segunda-feira, 23 de março de 2009

Gran Torino

A redenção final de Dirty Harry


Um delinqüente corre por meio de uma construção abandonada. Existe medo em seus olhos. O suor escorre por sua testa e sua respiração ofegante denuncia o fim de seu fôlego. Atrás dele um homem caminha lentamente, sem nenhum sinal de hesitação. Chega o fim da linha para o delinqüente, tudo que lhe resta é apelar para a misericórdia do justiceiro que lhe aponta uma Magnum .44. Não existe misericórdia.

A cena acima é o encerramento do primeiro filme da série Dirty Harry (Perseguidor Implacável no Brasil), de 1971, estrelada por Clint Eastwood. Tal cena sintetiza de forma crua o espírito por traz daqueles filmes, ou melhor, daquela época. E é só mais uma das dezenas de facetas que Clint Eastwood construiu ao longo de mais de 50 anos de carreira. E talvez seja necessário conhecer boa parte delas para captar todo o significado que Gran Torino traz para seu diretor e ator.

Walt Kowalsky é um veterano da Guerra de Coréia que acaba de se tornar viúvo. Racista, intolerante e sem nenhum tipo de relação afetuosa com seus filhos e netos, Kowalsky mantém uma rotina não muito diferente de qualquer outro aposentado no subúrbio de Detroit. Cuida de seu jardim, arruma sua casa e lava e lustra religiosamente um Ford Gran Torino 1972, herança dos tempos que trabalhou na mais americana das montadoras. No entanto seu bairro deixou de ser um lugar para americanos conservadores como Walt, e se tornou refugio para a comunidade asiática de Detroit, mais especificamente os Hhmongs, como seus vizinhos.

O fio condutor do roteiro começa quando o jovem Thao é forçado por uma gangue a roubar o Gran Torino de Walt. O roubo é frustrado e Thao passa a ser perseguido pela gangue, até o momento em que a briga acaba no gramado de Walt, que os recebe com uma espingarda apontada para seus narizes. A partir daí o velho antes odiado, se torna um herói para o bairro, e Thao é obrigado pela família a prestar qualquer tipo de serviço que Walt pedir. E a partir daí começa o processo de amaciamento nas crenças racistas do protagonista. Enfim, um roteiro com uma linha básica e não muito criativa. Mas está nos detalhes, nas nuances e nas entrelinhas que Gran Torino se torna um filma sólido, impecável e emocionante.

Tudo que Eastwood aprendeu com mestres como John Ford e Sérgio Leone, e que posteriormente foi aperfeiçoado em uma carreira marcante na direção, está em Gran Torino. Algo que se torna muito surpreendente depois de uma obra falha como A Troca. O que vemos aqui é a volta à temática do western que lhe tornou famoso e lhe rendeu a consagração com Os Imperdoáveis, com a estética da violência urbana vinda dos anos de Dirty Harry, exaltando a presença daquele homem intimidante, capaz de gerar medo apenas com sua face. Estética esta que também fora usada com maestria em Sobre Meninos e Lobos. E antes que alguém se pergunte: sim, Gran Torino é Clint Eastwood revisitando a própria carreira.

No entanto, tudo muda no ato final. A auto referência acaba e o que entra em cena é a redenção de um ícone de um modo falho de se fazer justiça. A última meia hora de projeção talvez sejam os 30 minutos mais sinceros que Eastwood já dirigiu. Algo que vai além de toda a ideologia em seu clássico Menina de Ouro, algo que vai além da cena final de Os Imperdoáveis. É como se Clint dissesse a si mesmo que o modo de se fazer justiça que nos acostumamos a pregar após a década de 70, que o modo que ele próprio ajudou a construir, entrou em falência.


Gran Torino não tem a intenção de iniciar qualquer debate sobre a violência urbana, sobre como devemos lidar com ela ou algo do tipo. Ele simplesmente diz respeito a um homem que talvez tenha se arrependido daquilo que fez, e que corre atrás da própria redenção. Se for isso mesmo vale dizer que a procura chegou fim. E ela se encontra na mão direita de Walt Kowalsky em seu momento final.

7 comentários:

Mari Bruno disse...

to looooca pra ve!^^
Clint Eastwood rocks.

Diego disse...

Thiago, era para as duas últimas frases serem assim mesmo?

"Se for isso mesmo vale dizer que a procura chegou fim. E ela se encontra na mão na direita de Walt Kowalsky em seu momento final.[sic]"

Releia seus textos (preferencialmente em voz alta) antes de publicar, assim você evita erros bobos.

Thiago Dias disse...

Está corrigido. Obrigado pelo conselho Diego, mas aqui vai um também. Vez ou outra comente sobre o assunto do post e não apenas sobre os erros presentes. Assim quem sabe vc tem a oportunidade de criar algum debate interessante

Diego disse...

Um conselho extremamente justo. Mas acredito que não posso contribuir muito para o debate, porque ainda não vi o filme e não entendo muito de cinema.

Apenas acho que, se essa obra critica a “ideologia western”, que esteve impregnada em tantos filmes de Clint Eastwood, vale a pena assisti-la. Para mim, resta saber se a mudança é profunda, ou apenas superficial.

PS: Não estou discutindo o talento de Eastwood, nem negando o valor de todo um gênero cinematográfico, apenas revelando um preconceito pessoal: minha aversão a westerns.

Mas, como disse, não entendo muito de cinema.

Thiago Dias disse...

Não não..ele não crítica o western, pelo contrário. O que eu disse é que ele se apossa da temática do western, o transforma em um conto urbano para dizer que o modo de fazer justiça "tolerancia zero" entrou em falencia, embora ele proprio tenha sido um simbolo dele por um tempo.

Pedro Zambarda disse...

Bom ver esse tipo de discussão aqui. Não tive tempo para abrir o Bola hoje.

Amanhã vou dar aquela revisada final no post. E continuemos a conversar.

mariane disse...

Achei o filme muito bom ! Me deu vontade de ver mais filmes do Clint

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