segunda-feira, 5 de maio de 2008

O melhor circo do mundo é aqui

Por Pedro Zambarda de Araújo, 2º ano de jornalismo
Originalmente para o Site de Cultura Geral

Nascido em 1987, através da iniciativa do empresário canadense de Quebec, Guy Laliberté, o Cirque du Soleil é caracterizado por um teatro sem animais ou atos violentos no palco, um primor de representação artística. No dia 9 de abril, fazendo parte da turnê de 2008 pelo Brasil, a peça Alegria contagiou o público com uma história aberta, sem uma linearidade ou interpretação única, que mostra a vida dos teatros e as dificuldades da vida, principalmente em seus personagens.


A arte circense é uma eterna reinvenção, é um espetáculo que pode trazer inovações, mas que normalmente nos remete mais às sensações ou às memórias mais reconfortantes. Cirque du Soleil é o tipo de apresentação que conta com artistas de ponta, que se aprimoram performance por performance, recrutados e educados de diversas partes do mundo. Prova disso é a participação de um brasileiro na peça, Marcos de Oliveira Casuo, que interpreta um palhaço de corte de cabelo tipo “moicano” de cor verde, vestido com um enorme sobretudo roxo. Além dele, há atuação de artistas mongóis, franceses, ucranianos, dinamarqueses e norte-americanos.

Alegria, peça que esteve em São Paulo de 7 de fevereiro até 4 de maio de 2008, migrando depois para Porto Alegre, é dirigida pelo belga Franco Dragone e retrata as distinções claras de um espetáculo aristocrático e plebeu, as migrações dos artistas europeus individualmente pelo continente, com cenas extremamente abertas à imaginação do expectador. O russo Evgueni Ivanov, interpretando uma espécie de apresentador de gala corcunda, com um enorme paletó vermelho, introduz o espetáculo percorrendo a platéia com uma banda de músicos vestidos com trajes bastante similares aos séculos XVII, XVIII e XIX. Aliás, esse será o traço do circo burguês na peça circense: pessoas vestidas de maneira conservadora, com maquiagem e máscaras pesadas. As feições de desdém de Ivanov cativam o público, que não consegue parar de rir com seus protestos.

Traço típico das apresentações do Cirque du Soleil, as falas dos personagens, trapezistas, palhaços e todos os profissionais envolvidos na apresentação, não possuem uma língua específica. São usados gestos de mímica, que fazem a platéia forçar sua capacidade de reagir, juntamente com uma linguagem de ruídos e palavras ininteligíveis. É uma comunicação sem idioma oficial que transmite mais mensagens do que um discurso direto. O único que fala uma língua próxima ao português é o brasileiro Casuo.

Mostrando um equilíbrio e uma força muscular anormal, suficiente para apoiar o corpo inteiro em apenas uma mão, o ucraniano Denys Tolstov fez uma demonstração de esforço sobre-humano, pulando de um pilar a outro com todo seu peso. Com barras de ferro erguidas, Tolstov apoiou as duas mãos e, de cabeça para baixo, ergueu o corpo ereto na vertical, inclinando-o para os lados, alternando as posições dos braços, estendendo e contraindo inúmeros músculos de seu corpo.

Com elásticos amarrados na cintura, o russo Alexander Dobrynin foi elevado ao topo do picadeiro e brincou como se estivesse no céu. O público, apesar de precisar ficar com a cabeça erguida para presenciar a performance, não se arrependeu de ver cada ato do chamado “homem voador”, agradecendo com fortes aplausos.

O brasileiro Marcos Casuo interpretou o palhaço plebeu que, junto do russo Yuri Medlev, do espanhol Pablo Gomiz Lopez e do canadense Oleg Popkov, contracenou em cenas humorísticas. Em uma delas, Casuo disputa com Lopez quem tem o maior avião de papel, atirando objetos ao público e simulando barulhos de vôo. Pablo Gomiz Lopes ganha a disputa, aparecendo no palco com um avião gigantesco, que provocou gargalhada geral no público.

Os artistas que tocavam a trilha sonora, todos vestidos de branco, eram acompanhados por acrobatas que saltavam de trampolins espalhados pelo palco. Os saltos são feitos em grupos e com tal sincronia que, se um errar, pode haver um impacto no ar, em pleno salto. Depois dessas apresentações, o norte-americano Time Sumeo, segurando bastões em chamas, queimou o próprio corpo e brincou com sua exibição de tal forma que o fogo era um parceiro, não inimigo, de sua performance.

Os palhaços plebeus aparecem entre as performances de ponta passando por problemas, além das “alegrias”. O russo Yuri Medvedev causa um impacto no público fugindo de um trem durante o inverno típico dos países eslavos, com pedaços de papel branco simulando flocos de neve e voando em cima da platéia, causando um efeito interessante.

As barras russas, longas esteiras finas que sofrem deformações com o peso, foram utilizadas por diversos acrobatas, como o russo Roman Plotnikov e o bielorusso Dzimitry Shamovich. Eles saltaram fazendo um verdadeiro número de controle e equilíbrio. Segurando as barras estava o artista mongol Tamir Erdenesaikhan, com um grande porte físico e um sorriso igualmente enorme para a platéia, tratando os expectadores com simpatia e humor.

Contorcionistas, as atrizes mongóis Oyun-Erdene Senge e Ulziibuyan Mergen fizeram um número em que seus corpos pareciam elásticos e constantemente se encaixavam, embora permanecessem com base da coluna reta, não importava qual fosse a posição. Após essa excelente apresentação, Alegria fechou com performances simultâneas de seus acrobatas, palhaços e apresentadores, como são a maioria das peças no “circo do sol”, Cirque du Soleil.

Os preços do espetáculo variaram de 150 até 300 reais, sem incluir os benefícios cobrados do Tape Rouge, uma tenda exclusiva com coquetéis, jantar e brindes, como o CD da trilha sonora de Alegria. Dessa forma, o espetáculo foi caro, considerando os diversos patrocínios de peso, como o banco Bradesco, a companhia de telefonia Vivo e a empresa de cartões de crédito American Express.

Em relação ao espetáculo de 2006, e primeiro do Brasil, Saltimbanco, Alegria mostrou uma peça com qualidade equivalente, foi o mesmo tratamento com as pessoas que admiram e incentivam as turnês artísticas do Cirque du Soleil.

Posts mais lidos