domingo, 6 de julho de 2008

Entrevista com Ricardo Kotscho

Fragmentos da entrevista com o jornalista realizada por mim em 17/06/2008.

Ricardo Kotscho é um dos mais reconhecidos repórteres brasileiros. Recebeu quatro vezes o prêmio Esso de Jornalismo e escreveu para importantes jornais do país, como o Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo, o Jornal do Brasil e O Globo. Foi secretário de Imprensa do presidente Lula e diretor do sindicato de Jornalistas de São Paulo. Autor de 19 livros, hoje é conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa, escreve para a Revista Brasileiros e sites da internet. Nos recebeu para esta entrevista no café Santo Grão, em frente à sua casa na rua Oscar Freire, São Paulo - SP.


Repórter – Kotscho, você sempre foi um jornalista independente. Apesar de ter grande simpatia pelo presidente Lula e pelas causas sindicalistas, você nunca aderiu ao PT nem a nenhum partido político. Houve algum motivo determinado para isso?

Ricardo Kotscho – Bom, eu acho que toda atividade humana envolve política. Se a pessoa diz “Ah, eu não gosto de política, não me meto em política” e tal, ela acaba sendo governada, dirigida, mandada por políticos, porque há gente que gosta de política. Então a pessoa pode ser médica, engenheira, lixeira, mas a vida dela envolve política. Política para mim é participação do cidadão na sociedade. Partido é outra coisa. Eu posso fazer política no sindicato, na fábrica, na Igreja, em qualquer lugar. Isso se eu não for omisso. Pois isso acontece muito no Brasil: as pessoas se omitem e depois ficam xingando os políticos. Não se interessam por isso nem na época da eleição, nem em escolherem seu candidatos.

Isso vale para qualquer cidadão. No caso do jornalismo, muito mais. Nós mexemos com a vida das pessoas, com a vida da sociedade. O jornalista que sabe das coisas, é mais informado que os outros, tem até obrigação de ter uma participação política. Por que eu digo isso? Porque comecei em 64, depois do golpe militar, e peguei todo o período da censura do AI-5 (1968), até acabar no Estadão e tal (1978). Então a minha geração lutou pela liberdade, pela democracia, cada um de um jeito.

Eu, por exemplo, fui sempre ligado à Igreja. Não há nada mais político do que a Igreja. E eu estudei em colégio católico e lá a gente começou a fazer um trabalho social, foi aí minha primeira consciência política. Depois, trabalhei na Comissão de Justiça e Paz, um centro de resistência à tortura, às prisões. Aí militei no Sindicato (dos Jornalistas), fui diretor do Sindicato, fui dirigente da Filiação Nacional de Trabalhistas, fui da Associação Brasileira da Imprensa - da Ala Nova, os outros são muito mais velhos (risos: Kotscho tem 61 anos). Então você tem a sua atividade profissional e paralelamente sua atividade como cidadão.

Quanto aos partidos políticos, eu nunca quis entrar em nenhum, embora tivesse visto o PT nascer, porque eu acho que atrapalha. A própria palavra diz: partido lida com as partes, jornalista tem que lidar com o todo. E no caso do PT era pior, porque ali são várias partes dentro de uma parte, são vários grupos, tendências. E quando o Lula me convidou para trabalhar na primeira campanha dele, em 89, eu falei isso pra ele: “Pô, Lula, tem milhares de jornalistas que são do PT, eu não sou. Vai pegar mal pra você, os caras vão achar ruim, eles são militantes”. Muitos se candidataram, foram deputados. E ele falou: “É, é melhor pra você, assim você faz seu trabalho sem se envolver na disputa interna do PT”. Eu até cheguei a dizer “Não, Lula, se você achar melhor, eu me filio, não tem problema nenhum, mas eu prefiro não fazer isso”. Mas ficou assim mesmo.



Repórter – E você procura fazer matérias alternativas, fugir do “importante”, do “oficial”.

Ricardo Kotscho – Sim. A vida inteira eu procurei fazer matérias longe disso. Se tem muita gente num bolo, eu fico ali do lado fazendo uma matéria sobre o cachorro, pipoqueiro, qualquer coisa (referência à matéria sobre o palácio de Verão no governo Costa e Silva. Enquanto repórteres se amontoavam no portão para saber algo sobre o general ali confinado, Kotscho abordou o problema do povo comum que, devido à censura, não sabia o que estava acontecendo e aproveitava para vender pipoca). Eu penso o seguinte: se todo mundo está ali com o seu gravadorzinho, todo mundo vai fazer a mesma matéria. Eu não quero fazer a mesma matéria, sempre fui assim, até hoje. A melhor maneira é nem entrar nessa confusão, é pegar um motorista, um fotógrafo e ir atrás da história. É outro tipo de jornalismo, mas eu gosto é desse.


Repórter – Você pode falar um pouco da diferença entre jornal e revista? Hoje em dia, o jornal não dá muita abertura a esse tipo de reportagem.

