sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

"A verdade está nos detalhes"

Pode parecer estranho, mas é possível tirar lições jornalísticas de séries televisivas norte-americanas de investigação. Muitas vezes elas são exageradas e estão fora da realidade, pois muitos crimes são resolvidos em poucos dias e por meio de procedimentos ainda surreais. Mas elas têm algo a ensinar aos jornalistas.

Programas como CSI mostram que nenhum detalhe pode ser descartado aleatoriamente de um processo investigativo e que o menor deles talvez seja a chave para a resolução de um grande caso. Um pedaço de guardanapo no bolso de uma vítima, por exemplo, pode ser um indicativo do restaurante em que ela esteve antes de ser morta. Não se trata, então, de um simples pedaço de papel: é muito mais que isso. Às vezes, sem ele, não se chegaria ao culpado.

No jornalismo, durante uma entrevista, a mais ingênua das frases talvez contenha mais que todos os minutos de gravação. Não ficar atento a isso seria como ignorar uma prova fundamental.

Um exemplo concreto da falta de atenção dos jornalistas de todo o mundo foi um fato que envolveu a saída da Honda da F-1. Em 3 de dezembro de 2008, a montadora japonesa anunciou remanejamento de Shuhei Nakamoto. O dirigente fora o resposável pelo fraco carro modelo RA107, de 2007, e voltou a cuidar das atividades de motociclismo. Até aí, tudo normal.

No dia seguinte, 4, vazou a notícia de que, em 5 de dezembro, a Honda anunciaria sua desistência da F-1 por não querer investir mais na categoria, pois sofria as consequências das crise financeira mundial. O vazamento da notícia, porém, ocorreu somente 12 horas antes do anúncio oficial, relativamente pouco tempo.

Antes disso, aparentemente não havia indicativos de que a empresa nipônica tomaria tal decisão. Havia um sim, entretanto. A mudança de posição de Nakamoto mostrava que algo estava errado com a equipe de F-1; ele saiu antes de o “barco afundar”. Se algum jornalista tivesse ido atrás dos motivos pelos quais o dirigente tinha mudado de cargo, poderia ter descoberto no dia 3 que algo estava por acontecer no time. Mas, até onde se sabe, os jornalistas contentaram-se com o release.

Se alguém tivesse tomado alguma iniciativa nesse sentido no dia 3, teria dado um enorme “furo”. Mas não foi o que ocorreu. Aquele guardanapo do CSI foi esquecido, e o criminoso só foi pego porque confessou o assassinato.

Como diz o slogan da série The Mentalist, “a verdade está nos detalhes”. Não é fácil ligar informações diversas e tirar uma conclusão precisa, mas quem tem esse dom obtém muitos ganhos como jornalista. Os poderes de observação e de dedução são importantes para um profissional da imprensa.

Um CSI recebe um chamado sobre um crime, visita a cena, coleta dados, volta ao laboratório (“redação”), processa o que obteve, faz mais entrevistas e finalmente prepara um relatório (“reportagem”). Muito diferente da rotina jornalística?

2 comentários:

Pedro Zambarda disse...

E depois falam que não existe método no jornalismo.

Dá pra fazer várias comparações.

Mariana Bruno disse...

adorei!

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