domingo, 18 de janeiro de 2015

Porradaria da PM encerra o 2º ato contra a tarifa em SP

Por Mídia NINJA
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Tudo ia bem. Mas a PM não se emenda. Bastou que alguns manifestantes lançassem contra os escudos da tropa de choque entrincheirada na porta da Prefeitura algumas garrafas de plástico com água e... Uma pancadaria absurda tomou o centro de São Paulo.


(Seria esse um efeito perverso do racionamento de água, só agora admitido pelo governador Geraldo Alckmin?)

Bombas de efeito moral, de gás lacrimogêneo, balas de borracha foram disparados contra tudo o que se movesse, contra manifestantes e contra pessoas que simplesmente passavam por ali, naquela hora de pânico.


Uma covardia.

No segundo ato promovido pelo Movimento Passe Livre, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô, de R$ 3 para R$ 3,50, nesta sexta-feira, 16 de janeiro, a única guerra real que aconteceu foi a de números. O MPL dizia ter reunido 20.000 manifestantes, enquanto a PM avaliava o número de participantes em 3.000.


Até as 20h33, a manifestação vinha bem, apesar de a PM ter detido um manifestante pelo “pecado” de carregar uma rodinha de skate na mochila. Jogaram-no no chão como a um saco de lixo, imobilizaram-no. Logo ele foi solto. Também explodiu um artefato de gás lacrimogêneo na frente do Ministério do Trabalho, na rua da Consolação, 1272...


Mas a passeata seguiu firme e organizada, apesar de duas agências bancárias (uma da Caixa Econômica Federal e outra do Banco do Brasil) terem sido depredadas não se sabe nem por quem.

Era alta a tensão reinante.

Até que alguns manifestantes arremessaram as garrafinhas de água na tropa de choque.

Motivo ridículo? É, mas foi o que deflagrou a pancadaria generalizada.


“A polícia vê e entende os manifestantes como inimigos. A reação deles é desproporcional em relação aos que seguem pacificamente. Na semana passada um observador legal foi atingido com bala de borracha no pescoço. Outros três foram golpeados com cassetetes. Não há diálogo. O clima é sempre de tensão”, diagnosticou Denize Guedes, jornalista e observadora legal.

Pelo menos 1.000 PMs acompanham a marcha. Tinha de tudo. Cavalaria, Tropa de Choque, Tropa do Braço, Força Tática. Um caminhão, chamado de POE, “Plataforma de Observação Elevada”, de onde sobe um mastro cheio de câmeras, fotografava toda a manifestação.

“A gente tá lutando por vocês também! Vão caçar bandidos, seus covardes!”, gritava um manifestante para a PM. Ele estava irado com a repressão. Tinha visto uma faixa uma faixa estirada debaixo do Viaduto do Chá, em que se lia: “Agora é de R$ 3 pra baixo”. E se emocionou.

Uma mulher ficou desmaiada no viaduto bombardeado. Foi socorrida por manifestantes. Em frente à Prefeitura, um manifestante sangrava no chão.

O Segundo Ato contra o Aumento das Tarifas acabou sob o ataque da polícia. O centro de São Paulo ficou às moscas e restou um cenário de devastação, apesar de os manifestantes terem a intenção (frustrada) de levar o protesto pelo largo S.Francisco, a Sé, até o  Tribunal de Justiça de São Paulo.

Fechado, o  Metrô  Anhangabaú foi o palco da revolta de usuários que protestavam contra a ação policial:  "Somos cidadãos, somos cidadãos!"

Falava-se em oito detidos, que foram enviados para o 78º DP, na rua Estados Unidos, nos Jardins.

A promessa agora, é uma só: “Amanhã vai ser maior!”

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Por que eu acabei entrando no jornalismo de games?

Por Pedro Zambarda
Via Geração Gamer

Esta é uma pergunta que eu me pego fazendo diariamente, porque eu às vezes não lembro direito como começou. Só sei de uma coisa concretamente: Não era um sonho de infância. Mas acabei entrando na área e acho que estou pegando gosto em fazer jornalismo de videogame, especialmente aqui no Geração Gamer e nos demais sites em que eu colaboro.


Minha trajetória no jornalismo de games não começou na imprensa, mas sim num fórum online. Em 2004, há quase 11 anos, eu era um dos integrantes do fórum do site da Pokémon LAND, a maior comunidade do nicho no Brasil e uma das maiores do mundo. Não sabia na época, mas eu produzia depoimentos e, de uma certa forma, reportagens através de meus comentários na comunidade. Participava de torneios oficiais promovidos pela revista Pokémon Club no Brasil todo. Jogávamos Game Boy via cabo link e relatávamos as experiências.

Antes desta fase, eu tinha sido assinante da Ação Games nos anos 90 e comprador compulsivo da Nintendo World, a revista oficial da Big N no Brasil. Depois veio a minha fase de leitor da EGM Brasil. Resolvi conhecer melhor os PCs e me tornei comprador da revista INFO da editora Abril. Cogitei, quando tinha 16 anos, fazer um curso de engenharia na faculdade, por adorar computação. Em pouco tempo, descobri que tinha mais talento para escrever do que fazer cálculo.

Graça ao gosto por videogames, e por internet, recebi uma recomendação de meu pai para fazer jornalismo e fui estudar na Faculdade Cásper Líbero.

No primeiro ano do ensino superior, fiz reportagens para o site de Cultura Geral e para as revistas internas. Fui selecionado para fazer Iniciação Científica no segundo ano. Pensei, naquela época, que me tornaria ou um acadêmico ou um jornalista cultural. Abri um blog coletivo sobre comunicação chamado Bola da Foca, que edito até hoje. Chegamos a ter cerca de 30 pessoas colaborando com textos e aprendendo a fazer jornalismo online na faculdade.

Tudo mudou no final de 2008, quando fui selecionado para fazer assessoria de imprensa para uma pequena empresa chamada EDGY. Depois ela se tornaria TAXI.Labs e, por fim, Agência TAXI. Era um grupo digital focado em propaganda, mas especializado em desenvolver games. Pude trabalhar de perto com clientes grandes como Fiat, Agência Click e até o BBB da TV Globo, quando fizemos um jogo de corrida para o reality show da televisão chamado T-Race.

