sábado, 7 de março de 2009

Se o sinhô não tá lembrado...


Quando estava no mercado municipal, o famoso mercadão, durante seu 76º aniversário, ocorria uma exposição de livros. Contando com a presença de seus respectivos autores, havia diversos títulos. Contudo, o que mais me chamou atenção foi uma biografia, escrita por Ayrton Mugnaini Jr.

Lançado em 2002, Adoniran – Dá licença de contar... narra (com maior ênfase à trajetória musical) a história de Adoniran Barbosa, sambista imortalizado por suas letras que retratam os mais diferentes lugares da cidade de São Paulo. Conhecido principalmente pelas músicas “Trem das Onze” e “Saudosa Maloca”, a biografia entra exatamente para desmistificar, mostrar que Adoniran era muito mais do que dois hits concretizados na história da música brasileira, na voz dos Demônios da Garoa.

A história de Adoniran é cheia de controvérsias e múltiplas versões, muitas vezes contraditórias. A começar por sua data de nascimento, que oscila entre 1909 e 1912. Nas próprias palavras de João Rubinato (seu nome verdadeiro), disse que gostava mais do ano de 1910, o mesmo da fundação do Sport Club Corinthians Paulista, seu time de coração, para o qual até dedicou uma música, “Coríntia”. Em suas entrevistas (citadas em diversas partes do livro), ele desmente, cria e narra sua própria história, com muita liberdade e desenvoltura. Isso ocorreu talvez porque o próprio Adoniran Barbosa fosse um de seus muitos personagens.

Muitos fatos sobre Adoniran Barbosa, ao passo que são contados no livro, podem deixar muitos boquiabertos. Das diversas profissões que exerceu (de entregador de marmitas, durante a pobre infância; vendedor de meias e até entregador de tecidos na rua 25 de março), as de cantor e compositor talvez fiquem apagadas diante de sua trajetória profissional.

Originalmente, Adoniran era um humorista, radioator especificamente, passando também a atuar em telenovelas, longa-metragens e, incrivelmente, pornochanchadas. Estrelou em “O Cangaceiro” (1953) premiado filme de Lima Barreto, vencedor do Festival de Cannes. Sua carreira no rádio (premiada com quatro prêmios Roquette Pinto) começou em 1941, na Rádio Record, onde, tempo depois, conheceu Oswaldo Molles, que ajudou a criar diversos de seus personagens. A fama de tais caricaturas (muito divertidas como Charutinho, Zé Conversa, Barbosinha Mal-Educado da Silva, Jean Rubinet, entre outros) chegava às vezes a identificá-lo como compositor. Lançava-se a música, porém, ao lado do nome de Adoniran, colocava-se “Charutinho”, por exemplo.

O estilo adonirânico de composição musical é extremamente marcante, o que ajudou a destacá-lo e separá-lo dos outros artistas. Os erros de português, consequentes também de sua precária educação, situavam o público na atmosfera narrada. Com um olhar flanêur e um texto muito próximo ao gênero crônico, podia passar mensagens profundas e, ao mesmo tempo, bem humoradas. Chegou a escrever uma crônica para a Revista Realidade, em 1969, com todos os erros gramaticais preservados na impressão. Os cenários de suas letras são os mais variados: malocas, sambas nos bairros do Brás, Mooca e Bixiga, passando por pontos turísticos como a praça da Sé, o viaduto Santa Ifigênia, e diversos outros.

O “Noel Rosa de São Paulo”, viveu de sua arte, sempre de maneira muito simples e humilde, deixando como pegadas suas construções musicais, que eram verdadeiros pedaços de realidade. Os principais temas sociais eram debatidos com extrema ternura, mas, ao mesmo tempo, de maneira muito incisiva. Aliado à figura de anti-herói, o malandro (filho de imigrantes italianos) descreveu um mundo totalmente underground, que era cheio de risadas e comportamentos de vassalagem.

Derrubado pelas consequências da boemia, em 1982, João Rubinato se desviou da máxima polidez da MPB. Mesmo com seus “nóis vai” e “nóis fumo”, chegou a musicar uma letra de Vinícius de Morais, e lhe deu um belo banho de água fria, contrariando o poeta que uma vez disse “São Paulo é o túmulo do samba”. As páginas do livro, publicado pela editora 34, nos levam à compreensão de um contexto histórico, que passa pelas principais rádios e emissoras de TV, suas respectivas fundações, os avanços da indústria fonográfica e, paralelamente, pela vida das personalidades que cruzaram com Adoniran, sejam em fiéis parcerias (como os Demônios da Garoa) ou famosas regravações (exemplo de Elis Regina).

Em Adoniran – Dá licença de contar..., Ayrton Mugnaini Jr discorre de maneira muito lúcida sobre a vida do sambista do Jaçanã. No apêndice do livro, são encontradas informações muito completas e interessantes sobre a vida musical e artística de Adoniran Barbosa, como suas músicas, regravações, participações em rádio, TV e cinema, e a crônica publicada em 1969 na íntegra. Para fãs ou para quem deseja saber mais sobre a vida de João Rubinato, a leitura é altamente indicada.


Assinado em cruz, porque não sei escrever.

2 comentários:

Pedro Zambarda disse...

Cauê, um parabéns especial aqui pelo teu esforço.

Sei que foi dificil e complicado até sair uma matéria no Bola, mas essa resenha é preciosa pra um blog diverso como este.

Abração.

debora disse...

gostei muito, parabéns!

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