sexta-feira, 16 de maio de 2008

Um amor apático

Se a intenção é ver um filme a dois, não se deixe levar pelo nome Closer - Perto Demais, pois este não é a melhor escolha para tal ocasião. O filme de Mike Nichols traz à tona as relações amorosas contemporâneas de um modo cruel, frio e verdadeiro, reforçando o egoísmo e o individualismo em que se encontra o homem atualmente.
O filme foi adaptado da polêmica peça de Patrick Marber e leva o mesmo nome. Explora, sem escrúpulos morais, o relacionamento baseado na sexualidade e no afeto que tem se tornado cada vez menor entre os casais.
A trama se passa em Londres e cobre a vida de quatro personagens: Dan (Jude Law), o escritor hedonista e frustrado que escreve obituários de jornal; Alice (Natalie Portman), a stripper americana que decide se aventurar na Inglaterra; Anna (Julia Roberts), a fotógrafa recém-separada e Larry (Clive Owen), o emergente dermatologista pervertido.
A película inicia-se com a canção de Damien Rice, “The Blower’s Daughter” que se popularizou no Brasil ao ser regravada em português por Seu Jorge e Ana Carolina. Sob a música, Alice sofre um acidente que possibilita o encontro com Dan. Ele a socorre e, posteriormente, se apaixona pela moça, ou assim acredita. No entanto, Dan conhece Anna e sente-se atraído por ela, que, a princípio, o rejeita. A rejeição causa no escritor um ímpeto de vingança e, numa armação, joga – acidentalmente - a fotógrafa para Larry. O drama se desenvolve a partir do quadrado “amoroso”, com toques irônicos, criando no espectador uma agonia, quando posto diante da angústia e do descaso dos protagonistas.
Nichols mostra que um filme tido como “coração de pedra” é, na verdade, muito sensível. Ao longo da história, o espectador vê-se preso a uma possível realidade que, por respeito aos bons costumes, tenta escondê-la ou modificá-la para algo mais aceitável pela sociedade: a necessidade de ter uma testemunha que acompanhe sua vida, podendo sentir por ela um sentimento de amor, ou não. Em Closer, essa relação calculista implica nos diálogos extensos e violentos, a ação quase inconsciente de falar tudo sem pudores, pois o silêncio é impossível e insuportável.
Por ter saído de uma peça teatral, a força está na excelente interpretação dos atores que conseguem transmitir os sentimentos, sem incitar em quem vê, a involuntária prática do maniqueísmo. Porém, o diretor fez com que as quatro personagens preocupadas com suas cruzadas em busca das satisfações próprias, acabassem instigando em nós o pensamento de que, numa sociedade superficial e sexualmente glamourizada, o romance idealizado e livre de verdades desnecessárias (aquelas que não têm importância e, para o bem da relação, devem ser omitidas) ainda é a melhor opção.
Muitos críticos insistem em dizer que a obra é monótona e desprezível. Isso ocorre porque Closer destoa de tudo o que já foi feito, sendo um soco no estômago de quem espera por mais um romance clichê. Não é a primeira vez que o cineasta alemão faz um filme desse estilo, em 1971, realizou “Ânsia de amar” que cumpriu o mesmo papel de Closer naquela época. Isso não significa que Nichols não acredite no amor fantasiado, mas é inegável que argumenta e persuade muito bem contra isso. É o típico filme que é preciso ver e rever para idolatrar ou odiar.

3 comentários:

Thiago Dias disse...

Conheço muita gente que odeia esse filme. Mas não odeiam por falta de qualidade, e sim pelo soco no estomago que o filme traz. É um trabalho forte e cru que resulta em algo maravilhoso.

E o que é a Natalie Portman???

Pedro disse...

Além do filme como assunto em foco, adorei seu texto. Uma crítica que "convida" a crítica mais feroz a refletir. Excelente!

Mel disse...

é um dos meus filmes preferidos. sou extremamente suspeita pra falar dele: foi amor à primeira vista.

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