terça-feira, 22 de julho de 2008

Sobre fantasmas

Falar sobre escrever em um lugar repleto de jornalistas nunca será uma tarefa simples, assim como não é simples escrever. Muitas vezes cronistas relataram o trauma que é para o escritor, seja ele literário ou crítico, o papel em branco - ou o branco em si -, a falta de idéias, o não-saber, enfim. É com profunda timidez e incrível atraso que inicio minha participação aqui, falando sobre o que iremos todos fazer daqui a um tempo: escrever.

Em seu livro A arte de escrever, Arthur Schopenhauer disse que nenhuma qualidade literária pode ser adquirida pelo simples fato de lermos escritores que possuem tal qualidade. Contudo, se já as possuímos in potentia, podemos evocá-las, trazê-las à nossa consciência, podemos ver o uso que é possível fazer delas, podemos ser fortalecidos na inclinação, na disposição para usá-las, podemos julgar o efeito de sua aplicação em exemplos e, assim, aprender a maneira correta de usá-las; e só então possuiremos tais qualidades in actu. Essa é a única maneira de a leitura ensinar a escrever... (L&PM, p.129). Ou seja, para escrever e fazê-lo bem, é necessário que tenhamos nascido com essa habilidade. E eu pergunto não só a vocês, mas a mim: Nascemos com essa capacidade? E uma outra pergunta que vai além do tema: Estamos no lugar certo?

Não tenho capacidade moral para julgar quem não sabe a resposta, mas todos temos capacidade para questionar quem nunca se fez essa(s) pergunta(s). Tenho fé de que todos aqui gostam de escrever, mas todos têm capacidade? Repito que faço a mim a mesma pergunta.

Admito que tenho uma imensa paixão por escrever e por isso resolvi entrar no curso, mas o que me impede de ter me enganado? Enquanto não sei a resposta, sigo em frente, vou tocando, deixando meu lado literário de lado (o que acho um imenso pecado).

Ofício complicadíssimo esse de informar com exatidão, de redimir-se quando enganado, de infiltrar-se, de dedurar, por assim dizer, de dizer de nós mesmos "verdadeiros". É com as mãos que se sobe ao céu escreveram Louis Pauwels e Jacques Bergier no livro O Despertar dos Mágicos. Teremos a função de repassar sem participar, o que é extremamente contraditório. Teremos em mãos algo que pode derrubar ou (re)erguer uma nação. Teremos em mãos o mundo - o que temos mesmo sem o jornalismo.

Apesar de extremamente pretensioso, tudo que pretendi no último parágrafo foi nos incentivar e conscientizar de que teremos uma responsabilidade sem igual e que devemos confiar em nós mesmos, apesar de todas as dúvidas e de todos os fantasmas que nos rondam.

Não abandonem o lado literário! Ele pode ser o nosso ganha-pão daqui a um tempo!

2 comentários:

Pedro Zambarda disse...

Assim como a filosofia de nosso século, advinda do próprio Schopenhauer, o oficio jornalístico sempre exige seu paradoxo metódico, seu planejamento inexato, sua fidelidade impessoal e sua metamorfose corporativa.

Não acho só que essa crônica é um incentivo, mas também coloca e desnuda o problema de nossa principal propriedade: escrever.

Muitos anônimos aqui falaram de métodos de escrita. Falaram que estava uma bosta sem sequer propor um método. A simples existência de uma equação fora do pensamento humano, puramente matemática, é contra a propriedade da língua - o trabalho do significado. Nem mesmo as próprias equações trabalham com tal exatidão, com tal estabilidade.

Abraço, Guilherme.

Thiago Dias disse...

Sabemos ou não como escrever? Me pergunto isso todo santo dia e não sei respota. Nem sei se algum dia vou saber, mas o que importa eh sempre questionarmos isso.
Ótimo texto

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