domingo, 11 de maio de 2008

Um pequeno texto intimista...

Bom, eu decidi dividir esta resenha de Speed Racer em dois tópicos por dois motivos: primeiro para não ficar muito grande e tornar a leitura mais fácil, e segundo porque o que você vai ler agora, não é nada jornalistico, e totalmente intimista. É a razão pela qual eu considero Speed Racer um dos grandes filmes que já vi.

Há algum tempo atrás, em um antigo blog, escrevi um texto sobre a relação da crítica com a arte baseado num monólogo do filme Rattatouile. Foi provavelmente a primeira vez que vi um diretor de cinema, Brad Bird, no caso, se levantar e dizer claramente o achava sobre aquelas pessoas que recebiam para julgar, com tamanha prepotência, seja ela justificada ou não, o trabalho de artistas. Pessoas que, em sua maioria, sabem apreciar tal arte como poucos, mas raramente sabem fazê-la. O resultado da minha reflexão, ajudada pelo texto de Bird, era de que pouco importava o que estas pessoas diziam, escreviam ou criticavam. Pouco importava até a extensão de sua sabedoria baseada em horas em frente a arte (no caso, o cinema), que podia citar nomes, autores e datas com uma agilidade fantástica. O que realmente importava, e importa, é o que cada peça de arte, cada filme, cada música representa para a pessoa que a fez e para a pessoa que ouviu livre e espontaneamente, sem receber nada, sem ter o prazer inigualável de julgá-la de acordo com sua própria “sabedoria”. E é por isso que Speed Racer para mim se mostrou um filme tão único, capaz de despertar novamente essa fagulha adormecida desde Rattatouile, graças à frieza de uma faculdade de jornalismo.
Speed me conquistou desde os seus primeiros minutos, graças a uma fantástica corrida de abertura. Mas foi o respeito dos irmãos Wachowsky pelo amor de uma família pela arte que me comoveu. Sim, estou me referindo às corridas de carro, que a fictícia família Racer considera uma arte. Opinião está compartilhada por mim e por milhões de pessoas mundo afora que consideram até mesmo o ronco de um motor como a mais linda sinfonia que se pode ouvir, ou uma ultrapassagem como algo tão perfeito quanto uma pintura, ou um carro até mesmo fantasioso como o Mach 5 algo tão maravilhoso quanto uma escultura. E esse tal amor está representado nos mais discretos aspectos do filme. Desde a amarosa mãe que vai até seu filho e lhe diz que ela não vai vê-lo correr para torcer por sua vitória, mas sim para ver uma obra-prima ser construída ou o Corredor X que se emociona pela primeira vez no filme ao ver o jovem corredor em ação. Ou Pops, o amante de carros que se recusa a acreditar que as corridas, sua paixão, são manipuladas, protegendo assim seu próprio mundo.
No entanto, é no jovem e apaixonado Speed Racer a razão do filme existir. Um garoto que cresceu se importando com apenas uma coisa: correr, seguindo fielmente seu irmão genial que acaba morto fazendo aquilo que sabia fazer de melhor. A paixão está também representada na família, que supera a pior dor existente e prossegue fazendo aquilo que ama, incentivando seu talentoso membro a seguir os passos do filho falecido. Está representada neste garoto que vê seu mundo cair quando descobre que tudo aquilo que amou era uma mentira e, mais ainda, quando descobre que a mentira, na realidade, nunca existiu.
“Não importa o que você fez pelas corridas, mas o que as corridas fizeram por você. O que importa é você descobrir o porquê de você estar correndo, e quando isso acontecer, quero estar perto para ver.” Uma frase aparentemente clichê como essa resume tudo o que os irmãos Wachowsky querem dizer, e não necessita de uma explicação minha para ela. Apenas cito duas cenas: a dor de Remy em Rattaoiule ao ver um prato ser estragado por um cozinheiro inexperiente, e a felicidade do Corredor X ao ver-se superado pelo jovem mais talentoso. Tudo se resume ao prazer de ser alterado por algo único, de se sentir tocado, e está é uma das dezenas finalidades da arte, mas não tenho muitas dúvidas de que seja uma das principais, seja você o executor ou apenas apreciador dela: tocar o ser humano. E neste contexto parafraseio o Anton Ego de Brad Bird: “Até mesmo um pedaço de lixo pode ser muito mais significativo para qualquer pessoa do que nós críticos jamais seriamos capazes de dizer”.
Concluindo este já longo e chato texto, tudo se resume à paixão tantas vezes citadas aqui. Seja qual tipo de paixão for, ou pelo que ela for, ela, no fim, é mais importante do que qualquer pessoa jamais escreverá baseado em dados, nomes, datas e um achismo que é tão correto quanto o de qualquer outra pessoa. E seja lá qual tipo de arte for construída, seja ela um grande filme, uma excelente música, ou, como eu gosto de pensar, uma corrida perfeita, importa muito mais o que ela fez para quem a construiu e para quem a apreciou com a honestidade, que somente o prazer pode dar. Ou seja, desconsidere minha análise de Speed Racer, e fique a vontade se você odiou algum clássico.

Um comentário:

Pedro disse...

chamo de crônica, não de intimismo, ou intimidador.

Abraços!

Posts mais lidos