quarta-feira, 20 de maio de 2009

México: gripe, desinformação e incompetência

Por Eduardo Álvarez.

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

Direto da Cidade do México para o
Bola da Foca.


Na noite de 23 de abril, com uma mensagem em cadeia nacional emitida pelo Secretário de Saúde, José Ángel Córdova Villalobos, tomou-se conhecimento de que as atividades nas escolas públicas e privadas, da pré-escola até a universidade, foram suspensas no Distrito Federal e na zona metropolitana devido a um surto de gripe.

Neste dia começou um ambiente de medo e incerteza entre os mexicanos que habitamos na capital. Para mim e meus amigos da faculdade, não era possível acreditar em uma emergência sanitária surgida de um surto de gripe comum.

As horas se passaram e os meios de informação mexicanos se concentraram em explicar que, desde os primeiros dias do mês de abril, mais de 13 pessoas haviam morrido por causa da gripe. E devido às mortes ainda continuarem, o governo tomou a decisão de suspender as atividades escolares somente como um modo de prevenção, pois segundo as autoridades oficiais, a epidemia encontrava controlada.

Surgiu, de repente, uma tensão total. As ruas se esvaziaram e as pessoas deixaram de sair com essa confiança costumeira que uma vida ativa pode proporcionar. O México mudou da noite para o dia e somente os setores privados e governamentais continuaram trabalhando. Descobriu-se, em princípio, que era uma nova doença, com componentes genéticos próprios, que chamaram “vírus da gripe suína”.

Os espetáculos, as atividades culturais e esportivas foram suspensas do dia 23 de abril a 6 de maio. No total, 35 000 restaurantes do Distrito Federal tiveram que parar de vender alimentos nos locais e, somente com o pedido por parte das autoridades sanitárias, puderam vender alimentos “para viagem”. Nove partidos de futebol jogaram a portas fechadas. Aumentou em 300% a venda de antigripais. O exército e o governo do DF distribuiu 8 milhões de máscaras em território federal.

No total, 30 mil milhões de pesos (0.3 do PIB e correspondente a cerca de 4.6 milhões de reais) se perderam a nível nacional, segundo a Secretaria da Fazenda, combinado com inúmeros empréstimos, que incluem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial (BM) e a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Estranhamente, foi neste período quando a Câmara dos Deputados aprovou reformas a diversas leis sobre o uso de drogas, obras públicas, o uso de força pública por diversas corporações de polícia e de aquisições e serviços do setor público. A maioria das leis foi aprovada por unanimidade e sem oposição alguma.

Depois que o governo mexicano deu a conhecer o nome do vírus da gripe A/H1N1, Argentina e Cuba suspenderam seus vôos ao México. China colocou em quarentena 70 mexicanos e se iniciou uma xenofobia contra eles.

Mas, como a mídia deu a conhecer a informação no México? No caso das televisões mexicanas mais importantes, Televisa e TV Azteca, que formam um duopólio da comunicação no México, a forma em que orientaram seus conteúdos ao receptor foi de maneira superficial e não deixaram dúvida alguma de que uma pandemia iminente estava a ponto de acabar com a vida de milhões de mexicanos, se não acatássemos as novas regras de higiene que implantaram de imediato.

A falta de análises dos conteúdos midiáticos acabou com a capacidade de criticar, semeando medo, pânico e um pouco de ceticismo entre a população. Os números de mortos de um dia para o outro aumentavam e diminuíam às vezes sem sentido. Debatia-se no governo sobre dizer se as pessoas que haviam morrido naquele dia haviam se contagiado por gripe ou morreram por outra enfermidade.

O problema foi explicar claramente para manter a credibilidade, pois as contradições que surgiram das mesmas mídias oficiais terminaram com a confiança da maioria dos mexicanos. Dia 5 de maio, um dia antes de iniciar de novo com as atividades, as pessoas saíam de novo nas ruas, deixando de lado as precauções como o uso de máscaras.

O que a gripe suína demonstrou no México? Sem contar as evidentes falhas da ciência e infraestrutura médica, revelou-se um uso exagerado de informação na mídia. Segundo Marc K. Siegel, epidemiólogo estadounidense, o governo e o presidente do meu país, Felipe Calderón, manipularam indevidamente a informação.

Siegel explicou que a transmissão da doença se enfraquece diariamente com a transmissão de um humano para outro; que as pessoas que sofrem do mal podem controlar e curar com medicamento, desde que se trate a tempo; e que as conferências de imprensa dadas pelo governo serviram para que os meios exagerassem nas informações, resuntando em uma epidemia de medo.

