terça-feira, 28 de outubro de 2008

Jornalismo Cultural: é propaganda ou é crítica?

Por Pedro Zambarda
1ºdia/noite – Semana de Jornalismo 2008 - Faculdade Cásper Líbero

A discussão sobre cultura e suas vertentes no jornalismo trazem a tona temas como a dimensão da arte atualmente - sua propagação para as massas e o esvaziamento de seus antigos discursos. Trazendo um diretor de teatro e um musicista, o debate feito durante a Semana de Jornalismo permitiu contato dos próprios artistas com a imprensa, trazendo sugestões e novos caminhos para a crítica artística, sem ficar presa em press-releases e nas resenhas que se limitam nas descrições.




Com 15 minutos de atraso, às 19h15, a palestra de debate sobre jornalismo cultural se iniciou no primeiro dia de eventos da Semana de Jornalismo 2008 na Faculdade Cásper Líbero, dia 21 de novembro. Iluminados apenas por um feixe de luz fraco ao centro do palco, os jornalistas Heitor Ferraz e Manuel da Costa Pinto iniciaram suas falas após uma apresentação rápida do evento e das discussões da mesa feita pelo coordenador do curso de jornalismo da Cásper Líbero, também professor de História da Comunicação e Design em Revistas, Carlos Roberto da Costa.

Heitor Ferraz, que também é professor da Cásper na disciplina de Jornalismo Cultural, iniciou a palestra relembrando uma tese do crítico das chamadas “culturas de massa” Theodor Adorno: “arte não é apenas cultura, é também economia, é também administração”. Dessa forma, Heitor Ferraz retratou que as análises críticas dadas por essa categoria de jornalismo estão esvaziadas em seu discurso, que desconsidera co-relações com o mundo capitalista que domina toda a bagagem cultural e a transforma em produto. “Relacionada com avanços tecnológicos e as possibilidades técnicas, a cultura é cada vez menos um espaço de crítica” frisou Heitor, trazendo, em uma única frase, a problemática de abordar esse assunto.

Chamado por Heitor de “fonte para todas as pautas em jornalismo cultural”, Manuel da Costa Pinto iniciou sua fala intensificando a crítica de Heitor e adequando ao nosso contexto. Para chegar nesse nível de atualidade, Manuel, jornalista do Guia da Folha de S.Paulo e da TV Cultura, fez um panorama da crítica historicamente, passando por obras clássicas como a Poética de Aristóteles até a primeira enciclopédia, de Diderot. “O ideal artístico na época clássica era a imitação. Diferente de hoje, a arte era considerada perfeita seguindo parâmetros rígidos que constituíam um método” explicou Manuel da Costa Pinto. Na fase do renascimento cultural na Europa, após o surgimento da prensa de Gutemberg no século XV, surge a figura do crítico de arte e dos periódicos literários que, segundo Manuel, “profissionalizam o trabalho de crítica cultural”. Com o advento do século XX e a ampliação dos meios de comunicação até a criação de um público considerado “de massa”, o jornalista colocou que a “administração e a economia que Adorno se refere, em sua crítica sobre a cultura está relacionada ao enorme controle que a mídia passou a ter com a cultura massificada”.

Finalizando seu panorama, Manuel colocou que essa crítica especializada dos jornais, após o término da Segunda Guerra Mundial, começou a ser dissipada por conta a formação das faculdades de letras por todo o mundo. “Surgiu então a figura do acadêmico, que, preso aos limites da academia, isola seu potencial crítico ao grande público. Não preciso nem entrar em detalhes que existem centros universitários com formações doutrinárias” enfatizou. Por fim, para Manuel da Costa Pinto, o crescimento da publicidade e a incorporação tecnológica e informática ao fazer da arte transformaram a crítica em apenas divulgação. “Proliferam hoje os press-releases ao invés das críticas aprofundadas.

Fábio Cárdia de Carvalho, mestre em comunicação e semiótica com atuação nas áreas de música, artes e dança, além de ser compositor da trilha-sonora da série da TV Cultura chamada O Mundo da Lua, foi o primeiro a trazer críticas fora do jornalismo até a própria imprensa. “As perguntas que o jornalista traz, sem nenhuma pesquisa, são vazias e burras. Muitos deles não sabem sequer quem é o entrevistado, muitos deles nem me conhecem. É difícil para o músico viver sem a crítica, pois dessa forma ele não faz sucesso entre os ouvintes” explicitou Fábio, apoiado também pelo diretor Eduardo Tolentino, do grupo do Teatro Amador Produções Artísticas (TAPA).
Em tom de humor, Fábio, com comentários de Eduardo Tolentino, também lembrou que a revolução tecnológica que se opera nas artes também afetou sua vida. “Sou da época do clássico Telejogo, meados dos anos 1980. Hoje, diante de um videogame Playstation 2, fico estático. Fora as 500 músicas que você pode baixar em uma madrugada pela internet, considerando que você não ouvirá nem metade delas”. Manuel da Costa Pinto completou a indagação de Fábio e fez uma confissão: “hoje há uma nítida diferença entre nós, que viemos de uma cultura de leitura e precisamos nos adaptar ao mundo digital, enquanto existem crianças hoje que já nasceram inseridas nesse contexto. Aliás, eu devo explicar aqui que nunca joguei um Playstation 2 e que, para mim, isso é totalmente estranho”.

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