Ricardo Kotscho – Olha, eu já trabalhei em tudo quanto é mídia menos rádio e circo. Eu nunca mudei meu jeito de trabalhar e de escrever. Pra mim tanto faz se eu to fazendo trabalho pra jornal, pra revista, pra internet, ou mesmo um livro. O que muda é mesmo o tamanho. Então, teoricamente, você tem mais espaço na revista do que no jornal. Mas mesmo no jornal eu sempre escrevi muito, gosto de escrever. E na internet falam para eu fazer textos mais curtos, porque ninguém agüenta ficar lendo muito na tela. Por exemplo, agora foi lá pro portal do IG a entrevista que fiz com o Franklin Martins, que ficou no meu lugar lá na Secretaria. E ficou combinado de entrar no site em quatro partes, o primeiro capítulo, o segundo... Na revista Época também acontecia isso de “continua no próximo número”. No jornal eu fazia isso, dez, doze páginas seguidas. E no livro também. No “Do Golpe ao Planalto” e editor falou o seguinte: “Deixa eu cortar umas 100 páginas porque senão vai ficar muito grande e caro, ninguém vai comprar seu livro. Principalmente estudantes de jornalismo, que são pão-duros pra caramba”(risos). Então, a maneira de contar, de se expressar, pra mim não faz a menor diferença, mesmo nesse livro, que é uma reportagem. Sobre eu mesmo.


Repórter – Mudando um pouco de assunto. William Bonner, em visita à ECA, declarou que suas opiniões pessoais não transparecem no jornalismo. É esse o papel do jornalista, se anular?

Ricardo Kotscho – Não, isso não existe, não é verdade. É um mantra que os jornalistas famosos repetem sempre, que são neutros. Mas não existe objetividade absoluta, cada um tem suas preferências, sua maneira de ver o mundo. E o Jornal Nacional, o Bonner que me perdoe, não é o jornal dele. Não é ali que ele coloca o que ele pensa ou que deixa de pensar. É de um conjunto de pessoas. Tem chefes, tem editores, tem donos. E você conhece algum dono de empresa imparcial? Não existe, as pessoas não são assim.

Nós temos que assumir isso. O que temos que fazer é procurar sermos o mais honestos que for possível, nos aproximar o máximo da verdade da informação. Agora, dizer que é neutro? A maneira de ver as coisas é completamente diferente de um para outro.


Repórter – O Bonner disse isso porque estava sendo filmado por uma câmera da Globo.

Ricardo Kotscho – É, ele teve um problema uma vez, vocês devem saber disso, o Bonner foi sincero uma vez, quando foi um grupo de professores lá na redação do Jornal Nacional. Vocês devem lembrar disso, fazia parte dele o Laurindo Leal Filho, que foi professor da ECA. E o Bonner falou um monte de coisa, estava muito à vontade, achando que estava apenas numa conversa com professores de comunicação. Só que o Laurindo escreveu um artigo na revista CartaCapital e deu a maior merda. Ele contou nessa matéria tudo que o Bonner falou.

Então você tem que falar sempre as mesmas coisas em todos os lugares, eu aprendi isso. Você não pode falar de um jeito para uma platéia só pra agradar e falar diferente pra outra.

Eu sempre fiz palestras pra estudantes, pra sindicatos. Aí me convidaram pra fazer uma palestra ano passado na ANJ, a Associação Nacional de Jornais, a linha empresarial, os donos dos meios de comunicação e fiz exatamente o mesmo discurso. Claro que não gostaram. É a vida, eu não vou para ser aplaudido, vou pra falar o que acho. E essa é a vantagem de ficar velho. Depois dos 60 anos, eu tô me lixando pro que os outros pensam.

Tenho meu trabalho, presto serviço há 2 anos pra Rede Globo, mas não deixo de pensar o que pensava antes. Não é a empresa que vai fazer o meu pensamento. Quem quiser me contratar me contrata.

Repórter – É assim que um jornalista adquire respeito.

Ricardo Kotscho – Isso. E você tem que querer isso desde o início. Os caras falavam pra mim lá na Folha: “É, pra você tudo é fácil, você é conhecido”. Eu respondi: “Não. Quando comecei, eu era um mané que nem você”. Eu consegui me impor, tenho orgulho disso. Nunca aceitei imposições de empresa nenhuma. E nunca fui demitido de empresa nenhuma.

Não é ser porra louca e tal, é o contrário. Quando não tá legal, eu vou embora. Eu demito a empresa. Também não vou ficar falando mal do lugar que eu trabalhei, respeito todos. Se não serve mais pra mim, eu é que tenho que cair fora. Eu sei que não sou uma pessoa muito fácil, eu tenho minhas convicções e batalho por elas.

