quarta-feira, 23 de julho de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas

E depois de três anos de espera, o fim de semana de Batman: Cavaleiro das Trevas chegou. Mais que isso: chegou e já passou. Passou como um verdadeiro furacão para o gosto do público, diga-se de passagem. A produção simplesmente fez os recordes de pré-estréia e dia de estréia de Homem Aranha 3 irem para o espaço. No Brasil esse sucesso não foi diferente, pois o que se viu foram filas gigantescas e ingressos esgotados antes mesmo de sexta-feira, algo não muito comum por aqui. Os motivos para a transformação do filme em evento são vários: desde a minunciosa campanha de marketing, com e-mails e sites virais, até páginas e páginas nos principais veicúlos do país comentando sobre a produção. Não pode-se descartar também o efeito Heath Ledger e a curiosidade sobre a última atuação da carreira do ator (falecido em janeiro). O Cavaleiro das Trevas vale tudo isso?

É muito difícil escrever sobre esse filme sem estragar qualquer surpresa. Na verdade, é quase impossivel. O filme começa com uma Gotham City um pouco diferente daquela vista em Batman Begins. A cidade parece estar um pouco mais controlada com a presença de Batman e com a ascensão de pessoas honestas como o Tenente Gordon e o novo promotor público, Harvey Dent. No entanto a situação se parece com um "grande barril de pólvora prestes a explodir" e todos sabem disso. Não demora muito para a faísca necessária aparecer, já que enquanto os chefes da máfia discutem a melhor forma de continuar com seus negócios, a figura do Coringa emerge do nada, objetivando uma única coisa: caos.

Na minha resenha de Batman Begins acabei comentando que o filme parecia uma grande preparação para algo maior. E o que de fato acontece em Cavaleiro das Trevas: temos um Batman muito mais forte e experiente, que tem total noção de suas capacidades e segue suas regras próprias (nunca matar) com extrema precisão. Gotham City se aproxima mais ainda da realidade, pois não é muito diferente de qualquer outra grande metrópole americana. Tudo soa grandioso, das cenas de ação com lutar bem coreografadas e perseguições de tirar o folego até a crueldade mais pura. Cavaleiro das Trevas basicamente lapida o diamante bruto de Batman Begins para transformá-lo em uma jóia majestosa.

Toda a trama tem todo um eixo catalizador no Coringa. Um eixo que faz todas as peças desta complicada engrenagem girar. Por isso a melhor forma de analisar tudo isso é por tópicos separando personagem por personagem, característica por característica.

Coringa: O Coringa é de longe um dos vilões mais amados do mundo das HQs, e também um dos mais profundos. Por muito tempo ele ficou apenas conhecido como o palhaço do crime: uma figura caricatural que ria das próprias maldades. Mas, com o passar do tempo, o personagem dos quadrinhos acabou se desenvolvendo e criando arestas e abismos psicológicos comparáveis apenas a seu antagonista Batman. Foi em A Piada Mortal, graphic novel de Alan Moore, que o personagem se definiu para todo o sempre. Nunca antes o Coringa havia sido retratado de forma tão insana, incontrolável e cruel. Ele é alguém com um único objetivo: provar seu ponto de vista.

Heath Ledger construiu seu próprio Coringa. Em superfície ele não é parecido com nada que havia sido escrito ou interpretado antes. É tão diferente que a inevitável comparação com Jack Nicholson se torna inoportuna. Mas, quando paramos para analisar melhor o trabalho feito pelo ator australiano, o que vemos é uma grande e bem-sucedida mistura de várias faces do Coringa. Grande parte de sua construção vem sim da Piada Mortal, mas a grande questão foi o crítico Pablo Vilhaça quem levantou: em qual abismo pessoal Heath Ledger mergulhou para criar seu Coringa? Também foi Jack Nicholson quem disse que não se pode interpretar o Coringa sem sair ileso desse processo, mas a partir daí seria muita ousadia conjunturar sobre possíveis efeitos desse processo na morte trágica do ator.

