segunda-feira, 19 de maio de 2008

Diário de uma Arubaito - O primeiro dia de trabalho

Às 7:20h da manhã do dia 13 de dezembro, uma quinta-feira, pontualmente o microônibus parou no ponto em que eu e mais umas 14 pessoas deveríamos pegá-lo todos os dias. Na fábrica, uma rápida prova escrita de testes foi aplicada a mim e a mais duas outras meninas que começavam seu primeiro dia de trabalho na ASTI, fábrica também conhecida como “o inferno na Terra”. Mais tarde eu descobriria o porquê.

Sob a orientação do nosso tantosha (pessoa da empreiteira que auxilia os funcionários), recebemos as instruções da fábrica, tais como as maneiras de guardar as roupas a fim de manter o ambiente organizado, lavar as mãos quando o chefe estivesse vendo e não ajudar caso alguém precisasse, pois, como novatas, a culpa recairia sobre nós. Começava ali minha percepção acerca de um Japão oposto àquele de respeito e preservação dos valores.

Desde o primeiro dia, era exigido de nós a mesma eficiência de quem estava ali há anos, bem como uma postura que seguisse as regras estritamente. Ao entrar na fábrica e bater o cartão, era preciso colocar um sapato próprio para andar em seu interior, mas que não era utilizado durante o expediente. Para trabalhar, entrávamos numa sala de troca, onde ficavam pendurados e guardados nossos macacões, tocas e botas. Também púnhamos luvas, máscaras e dedeiras, em alguns casos. No começo, colocar tudo isso demorava bastante, considerando os míseros doze minutos de kyukei (intervalo); com o passar do tempo, porém, já era possível fazer tudo em cerca de dois minutos. A dificuldade encontrada para se trocar ali era o espaço reduzido em relação à quantidade de pessoas; era comum, portanto, bater o cotovelo, a cabeça ou o braço em alguém. O que notei, e que me estranhou muito quando retornei ao Brasil, era que sempre que isso acontecia, as pessoas diziam gomen (desculpa), por menor que fosse o incômodo. Aqui, mesmo esbarrando ou quase machucando alguém, talvez por orgulho, pelo tempo ou por falta de educação, as pessoas não se dão ao trabalhar de se desculpar.

Depois de conferir se as vestimentas estavam ajeitadas, uma porta automática se abria e entrávamos por um pequeno corredor escuro e estreito, em cujas paredes havia vários “buracos”, de onde saíam jatos de ar. A sensação era de estar numa usina nuclear, embora nunca tenha entrado numa. No fim do corredor, outra porta automática se abria e logo à frente estava um mapa colorido com os nomes de todos os funcionários e a função que deveriam desempenhar naquele dia. Os funcionários eram divididos por sessões e cada uma delas possuía uma líder (brasileira ou peruana, no caso da minha) e um chefe japonês.

Entrei para a sessão de colagem, que era uma das partes finais do processo de montagem dos aparelhos celulares para a Panasonic. Eu tinha de colar o chamado subpainel, ou sabo, na parte externa do celular de flip. Em cada bandeja vinham cinco peças de celulares, nas cores vermelho, preto, dourado e branco, dependendo da encomenda do dia. Os aparelhos vermelhos e pretos eram traumatizantes para todos, pois acumulavam mais sujeira e dificultavam a limpeza.

Já no primeiro dia levei uma bronca da chefa por ter deixado passar uma peça branca com sujeira. As broncas se repetiram ao longo da semana, mas vieram todas da líder que, posteriormente, viria a simpatizar comigo porque era amiga de uma prima minha, que trabalhara na fábrica há alguns anos atrás. Se no Brasil eu acreditava que não me importaria em levar broncas dos chefes, chegando lá vi que não era fácil agüentá-las sem, no mínimo, cobrar mais de mim mesma.

O primeiro almoço, assim como todos os kyukeis, foi quase desastroso. A começar pelos sinais da fábrica, que eu levei tempo para conseguir acompanhar; eu só parava de trabalhar quando todos ao redor também paravam. Às 12h15, o sinal batia para o shoji (limpeza). Cada uma pegava um pano e limpava o chão do seu local de trabalho. Às 12h18 batia o sinal para o almoço. Quarenta minutos davam a impressão de um tempo suficiente para comer, mas considerando que tinha de subir três andares de escada do prédio até chegar ao shokudo (refeitório), as filas para escovar os dentes, usar o banheiro e ter que vestir o macacão novamente, sobravam, na verdade, cerca de 10 ou 15 minutos para mastigar o bentô (marmita) frio e algumas bolachas. O refeitório da fábrica vendia quatro tipos de pratos, que custavam pouco mais de 400 yen (4 dólares), caro para se comprar todos os dias.

Após o kyukei das 14h43 (terminava às 14h55), a chefe passava pedindo zangyô (hora extra) para cada funcionário. No primeiro dia fiz 2 horas, o suficiente para me sentir cansada depois de quase 11h de pé.

13/12/2007 - Anotações do dia:

22h - “Até que o cansaço não é tanto, mas a falta de perspectiva de mudança amanhã é extremamente desanimadora e o receio de o condicionamento estar horrível é enorme.”

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foto 1: ASTI - fábrica de componentes eletrônicos para a Panasonic, localizada em Iwata

foto 2: logo da fábrica

8 comentários:

Thiago Dias disse...

Lara, mtooo bom o texto, melhor que o primeiro.
É daqueles que faz a gente espera pela próxima parte.

Rafael Lacerda disse...

O Thiago falou tudo: mais, por favor \O

Muito bem escrito e nos faz imaginar como os valores daquele povo são diferentes dos nossos.

Lidiane Ferreira disse...

Lari, que angústia! tudo parece pesado e cinza. Seu texto é revelador e extremamente cativante, apesar do clima sombrio. De mais seu texto.
Quero mais!
bjos

Gabriel Carneiro disse...

a melhor coisa do blog da foca.

Laís Clemente disse...

Sério, ainda não sei como tu consegue comer aquele marmitão que tu chama de Bento, Lari.

Hj a tarde, pensava eu com os meus botões: "Tá na hora de mudar de celular.."

Desapeguei da idéia já...

Marília Passos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marília Passos disse...

Lara, venho repetir o que todos disseam: está muito, muito bom!

Erikitto disse...

Larissa san, parabéns pelo seu texto! Realmente ele se destaca entre os demais, e é de longe o mais atrativo e interessante.
Esperarei novos textos seus. ^^

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