Sai de lá no fim de 2009. Procurei trampos até na Editora Europa focado em games, mas sem sucesso. Mas encontrei outra coisa. Trabalhei com sites e revistas da Editora MOL, especialmente uma publicação que é vendida nas drogarias Raia e se chama Sorria. Toda grana dela é revertida para atender crianças com câncer pelo GRAAC. Foram poucos meses, mas foi minha primeira experiência com redação.

Mais ou menos na mesma época, eu ouvia Nerdcast, podcast do Jovem Nerd. Conheci através deles, e de amigos em comum, o extinto NowLoading. Quando eles abriram espaço para que leitores escrevessem notícias, eu fiz o NowLoading News. Também editei e revisei as primeiras edições da revista digital da Nintendo Blast. Nessa época, sai da redação para assessorar outra empresa, a Livetouch, que é focada no desenvolvimento de aplicativos móveis. Lá eu tive a oportunidade de mexer no primeiro iPad poucos dias depois de seu lançamento, em 2010. Na mesma época, infelizmente, o NowLoading acabou - o que gerou outros excelentes sites como o Fênix Down. Também fui chamado para colaborar num site chamado Wii Are Nerds e fiz bons podcasts por lá. Originalmente o WAN abordava tecnologia num geral, mas acabei dando uma puxada maior na área de videogames.

Na mesma época desses trabalhos para sites de games, depois de assessorar empresas, eu resolvi criar junto com meus amigos Rodrigo Pinto Ribeiro, Thiago Dias e Alexandre Facciolla o livro Geração Gamer. Foi nosso TCC, aprovado com 9,5 na banca de avaliação e recomendações para publicação. Entrevistamos 150 gamers e embaralhamos os depoimentos, para contar a história dos jogos digitais no mundo todo e no Brasil. Nunca consegui publicar o livro até agora.

Comecei a fazer freelances para o site de economia e negócios EXAME.com, da Abril. Também ajudei, na mesma época, na fundação do TechTudo da Globo.com. Fui contratado na EXAME, por fim, e trabalhei naquele site com uma grande equipe (30 pessoas) por mais de dois anos. Lá eu também tive chance de escrever sobre games, principalmente sobre a feira E3.

Saído de lá, voltei ao TechTudo e criei a coluna Geração Gamer como textos semanais de entrevistas com integrantes da cena brasileira de games. Fiz assessoria pela S2Publicom e fui convidado para participar do Bonus Stage, me tornando integrante dos vídeos deste site. Hoje me mantenho como jornalista freelancer, colaborando para sites como Diário do Centro do Mundo (DCM), El Hombre e Brasil Post. E transformei Geração Gamer neste site, que quero profissionalizar.

A questão é que o jornalismo de games não surgiu para mim como a realização de um sonho. Não queria desde quando eu era criança, embora já jogasse videogame desde os 2 anos. Já escrevi sobre cultura, literatura, música, cotidiano, economia, negócios e até tecnologia mais corporativa. Esses assuntos foram puxando uns aos outros, até que eu conseguisse oportunidades de aplicar minhas ideias para jogos digitais. Hoje Geração Gamer é um mapa da produção nacional eletrônica, mas ainda não consegui publicá-lo como livro físico, ideia que queria inicialmente.

Antes do Geração Gamer, eu nunca tive um projeto próprio para jogos. No entanto, participei de várias iniciativas interessantes. Há muitos sites originais na área dentro do nosso país, o que aumenta a competitividade.

Para quem quer começar na área, veja minha experiência. Ela revela as razões que me fazem criar jornalismo de jogos digitais hoje. Saiba que você terá sim que trabalhar de graça em alguns momentos, terá que criar portfólio e terá espaço para aplicar ideias originais. O que a imprensa brasileira mais é carente são de projetos inovadores. Em games, pode-se até criar jogos digitais para divulgar melhor sua reportagem.

Espero que este meu texto te ajude a esclarecer sobre como é a situação de um jornalista de games hoje.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Léo Maia, filho adotivo, conta sobre quem foi Tim Maia na vida real

Por Pedro Zambarda


Léo, o que você achou sobre edição da televisão ao filme de seu pai? Distorceram demais?

Cara, não foi do documentário da Globo que eu não gostei, mas achei de verdade o filme ruim. O diretor [Mauro Lima] deixou minha avó branca no filme, sendo que ela é descendente de índia! Meu avô é descendente de português, não negão. São detalhes que uma pessoa que trabalha com cinema deveria saber que são erros, fora a desorganização cronológica.

Se o Tim estivesse vivo, o que ele faria ao ver o filme, considerando o quanto ele era combativo com a Globo?

Meu pai não é vagabundo, nem porco e nem feio como esses brancos dizem no filme. O Tim Maia, por tudo o que ele fez, aceitaria ouvir a história que contaram sentado num sofá? Ele não aceitaria nada disso. Nascido e criado por ele, eu mesmo não aceito isso. Já vi ele organizar grandes festas e arrumar confusões, mas nunca vi ele arrumar uma briga sem ter as razões dele. Ele brigou para a gente ter nossa própria gravadora, nosso próprio espaço e para fazer a nossa arte. Transformaram meu pai num zé ruela, bicho. Meu pai era um amante do Brasil e de sua diversidade em todos os hábitos da sua personalidade.

Como era o Tim Maia que você conheceu?

Meu pai não era depressivo e nem tinha o olhar de morte daquele personagem do filme. Ele tocava violão e criava músicas geniais pela manhã, num clima bem tranquilo. Meu pai, pra quem conhece, era muito amoroso. Cuidava de 80 crianças e ficava rindo das coisas. Ele fez besteira e foi maluco? Foi. Mas não era só o cara dos antidepressivos. Não conheço ninguém que tenha chamado meu pai de gordo e de filho da puta. Isso tá lá no filme. Ninguém na vida teria a coragem de dizer isso… Ele foi com dois cachorros de verdade numa gravadora porque eles mexeram nos volumes das guitarras, cara!