É muito difícil crer naquilo que se vê na tela desde a primeira aparição do Coringa. Ao invés daquela divertida maldade vista em Nicholson, o que Ledger nos traz é um constante mal-estar com sua presença, uma apreensão que cresce à medida que seus atos ganham em grandeza e crueldade. Ele próprio se define várias vezes, mas poucas com alguma precisão ou com detalhes de sua origem. Como já foi dito, é um furacão que destrói tudo por onde passa, sem dizer de onde veio ou para onde vai. Se sua personalidade é apenas baseada em Piada Mortal, seus atos encontram interessante paralelo na obra. Enquanto na graphic novel o Coringa tenta provar sua tese enlouquecendo o Comissário Gordon, em Cavaleiro das Trevas seu alvo é toda Gotham City, com foco especial em Batman e, mais ainda, em Harvey Dent. Sua intenção vai muito além do que simplesmente matar (coisa que ele faz muito no filme), mas chega na destruição total do ser humano, pela aniquilação de seu espirito. Sem exageros ou muita empolgação: um dos maiores vilões da história recente do cinema.

Batman: Alguns comentários sobre o filme apontaram Christian Bale como levemente apagado neste segundo filme em comparação com Batman Begins. Esses comentário são injustos, afinal não é sua interpretação que está menos intensa, mas o próprio Batman. O roteiro de Christopher Nolan disseca todas as falhas e os dilemas que um super-herói com a fragilidade de qualquer ser humano, e assim vemos a energia de Batman caindo aos poucos enquanto ele questiona cada vez mais seus próprios atos e sua real importância para Gotham. Tal atitude pode incomodar alguns fãs, principalmente aqueles que amam Cavaleiro das Trevas, a HQ de Frank Miller. Nela Batman sabe de seus efeitos benéficos e maléficos sobre Gotham, mas nunca se questiona pois sabe que isso o enfraqueceria. O que acontece é que este ponto de vista está totalmente inscrito nas entrelinhas do filme. É justamente a partir do momento que Bruce Wayne abre mão definitivamente de uma vida comum e aceita o fato de que o Batman será necessário por muito mais tempo (seja como um herói ou não) que ele se torna inquebrável.

A questão sobre se uma cidade precisa ou não de um herói não é simples, mas o roteiro a retrata com perfeição. É justamente o chamado herói que percebe que não o poderá ser por muito tempo, não da forma que o é atualmente. Batman percebe que Gotham precisa de um herói com rosto, confiável, e vê em Harvey Dent, o cavaleiro branco, esta figura. Sua trinca formada com Dent e Jim Gordon é simplesmente genial, e a forma como Batman se vê como o elo mais fraco desse triangulo é de uma sensibilidade ímpar. Afinal, pobre do povo que precisa de um herói como ele.

Harvey Dent: O Cavaleiro das Trevas tem uma galeria invejável de grandes personagens, mas é com Havey Dent que a tríade principal se encerra. Sem querer menosprezar nomes como Gary Oldman, Michael Caine ou Morgan Freeman que estão impecáveis como Jim Gordon, Alfred e Lucius Fox, mas Aaron Eckhart tem uma das atuações mais marcantes de sua brilhante e menosprezada carreira. Harvey Dent não é um personagem fácil e se mal interpretado é prato cheio para um desastre (vide Tommy Lee Jones em Batman Eternamente). Mas Aaron usa e abusa do fantástico roteiro do filme e torna Harvey Dent a pedra fundamental da produção. Se o Coringa é uma força natural que visa destruir o espirito de todos, Harvey Dent é seu prato preferido. Como Batman diz várias vezes se referindo à trinca já citada, “Ele é o melhor de nós”. Dent é imcorruptivel, corajoso e sem medo. Mas tem uma fraqueza: seu amor por Rachel. E não demora para o Coringa perceber isso e começar a sugar toda a sanidade dele. Havey Dent é o Jim Gordon que o Coringa tentou destruir em Piada Mortal, mas o resultado é diferente. Nas duas horas e meia de produção, o que vemos é um brilhante trabalho em que Aaron Eckhart retrata de forma desesperadora a lenta queda de Dent ao mais profundo abismo emocional. Justamente por no começo do filme acreditarmos no jovem promotor público da mesma forma que Rachel, Bruce Wayne ou Jim Gordon acreditam, que sua destruição se torna mais dramática e desesperadora. Sua trajetória é sem dúvida a mais triste já retratada em um filme de super herói, semelhante àquela feita pelo inicialmente bom Anakin Skywalker.

