domingo, 14 de setembro de 2008

Domingos

Não é a primeira vez que planejo escrever algo sobre o Domingo. Apesar de ser vítima da inexorabilidade das convenções humanas – e do destino -, o Domingo está longe de ser uma Segunda-feira. O Domingo, em sua multipolaridade, causa em nós uma enorme influência, fazendo de nós reflexos de sua personalidade dominante no momento em que nasce.

Em muitas de minhas idas à locadora, aos Domingos – escrevo com “D” maiúsculo pois o Domingo é uma entidade poderosíssima e digna de certo respeito -, deixo que meus pés façam o caminho de ida e volta por conta própria, assim consigo reparar em certos detalhes esquecidos nos cantos também esquecidos de meu bairro.

Por pouquíssimos que sejam, temos aqui, na Vila Hamburguesa, alguns botecos. Uns mais arrumados que outros, mais apresentáveis, mas ainda assim botecos. E o que seria dos botecos sem os bêbados? Eu lhes digo: seria um Domingo. Não sei se pela força desse dia que abate a todos como a bois no matadouro ou se pelo simples fato de, no Domingo, o ócio ter uma força maior. Deixo aberta a questão.

No meu caminho, desviando com o peito apertado das poças de água na calçada recém lavada de chuva, passo na frente de um desses botecos. Não são bêbados que estão lá, mas pessoas que, na minha mentalidade, passam a semana engravatados em um ir-e-vir nas marginais e avenidas de São Paulo. Mas, afinal de contas, também são merecedores.

Essas pessoas, nesse boteco, desafiavam o frio com mais uma rodada de chopes. É dia de futebol, é dia de bar, é dia de chope, tudo isso junto, em conseqüência, transforma o Domingo em um dia para procrastinar os medos e a tão inevitável Segunda-feira. Digo a mim mesmo que são merecedores dessa paz também. Ninguém deveria se preocupar aos Domingos.

Vejo, além dos bares, os motoristas de ônibus, dividindo sua atenção entre o trânsito e a ansiedade do retorno ao lar, do encontro com a família, com o chope, com os comentários do futebol, já que o desencontro entre eles foi inevitável devido a essa terrível e honrosa tarefa de levar as pessoas nos Domingos.

No caminho, barbearias fechadas, farmácias vazias, um som de alguém tocando piano no fundo da sala de uma casa que tem a porta aberta; Carros, ônibus e gritos cortam o silêncio denso que existe entre as árvores, plantadas simetricamente, disfarçando o acúmulo de prédios; Um bom número de pessoas caminhando, voltando para casa ou indo para a casa de alguém que não a própria, vagando sem rumo, sem pensar. E eu termino meu Domingo em casa, relembrando tudo e fazendo um juramento: serei eu, no próximo Domingo, o alvo de uma crônica carregada de inveja de mim. Mas inveja boa, de querer bem.

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