Tim Maia não levava desaforo pra casa. O diretor do filme levou a liberdade poética ao extremo e não se ateve aos fatos. Tá tudo errado no filme, tá errado do começo ao fim. Tá mal interpretado e não procuraram as pessoas para saber a verdade de todos os fatos. Só alguns amigos do meu pai foram para a versão da TV Globo e defenderam meu pai. A edição deu uma melhorada no desastre que é o filme.

Essas coisas me revoltaram como filho e fica essa molecada vendo isso sem saber a verdade. Os autores fizeram uma pseudopesquisa sobre ele e não retrataram nada sobre a genialidade que existia ali. Tim Maia, por exemplo, tirava o instrumento de quem não sabia tocar e só estava enrolando. E mandava um papo reto. Ele era assim.

A entrevista completa foi publicada no Diário do Centro do Mundo, o DCM.

O dia que a PM nos encurralou na Matias Aires, travessa da Consolação

Por Pedro Zambarda
Originalmente escrito para o Diário do Centro do Mundo (DCM)

Ainda lembro de dois barulhos de bombas na mesma rua, os outros três que ouvi na Consolação e do desespero das quatro mulheres que correram comigo até uma garagem de um sobrado que estava aberta na Rua Matias Aires. Era 19 hrs e ficamos escondidos ali por mais de meia hora, falando em voz baixa e com medo que a Tropa de Choque da PM invadisse o local.


Uma amiga minha conseguiu ter um azar pior. Conversávamos antes dos disparos de bala de borracha e das bombas de efeito moral. Sentíamos que o clima estava pesando quando vimos rapazes black blocs indo depredar um banco. Só não imaginávamos que a reação seria naquela proporção.

Ela fugiu para uma padaria na mesma rua, esquina da Matias com a Rua Augusta. O problema é que a polícia foi atrás e invadiu o local. E ela se escondeu atrás de uma geladeira, num local onde “jamais imaginou que caberia”.


Antes de correr para a padaria, minha amiga Cecília chegou a ver um PM apontando uma arma de bala de borracha contra seu rosto e teve uma bomba jogada próxima dos seus pés, mas conseguiu evitar o estouro se movimentando a tempo.

Minha história com o protesto ocorrido no dia 9 de janeiro, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,50, não aconteceu apenas quando fomos encurralados na Matias Aires. Começou algumas horas antes.

Eu cheguei uma hora antes do horário oficial dos protestos, às 16hrs. Conversei com integrantes do movimento Território Livre no Teatro Municipal e vi cartazes dizendo que às 17hrs ocorreria uma assembléia pública do Movimento Passe Livre  para definir o percurso da mobilização. Aproveitei o tempo livre para descobrir onde estava a polícia e vi que tudo ainda estava muito vazio.


Às 16h30, vi que a lateral direita da prefeitura encheu de viaturas da Força Tática e da Tropa de Choque. Poucos guardas municipais estavam no local e um grupo menor de manifestantes estava montando cartazes por ali, separados da turma do Municipal.

Às 17hrs, os grupos de manifestantes se reuniram. Ao mesmo tempo, a PM girou com suas vitaduras para interditar a rua de acesso à prefeitura, lotando de carros. A Tropa de Choque chegou pela lateral e se fixou na frente das Casas Bahia, antigo Mappin. Na assembléia, a PM filmou a decisão dos manifestantes, ouviu toda a rota e conversou com algumas lideranças, informando que acompanharia a mobilização. Alguns oficiais do Choque possuíam câmeras GoPro presas no torso de suas armaduras “estilo RoboCop”.


Até um grupo de petistas protestava contra o prefeito Fernando Haddad, sem fazer alusão ao governador Geraldo Alckmin que era “homenageado” em outros cartazes. O grupo pequeno de filiados do PT, cerca de 10 pessoas, pedia revogamento da tarifa de ônibus. Um homem chamado Alexandre me explicou que eles são de fato militantes.

Às 17h30, a Polícia Militar cercou completamente o protesto. Achei que teríamos  problemas para sair dali. Um senhor visivelmente bêbado começou a xingar as viaturas que impediam nosso deslocamento. “Estou aqui lutando pelos meus direitos e não por este Estado merda”, gritou, xingando os PMs na cara deles.

No mesmo local, um pouco adiante, o blogueiro do UOL Leonardo Sakamoto preenchia papéis. Tirei sarro no Facebook afirmando que ele estava recebendo autógrafos de fãs. “Não, estava só assinando a papelada de direitos de imagem que pedem em protestos”, ele me explicou, quando começamos a andar.

Não se via só bandeiras tradicionais, do PSOL, do PSTU, dos black blocs e do Movimento Passe Livre. Havia integrantes do RUA, um movimento anticapitalista, e até do Partido Pirata, que prega ciberativismo e estava fazendo streaming no local junto com outro grupo conhecido, o Mídia NINJA. Ou seja, a impressão que se tinha é que as Jornadas de Junho e 2013 aumentaram muito as vertentes de mobilizações que desejam a tarifa zero ou uma redução drástica dos custos em transporte público.

A massa de pessoas aumentou de cerca de mil para cinco mil a medida que contornamos o Teatro Municipal e pegamos as ruas em direção à Ipiranga. De lá, o protesto estava determinado a tomar a Consolação. Fraquejamos num momento, no cruzamento da São Luís, quando a PM tentou conter o avanço. Um princípio de confusão começou entre black blocs e o cordão de isolamento da polícia, mas foi suprimido. A Tropa de Choque deixou o povo avançar e os manifestantes formaram seu próprio cordão de união, enquanto gritavam e pulavam mesmo num calor de cerca de 35 graus. “Mais um aumento eu não aguento!”.


Subimos a Consolação com relativa calma no começo. O protesto tomou a pista em direção à Avenida Paulista. Progressivamente, a massa tomou a via na contramão. O problema é que, conforme expandíamos de tamanho, as pessoas ficavam cada vez mais dispersas e menos concentradas. Os blocs então assumiram a dianteira.

