sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Uma grande notável

A chuva continua matando. A crise continua despedindo. A insanidade de algumas pessoas continua degradando a imagem de nosso país no exterior. Esse é o Brasil. Apesar de começar com o pé esquerdo o ano de 2009, essa pátria tão amada ainda tem do que se orgulhar. Felizmente.

No dia 9 de fevereiro de 1909, há precisamente cem anos, Maria do Carmo Miranda da Cunha, mais aclamada como Carmen Miranda, deu a graça de aparecer no mundo para despertar sorrisos em baianas, cariocas, pernambucanas, americanas e em todos que a viam e ouviam. A baixinha de um metro e cinqüenta e poucos centímetros pode até ter nascido em Portugal, mas descobriu o real sentido da vida no Brasil.

Carmen e sua família se mudaram para o Rio de Janeiro em 1910. A pequena herdou sua linda voz de seus parentes maternos e, por isso, sempre cantarolava pelos cantos, além de tentar com todas as armas conseguir uma carreira artística. Ainda bem que ela não desistiu do sonho. Quando tinha 17 anos, acabou aparecendo nas páginas da revista Selecta, na seção de cinema, da mesma forma que hoje algumas pessoas desconhecidas saem no fundo das fotos em publicações como a Caras. Esse foi um dos passos iniciais no brilhante caminho desta cantora.

Persistente, em 1929 passou a ter aulas de canto com o professor Josué de Barros. O homem, maravilhado com o talento vocal de Carmen, passou a promovê-la em teatros e rádios. O destino queria que alguém reconhecesse o dom da jovem. E o sonho virou realidade.


No mesmo ano, a luso-brasileira, mais brasileira do que luso, gravou seu primeiro disco pela Brunswick (gravadora alemã), sempre com o apoio de seu mestre Josué. Em 1930, Carmen lançou outro LP, agora pela gravadora Victor. E nesse vaivém de músicas e discos, a revelação artística passou a cantar marchas de carnaval e continuou a se apresentar em teatros e casas de shows. Consequentemente, também começava a conquistar fãs onde soltava a voz. Ainda no mesmo ano, lançou a famosa marcha Pra Você Gostar de Mim (Taí), cantada até hoje em alguns bailes, e passou a ser reconhecida ao longo do tempo como uma grande artista por diversos periódicos brasileiros, como O País (“a maior cantora brasileira”) e A Hora ("Rainha do Broadcasting Carioca" - 1934).


Em 1932, a polêmica revista O Cruzeiro entrevistou o novo ícone da música, exatamente na mesma semana em que Carmen se apresentava com nada menos do que Noel Rosa no 2º Broadway Cocktail.

Mas a pequena notável queria ser grande. O mundo musical era apertado demais para compreender seu enorme talento. Por isso, em 1933, Carmen arriscou e estreou seu primeiro filme, intitulado A Voz do Carnaval. Um sucesso, logicamente. Isso só contribuiu para que a “cantora do it”, como também ficou apelidada, não parasse mais de gravar longas-metragens. Participou e cantou em filmes como Alô, Alô Brasil (1935) e Alô, Alô Carnaval (1936), nos quais sua irmã Aurora, também com bela voz, ajudou na cantoria. Em 1939, no longa "Banana da Terra", Carmen finalmente revelou seu jeito baiano de ser. Também no mesmo ano é que a boneca brasileira seria reconhecida no exterior. Mesmo sem saber falar absolutamente nada em inglês, Carmen e seu grupo musical “Bando da Lua” navegaram em direção aos Estados Unidos para outra fase de sucessos, tanto na música como nos cinemas.

Para variar, os novos imigrantes viraram a Broadway e a cidade de Nova York de cabeça para baixo, estreando no espetáculo Streets of Paris. A partir desse evento, Carmen começou a consolidar sua carreira fora do Brasil. Gravou dez filmes em Hollywood, divulgou sucessos como Mamãe Eu Quero e O que É que a Baiana Tem?, causou inveja nas mulheres ao se envolver com o grande ator de westerns John Wayne, se apresentou na Casa Branca para o então presidente Franklin D. Roosevelt e foi novamente apelidada, dessa vez de Brazilian Bombshell.

Mesmo sendo venerada pelos norte-americanos por sua graciosidade, beleza e afinação, as saudades bateram no coração desse fenômeno musical. Em 1940, as preces dos brasileiros, mas mais ainda dos cariocas, foram atendidas e Carmen desembarcou no Rio de Janeiro. Contudo, sua volta não foi tão bem vista assim por outras pessoas. Ao se apresentar no Cassino da Urca, o desprezo de alguns pela cantora falou mais alto. A notícia que se espalhava pelos ventos era a de que a baixinha tinha se transformado em uma americana nata. Por causa disso, acabou desabafando sua decepção em uma nova canção (Disseram que Voltei Americanizada). A partir desse momento, Carmen aprendeu que a vida artística não era o paraíso que ela imaginava e acabou conquistando a maturidade que não possuía no início de sua carreira.

A rainha das frutas voltou aos Estados Unidos. Porém, o período foi bem diferente. Continuou cantando e se apresentando ao mesmo tempo em que aumentava a sua dependência de tabaco, remédios e calmantes. Só assim aguentava a pressão dos shows e das críticas. Mas depois de alguns anos, os sintomas foram dando sinais em seu corpo e a pequena notável retornou ao Brasil em 1954, após catorze anos de “exílio”. Aqui, na terra que a recebeu de portas abertas de Portugal e que desabrochou sua carreira, Carmen fez um tratamento que durou aproximadamente um ano. Quando se sentiu um pouco melhor, viajou novamente para os Estados Unidos, onde faleceu aos 46 anos de idade por um ataque cardíaco fulminante. Sua despedida da Terra não poderia ter sido feita senão no Brasil, com uma plateia que a homenageava cantarolando seu grande sucesso Pra Você Gostar de Mim (Taí). Mesmo que ela não estivesse escutando, o público dava seu coração nesse adeus. A estrela, que nunca se naturalizou brasileira, mas que sempre teve um coração verde e amarelo, embarcava para os céus, buscando finalmente descansar. O brilho que sempre teve em seu sorriso se transformou em um ponto de luz no universo, lugar este talvez grande o suficiente para abrigar tanto talento num só corpo.

3 comentários:

Mariana Bruno disse...

diva!;D

Pedro Zambarda disse...

Ìcone.

Poderia ter sido símbolo.

André Sollitto disse...

Estreia em grande estilo em? Ótimo perfil.

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