domingo, 11 de maio de 2008

Um começo de brutalidade musical


Cowboys from Hell é a presença crítica e agressiva da década de 1990
Por Pedro Zambarda de Araújo originalmente para o site Whiplash.net

Se há uma prova que há diferenças dentro dos sub-estilos do heavy metal, gênero do rock´n´roll que colocou a distorção da guitarra e temas obscuros à partir da década de 1970, elas estão concentradas na banda Pantera, formada em 1981 pelos irmãos Abbott, Vinnie Paul, baterista, e Dimebag Darrell, guitarrista.

O grupo passou por diversas sonoridades, embora fossem similares dentro de seu segmento – do estilo mais clássico do metal misturado ao glam rock/metal inspirado do Kiss, que abusava na extravagância do visual, até gêneros acelerados, como o speed metal. Essas transformações ficaram registradas nos CDs Metal Magic, gravado em 1983; Projects from the Jungle, de 1984; I Am the Night, de 1985, e Power Metal, de 1988.

Cowboys from Hell, trabalho de 1990, registraria não só a entrada da banda em uma nova década, mas também na fundação de um novo segmento dentro do heavy metal: o groove metal. Com as guitarras rasgadas que marcaram o thrash metal do Metallica, em Master of Puppets, além das letras violentas e as influências de todos os estilos pelo qual o Pantera passou, Dimebag Darrell, o recém-contratado vocalista Phil Anselmo (que havia atuado no CD Power Metal), o baixista Rexx Rocker e o irmão Vinnie Paul Abbott registraram um trabalho renovador nas raízes desse gênero musical. E, dentro desse groove, dentro de todas as 11 faixas, vemos uma banda que se diversifica e se reinventa em ao longo da gravação.

A música-título que abre o CD possui riffs abafados que Dimebag marca em todo o tempo, juntando com um vocalista rasgado, porém bem trabalhado, de Anselmo. O solo de guitarra dá um andamento na sonoridade que não atraí apenas os fãs de heavy metal, mas os de rock em geral, com uma complexidade própria, sem cair nas complicações do progressivo. A voz metalizada antes do refrão incita a agressividade já presente na letra.

Primal Concrete Sledge, a segunda música, traz um ritmo mais repetitivo, assim como seu refrão que reflete um pessimismo, uma selvageria no mundo. Em seguida Psycho Holiday, que foi posteriormente gravada em vídeo, protesta sobre o isolamento, a incompreensão entre amigos e nomeia essa loucura como o “feriado psíquico”, onde Phil Anselmo brada, em plenos pulmões: “It's time to set your demons free”. É uma música sobre libertação, embora ainda haja o sentimento negativo no real, com a necessidade de brutalidade.

Em batidas seguidas, berros que lembram o punk rock, raiz tanto do thrash metal quanto do groove metal, Heresy, a quarta faixa, vem para consolidar os protestos e estabelecer uma conexão com a realidade da agressividade das músicas do Pantera: as letras acusam a sociedade de corrupção, violência, de más decisões. “Peace signs, protest lines / Mean nothing to me / Honesty born in me / Heresy”. A música toda é uma pancada.

Cemetery Gates começa com um violão acústico que mais soa como uma “pausa” (possivelmente a única, além de ser muito agradável entre as músicas de peso). Progressivamente, a música adquire sua natureza pesada, com um vocal igualmente crescente na altura sonora. Phil Anselmo canta sobre a morte, sobre a perda, sobre a solidão revoltante, embora ele tenha uma esperança mórbida em superar tudo isso após passar a entrada do cemitério, deixar esse amor que se tornou ódio. Darrel arrasa novamente, tanto no violão quanto na guitarra.

Cantada quase toda em falsete, no tom mais agudo, e engrossando em determinadas passagens, a sexta faixa Shattered leva a banda toda a soar, novamente, em pancadas. O tempo da música novamente remete ao punk rock, com 3 minutos e 20 segundos, aliada a temática caótica de um mundo “rachado” por seus problemas. Clash with Reality prossegue com o peso, com a guitarra repetindo riff que coincide com a batida da bateria. É o “impacto” com a realidade que temos, que não é bela como imaginamos.

Medicine Man fala das doenças do espírito humano, de seu corpo. Em uma espécie de continuação direta da anterior, Message in Blood expressa, de maneira sádica, que uma informação de perigo estava cravada no interior do protagonista. O tom ensandecido se transforma em um berro de dor.

The Sleep aparenta uma segunda pausa no CD. Não é. Anselmo mostra versatilidade como vocalista ao questionar se o ser humano sobreviverá após passar por turbulências, por fendas que nos cercam. Dimebag acompanha a melodia, que é um dos ápices de feeling executando o solo com sua guitarra oscilante entre as progressões sonoras mais clássicas até o thrash/groove que marcou todo o CD com um acordes e bicordes de impacto.

Fechando toda essa obra-prima do Pantera, The Art of Shredding abre com uma participação inesperada de Rexx Rocker, atraindo nossas atenções com um solo agradável de contra-baixo. Novamente a guitarra rasga a música, enquanto Phil Anselmo volta a oscilar de acordo com a melodia, trazendo a mensagem de renovação dos oprimidos pelo mundo. Em síntese, são músicas agressivas, que insistem no tema da crueldade universal, do pessimismo, mas que trazem uma mensagem final de luta contra os malucos que dominam o mundo. “Now in times when society needs us / This is where the sin begins / We're aware they're going to free us / Rage from our hearts within”.

Uma última coisa importante a se falar sobre Cowboys from Hell é a selo da produtora: nos trabalhos mais antigos era a Metal Magic Records, pertencente ao pai dos Abbott, o compositor de música country norte-americana Jerry Abbott. Nessa obra-prima, a Atlantic Records foi responsável por um CD bem editado, correspondente às ambições da banda. Após um trabalho exemplar com grupos de peso como Led Zeppelin e músicos como Ray Charles, esse selo e as excelentes composições do grupo convergiram nesse marco do metal mais contemporâneo.

É uma música mais direcionada aos fãs do peso das guitarras distorcidas, de músicas contestadoras. Se você procura uma música mais calma, fuja desse material. No entanto, se a vontade é de espancar alguém pela melodia, sinta-se em casa.

2 comentários:

Will disse...

Tão rockz que chega a dar vontade de ouvir o álbum e pensar no que foi lido.

Thiago Dias disse...

Pantera, base do trash metal pra qualquer um. Ótima análise Pedro, vou ouvir melhor o Cowboys from Hell e formar uma opinião própria.

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