Começaram então palavras de ordem contra a PM. “Tem que ser dismilitarizada! Fascistas! Fascistões!”.

O clima começou a pesar cada vez mais. Os blocs então correram ainda mais à frente e depredaram uma agência bancária. O Choque não perdoou essa e contraatacou. Eu estava com Cecília naquele instante.

Perto dali, vi a jornalista Eliane Brum entrevistando um homem de rua sobre as impressões dele sobre o protesto.

Foi neste momento, da ponta da Consolação até a Rua Matias Aires, que nós fomos encurralados com três bombas de efeito moral. Quem ficou na avenida ainda teve que topar com balas de borracha.

Eu corri e entrei na primeira porta aberta que vi na Matias. Era uma garagem e eu estava com quatro mulheres e um homem que eu sequer conhecia. Ficamos escondidos agachados atrás de um carro e em silêncio. Ouvi mais duas bombas na rua, sendo uma delas ao lado da casa. Chequei no Twitter e vi que estávamos sendo perseguidos e presos, independente de ser black bloc ou não.

Ficamos mais de meia hora juntos e não esquecerei do pânico daquelas pessoas naquele protesto.

Os donos da casa foram conversar conosco. Eram evangélicos e iam começar o culto poucos minutos depois, quando foram interrompidos pelo ataque da PM. Nos ofereceram água assim que nos sentimos mais à vontade.

Eu fui olhar pela janela. Quando vi que o Choque havia saído dos bares e estava conversando com a imprensa, decidi que talvez fosse o momento de sair. Estava certo. Perguntei cordialmente a um PM como eu deveria sair dali. Ele, percebendo que eu estava no protesto, respeitosamente não respondeu minha pergunta. E pediu água mineral para o mesmo dono da residência onde eu estava.

Pensei em ir embora, mas acabei pensando em fazer uma rota segura. Subi pela Bela Cintra até a Paulista. De lá eu vi as pessoas sendo detidas pelo Choque e pela Cavalaria da Polícia Militar que blindaram a Paulista. O objetivo era que não chegássemos até ali.

O blindado que o governo estadual divulgou que atiraria água em manifestantes foi visto circulando e transportando policiais da Tropa de Choque, mas não atirou jatos na população. O protesto chegou perto do Center 3,com black blocs avançando em algumas poucas agências bancárias, mas foi contido.

Eu fui andando à frente e vi uma Avenida Paulista dividida. Até o Masp, tudo estava fechado e as pessoas estavam com medo do quebra-quebra. Mais adiante, a vida estava normal, os trabalhadores bebiam sua cervejinha e donos de cães passeavam.


Cinco viaturas protegiam uma agência do banco HSBC. A Polícia Militar ocupou a Paulista e dava voltas de carro.

Os números da manifestação são confusos, mas o Movimento Passe Livre disse que haviam 30 mil pessoas. Eu chuto em torno de 15 mil e a PM diz que haviam 5 mil. Cerca de 50 pessoas foram presas. O fato é que, conforme éramos encurralados, o movimento perdeu completamente sua força e repetiu as primeiras mobilizações de 2013, quando boa parte dos ricos e da classe média não dava a devida atenção.

2015, pelo visto, promete ser outro ano de protestos pesados contra os governos brasileiros.

Em 2013, o colunista Elio Gaspari foi aos protestos e descreveu na Folha que a batalha da Polícia Militar começou na Maria Antonia, local conhecido pela luta entre estudantes do Mackenzie e da USP durante a ditadura. Eu sinto que outro momento histórico aconteceu quando fomos encurralados há poucos metros do mesmo local, na Rua Matias Aires.

E vou lembrar das pessoas que sentiram medo comigo. É dose ouvir bomba de efeito moral bem de perto e ser obrigado a se esconder atrás de um carro.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Economista Thomas Piketty conta sobre sua simpatia ao PT e aos governos de esquerda

Por Pedro Zambarda



Qual é a sua opinião da economia sob os governos do PT no Brasil?

Eu acho que o Partido dos Trabalhadores fez um ótimo governo do ponto de vista social, mas poderia fazer mais. E sinceramente não entendo o pessimismo econômico de algumas pessoas com mais um governo de Dilma. Criticam os eleitores mais pobres por terem votado após receber benefícios estatais. Eu acho justo votar em Dilma Rousseff por receber o Bolsa Família e não vejo, sinceramente, nenhum problema nisso, assim como outras pessoas preferem outros candidatos. Mas parece algo das pessoas aqui de São Paulo, enquanto outras regiões, como o norte e o nordeste, pensam de maneira diferente.

O que um segundo mandato de Dilma Rousseff pode fazer de diferente?

Pode fazer uma reforma tributária com impostos progressivos, taxando os mais ricos. O governo também pode buscar uma transparência maior do ponto de vista da renda e da distribuição de riqueza. É uma boa maneira de responder à onda de críticas sobre corrupção e falta de informações. Tenho uma simpatia pelo PT, mas ele pode trabalhar de uma maneira melhor.

Existe um preconceito sobre os impostos para os mais ricos? Os integrantes do chamado 1% do extrato social utilizam a grande mídia para impor sua opinião internacionalmente?

Sim, isso existe e é um problema. Quando você tem uma porção de desigualdades, eles [os ricos] utilizam sua influência através da mídia, principalmente através dos veículos financiados de forma privada, que são guiados pelo dinheiro, e isso se tornou grande sobretudo nos Estados Unidos. No entanto, mesmo com isso, acredito que as forças democráticas se tornaram mais fortes e é um fato que, dentro da história da desigualdade, a taxação descrita pelo meu livro provocará um embate de movimentos de massa pacíficos para o futuro.

Você tem mais simpatia por governos à esquerda?

Depende. Depende de qual tipo de esquerda e de qual tipo de direita.

Me dê um exemplo da França, sua terra natal.

