quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sopa de Letras

L. é baixo. L. é baixo e gordo. L. é simpático. Seu sorriso é quadrado, enquanto o sotaque é notável. “Lá na minha terrinha, essas coisas não acontecem” repete, compulsivamente. Eu como algum salgado de cantina em algum tempo livre, ouvindo os discursos do pequeno homenzinho.

R. é silenciosa. R. contém até o espanto ao ouvir as histórias de L. Tomando um cafezinho às 9 da manhã, R. está se preparando para ir ao seu emprego no Estadão. Teve reunião de pauta ontem e está atarefada, apesar dos cursos de línguas que faz em outros horários. Fala um exótico árabe, que ainda não nos mostrou. Somos jornalistas.

Não lembro ao certo se L. é do Pará. Sei que é formado lá, com o diálogo animado sobre os professores de seu tempo. L. tem idade para ser meu pai. L. começa a falar como a música é formada, muito além do ritmo, pela harmonia e pela melodia. A melancolia de L. é saber que a industria musical resolveu apostar apenas em ritmo, enquanto a beleza harmônica é cada vez mais abandonada. Na evolução de produtoras como a EMI, a Sony e a Warner, surgiu o monopólio e a padronização dos grupos e bandas. Por isso, L. lembra bastante lúcido de “modas” como o grupo É o Tchan.

L. é musicólogo. Musicólogo totalmente especialista em música popular. L. é um produtor. L. pretende, com o lançamento de seu álbum, se tornar um músico, talvez. R. olhava para todos e eu percebia que, à medida que falávamos mais, os jornalistas não sabem um pouco de tudo, mas alguns sabem muitas informações preciosas para as pessoas.

Uma das coisas que L. mais repudia é o atual ministro da cultura, Gilberto Gil. “Artista não entende de produção e nem de contexto artístico. Achei um atrevimento ele falar que a Preta, sua filha, é a única novidade no país, em visita a Europa”. Concordo com L., enquanto R. parece concordar com nós dois, mais falantes do que ela. No entanto, eu não tive coragem de interromper L., mas isso mostra que ele mesmo é paradoxal: será que um musicólogo pode ser um músico?

A banda de L. não tem mais bateristas. Tocam músicas regionais do norte brasileiro, com influências amazônicas. L. toca com diferentes percussionistas, violonistas e diversos outros instrumentistas. L. apóia músicos que inovem. “Uma amiga minha toca clássicos da Elis e não sabe porque os discos dela não vendem. É uma das melhores na noite paulistana, mas poderia ter mostrado isso em seu CD, não covers”.

L. diz que a cultura norte-americana está em decadência. L. L. já foi jornalista na televisão canadense, depois de trabalhar na revista Bravo e jornais regionais. “O jornal regionalista revela talentos, junto com a televisão desses lugares. Aqui em São Paulo, a elite impede o reconhecimento”.

Seu repertório é rico. L. conhece todo o Brasil, exceto o nordeste. “Vi norte, sul e centro-oeste. Passei um tempo no Pantanal. É lindo”. L. pretende conhecer o nordeste pelo sertão, andando de pau-de-arara.

L. não sabe inglês. L. é meu professor de francês.

R. não falou muita coisa, realmente. Mas, como jornalista de O Estado de S.Paulo, cumpre seu papel com êxito: ouvir as pessoas. Ouve atentamente, atiçando raramente o orador, para deixá-lo à vontade. R. é testemunha, uma testemunha tímida, simples, recém-formada pela ECA-USP.

E eu? Bom, o autor do texto é um amador mesmo.

O encontro dos três ocorreu nesta última terça-feira (15/07), às 9 horas da manhã.

Sopa de Letrinhas são crônicas publicadas às quintas-feiras.

Falam de comunicação, de protesto e contra-protesto.

2 comentários:

Lidia Zuin disse...

Tava achando que era fictícia a crônica, até que no finalzinho, eu me desiludi. Achei legal, bem escrita. Achei interessante a passagem em que é abordado o paradoxo de L., que diz que um artista não pode trabalhar com o que Gilberto Gil trabalha atualmente e, enquanto ele diz isso, ele é um musicólogo que quer ser músico. Seria legal se tivessem abordado ele!

Pedro Zambarda disse...

hehe, procurei escrever de um jeito bem simples.

Gostei da sua desilusão. Foi mais ou menos minha intenção: jogar com muita literatura algo que foi real.

E que se refere, justamente, à nossa profissão.

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