No jornal, em qualquer redação que você for trabalhar, você pode escolher o seu lado. O mais fácil é puxar o saco, fazer o jogo da empresa. O mais difícil é escolher e seguir o seu caminho. E, graças a Deus, nunca fiquei sem trabalho. Posso ficar desempregado, mas não deixei de trabalhar, fazia “freelance”. Já ganhei prêmio fazendo matéria como “freelancer” para a Editora Abril. Não trabalhei lá, mas já ganhei 2 prêmios: o prêmio Abril e o prêmio Esso, como “freelancer”. E nunca fui trabalhar na Veja porque não gosto da Veja. O meu currículo mostra, trabalhei em todos os principais meios de comunicação do Brasil: televisão, revista, menos na Veja. Também nunca fui convidado. Uma vez o dono da Abril me perguntou: “Por que você nunca trabalhou na Veja?”. Respondi pra ele: “Porque nunca me convidaram”. Não respondi tudo, faltou: “E se convidarem, não vou!”. É aquela história, falei a verdade, mas não preciso ser grosseiro com ele.


Repórter – O Mino Carta fundou a Veja, você até já trabalhou com ele. Ela não era assim. O que aconteceu?

Ricardo Kotscho – Ela era exatamente o oposto. Deixa eu contar! Você tem as empresas e tem os jornalistas. Hoje as coisas se confundem, não há mais nenhuma diferença. Os jornalistas que dirigem as publicações pensam exatamente como empresários. Antes não era assim. Tinha o dono, o acionista e o jornalista. Havia uma tensão constante entre a redação, o chefe de redação e os proprietários. Na Folha, eu briguei muito, não concordei com muita coisa do Projeto Folha e tal (o projeto envolve o manual de redação, padronização dos textos, matérias sem os nomes dos repórteres). Hoje não tem mais isso, todo mundo aceita pacificamente tudo. É o pensamento único, a pauta única, o texto único, é tudo igual: jornal, revista. Raramente você vê uma coisa diferente.

O Mino Carta criou muita coisa, é um criador. Criou a IstoÉ, o Jornal da República, a Veja, a CartaCapital. Ele diz o seguinte, que quando ele briga com os donos, os acionistas, ele cria um lugar pra trabalhar. A IstoÉ e a CartaCapital são dele. Como ele não se dá com ninguém, briga com todos os donos (risos), cria a publicação dele. Isso é um exemplo para o jovem.

Hoje em dia se cria com muito mais facilidade. Pra livros e revistas se precisa de muito dinheiro. Fazer um site ou um blog é muito mais simples.


Repórter – Você disse em uma entrevista que o povo não quer saber do que acontece em Brasília, pois é algo distante e mesmo incompreensível. A proposta da revista Brasileiros é justamente trazer ao jornalismo assuntos próximos do público. Com isso, a revista está fazendo sucesso?

Ricardo Kotscho – Olha, existe uma tese de que o brasileiro não lê, não lê matérias maiores. Há anos eu ouço isso, e não é verdade. Nunca no Brasil se vendeu tantos livros como hoje. Não é só a revista Brasileiros que trabalha com reportagens mais longas, há outras, a TRIP, a Caros Amigos, A Piauí, a Rolling Stones, a revista Horizontes, uma outra chamada Revista do Brasil. Há uma variedade de revistas mensais no mercado, de reportagem, nos moldes da antiga revista Realidade, de 1960. Que foi a melhor publicação que o Brasil já teve e serve de modelo para esse tipo de revista.

Aí você me pergunta se é um sucesso. Não. Não vende milhões de exemplares. Mas sobrevivem, existe mercado. Agora a imprensa é mais ou menos como o supermercado, tem que ter de tudo: fast-food – a imprensa diária, a internet – e restaurantes cuja comida é melhor. E mais cara. Você tem que oferecer pro público coisas variadas. Já imaginou se existisse só um prato em todos os restaurantes, pra você comer todo dia, que horror? É o que eu sinto lendo os jornais brasileiros. Todo dia o mesmo prato. E ruim. E mal temperado.

Repórter – O jornalismo fica só em Brasília.

Ricardo Kotscho – É isso. Outro dia fui à feira, aqui na rua de baixo. E os assuntos de que as pessoas falavam não tinha nada a ver com as noticias do dia. Era completamente diferente. No máximo é parecido quando o assunto é esporte. Porque Brasília não interessa pras pessoas, raramente tem a ver com o que a população está sentindo. Existe um mundo à parte dos jornalistas e políticos em Brasília, a pauta circulando lá dentro. Os políticos alimentam a mídia, querem aparecer na imprensa, e os jornalistas ficam ali, esperando uma migalha de informação pra fazer a matéria dele.

Eu resumo assim: tem Brasília demais e Brasil de menos na nossa imprensa.


Repórter – É isso, obrigada!

Ricardo Kotscho – Nossa, eu falei muita coisa, viu. Quando a entrevista é longa falo muita merda. Ah, mas se quiser põe até na internet!

Entrevista: Priscila Jordão
Fotografia: Amanda Previdelli

3 comentários:

Alexandre disse...

Muito interessante.

Gostei da entrevista!

Parabéns!

Aloc Mey disse...

Ficou bem legal a entrevista.

Parabéns!

Anônimo disse...

MUITO BEM

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