Na França nós temos uma direita que está se tornando extrema, e está ganhando espaço. Disso eu não gosto. O ex-presidente [Nicolas] Sarkozy está muito próximo de [Marine] Le Pen e eles estão querendo prejudicar os direitos de trabalhadores. Por outro lado, uma esquerda stalinista não é interessante. Para mim não é uma guerra entre dois lados, porque isso muda a cada país e a cada período de tempo.

A entrevista completa foi publicada no Diário do Centro do Mundo, o DCM.

Projeto ensina economia doméstica para crianças

Por Valéria Dias, via Agência USP de Notícias
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Um ditado muito popular diz que dinheiro na mão é vendaval. Mas se depender da professora de matemática Lizlane Aparecida Trevelin, esse ditado não será válido para seus alunos. Tudo isso graças à pesquisa Economia doméstica: uma aplicação prática para alunos concluintes do ensino fundamental que ela apresentou no último dia 9 de dezembro ao Mestrado Profissional em Matemática (PROFMAT), do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, sob a orientação do professor Luiz Augusto da Costa Ladeira.


A dissertação teve o objetivo de verificar a aprendizagem da matemática por meio do ensino da economia doméstica para as crianças: elas deveriam aprender a lidar com dinheiro, aprender a fazer orçamento familiar e a controlar os gastos, e adquirir noções de consumo consciente. O projeto foi aplicado em uma escola pública de ensino fundamental da cidade de São Carlos onde Lizlane atua como docente. Participaram do projeto 108 alunos, sendo 3 turmas com 36 alunos cada, do 9° ano do ensino fundamental.

“O projeto foi um sucesso não apenas entre os alunos, mas também em algumas famílias que decidiram abraçar a iniciativa”, conta a pesquisadora. Além disso, os próprios alunos tiveram a iniciativa de criar o grupo Embaixadores da Saúde Financeira: por meio de cartazes e de outros recursos, eles transmitiram o conteúdo aprendido para os outros estudantes da escola.

A ideia de desenvolver o projeto surgiu quando a pesquisadora leu uma matéria jornalística na internet que apontava que o número de famílias endividadas havia passado de 58,3% para 62,5% entre 2012 e 2013, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. “Percebi que havia a necessidade de a escola trabalhar com seus alunos essa questão de uso do dinheiro e controle de gastos”, explica. Como Lizlane estava cursando o mestrado profissional, decidiu realizar o projeto de economia doméstica com seus alunos. A experiência durou cerca de um ano.

Para realizar o projeto, a pesquisadora utilizou como fonte materiais na internet que abordassem o tema economia doméstica; planilhas do Excel; textos sobre o assunto; além da ferramenta educacional WebQuest.

No WebQuest, ela criou uma página com o sugestivo nome de “Para onde vai meu rico dinheirinho” onde disponibilizou várias atividades. A professora ainda compartilhou com os alunos uma cartilha do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que ensina a calcular o Índice de Custo de Vida (IPC) das famílias.

Inicialmente os alunos precisaram assistir a um vídeo de um programa de televisão onde um economista apresentava várias dicas e estratégias sobre como lidar com dinheiro. Esse vídeo foi discutido em sala de aula com os alunos.

No vídeo, um consultor financeiro aponta para a necessidade de as pessoas terem sonhos e sempre separarem uma quantia mensal para realizá-los. Também é preciso ter sonhos de curto (1 ano), médio (1 a 5 anos) e longo prazo (acima de 5 anos). O vídeo também fala das diversas formas de pagamento (em dinheiro, débito, crédito e cheque) e dos problemas que envolvem as compras parceladas. Além de outros apontamentos sobre planejamento financeiro.

Depois de assistir ao vídeo, os alunos trabalharam com uma planilha onde era preciso preencher com os gastos ao longo de um mês, sempre com a orientação da professora Lizlane. Segundo a pesquisadora, alguns alunos tinham mesada, outros não. Por isso, em muitos casos, a planilha foi preenchida com os gastos da família e a atividade acabou por envolver todos da casa.

A anotação dos gastos foi feita durante um mês. Depois os alunos analisaram os gastos, as entradas e o saldo e, a partir dessa análise, apresentaram algumas conclusões, incluindo os gastos onde poderia haver economia.

Reflexão

Na etapa seguinte, os alunos precisaram estabelecer sonhos de médio, curto e longo prazo. Os alunos ainda tiveram que fazer uma reflexão sobre esses sonhos e de como poderiam realizá-los, e elaborar um plano de ação. “Isso fez com que os alunos percebessem a importância do planejamento e da organização para alcançar esses sonhos”, destaca a pesquisadora. No final, tiveram de realizar uma autoavaliação. Também foi feito um vídeo com alguns depoimentos dos estudantes onde eles contam o quanto foi importante aprender sobre planejamento financeiro e, principalmente, ter sonhos e lutar por eles.

A pesquisadora acredita que é possível reproduzir o trabalho em outras salas de aula. Entretanto, ela ressalta que o projeto elaborado por ela é apenas um ponto de partida e que talvez seja necessário fazer adaptações para as diferentes realidades encontradas nas escolas no que se refere aos alunos, aos próprios professores e também às próprias escolas. Parte do projeto está disponível no WebQuest neste link.

USP: as origens do impasse e uma possível saída

Por Ana Castro, do Retrato do Brasil, parceiro editorial de Outras Palavras
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Neste ano, a Universidade de São Paulo (USP) completou 80 anos. A merecida comemoração da maior universidade brasileira, entretanto, tem ficado em segundo plano frente à crise que enfrenta ao menos desde maio, quando uma greve de professores, funcionários e alunos parou parte de seus cursos e a colocou diariamente nas páginas dos jornais, questionando a sua própria razão de ser. Se o encerramento da greve, em fins de setembro, resolveu questões mais imediatas, há temas e decisões ainda no ar que refletem o embate de divergentes pontos de vista a respeito do presente e do futuro da USP.


