quinta-feira, 26 de março de 2009

Este é o Rock de nosso tempo

Imagem do Blog Bratislava


Radiohead, Kraftwerk e Los Hermanos se apresentam no festival Just a Fest trazendo gerações e qualidade, independente do estilo.

Por Pedro Zambarda

Leitor, você poderia dizer que há um equívoco no título deste texto. A banda Kraftwerk surgiu como vanguardista da música eletrônica no começo da década de 1970, Radiohead é um fenômeno do rock alternativo à partir dos anos 1990 e Los Hermanos estourou no Brasil principalmente no começo do novo milênio. Mas sou obrigado a te alertar: há, sim, uma razão clara para que essas três bandas e vertentes estivessem reunidas no último domingo, dia 22.

Por mais que alguns presentes protestassem nos shows de abertura, ou até durante o espetáculo principal, Radiohead só foi o sucesso por incorporar as inovações tecnológicas que os sintetizadores do Kraftwerk inauguraram. E, mesmo que não seja sua influencia principal, Los Hermanos foi afetado diretamente pelo mesmo rock indie que o Radiohead formou, com diversas outras bandas, no final dos anos 1980.

A Chácara do Jóquei, zona oeste de São Paulo, foi uma escolha de lugar acertada por ser em um campo aberto. Apenas isso. O acesso ao local era complicado e a saída foi um desastre com a lama formada pela chuva, logo após o show. Mesmo assim, o público já começou a fazer a fila de entrada um dia antes, 21 de março. Somente às 18h20, após muitas horas de espera das pessoas na frente do palco, o pessoal do Los Hermanos começou sua apresentação de abertura, após 2 anos de hiato em suas atividades.

A performance da banda de Rodrigo Barba, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante e Bruno Medina foi bem acima da média. Amarante, por exemplo, contagiou o público correndo pelo palco e fazendo o acompanhamento necessário na abertura do show, Todo Carnaval tem seu fim, além de cantar músicas extremamente emotivas como Sentimental e Último Romance. Suas palhetadas eram dadas com tamanha força que, próximo ao final do show, o guitarrista chegou a quebrar uma das cordas. Já Marcelo Camelo, ao contrário do parceiro de banda, permanecia mais calmo na apresentação, embora sua impostação vocal fosse muito mais consistente do que a dos demais. Camelo, Amarante e o baixista Gabriel Bubu ocasionalmente trocavam seus instrumentos, dando uma dinâmica interessante durante a apresentação. Cher Antoine foi uma das músicas tocadas que os fãs não esperavam. Fechando a apresentação com A Flor, era possível ver o sorriso estampado no rosto de cada um dos Los Hermanos. “Até qualquer dia” disse Rodrigo Amarante, em tom de despedida, mas sem nenhum motivo para tristeza, embora a banda não esteja reunida em definitivo.



Ambas imagens de Limao.com.br

Conforme se aproximava do horário da apresentação do Kraftwerk, pessoas trocavam de lugar porque alguns iam beber água, comer e usar os sanitários. Vale frisar que o preço da comida e da bebida, variando entre 5 e 8 reais, era um absurdo pela (falta de) qualidade dos alimentos. Quem conseguiu, nessa movimentação, ficar mais a frente, conseguiu garantir seu lugar para ver o Radiohead. Imagens do público na Chácara do Jóquei espantavam quem estava no meio da multidão: estar próximo ao palco no meio de 30 mil pessoas não é pra qualquer um agüentar.

Às 20h15, Man Machine abriu a série de experimentalismos do Kraftwerk, abusando de sintetizadores sonoros produzidos por seus notebooks e teclados. A banda, liderada por Ralf Hüter, tinha pouca interação com a platéia, apesar de produzir efeitos visuais fascinantes em seus telões, dando todo um charme futurista ao espetáculo. Músicas como Numbers, Computer World e Radioactivity deram um show de efeitos especiais, ao contrário da morna e repetitiva Tour de France, alvo de reclamações principalmente das pessoas que não eram fãs de Kraftwerk. O grande clímax da apresentação foi a música The Robots, momento em que Hüter, Fritz Hilpert, Henning Schmitz e Stefan Pfaffe se retiraram do palco para serem trocados por réplicas do Kraftwerk robotizadas. Muitas pessoas ficaram perplexas diante dos robôs, mas foi nesse momento que a mensagem sobre ausência do humano ficou explícita na música dos alemães. Fechando o espetáculo, Music Non Stop trouxe roupas com listras verdes fosforescentes e luzes néon azuis sobre a pele dos músicos, além de animações em 3D no fundo. Por mais que muitos dos presentes não gostassem de música eletrônica, a apresentação que durou pouco mais de 1h conseguiu trazer um repertório diverso e agradável tanto para fãs quanto não-fãs.



