escritor. Sinval escreve todos os dias e, quando envolvido em um projeto, lê de 4 a 5 horas sobre o assunto que está digerindo. Ao final dessas sessões, costuma elaborar uma pauta para o próximo dia. “No pé no que eu acabei de escrever, eu faço uma pequena pauta do que eu vou fazer no dia seguinte”, detalha. Pela parte da manhã o escritor lê, todos os dias, O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo e, à tarde, relê, refaz ou continua escrevendo seus textos e tenta manter um ritmo entre 60 e 70 linhas diárias. “Digito textos diariamente. 3 horas, 4 horas por dia e nunca deixo de escrever”, revela.

Elogios não faltam para esse apreciador de vinhos, que adora cozinhar. “Brigamos muito na cozinha porque ambos gostamos de cozinhar e cada um quer fazer o principal e não o trabalho subserviente”, brinca Cremilda. Receptivo e muito bem humorado, o escritor mostra-se, de acordo com os amigos, sempre disposto a conversar sobre os mais diversos assuntos. “Ele é uma pessoa extremamente acessível está sempre disponível, simpático, então isso aproxima muito das pessoas”, elogia o professor Pedro Ortiz. Quando perguntada sobre o que mais gostava no marido, Cremilda, dona dos “40 anos de motivos”, dedicatória em um dos livros de Sinval, a resposta é curta e terna: “Tudo”.

Imagens: Cauê Fabiano

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