A história dessa crise mais recente começa em janeiro passado, quando Marco Antonio Zago tornou-se reitor da USP contando com forte adesão da comunidade acadêmica. Mais votado pelo Conselho Universitário, com 49% das indicações, e preferido pela comunidade uspiana, segundo consulta interna, Zago, oriundo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, foi o primeiro colocado da lista tríplice enviada a Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, encarregado de nomear os reitores das universidades estaduais. Em sua campanha, Zago preconizou o diálogo interno, convidando “professores, servidores e estudantes” a reconstruir, junto com a reitoria, “relações civilizadas, que implicam diálogo, confronto de ideias, discordância, pressões legítimas, mas jamais discórdia e recurso à força física; respeito àqueles que discordam de nós, capacidade de reformular nossas propostas, de ceder, de convencer”. Sua candidatura parecia se contrapor à gestão anterior, de João Grandino Rodas (da qual Zago fez parte), acusada de autoritarismo, centralização e privatismo.

Comprometendo-se com o tripé que sustenta o projeto da universidade moderna – docência, pesquisa e extensão –, Zago poderia ser o nome certo para unir as diversas forças que se enfrentam na USP, conduzindo as almejadas reformas para o estabelecimento de uma estrutura de poder menos concentrada e mais representativa. Para se ter uma ideia, atualmente apenas 1,7% da comunidade acadêmica é responsável pela indicação dos nomes para a lista tríplice, ou seja, é o topo da hierarquia uspiana que decide sua condução política.

Ao completar três meses na direção da universidade, entretanto, o novo reitor enviou uma carta a docentes, funcionários e alunos alertando para a existência de uma crise financeira – imputada a uma irresponsável política de contratações, obras e aumentos salariais de seu antecessor –, cuja resolução atrelava-se à necessidade de contenção de despesas. Segundo Zago, quase 105% do orçamento estavam comprometidos com a folha de pagamentos e projeções indicariam que, a despeito de haver uma reserva financeira de 1,3 bilhão de reais, mantendo-se tal ritmo de gastos a USP esgotaria seus fundos até 2018. Em consequência dessa avaliação, foram imediatamente paralisados os concursos de 535 docentes e as obras em andamento (economizando-se 446 milhões de reais) e suspensos 46% (alguns dizem 30%) dos repasses às pesquisas.

A solução que se avizinhava era diminuir o pessoal e eventualmente reduzir a folha de pagamentos por meio da redução da carga horária de trabalho de servidores, docentes e não docentes. Em entrevista ao diário O Estado de S. Paulo, o reitor foi direto ao ponto, mirando um dos pilares do regime de trabalho universitário: “Por que tantos docentes em regime de dedicação exclusiva na universidade?”. Tal regime, considerado a base da universidade ao dar ao professor as condições reais de autonomia e independência para pesquisa, docência e extensão, passou a ser visto como entrave à eficiência universitária.

Simultaneamente, os dois principais diários paulistas – Folha de S.Paulo e O Estado –, acompanhados por outros órgãos da grande mídia, veiculavam textos sobre o anacronismo da universidade pública e a necessidade de acabar com o regime de gratuidade, apontando para formas supostamente mais atualizadas e eficientes de gestão da USP. A discussão sobre a gratuidade do ensino aparecia vinculada à diferenciação entre ensino de massa e instituições dedicadas à pesquisa. Simon Schwartzman, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), disse, em entrevista ao semanário Época, ser impossível o ensino superior continuar sendo ampliado “sem modificar profundamente seus objetivos e formas de atuação”. Segundo ele, é preciso diferenciar instituições dedicadas à pesquisa e ao ensino superior de qualidade, “necessariamente mais caras e centradas em sistema de mérito”, das de massa, com “carreiras menos exigentes, onde o setor privado atua com custos muito menores”. A Folha chegou, inclusive, a calcular o “valor justo” da mensalidade a ser cobrada pela USP: 2,6 mil reais.

No final de maio, após o conselho de reitores das três universidades estaduais paulistas – USP, Unicamp e Unesp – anunciar reajuste salarial zero na data-base de docentes e funcionários, as associações de ambas as categorias decretaram greve, algo que não ocorria conjuntamente desde 2009.

Em nova entrevista, dessa vez concedida ao semanário Veja, Zago apresentou seu diagnóstico da crise e os caminhos a serem seguidos daí em diante, deixando claro que não concordava com a proposta de cobrança de mensalidades como forma de financiamento da universidade, mas insistindo na questão da estabilidade dos docentes, vinculando-a à impossibilidade de pagar o salário que “cada docente vale”. A entrevista causou – para dizer o mínimo – mal-estar entre os setores mais progressistas da USP, que viram ali o sinal de uma possível adesão da reitoria às teses do desmonte da universidade pública, algo que ciclicamente ressurge.

Diante da continuidade da paralisação e da adesão dos alunos à greve, a reitoria endureceu: determinou o corte do ponto dos funcionários grevistas e levou o caso a julgamento pela Justiça do Trabalho. Além disso, para impedir piquetes no campus, recorreu à Tropa de Choque da Polícia Militar. Também anunciou que o reajuste zero viera para ficar, já que seriam sombrias as estimativas de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no estado. Como, por lei, o orçamento da USP equivale a 5,02% da arrecadação líquida desse imposto, estima-se que neste ano serão aportados à universidade pouco mais de 5 bilhões de reais.

Em reação a essas decisões, professores da Faculdade de Direito e advogados de outras instituições lançaram o “Manifesto de repúdio aos atentados ao direito de greve na USP”. Cobrando soluções mais efetivas, outras cartas e manifestos se seguiram, ora em apoio aos grevistas, ora em repúdio a seus atos, entre os quais a “Manifestação de docentes da USP contra o uso de métodos totalitários de coação e pela recuperação de valores morais de convivência acadêmica”, firmado por mais de 700 professores de diversas unidades.