A triste realidade é que o México foi o foco de atenção internacional e está pagando as consequências econômicas e sociais por diversos erros que o governo mexicano cometeu. Tanta publicidade, não ajudou para nada.

Por outro lado, é difícil saber se algum dia se desatará a pandemia de gripe A/H1N1 como se veio anunciando há alguns dias. O que é fato é o aparecimento de uma série de boatos e verdades conspiratórias geradas pela doença que começam a expandir-se por todo o planeta.

No México, as páginas da internet começaram a se encher de mensagens que variavam de música, piadas e teorias conspiratórias. Entre elas:

1) Foi um vírus que pode ter sido elaborado por bioterroristas para assassinar o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quem esteve em visita oficial dia 16 e 17 de abril.

2) Foi uma bomba viral criada em “laboratórios secretos” com o objetivo de enfrentar mudanças climáticas.

3) Foi somente um beta test para preparar um futuro ataque decisivo.
4) Acionistas de grandes laboratórios farmacêuticos provocaram esta situação para vender milhões de vacinas.

5) É parte da doutrina do choque (existe um vídeo muito bom feito por Naomi Klein e o cineasta mexicano Afonso Cuarón: http://www.youtube.com/watch?v=_nNJM0kKrDQ).

6) E muito mais...

Se analizamos a teoria do papel assumido pelos rumores e as teorias conspiratórias, nos daremos conta que sua função é preencher um vazio, introduzir um sentido supostamente lógico. Os psicanalistas chamam de racionalização essa tendência de inventar ou aceitar explicações por mais absurdas que sejam.

Quanto aos megacomplôs, o francês Pierre-André Taguieff, autor de L’imaginaire du Complot Mondial, disse que com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, deu-se ainda mais força a utopia de transparência e se aprofundou o desejo de ter chaves para a compreensão e domínio do mundo.

Então, diante do inexplicável e da incerteza, confere-se aos cidadãos a credibilidade dos rumores e das teorias de conspiração que estão apoiadas em supostas verdades ocultas.

Às vezes o fascínio pelo oculto e as conspirações são mais fortes que o racionalismo baseado em análises das estruturas sociais organizadas. Mas por enquanto, os cidadãos do México metaforizamos a palavra gripe no gradual descrédito da palavra oficial.

Hoje são poucos os mexicanos que seguem as medidas preventivas conrea o novo vírus. Este desdém surge porque pesquisas oficiais revelam que 92% dos habitantes da República Mexicana não conhece nada que se pareça com a “gripe suína”.

O mais grave do assunto é a confusão que se criou. A pesar da quantidade de maios midiáticos e trasmissores de dados, a sociedade mexicana está tão mal informada como há 50 anos. Notas, artigos de opinião e mexericos banais vão e vêm contradizendo-se uns aos outros.

Contudo, novos operadores tecnológicos surgem na Internet para tornar crítica e participativa a consciência social. Por acaso, com nossas prosas, versos e opiniões estimulamos um espaço alternativo de comunicação? Eu acredito que sim, e este vínculo entre México e Brasil demonstra isso.


Tradução e contato com a fonte: Luma Ramiro



Post scriptum
: Ryszard Kapuściński dizia que não podia existir um mundo sem jornalistas que trabalhassem por vontade e vocação. Lugares como este demonstram isso. Do México, muitos parabéns e agradecimentos pelo convite.

6 comentários:

Pedro Zambarda disse...

Uma das melhores e mais atuais reportagens que vi aqui no Bola. Meus parabéns, Luma Ramiro ^^ pela competência e por querer sempre trazer experiências novas.

Luma Ramiro Mesquita disse...

Direciono o parabéns para o Lalo (Eduardo), meu querido amigo mexicano e compente jornalista. Agradeço-lhe por tanta informação, dedicação e apuração.

Diego Sammarco disse...

Muito boa reportagem.

Mas acho que você não precisaria deixar o texto em português e espanhol. Publicar só a tradução seria suficiente.

Do jeito que está, fica um texto muito extenso, o que desestimula a leitura - principalmente em um blog.

Luma Ramiro Mesquita disse...

Concordo com você, Diego. Eu tinha colocado o texto primeiro todo em português, depois, com letras menores, em espanhol. Mas acho sua idéia melhor.

O que você acha, Pedro?

Pedro Zambarda disse...

Pode editar do jeito que achar melhor, Lu =]

Luma Ramiro Mesquita disse...

Acho que ficou melhor agora...
=)

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