domingo, 12 de outubro de 2008

O texto

Mais do que um reflexo do tempo social ou político, um texto reflete o tempo pessoal do autor. Ele é uma representação das relações pessoais e de como elas afetam o humor do escritor que, mesmo sem intenção, reflete a si mesmo no papel. Um escritor é, antes de tudo, um interlocutor de si mesmo.

Indo além do aspecto físico e pessoal de um texto, é importante se traçar o perfil do escritor – não o escritor qualquer, mas o perfil de qualquer escritor, que, no fundo, tem uma semelhança com todos os outros: ele é um aventureiro. Seja ele um desbravador de temas, linguagens e estilos, o autor é um ser que respira, que ri quando acha algo engraçado e que chora quando se encontra diante de uma inevitável tristeza; É um ser que fuma, bebe o vinho ou que não se prende a nada, que simplesmente é, e, existindo, dá vida às suas faculdades.

Como todo ser que ri e chora, respira e existe, ele busca algo para alimentar sua fé, seja ela religiosa, espiritual ou material. Essa fé leva o escritor em sua tristeza e adormece levemente em paz na tranqüilidade que surge nele de repente como uma brisa leve e sem confiança de um outono recente, carregando as folhas secas caídas das árvores como pássaros que descem do céu em um mergulho helicoidal e de inevitável choque com o chão.

A fé é algo inevitável e, algumas vezes, se constataram casos de que ela havia se perdido, deixando o homem, na quietude de sua caverna, imerso em trevas. Não somente nessa hora, o homem grita e de seus pulmões e de sua garganta surgem os versos que ninguém ouvirá de tão íntimos e secretos que são. Esse homem gritará então para si mesmo e só aí terá sua própria revelação: verá refletido em sua frente ele mesmo em carne e fibra, em ossos e órgãos, em uma alma nua, frágil, verdadeira.

Esse reflexo do grito desesperado das aflições humanas, posto no papel, se torna o texto, que tem uma fidelidade insuperável quando escrito com sangue. Todas as palavras só se separam do chumbo da alma quando o escritor se entrega à folha em branco que se estende perpendicularmente ao infinito em frente a ele. A surpresa se dá quando, se entregando, o autor vê que o texto se entrega de volta a ele, piedosa e carinhosamente.

Carrego essa lição intimamente e repito-a com um rigor religioso. Há alguns anos aprendi a escrever assim e desaprendi todo o resto: as convenções, as fórmulas, a tão imaculada métrica. Descobri que a palavra nada mais é do que o sentimento que percorre o caminho até a boca, como uma lágrima que, rolando, atinge inevitavelmente os lábios. Essa lágrima, esse sentimento, não é água empedrada em sal, é o contrário: é sal dissolvido em água. É maleável e irremediavelmente expressivo, pedindo somente que se perpetue em versos no papel.

2 comentários:

Aleta disse...

tudo o que eu precisava ler nessa madrugada, obrigada

Pedro Zambarda disse...

Nanami Sato te mataria por esse texto, haha (ela é fã de métricas, não métricas poéticas, mas regras de português).

Gostei muito do sentimento que você passou, sem ser nada piegas.

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