Após a greve ser julgada legal pelo Tribunal Regional do Trabalho no início de setembro, a reitoria, também pressionada pelas manifestações internas, pareceu adotar uma nova estratégia, buscando separar os movimentos de docentes e de funcionários. Passou a conectar a crise exclusivamente ao crescimento do setor funcional e ao aumento salarial descabido da categoria, promovido pela gestão anterior, além de divulgar propostas de soluções mais ou menos imediatas para enfrentar a situação financeira da USP: um plano de demissão voluntária (PDV), desenhado para atingir funcionários com mais de 20 anos de casa e salários altos; a desincompatibilização do Hospital Universitário (HU), em São Paulo, e do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC), em Bauru; a venda de bens da universidade; e o incentivo à redução da jornada de trabalho (de 40 para 30 ou 20 horas semanais) de servidores técnico-administrativos, com a correspondente redução salarial. Para se diferenciar da gestão anterior, tida como autoritária, Zago convocou o Conselho Universitário para a aprovação das medidas, compartilhando o ônus das decisões com seus pares. O órgão deu aval ao PDV e ao repasse do HRAC ao governo estadual, mas solicitou esclarecimentos sobre a transferência do HU, pressionado por funcionários e estudantes da Faculdade de Medicina (o próprio governador declarou, posteriormente, não haver interesse por parte do estado em assumir a gestão dos hospitais).

Os dados apresentados pela reitoria ao longo dos últimos meses para expor a crise também foram crescentemente questionados. Até mesmo os números que refletiriam sua própria essência – aqueles relacionados com a folha de pagamentos – seriam colocados em xeque. Se a alíquota do ICMS repassada às universidades está congelada desde 1995 (ainda que o valor nominal mude), nesses quase 20 anos a USP não parou de crescer. Como apontou João Whitaker, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), nesse período foram abertos novos cursos e incorporados ou fundados novos campi, como os de Lorena, de Santos e da USP Leste, parte da política de expansão incentivada pelo próprio governo estadual. Entre 1995 e 2012, o número de cursos da USP aumentou 88,6%. Na graduação, o crescimento das vagas subiu 53,6%. Ao mesmo tempo, na pós-graduação – a USP é responsável por 25% da pesquisa no País – o número de cursos aumentou 34,6%, e o de alunos, 102,3%. Diante disso, o crescimento de servidores foi modesto: o de professores atingiu 15,9%, e o de funcionários, 11,5%. Hoje, a USP tem 5,5 alunos por funcionário e 15 alunos por professor. Para comparar, a britânica Oxford, no ano passado, tinha 4,92 alunos por funcionário e 4,3 alunos por professor, e Cambridge, também britânica, contava 4,4 alunos por funcionário e 3,9 por professor.

Dados a quantidade e o grau de complexidade das questões em jogo, entretanto, é bem provável que o reajuste salarial de 5,2% e o abono de 28,6%, determinados pela Justiça para compensar perdas anteriores, não signifiquem o fim dos problemas enfrentados pela universidade. Com seus 92 mil alunos, 6 mil docentes e 17 mil funcionários, a USP é hoje uma instituição de massa – a Unicamp, por exemplo, tem 18 mil alunos; Oxford, pouco mais de 22 mil –, muito distinta daquela fundada há oito décadas.

A filósofa Marilena Chauí – que vem refletindo sobre o papel da universidade pública no País há décadas – ajuda a compreender o que se passa com a USP. Ainda que haja nuances para cada área de conhecimento, sua análise tem o mérito de formular um olhar crítico e compreensivo para o processo, que pode ajudar a incidir sobre o presente. Em Escritos sobre a Universidade (Unesp, 2001), ela aponta três momentos-chave na história da universidade – ou o que ela chama de “três fundações” – ao notar inflexões significativas no projeto inicial introduzidas por reformas realizadas nas décadas de 1960 e de 1990.

Fundada em 1934 como um projeto de parte da elite paulista ligada ao Partido Democrático e a O Estado de S.Paulo – intelectuais orgânicos da burguesia agroexportadora e políticos com ambição de se tornarem (ou se manterem como) a elite dirigente do País –, a USP foi formada pela junção de alguns cursos superiores existentes desde o século XIX – entre os quais a Academia de Direito do Largo São Francisco, a Escola Politécnica e a Faculdade de Medicina – e pela criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), a qual foi pensada como o coração da universidade, um centro integrador que congregaria todo o saber básico, fundamental e teórico. Para isso, uma leva de professores europeus – Levi-Strauss, Fernand Braudel, Roger Bastide, Jean Maugüé, Pierre Monbeig, Giuseppe Ungaretti, Gleb Wataghin, Heinrich Rheinboldt, entre outros – foi trazida para São Paulo, vários deles jovens docentes que se formaram no trabalho intelectual a partir da experiência brasileira. Esses estrangeiros, e também alguns brasileiros – como Fernando de Azevedo, Teodoro Ramos, Luiz Cintra do Prado, Otoniel Mota –, foram responsáveis por formar a primeira geração de novos professores que assumiriam as cadeiras quando do retorno dos fundadores à Europa. Nomes como Antonio Candido, Florestan Fernandes, João Cruz Costa, Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Gilda de Mello e Souza, Mario Schenberg, Azis Ab’Saber, Marcelo Damy, Anita Cabral, Crodowaldo Pavan e Paschoal Senise saíram daqueles cursos e passaram a formar gerações e gerações de intelectuais e cientistas brasileiros.

O projeto da universidade sofre uma primeira mudança quando a Faculdade de Filosofia passou a dividir com a do Largo São Francisco a formação intelectual da burguesia. Se os quadros políticos ainda vinham sobretudo das fileiras do direito, um pensamento crítico se abrigou na FFCL, que, ao estender seus cursos a professores do ensino médio, desde sua criação surgiu como oportunidade de ascensão social e intelectual para a primeira geração dos filhos de imigrantes e, em especial, de mulheres, até então praticamente excluídas do ensino superior. Isso não quer dizer que a universidade nascia democrática, mas que desde o início abriu para os setores médios a oportunidade de chegar ao ensino superior.