Batman - O Cavaleiro das Trevas é o filme mais denso de super-herói já produzido. É fato que fica até difícil caracteriza-lo como tal. Nenhum dos aspectos necessários para isso estão lá e o filme parece muito mais uma grande tragédia policial. Ele não tem final feliz e, por muitas vezes, sentimos um gosto amargo na boca com os rumos que o roteiro toma. Mas tudo é conduzido de uma forma impecável e grandiosa. A história não tem um furo sequer e, em nenhum momento, o filme se torna cansativo (algo difícil para um “super-herói”). Dentre tantas qualidades e em um trabalho tão constante ainda pode-se tirar algumas cenas que se sobressaem.

Vou novamente citar a Piada Mortal (sim, sua presença é recorrente no filme) e uma das paginas mais bem escritas da história, quando o Coringa se compara a Batman. Christopher Nolan não reproduz a cena com tamanha simplicidade e genialidade quanto Alan Moore, mas todo o dialógo entre os personagens na delegacia de policia merece entrar para a história. Mesmo com uma nova visão do Coringa e do Batman, o diretor conseguiu tranforma-los em faces opostas da mesma moeda, e até sugere que suas gêneses são semelhantes. E no meio disso tudo ele insere Havey Dent de forma única, sendo a vítima da batalha insana em Batman e Coringa. Seu Duas-Caras pode até ser diferente daquele retratado na HQ, mas não é menos intenso. Motivado por vinganças, nunca vemos nele a imagem de um vilão, mas sim como uma alma atormentada. E talvez seja de fato como saímos da sala de projeção, atormentados e abalados por um filme que se mostra mais do que imaginávamos. O que fica agora é a sensação de que 2008 será um ano que todos correrão atrás de Christopher Nolan e do melhor filme de super-herói já feito.

3 comentários:

Nadiesda Dimambro disse...

Eu assisti ontem...
a presença do Coringa nas cenas é tão forte que eu torcia para ele aparecer mais; O freak show embutido no personagem de Heath Ledger é bem mais empolgante que as ceninhas do Batman-mauricinho-em-conflito. O ator se preparou muito para esse personagem tão intenso, lhe deu o devido respeito, e fez um trabalho impecável.
Concordo com você quando diz ser o melhor filme de super-herói já feito.

Lidia Zuin disse...

Esse filme é MUITO BOM. Eu tava hesitando quanto à interpretação do Heath, porque eu sou paga-pau do Jack Nicholson... mas ele foi perfeito. Maravilhoso, sexy, malvadão e afins HAHAHAHA.. Pena que morreu. Eu queria muito que a Harley Quinn aparecesse nos filmes do Batman, mas daí ela teria que aparecer no mesmo que do Joker ou então, com a Era Venenosa... mas com ela, ía ficar meio sem sentido.. e o Joker junto dela não fica tão malvadão, mas mais cômico... É uma pena. =/
A voz do Batman tava ótima ahahah sempre dava maior sustinho. Acho que era de propósito o volume em que ela era proferida, além da modificação. O ator do Harvey Dent também foi perfeito, muito bom. Nossa, um dos melhores filmes que já vi. Duas horas e meia que eu pediria para serem mais!

Corto Blog Maltese disse...

Parabéns, pela sua crítica e a análise desses 3 personagens que são faces da mesma moeda.

Pena muito gente ter prestado tanta atenção ao Coringa e tão pouca às coisas que ele disse.
Sem falar que é uma pena muita gente não ter entendido que o Bruce Wayne não se disfarça de Batman. O Batman é que se disfarça de Bruce Wayne.

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