Ambas fotos de Limao.com.br

Após cerca de 30min na montagem do palco, os ingleses do Radiohead iniciaram seu show com a frenética 15 Steps, abertura do álbum recente da banda, In Rainbows. As músicas escolhidas passaram por todo o material da banda, sem poupar nenhum material. Músicas repletas de atmosferas eletrônicas, como Idioteque, Pyramid Song e The National Anthem mostraram o potencial de Johnny Greewood nos aparelhos eletrônicos. As performances notáveis de Thom Yorke em Videotape, All I Need e Fake Plastic Trees enalteceram sua figura marcante como frontman. Ed O´Brien, Colin Greewood e Phil Selway fizeram a base (e até alguns solos, no caso de Ed) necessários para todas as faixas.

Foto de Limao.com.br

Faust Arp teve um diálogo animado entre Thom e Johnny, ambos se apresentando. Thom solta um “hi, this is Johnny!”. O guitarrista responde, num voz abafada típica "this is Thom". Depois da pequena introdução, ambos começaram o dueto de violões com um entrosamento único. Exit Music (for a film) foi um soco no estômago de todos, com a letra mais triste que Radiohead fez, apesar das controvérsias. A comoção foi tanta que pouquíssimas pessoas cantaram, não porque não sabiam a letra, mas porque estavam totalmente espantadas e hipnotizadas.

O palco era repleto de barras metálicas e um projetor ao fundo mostrava 5 câmeras para cada integrante da banda, dando um show de cenografia. Radiohead teve o número absurdo de 3 seqüências de músicas além do primeiro repertório. Karma Police e Paranoid Android levaram tantas pessoas a cantar que a música continuou além de seu tempo, com Thom Yorke e o público dividindo os vocais, montando verdadeiros hinos. Jigsaw Falling Into Place e Weird Fishes mostraram uma banda afinada entre si, totalmente sincronizada. Por fim, Creep, a música que fez a banda estourar na MTV nos primórdios, fechou a noite. Cada “porrada” que Johnny dava em sua guitarra Fender Telecaster tornava a iluminação do cenário totalmente colorida, indicando a relação da apresentação com a turnê In Rainbows.

Três bandas diferentes que, interligadas entre si, trazem o rock de nosso tempo, em diferentes contextos. Outro espetáculo Just a Fest pode levar muitos anos para se repetir. Thom Yorke que o diga, totalmente extasiado com seu público e de joelhos ao final de Creep, após sua primeira apresentação no Brasil.

10 comentários:

Lidia Zuin disse...

Fiquei com medinho de fazer resenha sobre o show, porque provavelmente eu iria ficar sendo tendenciosa :/ Trampão falar do festival inteiro *preguiçosa*

Thaís Lima disse...

Ótima resenha. Tava no meião do povo também, Pedro?

Pedro Zambarda disse...

sim sim Thais. Tava morrendo por lá, haha.

Gabriel Carneiro disse...

só para constar, Fake Plastic Trees é do The Bends.

Pedro Zambarda disse...

Obrigado pela correção Gabriel.

Então, sem duvida nenhuma, é o setlist mais completo.

Thiago Dias disse...

Kraftwerk...alguem me avisa quando eles começarem a fazer musica

Pedro Zambarda disse...

Música com sintetizadores é música. Amplie seus horizontes, Thiago.

Thiago Dias disse...

usa sintetizador eh uma coisa, agora uma musica SÓ com sintetizador..eh barulho.
Ainda acho que eles ficam jogando paciencia atras daqueles pcs

mariane disse...

Já vi gente que gostou, não gostou, mas igual queria ter ido no show.

Anônimo disse...

thiagão sabe tude de música, é o mozart brasileiro miagentchi

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