Em consequência das reformas instauradas na segunda metade da década de 1960, após o golpe militar, esse projeto sofreria uma inflexão. O esquema proposto seguiu as diretrizes de Roberto Campos, ministro do Planejamento à época: o ensino secundário deveria atender à massa, perdendo suas características humanistas e se concentrando no viés profissionalizante, enquanto o ensino universitário deveria continuar reservado às elites. A Lei 5.540/68 levou esse formato à universidade, na tentativa de massificar os cursos de graduação e dar à pós-graduação um papel de ponta, a partir de acordos feitos com os EUA. Com isso, a USP vivenciou uma fragmentação dos seus cursos, com a dissolução da sua célula mater. A antiga FFCL foi transformada em Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e parte de seus cursos, como química, física, matemática, biologia e psicologia, passou a ser ministrada em novos institutos. Impuseram-se então um vestibular unificado, a matrícula por disciplinas e a divisão por departamentos.

Nos anos 1990, como define Chauí, a universidade tornou-se “prosaicamente realista”: “Do lado das associações docentes, estudantis e de funcionários, o discurso está centrado na ideia de interesses das categorias, enquanto do lado das direções universitárias prevalece o discurso da eficiência, produtividade e competitividade”. A absorção desse ideário neoliberal se teria dado, entre outros fatores, pela instalação de fundações dentro da universidade – o que ajuda a explicar a falta de apoio à greve ocorrida na USP por parte de muitas unidades, que mobilizam recursos a partir dessas instituições –, levando à naturalização da ideia de uma gestão eficiente, nos moldes de uma empresa.

Embora originalmente concebida para atender às elites, a USP abriga hoje 60% de alunos cuja renda familiar mensal é inferior a dez salários mínimos, cumprindo um evidente papel de democratização do ensino superior público de qualidade – a USP era, há até bem pouco tempo, a única universidade latino-americana presente em rankings internacionais.

Sua crise atual, portanto, parece carregar as contradições da transformação de um projeto originalmente de elite para um sistema universitário cada vez mais massificado ao longo desses 80 anos e que de certa forma reflete as mudanças e os dilemas do próprio País. Nesse caminho, a velha estrutura resiste, não aderindo, por exemplo, ao sistema de cotas. Chocam-se e se complementam no projeto uspiano as determinações do mercado; o autoritarismo do Estado e às vezes dos órgãos que representam os trabalhadores; a busca pela excelência acadêmica; o compromisso com a docência e a extensão, e não exclusivamente com a pesquisa; e a pressão por uma maior democratização, não apenas no ingresso, mas em seu compromisso social. Mas os momentos de crise, como se sabe, são aqueles em que há maiores possibilidades de escolher novos caminhos. Espera-se que o atual seja o da democratização e o da abertura, sem a perda da qualidade.

Professor Vladirmir Safatle explica a real crise da USP hoje

Por Pedro Zambarda



Há um risco real de haver mensalidades na USP? 

Sim, e isso é discutido já na universidade. Principalmente porque não há uma proposta do governo estadual de melhorar o nosso tipo de financiamento público. Mas a ideia é absurda para uma instituição pública como a USP. Os tais alunos que podem pagar essa mensalidade possuem uma renda familiar estimada em 7 mil reais. A mensalidade seria cerca de mil reais, chegando até 2 mil. Para uma família de dois filhos, com as atuais despesas com outros fins, ela seria obrigada a se endividar para educar os jovens.

Também estipularam uma taxa menor, simbólica, de 500 reais. Mas sabemos como isso funciona. Começa com 500, sobe para mil e chega até mais de 2 mil. Corre-se o risco de transformar a Universidade de São Paulo em uma PUC, onde os estudantes pagam cerca de 3 mil reais em alguns cursos.

Qual é a sua opinião sobre o congelamento salarial e a consequente greve na USP?

Não acredito que a greve acontece apenas por uma questão salarial, e sim por um esgotamento produzido pelas dificuldades da gestão da Universidade de São Paulo. Existem dois grandes modelos de gestão universitária. Um é o modelo norte-americano, com uma clara distinção entre o setor administrativo do acadêmico, com um presidente e um administrador com funções diferentes. E outro modelo é o europeu, com representantes eleitos pelo conselho universitário. Cada um dos dois possui sua racionalidade interna.

E a USP segue qual modelo?

Nem um e nem outro. O conselho universitário é completamente opaco e não tem nenhuma representatividade. Criou-se uma casta burocrática que se tornou autônoma em relação ao restante da USP, se perpetuando de uma administração para outra. Ela é a responsável pela crise na universidade. A história que eles apresentam é que a folha de pagamento é responsável pelo patamar de 105% do orçamento. Agora, há duas questões que precisam ser levantadas com esta hipótese. A USP Leste teve uma expansão de sua infraestrutura sem uma melhoria de sua educação orçamentária.

Era óbvio que iria explodir de alguma forma, desde o início do campus leste isso era levantado. A segunda questão é que a reitoria anterior, de João Grandino Rodas, foi incapaz de apresentar uma solução. A gestão também foi completamente irresponsável nos gastos, fragilizando as finanças da universidade. Isso tudo causou um déficit de cerca de um bilhão de reais, sem que ninguém assumisse a responsabilidade de fato pela situação. Pior defeito do homem, nesses casos, é transferência de responsabilidades. Isso é a regra para os nossos gestores.

Quais foram os gastos da gestão Rodas? Por que a USP, em crise hoje, ainda está fazendo reformas estruturais que podem ser vistas no campus Butantã?

A gestão anterior fez uma série de novos prédios e escritórios absurdos em Cingapura, em Londres e até na cidade de Boston. Prédios foram comprados no centro da cidade de São Paulo, fora do campus. Bolsas também foram dadas sem uma avaliação correta sobre o impacto e a necessidade delas.

Tivemos quatro anos de descalabro administrativo inacreditável, enquanto a universidade e os universitários insistiram que a instituição precisava de mais transparência e de mais democracia.

A sociedade civil foi completamente surda para essas demandas da USP, estigmatizando os protestos. É uma universidade que custa 5 bilhões de reais, recebe ICMS do estado e não é administrada de uma maneira minimamente transparente, sendo que ela é pública.

A entrevista completa foi publicada no Diário do Centro do Mundo, o DCM.

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